Mirna
Wabi-Sabi: Como Trump transforma crises em uma narrativa de controle
A operação americana
que resultou na prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro foi apresentada
por Donald Trump como um ato decisivo em defesa da liberdade, da democracia e
do Estado de direito. De
acordo com declarações oficiais, a ação foi enquadrada como uma medida de
aplicação da lei, baseada em acusações de longa data contra
Maduro por tráfico de drogas e conspiração criminosa, combinadas com a
alegação de que o sistema eleitoral venezuelano carecia de legitimidade. No
entanto, a escala e a natureza da operação –envolvendo o uso de força
militar contra um chefe de Estado em exercício – imediatamente
levantaram questionamentos sobre o direito internacional, a soberania e as
reais motivações.
Compreender esse episódio exige separar três elementos distintos que
frequentemente são condensados em uma única narrativa: as reais dificuldades
enfrentadas pelos venezuelanos, as justificativas apresentadas pelo governo
Trump e o uso político dessas justificativas para exercer poder além das
fronteiras dos Estados Unidos.
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A Venezuela não é uma exceção – a crise é uma condição global
A
Venezuela, assim como outros países, tem vivenciado polarização política,
volatilidade econômica, eleições contestadas e migração em massa. Nenhum desses
fenômenos é único, nem justifica, por si só, a intervenção estrangeira.
Eleições contestadas, ciclos inflacionários, violações dos direitos humanos e
fluxos migratórios são características da política global contemporânea,
inclusive em países que se posicionam regularmente como árbitros da democracia.
Organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas, a Human Rights Watch e a Anistia
Internacional,
documentaram preocupações na Venezuela relacionadas ao devido processo legal,
ao tratamento de oponentes políticos e à independência institucional.
Relatórios semelhantes existem para aliados dos EUA – e para os
próprios Estados Unidos – onde o encarceramento em massa, a
violência policial, a supressão do voto e os poderes de emergência também têm
sido alvo de críticas constantes. A existência de falhas na governança não cria
uma hierarquia de nações, em que algumas têm direito à soberania e outras são
consideradas passíveis de perdê-la.
A crise
migratória da Venezuela deve ser compreendida nesse mesmo contexto global. Milhões de venezuelanos deixaram o país na
última década, se estabelecendo principalmente em países vizinhos da América
Latina, como o Brasil. Seu deslocamento
reflete uma convergência de contração econômica, sanções, desigualdade regional
e impasse político. Os refugiados não são prova da falha moral de um Estado;
são pessoas que enfrentam escolhas limitadas sob pressão estrutural. Merecem proteção,
dignidade e respostas políticas sérias, e não serem usados retoricamente como
símbolos de desordem.
Apesar
das frequentes referências de comentaristas à
migração,
os refugiados não foram a principal justificativa legal ou operacional
oferecida pelo governo Trump para a prisão de Maduro. As declarações oficiais
enfatizaram duas alegações acima de todas as outras: tráfico de drogas e
conspiração criminosa, com base em acusações dos EUA que alegavam que agentes
do Estado venezuelano facilitavam o fluxo de narcóticos; e ilegitimidade
eleitoral, com os EUA se recusando a reconhecer as recentes eleições
venezuelanas como estando em conformidade com os padrões internacionais.
Essas
alegações foram apresentadas como ameaças à segurança nacional dos EUA e à
estabilidade regional. Se as evidências sustentam tal ação extraordinária, isso
permanece em debate. Avaliações de inteligência pública não demonstraram
conclusivamente que a Venezuela desempenha um papel central único no tráfico
transnacional de drogas em comparação com outros países da região. Tampouco a
existência de eleições contestadas – um fenômeno global – constitui
base legal para intervenção militar unilateral.
O que
importa, do ponto de vista analítico, não é se essas preocupações são
totalmente fabricadas, mas como são elevadas, isoladas e
instrumentalizadas.
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Liberty-washing como técnica política
Essa
estratégia pode ser melhor descrita como liberty-washing. Ela se refere
à invocação seletiva da linguagem da liberdade, da democracia e do Estado de
Direito para legitimar ações coercitivas no exterior, ignorando a soberania, as
restrições do direito internacional e as liberdades comparáveis no próprio
país. Assim como o pinkwashing ou o greenwashing, não se
baseia em falsidades absolutas, mas em uma seleção de verdades utilizadas para
uma agenda política hegemônica.
Nesse
caso, as alegações de tráfico de drogas e irregularidades eleitorais são
transformadas de desafios políticos em autorização moral. A linguagem da
“libertação” substitui a diplomacia; a acusação criminal substitui o processo
multilateral. A liberdade torna-se algo que os Estados Unidos reivindicam o
direito de administrar, em vez de uma condição exercida pelos próprios povos.
Essa lógica explica uma contradição central: Trump se apresenta como um
defensor global da liberdade no exterior, enquanto contesta abertamente a
legitimidade eleitoral, a independência judicial e a liberdade de imprensa
internamente. Liberty-washing resolve essa contradição transformando a
liberdade em uma posse do poder, e não em um princípio universal.
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O Prêmio Nobel da Paz e a personalização da política externa
A
fixação de Trump pelo Prêmio Nobel da Paz ilustra ainda mais como a
instrumentalização da liberdade opera no nível da ambição pessoal. Relatos
indicam que Trump via o prêmio como uma validação de sua estatura global, e que
tensões surgiram quando a líder da oposição venezuelana, María Corina
Machado, recebeu o prêmio em seu lugar. O reconhecimento de Machado, enraizado
na luta política não violenta, não se traduziu em apoio total dos EUA,
supostamente porque isso prejudicava a própria pretensão de Trump de ser uma
autoridade na promoção da paz.
Essa
personalização é importante. Quando a política externa se torna um palco para a
competição simbólica, os atores democráticos que não se alinham com esse
simbolismo são marginalizados. A instrumentalização da liberdade, portanto, não
fortalece a sociedade civil venezuelana; ela recentraliza a
legitimidade em Washington.
A
retórica de Trump após a operação sugere mais do que apenas a instauração de um
processo judicial. Declarações sobre supervisionar a “transição” da Venezuela
ou determinar resultados políticos aceitáveis ecoavam uma postura mais ampla,
evidente em outros contextos – incluindo em Gaza – onde a
soberania é tratada como provisória, revogável por uma força superior.
Em
ambos os casos, o território é discutido menos como o espaço político de um
povo e mais como um problema de segurança a ser administrado. Lei, liberdade e
ordem são invocadas não para restringir o poder, mas para racionalizar sua
expansão. Isso não é uma anomalia; é uma lógica familiar de intervenção
reformulada em linguagem contemporânea.
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Refugiados merecem proteção, e não serem usados como instrumento narrativo
É
crucial que os refugiados venezuelanos não sejam incluídos nessa lógica. Seu
deslocamento não justifica o uso da força; é uma denúncia do fracasso
global – incluindo regimes de sanções, desigualdade regional e apoio
internacional inadequado. Respeitar os refugiados significa resistir à sua
instrumentalização como moeda de troca moral em disputas geopolíticas.
A
retórica da liberdade transforma os refugiados em símbolos. Como prova do
fracasso estatal, justificativa para intervenção ou pano de fundo para ganhos
estratégicos. Uma abordagem séria, em vez disso, priorizaria os direitos de
asilo, a cooperação regional e o apoio de longo prazo, sem militarização.
A
prisão de Nicolás Maduro não revela muito sobre a suposta disfunção excepcional
da Venezuela, mas revela muito sobre como o poder opera quando envolto na
linguagem da liberdade. As justificativas de Trump baseiam-se em preocupações
seletivamente amplificadas sobre drogas, eleições e governança, transformadas
em autoridade moral para ações unilaterais.
Liberty-washing instrumentaliza o
sofrimento. E, ao fazê-lo, arrisca transformar crises em precedentes para um
mundo em que a soberania é condicional, a lei é opcional e a liberdade é algo
imposto, e não vivido.
Os
venezuelanos – incluindo aqueles que fugiram – merecem
melhor do que isso.
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Na crise da Venezuela, Brasil é mais forte frente a Trump do que outros países
da região, diz Ian Bremmer
O
Brasil está em uma posição melhor do que outros países da América Latina para
lidar com a nova política agressiva dos Estados Unidos para a região, avalia o
cientista político Ian Bremmer, fundador da consultoria de risco Eurasia Group.
No
sábado (3/1), o governo de Donald Trump bombardeou a Venezuela e capturou o
presidente Nicolás Maduro, além de fazer ameaças a Cuba, México e Colômbia na
sequência, disseminando apreensão entre governos latino-americanos.
Em
resposta a uma pergunta da BBC News Brasil em uma coletiva de imprensa, Bremmer
destacou que o país não tem "problemas de segurança nacional" com os
Estados Unidos.
Já na
área comercial, o governo brasileiro conseguiu um recuo de Trump sem fazer
concessões, lembrou o analista, citando a retirada de boa parte das tarifas
extras impostas aos produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos, algo
que impactava negativamente o bolso dos consumidores americanos, trazendo
riscos para a popularidade do republicano.
"O
Brasil está, na verdade, em uma posição mais forte", disse Bremmer, após
apresentar o relatório anual da Eurasia sobre riscos globais.
"Se
o Brasil tivesse um problema de segurança nacional com os Estados Unidos, seria
outra história, mas isso não é realmente um componente dessas conversas, que
são esmagadoramente sobre comércio."
Segundo
Bremmer, o Brasil sente uma pressão "muito menor" da chamada doutrina
Donroe do que outros países da região.
Doutrina
Donroe é o nome que está sendo dado para uma releitura da doutrina Monroe sob
Trump.
Essa
doutrina, apresentada em 1823 pelo presidente James Monroe (1817-1825) ao
Congresso dos Estados Unidos, tinha como lema "América para os
americanos" e repudiava colonizações europeias no continente. Na prática,
dizem estudiosos, tratava a América Latina como "quintal" dos Estados
Unidos.
O
fundador da Eurasia lembrou ainda que Trump retirou as tarifas sobre o Brasil
sem ter conseguido recuos do governo brasileiro ou do Poder Judiciário quanto à
condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado e
na regulação das redes sociais, questões apresentadas pelo governo americano
para justificar as sanções.
No
entanto, Bolsonaro está preso cumprindo pena de 27 anos de prisão, e a
regulação de plataformas continua na agenda do governo.
"Os
brasileiros não recuaram nem nisso [condenação de Bolsonaro] nem na questão das
redes sociais. E Trump recuou, porque ele quer um acordo, já que a economia
está mais desafiadora", resumiu Bremmer.
"O
Brasil tem muito mais TACO do que FAFO nesse jogo", disse ainda, em
referência a duas siglas que ganharam destaque nas redes sociais em torno de
Trump.
A
expressão TACO é uma sigla em inglês para "Trump Always Chickens
Out", que em tradução livre significa "Trump sempre amarela".
O termo
foi criado em maio de 2025 por Robert Armstrong, colunista do jornal britânico
Financial Times, e rapidamente se espalhou por Wall Street (o principal centro
financeiro dos Estados Unidos), ganhando força como piada entre investidores e
analistas de mercado.
A
expressão se refere a um suposto padrão observado desde o primeiro mandato de
Donald Trump: o anúncio de medidas agressivas, especialmente na política
comercial, seguido por recuos ou suavizações estratégicas.
Já o
termo FAFO vem sendo usado pela administração Trump e quer dizer "F*ck
Around and Find Out". Em português teria o sentido de "faça algo
errado e descubra as consequências".
No dia
da captura de Maduro, a Casa Branca postou uma foto de Trump com semblante
sério e a sigla FAFO em destaque.
Fonte: The Guardian/BBC News Brasil

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