sábado, 24 de janeiro de 2026


 Entenda como o estilo de vida atual influencia nos casos de bruxismo

O bruxismo, antes considerado apenas um hábito noturno, tornou-se um dos distúrbios mais frequentes nos consultórios odontológicos. O problema, caracterizado por apertar, ranger ou encostar os dentes de forma involuntária, tem afetado cada vez mais adultos, especialmente em um cenário de rotina acelerada e aumento significativo do estresse diário. Além de causar desconforto imediato, o distúrbio pode trazer consequências progressivas quando não diagnosticado precocemente.

Para a cirurgiã-dentista Winnie Alves, compreender o funcionamento do bruxismo é fundamental para reconhecer os sinais iniciais. “O bruxismo é um comportamento muscular involuntário que pode ocorrer tanto durante a vigília quanto no sono, e muitas vezes só é percebido quando a dor aparece”, explica. Segundo ela, tensão ao acordar, sensibilidade e desgaste nos dentes estão entre os indícios mais comuns relatados pelos pacientes.

A cirurgiã-dentista Bruna Conde destaca que o aumento dos casos não ocorre por acaso. Com a sobrecarga emocional, o excesso de estímulos e as longas horas de concentração, especialmente diante das telas, os gatilhos se tornam mais frequentes. “O estresse contínuo favorece o bruxismo de vigília, enquanto no sono, observamos um distúrbio neurológico que acontece de forma totalmente involuntária”, afirma. Ela lembra que quem divide o quarto com o paciente costuma ser o primeiro a notar o ranger noturno.

As especialistas alertam que o corpo dá sinais antes que o desconforto se instale. Desgaste incomum, fraturas de restaurações, estalos na articulação, dor ao mastigar e sensação de mandíbula travada são pistas importantes observadas no exame clínico. Pequenas trincas no esmalte, aumento dos músculos da mandíbula e dor de cabeça matinal também reforçam a suspeita de bruxismo. Quanto mais cedo ocorre a identificação, menores são os danos acumulados ao longo do tempo.

<><> Diagnóstico

O diagnóstico exige uma avaliação minuciosa e, em alguns casos, exames complementares. Quando há suspeita de bruxismo do sono associado a distúrbios respiratórios, a polissonografia é indicada para analisar os movimentos mandibulares durante a noite. Em quadros mais complexos, tomografia e ressonância da Articulação Temporomandibular (ATM) ajudam a identificar inflamações, travamentos, limitações funcionais e alterações estruturais que podem agravar o quadro.

<><> Impacto

Sem acompanhamento adequado, o bruxismo pode trazer impactos significativos: desgaste severo dos dentes, retração gengival, fraturas, dor crônica na musculatura e comprometimento da articulação temporomandibular.

<><> Tratamento

O tratamento é sempre personalizado e pode envolver placas oclusais, fisioterapia, ajustes comportamentais, manejo do estresse e, quando necessário, apoio psicológico. A evolução depende, principalmente, da adesão do paciente, como reforça a cirurgiã-dentista Bruna Conde: “Quando ele entende o que está acontecendo, torna-se um aliado do tratamento, e os resultados aparecem mais rápido”.

<><> Dados gerais

Uma pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que cerca de 30% da população mundial é acometida por bruxismo. No Brasil esse número é ainda maior, pode chegar a 40%.

<><> Sintomas Comuns

Dores na face e mandíbula ao acordar

Dores de cabeça frequentes

Desgaste, fraturas ou sensibilidade nos dentes

Estalos na articulação da mandíbula

<><> Fatores de Risco

Estresse, ansiedade, tensão emocional

Problemas de oclusão ou dentição

Fatores hereditários (pais com bruxismo)

Outros distúrbios do sono, roer unhas (onicofagia)

<><> Tratamento

Uso de placas de mordida (placas de bruxismo) para proteger os dentes

Redução do estresse por meio de atividades físicas, lazer e terapia

Acompanhamento odontológico e, se necessário, com outros profissionais (psicólogos, fisioterapeutas)

Consequências

<><> Saúde Bucal

Desgaste excessivo: perda de esmalte, expondo a dentina, causando sensibilidade e fragilizando os dentes

Danos estruturais: dentes fracos, lascados, moles, ou perda de restaurações, implantes e coroas

Gengiva: Retração gengival, expondo a raiz do dente

<><> Articulação Temporomandibular (ATM)

Dor crônica: dor na mandíbula, ouvidos e face

Disfunção: estalos, cliques, travamento e dificuldade para mastigar

<><> Dor e Sono

Dores de cabeça: cefaleias tensionais, especialmente pela manhã, na testa e têmporas

Má qualidade do sono: interrupções e sono não reparador, resultando em fadiga diurna

Estética: comprometimento da aparência do sorriso devido ao desgaste dos dentes

Tratamento de longo prazo (essencial para a prevenção)

Placas oclusais (Miorrelaxantes): protegem os dentes, aliviam a tensão muscular e distribuem as forças

Fisioterapia: fortalece e relaxa os músculos da mandíbula, corrigindo a postura

Medicações: analgésicos, anti-inflamatórios ou relaxantes musculares, conforme indicação

Toxina Botulínica (botox): reduz a hiperatividade dos músculos em casos severos, mas necessita de mais estudos sobre os efeitos a longo prazo

Mudanças de hábito: gerenciamento do estresse e da ansiedade (causas comuns do bruxismo diurno)

<><> Palavra do especialista - Heloísa Crisóstomo é dentista e especialista em bruxismo

        Quais são, hoje, as teorias mais aceitas sobre os mecanismos neurofisiológicos do bruxismo do sono? Como diferenciar de outros distúrbios motores noturnos?

Hoje entendemos que o bruxismo é um evento motor do sistema nervoso central, podendo ser apenas um hábito parafuncional ou um fenômeno patológico, com dor, desgaste e impacto articular. Ele pode estar associado a microdespertares, apneia e até a mecanismos de defesa do corpo durante o sono. O diagnóstico diferencial é essencial para definir se o tratamento exige placa, botox, terapias comportamentais ou até ajustes de higiene do sono.

        Em que momento o bruxismo deixa de ser apenas um comportamento parafuncional e passa a ser um problema clínico? Como isso interfere no tratamento?

Independentemente do fator desencadeante, o bruxismo nunca deve ser observado isoladamente. Avaliamos apneia, ansiedade, uso de medicamentos e hábitos do paciente. Em muitos casos, um dispositivo de avanço mandibular é mais indicado do que uma placa convencional. Já sabemos, por exemplo, que o bruxismo pode funcionar como mecanismo de defesa em casos de apneia. Por isso, a avaliação interdisciplinar é indispensável.

        Como conduzir casos associados a comorbidades como apneia, ansiedade ou consumo de certos medicamentos? Há protocolos específicos?

Hoje, o bruxismo é visto como multifatorial. É preciso analisar medicações, distúrbios de sono, saúde mental e fatores comportamentais — inclusive em crianças, muito afetadas por excesso de telas e estímulos. Nem todo paciente precisa de placa de bruxismo; alguns necessitam de uma placa do sono para melhorar a passagem de ar. Por isso investigamos tudo: do perfil emocional às condições neurológicas e respiratórias. Só assim conseguimos um plano terapêutico completo.

 

Fonte: Correio Braziliense

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