Como
petróleo foi 'bênção' e 'maldição' da Venezuela, que foi de país mais rico da
América do Sul a crise sem precedentes
Após a
detenção de Nicolás Maduro, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos vão
"administrar" a Venezuela até uma transição "segura" e
prometeu tirar proveito das reservas de petróleo do país.
Trump
também quer que empresas petrolíferas norte-americanas invistam bilhões de
dólares no país sul-americano, e disse ter negociado a entrega de até 50
milhões de barris de petróleo venezuelanos ao seu país.
A
Venezuela possui as maiores reservas de petróleo bruto do planeta, estimadas em
303 bilhões de barris.
Essa
riqueza natural, porém, é considerada, ao mesmo tempo, "a bênção" e
"a maldição" da Venezuela. Isso porque o país foi de um símbolo de
prosperidade na América Latina nos anos 1970 para palco de uma profunda crise
econômica e social, com hiperinflação e escassez de bens básicos, na última
década.
Entenda,
a seguir, qual foi o papel do petróleo na trajetória venezuelana — e o quanto o
"ouro negro" deve ainda influenciar o futuro do país diante da ação
americana no 3 de janeiro.
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Bonança de petróleo
A
história do país tomou novos rumos quando, em 1914, foi descoberto um imenso
campo produtivo de petróleo no lago de Maracaibo.
Em
1922, houve um novo achado na região: um poço quatro vezes mais produtivo.
Rapidamente,
o país se tornou um dos maiores produtores do mundo, com muitos novos contratos
e investimentos estrangeiros.
Pelas
seis décadas seguintes, a Venezuela passou a ser a "Arábia Saudita das
Américas". Expandiu sua produção de 300 mil barris por dia no final dos
anos 1920 para mais de 3,5 milhões de barris por dia em 1970.
O país
chegou a ser o mais rico da América do Sul e a ter um Produto Interno Buto
(PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos) per capita maior do que
países como França, Itália e Alemanha nos anos 1950, segundo o Maddison Project
Database, conceituado banco de dados desenvolvido por um economista britânico
para comparar crescimento econômico e níveis de renda a longo prazo.
Em
1976, o país nacionalizou sua indústria de petróleo e criou a estatal PDVSA
(Petróleos de Venezuela S.A), assumindo controle total de suas reservas.
O
dinheiro do petróleo permitiu investimentos sociais, educação mais ampla,
salários mais altos e uma imagem de modernidade para a Venezuela.
A renda
petrolífera financiava grande parte do orçamento do Estado venezuelano,
possibilitando subsidiar bens e serviços.
Entre
1959 e 1983, o desemprego no país se manteve na marca de 10%.
No
mesmo período, o crescimento médio do país foi de 4,3% por ano — a inflação
também era menor do que a registrada em outros países da América Latina.
A
estabilidade da moeda local, o bolívar, permitia que muitos venezuelanos
conseguissem sair do país para temporadas de férias, principalmente com destino
a Miami, nos Estados Unidos, vista como um paraíso do consumo.
Nos
anos 1970, os venezuelanos tinham o maior poder de compra entre os países
América Latina — quase três vezes maior que o dos brasileiros —, segundo um
índice da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Esse
cenário durou até a década de 1990.
Historiadores
e pessoas que vivenciaram esse momento contam muitas anedotas sobre como era
viver na Venezuela daquela época.
No
país, alguns costumavam dizer que "éramos felizes e não sabíamos".
Outra piada da época era a seguinte: "Isso está barato, então me dê
dois".
Outras
pessoas costumavam se orgulhar em dizer que pagavam mais barato pelo litro de
gasolina do que pelo de água.
Caracas
se tornou símbolo de uma elite sofisticada e luxuosa. Na cidade, os prédios
eram altos e modernos para a época. As rodovias, largas.
Os
hotéis eram considerados um "luxo em um paraíso tropical". E os
venezuelanos tinham o título de maiores consumidores de uísque do mundo.
A
Venezuela também investiu em cultura, criando importantes teatros, centros
culturais, museus e editoras de livros.
Apesar
de tudo isso, a desigualdade ainda era grande.
"A
desigualdade era muito marcada entre cidade e campo. Os grandes centros urbanos
e áreas ao redor dos poços de petróleo se desenvolveram, mas quem ficou no
campo empobreceu", explica Carolina Pedroso, professora de Relações
Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
"Apesar
disso, as pessoas sentiam que o país estava caminhando, porque se conseguiu
aproveitar parte desses petrodólares para investir na infraestrutura."
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A queda do modelo
Mas o
modelo econômico também criou uma dependência profunda: o país passou a viver
quase exclusivamente do petróleo, deixando agricultura, manufatura e setores
como indústria praticamente estagnados — um fenômeno econômico conhecido como
"doença holandesa".
Esse
processo começa sempre com a descoberta ou boom de um recurso natural, que leva
à valorização da moeda local, tornando outros setores menos competitivos,
causando desindustrialização e dependência excessiva de commodities.
Foi o
que aconteceu na Holanda com o gás natural nos anos 1960, por isso o nome.
No caso
da Venezuela, a dependência não acontecia apenas porque não havia outras bases
produtivas para além do petróleo, mas também porque o país desenvolveu muito
pouco a sua indústria petroquímica, se tornando dependente das refinarias
estrangeiras, especialmente dos Estados Unidos.
"Esse
é um ponto que até hoje é muito problemático, porque o petróleo venezuelano é
muito denso, cru e pesado", diz Pedroso.
"Para
ele ter realmente valor no mercado internacional, precisa passar por uma série
de processos petroquímicos que são custosos", explica a professora da
Unifesp.
Quando
os preços internacionais do petróleo começaram a cair nos anos 1980, a economia
venezuelana sentiu os efeitos rapidamente. Os dólares do petróleo que garantiam
a estabilidade econômica e política diminuíram. Com isso, aumentou o
descontentamento da população com o governo e com a política tradicional.
O
episódio conhecido como "Caracaço" é considerado o estopim dessa
crise.
Em
1989, poucos dias após tomar posse para seu segundo mandato, o então presidente
Carlos Andrés Pérez anunciou um programa de ajustes para tentar superar a
crise.
Entre
as medidas propostas estava o aumento da passagem no transporte público, como
resultado do ajuste no preço da gasolina.
O
anúncio provocou grande revolta e a população saiu em massa às ruas.
Em
pouco tempo, o que havia se iniciado como um protesto contra o aumento das
passagens se converteu em uma revolta popular.
Em
reação, o governo decretou a imposição da lei marcial e a suspensão de uma
série de garantias constitucionais e direitos civis. As Forças Armadas também
foram mobilizadas e a repressão acabou resultando em um verdadeiro massacre.
O saldo
oficial foi de mais de 300 mortos, mas estimativas de organizações
independentes apontam até 10 mil vítimas.
·
O
chavismo e o petróleo
Segundo
especialistas, o trauma gerado pelo episódio e o descontentamento geral da
população com a política tradicional abriu as portas para a eleição de Hugo
Chávez.
O
tenente-coronel foi responsável por organizar, ao lado de outros militares de
baixa patente, uma tentativa de golpe de Estado em 1992. O plano fracassou e os
envolvidos acabaram presos.
Mas em
1994, Chávez foi anistiado e, em 1999, chegou ao poder prometendo redistribuir
a renda petrolífera e diminuir os níveis de pobreza
Durante
seu governo, a desigualdade na Venezuela caiu gradualmente e muitos programas
de assistência aos pobres, combate ao analfabetismo e mortalidade infantil
foram implementados.
No
campo econômico, Chávez estabeleceu o domínio do Estado venezuelano sobre os
combustíveis fósseis e um limite para a propriedade privada em atividades para
a extração de petróleo e gás.
O país
ainda se beneficiou, a partir de 2003, de uma enorme valorização inesperada do
preço do petróleo.
Mas a
dependência econômica do petróleo persistia.
O
hidrocarboneto também teve papel importante no que é visto como um
endurecimento do estilo autoritário de Chávez.
Em
2002, ele sofreu uma tentativa de golpe envolvendo vários setores da oposição,
após uma greve geral. Membros da direção da PDVSA foram acusados de
envolvimento e parte da cúpula foi demitida.
"Houve
entre 2002 e 2003 uma defasagem gigantesca em termos de recursos humanos
especializados em petróleo. Paralelamente a isso, com o boom petroleiro e com
esse ímpeto de resolver rapidamente os problemas sociais, o governo venezuelano
não manteve a regularidade de reinvestimento que esse setor necessita,
basicamente revertendo toda renda petroleira para a política e não para a
própria empresa ou para a estrutura de exploração", explica Carolina
Pedroso.
Segundo
a professora da Unifesp, a expropriação de algumas empresas, especialmente
norte-americanas, também colaborou para defasar o setor petroleiro em termos de
investimento e modernização.
Chávez
morreu em 2013 e foi sucedido por seu braço-direito, Nicolás Maduro.
Ele
herdou os mesmos problemas envolvendo corrupção, inflação e crise econômica,
que só se agravaram com o passar do tempo.
A falta
de investimento na infraestrutura petroleira ampliou o sucateamento dos
equipamentos. Com isso, a queda na produção nas últimas décadas foi intensa.
Para se
ter uma ideia, quando Chávez assumiu o país pela primeira vez, em 1999, a
produção era de mais de 3 milhões de barris por dia.
No fim
de 2025 estava em menos de 1 milhão por dia, segundo a Organização dos Países
Exportadores de Petróleo (Opep).
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A piora na crise
Em
2014, os preços do petróleo despencaram e desencadearam a terrível crise que
até hoje assola os venezuelanos. O país perdeu 80% de seu PIB entre 2014 e
2021.
A
inflação anual chegou a mais de 800% em 2017 e uma escassez de alimentos
atingiu o país. Em meio a tudo isso, Maduro também ampliou seu autoritarismo,
com intervenções no Judiciário e perseguição de opositores.
A
economia ainda sofreu um importante golpe em 2017, quando os EUA ampliaram suas
sanções contra o país.
Hoje
mais de 20 milhões de venezuelanos vivem em situação de pobreza
multidimensional, sem acesso adequado a bens e serviços essenciais, incluindo
alimentos e medicamentos.
Diante
da crise humanitária, cerca de 8 milhões de venezuelanos deixaram o país desde
2014.
O
economista Diego Sánchez-Ancochea afirma que a dificuldade da Venezuela de sair
dessa crise pode ser explicada por três grandes fatores.
"O
primeiro fator é a má gestão econômica. O fato de que, quando as coisas iam
bem, o governo gastou demais e criou uma série de problemas que se tornaram
totalmente insustentáveis quando
as condições econômicas se
complicaram", explica.
O
segundo fator são as sanções, diz Sánchez-Ancochea.
Aquelas
impostas pelos EUA, em particular, mas também pela União Europeia, que criaram
problemas para o país e dificuldades para arrecadar dólares suficientes para
financiar todas as importações necessárias.
"E
o terceiro fator são os próprios preços do petróleo. Quando os preços do
petróleo caem, também se torna muito mais difícil manter as políticas
anteriores."
O
especialista afirma ainda que a escassez de dólares para financiar as
importações e a emissão monetária excessiva como resposta ao déficit público
levaram a um ciclo completo de hiperinflação.
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O futuro após a intervenção americana
Também
não é difícil perceber o papel do petróleo no cenário atual na Venezuela.
Depois
da ação militar que levou à detenção de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia
Flores em 3 de janeiro, Donald Trump afirmou que empresas americanas
recuperariam a infraestrutura petrolífera da Venezuela e começariam "a
gerar dinheiro para o país".
O
presidente americano deu seu aval para que Delcy Rodríguez, vice-presidente da
Venezuela enquanto Maduro era presidente, tomasse posse como presidente
interina.
Um dia
depois, Trump anunciou que a Venezuela "entregará" até 50 milhões de
barris de petróleo ao seu país.
Mas
segundo analistas, seriam necessárias dezenas de bilhões de dólares e até uma
década para que o nível de produção que a Venezuela já teve seja restaurado.
"O
discurso do Trump simplifica coisas que são, na verdade, muito complexas",
opina Carolina Pedroso.
"A
reconstrução de infraestrutura mencionada é necessária e verdadeira, mas diz
respeito não apenas à infraestrutura de exploração do petróleo, mas a toda a
infraestrutura colateral que é necessária para que a operação do petróleo seja
mais eficiente – ou seja, infraestrutura de estradas, de logística e de
energia."
"É
o tipo de investimento que não tem retorno rápido. E mesmo se essa injeção de
recursos vier, por exemplo, do capital privado, o retorno também não vai ser
rápido", complementa a especialista.
Além
disso, ainda não há clareza sobre como o setor vai funcionar daqui para frente.
"É
muito difícil prever [o que vai acontecer], porque é muito difícil entender
exatamente o que Trump está fazendo e o que ele planeja fazer. É essa falta de
planejamento que torna as coisas particularmente complicadas", aponta
Diego Sánchez-Ancochea.
Ainda
segundo o especialista, tão importante quanto as declarações de Trump sobre o
petróleo venezuelano, são as definições sobre o futuro das sanções impostas
pelos EUA.
"Se
as sanções fossem reduzidas e a Venezuela pudesse voltar a exportar mais
petróleo, a situação econômica poderia melhorar. No entanto, se Trump tentar
obter o excedente gerado pelo petróleo sem reduzir as sanções, as condições
piorariam ainda mais", avalia Sánchez-Ancochea.
Fonte:
BBC News Brasil

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