Ana
Jansen: Lenda de terror, magnata que escravizou 800 negros batiza cartão postal
no MA
Ao
cruzar o Centro Histórico de São Luís e atravessar a ponte que leva o nome do
ex-governador maranhense José Sarney, cruzando sobre o rio Anil, o traçado
urbano se reorganizada e dá lugar aos edifícios residenciais e hoteis de alto
padrão, que rodeiam um dos pontos turísticos mais famosos da cidade: a Lagoa da
Jansen.
O
cartão postal de 150 hectares tem um parque ecológico, atrai praticantes de
esportes e vira palco de eventos culturais de grande escala na capital
maranhense. Quem visita o local, lar da estátua da serpente Lulu, passa ao
largo do significado que carrega o nome do ponto turístico, batizado em
homenagem a uma das mulheres mais ricas da história local, que mantinha pelo
menos 800 pessoas escravizadas em suas vastas propriedades de terra e cuja
crueldade deu origem a uma das mais tradicionais lendas de assombração da
cultura local.
A
homenagem se refere à comerciante e latifundiária Anna Joaquina Jansen Pereira,
originalmente com dois enes, mas conhecida como Ana Jansen ou somente “Donana”,
matriarca lendária do Maranhão, que no século 19 era uma das mulheres mais
ricas do estado. Seu poder econômico era tanto que ela financiou o Exército
Imperial contra revoltas populares que eclodiram pelo Brasil.
As mais
de oito centenas de pessoas escravizadas foram um dos pontos usados para
justificar um pedido de titulação ao imperador Dom Pedro II, em 1843. Jansen
queria ser a baronesa de Santo Antônio, o que poderia lhe render prestígio
político e acesso direto à corte brasileira.
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Por que isso importa?
• O processo de revisão dos nomes de ruas,
escolas e outros ambientes públicos já passou pelo escrutínio público no que
diz respeito a figuras da ditadura, mas ainda falha no que diz respeito a
personagem reconhecidamente promotores de violações aos direitos humanos.
Segundo
o requerimento de título, os trabalhadores escravizados trabalhavam no plantio
e colheita de algodão e arroz, em suas 30 propriedades de imóveis e terras que
somavam 14 léguas à época. “É um nome que paira no imaginário popular aqui no
Maranhão e geralmente está associado à imagem dessa senhora, proprietária de
escravos e muito cruel”, explica a coautora do livro Senhora do Maranhão: uma
biografia de Ana Jansen, Elizabeth Abrantes.
A Lagoa
da Jansen se situa no que já foi uma das propriedades da latifundiária, o
antigo Sítio Olaria, que condensava mangues e igarapés. Segundo Abrantes, que
também é professora e historiadora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA),
a área era então conhecida como “Igarapé da Jansen”. Outras terras do Olaria
foram desmembradas, vendidas e ocupadas desordenadamente após a morte de Ana
Jansen, conforme descreve a historiadora Maria de Lourdes Lauande Lacroix no
livro São Luís do Maranhão, Corpo e Alma.
A
sociedade escravocrata e conservadora do século 19, em São Luís, era
extremamente violenta com as pessoas escravizadas, o que, segundo a obra de
Abrantes fazia “parte dos costumes de muitas famílias a utilização da tortura
física”. Jansen não era vista com bons olhos nem pelos pares, que questionavam
sua moral. A imagem negativa da latifundiária contribuiu para a criação da
lenda da “assombração da carruagem”, compartilhada pelos moradores de São Luís
após sua morte e associada às supostas crueldades que Donana teria praticado em
vida, o que teria feito sua alma ser condenada a vagar pela Terra.
“As
pessoas, quando ouviam pela noite o toque dos cavalos passando pelas ruas aqui
no centro histórico de São Luís, as pessoas ficavam com tanto medo que não
tinham coragem nem de abrir a cortina da janela”, contou a professora Abrantes.
No entanto, a historiadora pondera que não há indícios de que as práticas de
Donana fossem diferentes das que os senhores escravocratas praticavam à época.
“Ana Jansen, como uma mulher do seu tempo, senhora de escravos, certamente não
foi muito diferente dos seus congêneres, o que não significa que tenha sido a
mais cruel, como fizeram crer os seus críticos”, argumentou.
Além da
lagoa, no bairro São Francisco, onde pesquisadores sugerem que tenha sido uma
das propriedades de Ana Jansen, uma das mais importantes avenidas da capital
que interliga o bairro à Ponta D’areia, também leva o nome da aristocrata. “É
nesse contexto em que, infelizmente, muitas das vezes as homenagens se davam:
posição política e econômica dessas pessoas, sendo principalmente no meio da
elite”, explicou Abrantes. “Eu vejo a Ana Jansen nesse bojo aí, esse tipo de
homenagem que não levava em consideração esse outro aspecto também, da opressão
aos sujeitos escravizados”, concluiu.
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O dinheiro de Donana X o povo
Durante
o século 19, eclodiram pelo território brasileiro revoltas populares, que
exigiam a instauração de uma república, o fim da escravização e movimentos
separatistas, que foram duramente reprimidos pelas forças do Exército Imperial,
financiadas pelas elites econômicas.
De
posse de mais de 30 propriedades e de 800 pessoas escravizadas, Ana Jansen foi
um das que financiou a repressão a revoltas populares, como a Balaiada
(1838-1841) e a Farroupilha (1835-1845), com dinheiro e até sacas de arroz,
como forma de garantir as regalias que o regime imperial lhe rendiam.
Disputas
políticas, pobreza, miséria e um alto número de pessoas escravizadas dominavam
o Maranhão em meados do século 19, o que resultou na Balaiada. O movimento
liderado por Manoel dos Anjos Ferreira e pelo quilombola Preto Cosme exigia a
decentralização de poder, o fim do regime de escravidão e a separação do
Maranhão do restante do território brasileiro.
Isidoro
Jansen Pereira, segundo filho de Ana Jansen, recebeu o título de
tenente-coronel da Guarda Nacional e atuou nas ações de repressão, que
resultaram em mais de 10 mil mortes.
O apoio
de Donana à repressão também se deu contra os farroupilhas no Rio Grande do
Sul, fato destacado no pedido do título de baronesa ao imperador. “Tem prestado
parte de seus bens a benefício da causa pública, e, ultimamente, fez o donativo
de mil arrobas de arroz pilado e ensacado, por ano, enquanto durar a luta com
os rebeldes do Rio Grande de São Pedro do Sul”, descreveu o procurador Manuel
Jansen Pereira, também filho da latifundiária. Em março de 1841, um
agradecimento público do então presidente da província do Maranhão Cândido José
Araújo Viana foi publicado em nota no jornal O Maranhense.
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Vida e morte de uma lenda urbana
Anna
Joaquina de Castro Jansen Albuquerque nasceu em São Luís, em 1798, em uma
família de comerciantes descendentes de portugueses. A ascensão social ocorreu
após o casamento com Isidoro Rodrigues Pereira, um dos homens mais ricos da
província no início do século 19.
Pereira,
40 anos mais velho que a esposa, foi apenas um dos três homens com quem Ana
Jansen se casou, passando quase 10 anos ao seu lado, até sua morte, em 1825.
Viúva aos 27 anos e com seis filhos, ela herdou boa parte da fortuna do
primeiro marido.
Donana
casou-se outras duas vezes, primeiro com o desembargador Francisco Carneiro
Pinto Vieira de Melo, ficando viúva aos 60 anos, e então com o empresário
paraense Antônio Xavier da Silva Leite.
Embora
tivesse incorporado o sobrenome de seus companheiros no decorrer de seus
casamentos, “nenhum deles conseguiu se sobrepor ao nome que escolheu para ser
conhecida e que contribuiu para definir sua identidade: Ana Jansen”, descreveu
Elizabeth Abrantes.
Donana
era mal vista. Casada três vezes, todas após viver relações extraconjugais, era
reprovada pela sociedade conservadora da época e, com isso, a população
ludovicense passou a criar uma imagem ruim sobre sua vida. “Ela vai ser tratada
como sendo uma mulher fora do padrão e algo que não deve servir de exemplo ou
de modelo para ninguém”, explicou a professora da UEMA.
“Então,
a gente acredita que essas rivalidades, intrigas políticas, disputas mesmo
nesse meio, isso vai contribuir muito para criar essa imagem de Ana Janssen
como essa mulher cruel com essa violência extrema”, disse Abrantes.
Ana
Jansen morreu aos 71 anos, em São Luís, e contemplou os 11 filhos, netos e
bisnetos em seu testamento, deixando pessoas que ela escravizava, terras,
propriedades e dinheiro como herança. Ela jamais obteve o título de baronesa
que buscava durante o império, mas teve o nome eternizado em logradouros
públicos em São Luís até os dias de hoje.
Procurado
pela Agência Pública para justificar a manutenção do nome de figuras
escravocratas em importantes partes da capital ou se há iniciativas para a
troca de nome em andamento, o Governo do Maranhão não respondeu até o momento.
Em caso de manifestação, esse espaço será atualizado.
Fonte:
Por Rafael Custódio, da Agencia Pública

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