Inovação:
a escolha que o Brasil adia
A
paisagem global da inovação mudou rapidamente, mas o Brasil continua preso a um
modelo que já não responde aos desafios do século XXI. Ainda tratamos inovação
como resultado de iniciativas individuais isoladas em diferentes instituições,
sustentadas por incentivos fragmentados e por um voluntarismo otimista que
raramente se converte em avanço tecnológico real. Apostamos em faíscas isoladas
esperando que produzam um incêndio capaz de mover a economia. Enquanto isso, a
China – e não apenas ela – reorganizou de cima a baixo sua estrutura de
pesquisa, tecnologia e produção, criando um sistema integrado em que ciência,
manufatura e indústria caminham na mesma direção e se reforçam mutuamente.
Essa
reorganização não foi apenas institucional: ela redefiniu o próprio conceito de
inovação. Barry Naughton descreve o processo como um “novo sistema de
mobilização nacional para ciência e tecnologia”, no qual laboratórios, parques
industriais, agências públicas e empresas operam sob diretrizes coordenadas.
Não se trata de um Estado onipresente, mas de um Estado que define direção,
integra instrumentos e garante continuidade. O contraste com o Brasil é
evidente: aqui, ciência, indústria e política pública funcionam como ilhas.
Falamos em inovação, mas operamos em modelos fragmentados, sem coordenação
estratégica nem propósito comum.
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1. A fluidez chinesa e a rigidez brasileira
O
Brasil ainda se apoia no paradigma linear de inovação – pesquisa básica, depois
aplicada, protótipos e, finalmente, o mercado – modelo que estudiosos como
Mariana Mazzucato mostraram estar esgotado. A China rompeu com essa lógica ao
construir um ciclo dinâmico em que problemas industriais retornam imediatamente
à academia, e soluções científicas são testadas rapidamente em ambiente
produtivo. É um sistema que reduz atritos, elimina improviso e privilegia
escalabilidade.
E mais:
a China foi além do que Mazzucato concebeu. Se a economista enfatiza missões
estatais que criam mercados, o modelo chinês acrescentou um componente
decisivo: a manufatura como parte indissociável da missão. Não basta orientar
pesquisa; é preciso garantir capacidade de produzir em escala, sob controle
nacional, tecnologias consideradas estratégicas. Essa combinação – direção
estatal, ciência avançada e domínio da manufatura – explica a velocidade com
que a China avançou em energia solar, telecomunicações, veículos elétricos, IA
e biotecnologia .
No
Brasil, a ausência de articulação interinstitucional impede que avanços
científicos se transformem em capacidade tecnológica. O exemplo dos Institutos
Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) é ilustrativo: centros de excelência
incontestável, mas desconectados de prioridades nacionais. Nosso ecossistema
funciona como um arquipélago, não como um sistema.
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2. Aprender com nossos próprios acertos
Apesar
disso, sabemos construir sistemas integrados quando existem missão,
continuidade e coordenação. O caso mais emblemático é o da Petrobras. Desde os
anos 1970, a empresa articulou universidades, centros de P&D, engenheiros e
fornecedores em torno da missão de dominar a tecnologia de exploração em águas
profundas. O pré-sal não foi obra do acaso, mas de planejamento de décadas,
continuidade institucional e fortalecimento de capacidades nacionais – tudo o
que falta ao Brasil em outras áreas.
A
Embrapa é outro exemplo de missão bem-sucedida. Criada em 1973, ela surgiu como
resposta a um alerta estratégico: estudos internacionais indicavam que o mundo
poderia enfrentar escassez de alimentos nas décadas seguintes, e o Brasil
corria o risco de depender de importações em plena fase de expansão econômica.
O então ministro Delfim Netto percebeu a necessidade de uma instituição capaz
de desenvolver ciência tropical e dar autonomia ao país na produção agrícola.
Com essa missão, a Embrapa passou a integrar pesquisa, extensão, genética,
solos e climatologia sob uma estratégia única de longo prazo. O resultado foi
transformador: biomas antes considerados improdutivos – como o cerrado –
tornaram-se áreas de alta produtividade, consolidando o Brasil como uma
potência da agricultura tropical . A experiência mostra que, quando há visão,
estrutura e missão, a ciência brasileira gera resultados extraordinários.
A
Embraer completa o trio de acertos nacionais. Nascida do ecossistema ITA–CTA,
tornou-se líder mundial em aviação regional graças à articulação entre formação
de engenheiros, pesquisa aplicada e estratégia industrial. A Embraer é fruto de
uma rara coerência nacional – coerência
que infelizmente não foi replicada nos demais setores estratégicos.
A
EMBRAPII surge como um instrumento contemporâneo que tenta preencher o vazio
entre academia e indústria – exatamente o ponto em que o Brasil mais falha.
Inspirada no modelo alemão dos institutos Fraunhofer, reduziu burocracias,
estruturou unidades de pesquisa aplicada, acelerou parcerias com empresas e
introduziu métricas de maturidade tecnológica (como TRL), ainda pouco usuais no
país. No entanto, sua atuação se concentra essencialmente nos níveis
intermediários de maturidade tecnológica (TRLs 3–6). A partir daí, o avanço
para protótipos em escala, plantas-piloto e manufatura exige instrumentos que
ultrapassam o escopo direto da Embrapii. Falta, portanto, uma integração mais
robusta com políticas e mecanismos de financiamento de estágios superiores de TRL
– em especial Finep e BNDES – para que o sistema opere como um continuum
efetivo, sem rupturas entre pesquisa aplicada, engenharia de escala e produção
industrial. Isso requer também articulação estratégica com MCTI, MDIC, Defesa,
Saúde, Agricultura e demais órgãos centrais de coordenação. Acertar
instrumentos é importante, mas insuficiente; o que falta é inseri-los em uma
estratégia nacional coerente – algo que o Brasil ainda não construiu.
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3. O que o Brasil tem de único – e o que pode construir
Antes
de definir prioridades, precisamos reconhecer nossas vantagens comparativas
estratégicas: seis biomas; a maior reserva de água doce do mundo; matriz
elétrica majoritariamente renovável; enorme potencial eólico e solar; reservas
de minerais críticos; indústria energética avançada; zona costeira extensa e
estratégica; diversidade cultural; e uma base científica sólida em agricultura
tropical, climatologia, aeronáutica e imunologia. O Brasil carrega uma
singularidade que raros países possuem: uma miscigenação profunda – étnica,
cultural e histórica – que moldou formas próprias de criatividade, adaptação e
convivência.
Essa
combinação, longe de ser um detalhe sociológico, constitui uma das bases mais
férteis do nosso potencial de inovação e de construção de projetos nacionais –
síntese inédita geradora de criatividade
e possibilidades. Ela inclui ainda a oportunidade de incorporar, de modo
sistemático e científico, a sabedoria tradicional dos povos originários,
ribeirinhos e comunidades tradicionais, cujos conhecimentos acumulados sobre
biodiversidade, manejo sustentável e sistemas alimentares representam um ativo
estratégico incomparável. Ao mesmo tempo, a integração entre agricultura de
alta tecnologia e a agricultura familiar e ecológica abre uma avenida
promissora para soluções híbridas de grande impacto – combinando produtividade, sustentabilidade
e inclusão social em uma mesma estratégia nacional.
Apesar
de repetirmos há décadas que “nenhum país se desenvolve sem um projeto de
futuro”, o Brasil nunca conseguiu montar uma estratégia de longo prazo que
sobrevivesse às trocas de governo. Avançamos em ciclos curtos, desmontamos
políticas a cada eleição e, assim, seguimos sem um rumo estável para orientar
ciência, tecnologia e desenvolvimento.
A
Estratégia Nacional de CT&I 2024–2030 representa um esforço importante de
reorganização institucional, mas ainda fica aquém do que o diagnóstico
brasileiro exige. Embora enumere temas relevantes, o documento carece de
missões nacionais claramente definidas, mecanismos sólidos de coordenação
interministerial e plataformas para maturação tecnológica nos TRLs 4–8 . Também
não apresenta metas quantitativas ou indicadores de desempenho que permitam
monitorar avanços, corrigir rumos e avaliar impactos de forma objetiva. Com seu
horizonte curto e estrutura excessivamente abrangente, a ENCTI tende a
reproduzir fragilidades já observadas em estratégias anteriores – o que reforça a urgência de uma política de
inovação ancorada em continuidade de longo prazo (2027–2050).
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4. Missões tecnológicas também resolvem problemas sociais
Países
como Finlândia, Coreia do Sul e a China mostram que inovação vai muito além de
patentes ou alta tecnologia: ela passa por enfrentar problemas sociais que
dependem de ciência, engenharia e coordenação institucional. Esse enfrentamento
requer plataformas tecnológicas robustas – inteligência artificial, internet
das coisas, automação, integração de dados e análise distribuída – hoje a base
dos sistemas de inovação mais avançados.
Universalizar
a educação, reduzir a violência, fortalecer a cidadania ou assegurar soberania
digital demanda precisamente essas plataformas, articuladas com
interoperabilidade e planejamento de longo prazo. Tais desafios não são
“sociais” ou “tecnológicos”, mas sistemas complexos que exigem políticas
integradas.
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5. Uma cesta inicial de missões para o Brasil – pensada como um sistema
integrado
O
Brasil precisa de missões nacionais claras – poucas, mas estruturantes –
capazes de articular ciência, indústria e políticas públicas em sistemas
complexos adaptativos, nos quais aprendizado, retroalimentação e cooperação
produzam capacidades cumulativas. Missões não são setores: são vetores
interdependentes de uma arquitetura sistêmica de desenvolvimento.
Essas
missões naturalmente incorporam problemas sociais urgentes. A educação pública
faz parte da missão de Infraestrutura porque redes digitais, escolas e
plataformas de aprendizagem são elementos da infraestrutura cognitiva de um
país. A segurança pública se integra à missão de Defesa e Soberania, pois
inteligência territorial, dados integrados e proteção de populações vulneráveis
são hoje dimensões essenciais da soberania. E, na fronteira ambiental,
degradação e violência caminham juntas, exigindo a combinação de ciência,
monitoramento e fiscalização.
Vistas
sob a lente da complexidade, essas missões deixam de ser prioridades isoladas e
passam a formar um ecossistema de capacidades interdependentes. Seus efeitos
são não lineares e, muitas vezes, inesperados: avanços em microeletrônica
repercutem na saúde; biotecnologia influencia a agricultura; sensoriamento
remoto redefine o monitoramento ambiental; e mudanças climáticas afetam
diretamente a segurança alimentar. Murray Gell-Mann sintetizou essa lógica ao
lembrar que “em sistemas complexos, tudo está conectado com tudo o mais, mas de
formas que raramente são lineares”.
O
desafio brasileiro é reconhecer e trabalhar a partir dessas conexões. Saúde,
defesa, agricultura e Amazônia não são domínios separados, mas partes de uma
mesma arquitetura em que energia, ciência, tecnologia e cadeias produtivas se
entrelaçam. A interdependência não atrapalha – é ela que faz o sistema
funcionar. Afinal, “tudo que é interdependente deve ser pensado em conjunto” .
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6. Uma estratégia nacional de longo prazo
Diante
desse cenário, o próximo governo terá a responsabilidade – e talvez a última
oportunidade neste século – de propor um novo sistema brasileiro de inovação,
pensado para o horizonte 2027–2050, que sobreviva a ciclos políticos e enfrente
descontinuidades que há décadas travam o país. A China acaba de dar um passo
decisivo ao criar o seu novo Conselho Central de Inovação e Ciência e
Tecnologia, órgão diretamente subordinado à liderança nacional para integrar
pesquisa, indústria, defesa, digitalização e política econômica sob uma única
estratégia de longo prazo. O Brasil precisa de algo equivalente em espírito:
não um plano genérico, mas uma arquitetura institucional robusta, capaz de
definir missões claras, organizar competências dispersas, promover coordenação
interministerial permanente e garantir fontes de financiamento estáveis e
imunes a contingenciamentos.
Países
que avançaram – da China à Coreia do Sul, da Finlândia a Israel – só o fizeram
porque entenderam que inovação é tarefa de Estado, não de governo. Para entrar
na segunda metade do século XXI com protagonismo, o Brasil precisa abandonar a
cultura das soluções improvisadas e assumir-se como nação que planeja o futuro
com coerência, continuidade e ambição.
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7. Conclusão – Construir o momento
O
Brasil está diante de uma escolha simples e difícil: momentos perfeitos não
surgem sozinhos – precisam ser construídos. Teremos de decidir entre
continuarmos contando com um arquipélago de ilhas brilhantes – Petrobras,
Embrapa, Embraer, universidades, institutos – ou se finalmente ousaremos
construir um continente. A decisão é política, institucional e estratégica. Se
escolhermos a segunda opção, haverá trabalho árduo. Mas haverá também futuro.
Talvez
devamos parar de esperar por ele – e começar a construí-lo.
Fonte:
Por Celso Pinto de Melo, em A Terra é Redonda

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