Conheça
a "síndrome do coração festeiro", ligado ao excesso de álcool
Seja
uma lata de cerveja no churrasco de Natal ou uma taça de espumante no
Réveillon, o consumo de bebidas alcoólicas já faz parte da comemoração das
festas de final de ano no Brasil. No entanto, o exagero nesse hábito esconde
uma ameaça cardíaca silenciosa: a síndrome do coração festeiro, ou holiday
heart syndrome, em inglês.
A
condição relaciona a ingestão excessiva e prolongada de álcool ao maior risco
de desenvolver um tipo de arritmia conhecida como fibrilação atrial. Nesse
quadro clínico, a parte de cima do coração, formada pelos átrios, fica
eletricamente desorganizada e trêmula, enquanto a porção debaixo do órgão,
composta pelos ventrículos, passa a funcionar de maneira irregular. Isso leva a
um descompasso dos batimentos.
O
efeito pode ser percebido como uma palpitação no peito, que costuma ser
acompanhada por sensações de cansaço e falta de ar. Esses sintomas geralmente
começam a se manifestar ainda durante o momento de embriaguez ou algumas horas
após a bebedeira. “Não é apenas um drink que leva à síndrome. Para ela ocorrer,
o indivíduo precisa realmente apresentar um nível de embriaguez muito elevado”,
explica o cardiologista Guilherme Drummond Fenelon Costa, do Einstein Hospital
Israelita.
A
intoxicação alcoólica diminui o pH do sangue e desidrata o corpo, efeitos que
ainda podem se somar a condições como privação de sono e perda de eletrólitos.
É a combinação desses fatores que pode levar à síndrome do coração festeiro.
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Problema subestimado
A
primeira descrição da síndrome foi em um artigo publicado em 1978 no American
Heart Journal. Na época, a condição ainda era apresentada como uma associação
hipotética, a partir da observação de poucos pacientes de hospitais em Nova
Jersey, nos Estados Unidos. De lá para cá, o problema foi mais investigado pela
ciência. Em fevereiro de 2025, revisão de 11 estudos publicada na revista
Cureus concluiu que o binge drinking (ato de beber cinco ou mais doses de
álcool em um curto período) é um disparador consistente de fibrilação atrial.
“Uma
das descobertas mais marcantes foi a consistência com que a exposição excessiva
ao álcool desencadeou arritmias em diversas populações”, destaca o
cardiologista e autor correspondente do artigo, Jhiamluka Zservando Solano
Velasquez, que é pesquisador na Universidade de Oxford, na Inglaterra. “Mesmo
em jovens saudáveis, a ingestão aguda de álcool produziu alterações no sistema
nervoso autônomo, que controla o coração, além de oscilação do intervalo entre
os batimentos, aumento da frequência cardíaca e batimentos prematuros”, diz
Velasquez, em entrevista à Agência Einstein.
Apesar
de provocar tantas reações prejudiciais e aumentar o risco de complicações
graves, como acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca, a
síndrome do coração festeiro ainda é subestimada. Isso se deve, em parte,
porque a arritmia tende a melhorar espontaneamente em até 48 horas, sem a
exigência de grandes cuidados hospitalares. Muitas vezes, basta se hidratar bem
e observar a evolução dos sintomas.
Só que
a falta de uma investigação para identificar se a arritmia já existia ou se foi
apenas um episódio decorrente da intoxicação alcoólica não elimina o risco de
reincidência da fibrilação atrial. Isso é particularmente importante em um
contexto de alta prevalência global do consumo abusivo do álcool, como o que se
vive atualmente.
Segundo
a 3ª edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), publicada em
setembro pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a média de consumo
de bebidas alcoólicas pelos brasileiros foi de 5,3 doses por ocasião. Além
disso, verificou-se que aproximadamente 24 milhões de pessoas no país relataram
beber exageradamente em 2024, o que equivale a 14,2% da população adulta ou um
em cada sete indivíduos.
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Beber com moderação
Os
riscos do álcool ao coração não se aplicam apenas a quem bebe além da conta.
“As evidências atuais não nos permitem definir um nível universalmente ‘seguro’
de álcool para a prevenção da fibrilação atrial, especialmente para aqueles que
já são mais vulneráveis a problemas cardíacos”, avalia Velasquez. Vale lembrar,
inclusive, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) não estabelece limite
seguro de álcool até mesmo para pessoas sem qualquer condição de saúde.
A
ocorrência de arritmias é mais comum entre indivíduos com mais de 60 anos.
Também está mais propenso a desenvolver o problema quem tem histórico de doença
cardiovascular, como cardiomegalia (coração grande), infarto, pressão alta e
aterosclerose. Quem já sofreu fibrilação atrial pode voltar a apresentar
episódios de palpitação a qualquer momento, não só quando há exagero alcoólico.
É importante consultar um cardiologista para investigar o quadro e tratá-lo
preventivamente.
“Neste
final de ano, o equilíbrio precisa ser a palavra-chave. Se a pessoa gosta de
beber para celebrar, ela pode fazer isso durante as festas, desde que evite o
exagero”, pontua o médico do Einstein. “Além de ficar atento à quantidade de
bebida, deve-se tomar o cuidado de espaçar uma dose da outra para dar tempo do
corpo metabolizar a substância, manter a hidratação, fazer refeições leves e
ter boas noites de sono.”
Fonte:
CNN Brasil

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