Mada
e Bia, as missionárias que defendem a luta pela terra como um ato de fé
Representantes
da Teologia da Libertação, setor progressista da Igreja Católica, religiosas
francesas vivem há mais de 50 anos no país apoiando camponeses...
Nosso
ponto de encontro é o centro de direitos humanos da cidade. Chegamos ao mesmo
tempo que as duas senhoras. Ambas de cabelos brancos curtinhos e usando colares
com crucifixos. Elas descem da caminhonete. Vieram da agrovila do assentamento
Lagoa da Onça, onde vivem, na cidade de Formoso do Araguaia, no sudoeste do
Tocantins. A motorista da dupla é Béatrice Kruch, a Bia. Madeleine Hausser,
conhecida por Mada, caminha com a ajuda de uma bengala.
Os
erres puxados comprovam que as religiosas são francesas, mas o português
perfeito deixa transparecer que vivem no país há bastante tempo. Depois de
rodarem por vários estados nas últimas décadas, as missionárias se
estabeleceram no sudoeste do Tocantins, onde testemunharam a chegada de
fazendas e projetos de arroz irrigado e o avanço do agronegócio, que teve mais
um impulso em 2015, com a criação do Matopiba – acrônimo para o território que
compreende os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Foi há
quase sessenta anos, exatamente em 20 de dezembro 1967, que as duas então
jovens missionárias professoras francesas desembarcaram no Brasil, em plena
ditadura civil-militar (1964-1985), engajadas para pregar o evangelho segundo a
Teologia da Libertação.
De
acordo com essa abordagem teológica, a opção pelos pobres e a sua libertação de
injustiças estão no centro da atuação religiosa.
No
Brasil, a igreja que lutou pelos pobres foi a essência da atuação das
Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que promoviam uma visão crítica da
realidade e incentivavam o protagonismo dos leigos nas questões sociais. A
Teologia também influenciou a Comissão Pastoral da Terra (CPT), criada em 1975,
e onde as irmãs passaram a atuar anos após chegarem no Brasil.
<><>
Defesa dos direitos humanos
Os
primeiros cinco anos de Mada e Bia no Brasil foram dedicados a uma formação
brasileira. Em Goiânia, Madeleine estudou serviço social e Beatrice,
enfermagem. Então elas mudaram-se para o Mato Grosso, e se instalaram na
prelazia de São Félix do Araguaia, a convite do bispo da região, o catalão Dom
Pedro Casaldáliga, que teve uma atuação importante em defesa de camponeses e
indígenas durante a ditadura e se tornaria um dos maiores defensores de
direitos humanos do Brasil. Anos antes, Casaldáliga, que chegou ao país em
1968, dividiu com Bia e Mada os bancos da escola de iniciação à Missão no
Brasil, dirigido a missionários recém-chegados no exterior.
E foi
nessa região que, no auge dos anos de chumbo, as irmãs atuaram como agentes
pastorais junto a posseiros, entre 1973 e 1980. No município de Santa
Terezinha, por exemplo, elas testemunharam o conflito com os donos da Fazenda
Acodeara que chegou na região e se declarou proprietária de todas as terras,
ignorando que lá viviam comunidades sertanejas e povos indígenas. Bia foi
chamada para ser enfermeira dos posseiros, que ficaram feridos e foram
obrigados a se esconder depois de investidas violentas dos latifundiários.
Naquela
época, relembra a missionária, a região era de mata virgem. “Hoje a gente vai
lá e é só soja, soja, soja, não tem mais aquelas árvores, aquilo era
maravilhoso”, recorda.
<><>
Organização social
Em
1980, as irmãs mudaram para a região do Bico do Papagaio, no norte do
Tocantins, onde deram sequência ao trabalho de agentes pastorais. “Para os
lavradores, a terra, assim como a água, é a vida”, conta Bia.
Na
região do Bico, as duas ficaram por 16 anos, apoiando o povo na luta pela
terra. Madá conta que os camponeses pediam ajuda para três frentes: “Organizar
e avançar na criação das comunidades eclesiais de base, a formar sindicato dos
trabalhadores rurais e também a se organizar no partido dos trabalhadores.
Achávamos admirável que eles já tinham essa proposta”, recorda.
Nessa
época, as freiras já atuavam na CPT e tinham como parceiro outro religioso
apoiador da justiça no campo e da reforma agrária: Padre Josimo Tavares, que
chegou à região em 1983 e se tornou o coordenador da CPT do Araguaia-Tocantins.
Conhecido pelos camponeses como “padre negro de sandálias surradas”, anos
depois, em 1986, ele seria assassinado por fazendeiros contrários ao seu
trabalho junto a famílias na região.
“Ele
era um homem manso, nunca tinha visto nada assim na minha vida. Era muito perto
do povo. Foi perseguido até ser morto, mas nunca recuou. Foi um exemplo de
teimosia e de amor à vida”, conta a irmã Madeleine.
Josimo
tinha 33 anos quando foi assassinado, e após sua morte, os fazendeiros que
também queriam expulsar o povo da região, começaram a falar “agora só faltam
essas duas vagabundas, nós temos armas suficientes para matá-las”, relembra
Mada, sentada na sala do Centro de Direitos Humanos de Formoso do Araguaia.
Naquela
época, Mada e Bia locomoviam-se de bicicleta para cima e para baixo, e os
moradores tinham medo que elas sofressem uma emboscada em alguma curva daquele
sertão. As estradas eram difíceis para pedalar, com pedaços de troncos, pontes
e muita areia, então em muitos trechos as duas mais empurravam as bicicletas do
que pedalavam. “Mas graças a Deus, fora as muitas visitas de polícia, nós nunca
fomos molestadas”, diz Bia.
Após
anos no Bico do Papagaio, elas foram atuar em um povoado no município de Rio
Sonho, situado 130 quilômetros de Palmas, onde trabalharam com pequenos
lavradores que perderam a terra para um fazendeiro. “A gente sabe que a Justiça
nem sempre está do lado do mais fraco, daquele que tem mesmo a razão, o
direito. Então, [após uma luta na Justiça] eles deram o direito para o
fazendeiro e pronto”, conta Bia.
<><>
Agricultura irrigada e veneno
Em
2008, elas mudaram-se para Formoso do Araguaia, e foram morar no assentamento
Lagoa da Onça. Na região estão grandes projetos de agricultura irrigada, como o
Projeto Rio Formoso, o maior empreendimento desse tipo da América Latina. Uma
reportagem do Joio mostrou como camponeses vizinhos de projetos de irrigação
sofrem com a incidência de câncer.
As
irmãs apontam exatamente o impacto da monocultura na saúde da população local.
“Hoje, a questão mais problemática é a da saúde, que afeta todo o pessoal da
região. As pessoas trabalham lá [nos projetos de agricultura irrigada] por
dois, três meses, praticamente sem carteira assinada, só com contrato, no tempo
da colheita. E aí eles respiram veneno, bebem água. Tudo, tudo é envenenado. E
na nossa região, de vez em quando, o avião passa por cima. Na hora que ele
passa por cima, eu pessoalmente, tenho muita sensibilidade a esses venenos, na
hora eu sinto e eu começo a tossir, né? Então, é um impacto muito grande, né?
Infelizmente”, afirma
Bia.
Além
dos impactos na saúde, a presença do agronegócio na região afeta os rios, que
secaram. “O Projeto Rio Formoso chupa praticamente toda a água do rio. Eles têm
canais enormes. Depois que passa pelo projeto, parece outro rio. Tem tempo que
o ribeirinho fica se queixando que falta água também. Quem manda é quem tem o
poder da grana, mesmo. É triste”, lamenta Mada.
Um dos
desafios da atuação religiosa da dupla em defesa dos camponeses da região é que a ideologia do agronegócio
afeta também os assentamentos. Antes, o pessoal plantava arroz, feijão, milho,
mandioca, fazia muita farinha. “Era alimento primeiro para a subsistência, e
depois eles vendiam especialmente a farinha… Mas os venenos foram chegando ao
redor e começaram a derrubar as plantações para plantar capim”, conta
Mada.
O
abandono da produção de alimentos por parte dos assentados têm relação, na
avaliação das irmãs, da falta de acompanhamento de técnicos agrícolas. “Esse é
um grande lamento que a gente expressa. Tinha que ter um acompanhamento sério.
Porque não basta dar a terra, não é?”, reclama a religiosa.
O
agronegócio, explica, foi entrando lentamente. “Ao poucos, o pessoal foi
perdendo suas sementes. E à medida que se compra semente, é preciso comprar
veneno também”, pontua. Hoje, relata, o pequeno lavrador não sabe pegar uma
enxada para capinar. “Ele joga veneno, já criou esse hábito e não tem
consciência que está ofendendo a ele mesmo e o vizinho”, diz Mada. “Mas graças
a Deus nós estamos aí, com o povo lavrador”.
A
história das duas religiosas e de suas vidas dedicadas ao apoio aos camponeses
em defesa de justiça social virou um documentário, intitulado Mada e Bia,
lançado em 2024.
<><>
Povo desorganizado
Durante
o governo de Jair Bolsonaro, as duas contam que a perseguição foi geral. Ele
desativou sindicatos, então algumas pessoas questionavam: “‘pra que vou ainda
pagar sindicato se não é mais obrigatório?’ Nesse sentido ele tentou
desorganizar o povo”, pontua Bia. Madá
acredita que os tempos são complicados e aponta fake news enviadas em grupos de
whatsapp como responsáveis por “desativar, desorganizar, mentir, transmitir
mentiras, mentiras…”.
As
irmãs contam que no assentamento onde vivem, são minoria. Lá, há três igrejas
evangélicas, que são pouco combativas, segundo as religiosas católicas. “Somos
nós que enfrentamos para conseguir saúde, coleta de lixo, iluminação, por meio
de abaixo assinados. Não dá pra só orar, tem que orar para ter a força para
lutar”, sinalizam.
No
momento, elas estão refletindo sobre a ecologia integral, termo criado pelo
papa Francisco e que entende que há uma conexão entre o cuidado com a natureza
e as pessoas, refletindo sobre as consequências do modelo econômico que levou o
planeta à situação de degradação ambiental e social. “A igreja nos propõe olhar
para a nossa mãe terra. O que nós estamos fazendo com ela? Todo mundo se
queixando de calor, calor, as águas diminuindo. O que nós estamos fazendo?
Estamos tomando consciência mesmo de que estamos destruindo ela, porque não
haverá uma terra número dois”, questiona Mada.
<><>
Mudanças na igreja
As
irmãs francesas lamentam as mudanças na Igreja Católica e a diminuição na
visibilidade e força da Teologia da Libertação. No tempo da ditadura militar,
afirma Bia, “tinha um bom grupo de bispos que tinham coragem de falar
abertamente frente à ditadura”. Depois, foi mudando, inclusive o papa, diz.
“Porque nós tivemos os dois últimos papas com uma outra visão de
espiritualidade. E a Igreja, até num certo tempo, não entendia a Teologia da
Libertação, pensavam que era comunista…..Comunista nada, né? A gente segue o
Evangelho e Jesus Cristo, né?”, diz Bia.
Segundo
ela, houve um tempo, sob o papado de João Paulo II (entre 1978 a 2005) e de
Joseph Ratzinger (entre 2005 e 2013) que os bispos nomeados “eram gente com
outra visão das coisas. Então teve uma certa perseguição das comunidades de
Igreja de base. E foi isso que a enfraqueceu, não tenho dúvida. Ela continua
vivendo e resistindo, mas não é fácil, né? Hoje, tem alguns bispos que estão
aí, fortes, profetas, mas são poucos”.
Hoje,
Mada com 88 e Bia com 84 seguem sofrendo com a situação dos trabalhadores. “A
gente semeia porque acredita que um dia vai ser melhor. E nós duas vamos ver lá
de cima”, completa Mada.
Fonte:
O Joio e O Trigo

Nenhum comentário:
Postar um comentário