Divisas
que escorrem como areia
O
Brasil convive há décadas com um paradoxo profundo: um país riquíssimo em
recursos naturais, mas estruturalmente incapaz de assumir o papel de reter o
valor econômico que deles poderia emergir. As divisas simplesmente escorrem por
entre os dedos, como areia.
O
Brasil é reconhecido internacionalmente como a maior e melhor fonte natural de
quartzo de alta pureza. Os principais depósitos estão concentrados em Minas
Gerais e em áreas de Goiás. Esses cristais destacam-se por apresentar
baixíssimos teores de contaminantes como ferro, alumínio, lítio e titânio,
alcançando pureza natural superior a 99,99% de SiO2, antes mesmo de qualquer
etapa de refino químico.
Essa
característica excepcional torna o quartzo brasileiro matéria-prima ideal para
a produção de silício grau eletrônico e solar, base da indústria de
semicondutores, lasers, painéis fotovoltaicos e sistemas avançados de energia.
No
final do ano passado, destacaram-se duas operações policiais de alta
envergadura: a Operação Picareta, conduzida pela Polícia Federal, que
desmantelou esquemas de exploração ilegal de quartzo e uso de trabalho em
condições análogas à escravidão em Minas Gerais, e outra da Receita Federal,
que apreendeu 670 toneladas de quartzo no Porto de Santos, distribuídas em 25
contêineres destinados ao exterior.
Os
episódios vão além de casos isolados de ilegalidade: revelam um padrão
estrutural no qual o País segue exportando recursos brutos, enquanto abre mão
de agregar tecnologia, indústria e valor ao que produz.
O
quartzo apreendido foi declarado a R$ 1,45 por quilo, totalizando menos de R$ 1
milhão. Mesmo considerando o preço médio internacional, em torno de R$ 80 por
quilo, esse mesmo volume já representaria perdas da ordem de R$ 54 milhões em
divisas. Ainda assim, estamos falando apenas de uma commodity mineral bruta,
tratada como areia industrial. O problema real começa quando se observa o que
acontece depois que essa areia cruza nossas fronteiras.
Ao ser
transformado em silício grau eletrônico, cristalizado e convertido em lâminas
(wafers) de silício ultrapuro, com pureza de 99,999999999%, isso mesmo, nove
vezes após a vírgula, e diâmetro de 300 milímetros, cada quilo de material
passa a carregar um valor completamente distinto. Cabe salientar que a
purificação do silício é plenamente dominada no Brasil, inclusive com empresas
nacionais fabricando suas próprias lâminas de 100 milímetros, a partir de
tecnologias desenvolvidas na Escola Politécnica da USP, ainda na década de
1970.
Uma
única lâmina de silício pesa cerca de 125 gramas e custa aproximadamente US$ 70
no mercado internacional. As 670 toneladas apreendidas permitiriam produzir
mais de 5,3 milhões de lâminas virgens, equivalentes a algo como R$ 2 bilhões,
em importações que o Brasil hoje realiza de forma passiva. Nesse estágio, o
País já teria multiplicado o valor do recurso por mais de duas mil vezes, sem
sequer ingressar na fronteira tecnológica mais avançada.
O salto
mais expressivo, porém, ocorre quando essas lâminas são processadas em
tecnologias legadas, como o nó tecnológico de 65 nanômetros, amplamente
utilizado em automóveis, equipamentos industriais, telecomunicações, energia,
defesa e internet das coisas.
Nessa
etapa, cada wafer atinge valores próximos de US$ 4 mil, o que significa que
aquelas mesmas 670 toneladas de quartzo poderiam sustentar uma cadeia produtiva
capaz de gerar mais de R$ 100 bilhões em valor econômico. Não se trata de
ficção científica, nem de competição com tecnologias de 2 nanômetros ou 3
nanômetros, mas de processos maduros, dominados, robustos e de risco industrial
relativamente baixo.
Esse
quadro ajuda a explicar por que, em 2025, o setor eletroeletrônico brasileiro,
apesar de um crescimento real de 4% no faturamento (segundo a Associação
Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), apresentou um déficit comercial
superior a US$ 41 bilhões, impulsionado principalmente pela importação de
semicondutores e componentes, com a China como principal fornecedor, ao mesmo
tempo em que se observou queda na produção física interna.
O que
se perde, portanto, não é apenas arrecadação ou saldo na balança comercial. O
que se perde é capacidade produtiva, empregos qualificados, autonomia
tecnológica e resiliência econômica. O contrabando do quartzo é apenas a ponta
do iceberg de um problema mais profundo: a inexistência de uma escada
industrial que permita ao Brasil subir, passo a passo, do minério à manufatura
avançada.
Sem
plantas de refino, cristalização, waferização e processamento, o país permanece
aprisionado ao papel de fornecedor ilegal de insumos baratos para cadeias
globais que capturam praticamente todo o valor.
No fim,
a pergunta que o episódio de Santos nos impõe é simples e incômoda: por quanto
tempo o Brasil continuará tratando silício como areia, enquanto importa chips
como se fossem joias? Cada navio que parte carregado de minério não processado
leva consigo não apenas toneladas de material, mas décadas de oportunidades
desperdiçadas. Enquanto isso, as divisas continuam escorrendo, silenciosas, por
entre nossos dedos.
Fonte:
Por Marcelo Knorich Zuffo,em A Terra é Redonda

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