Penildon
Silva Filho: O Estado do ideário minimalista
A
recente votação do Orçamento Geral da União para 2026 no Congresso Nacional
reflete, de maneira cristalina, a precária correlação de forças que caracteriza
o atual momento político brasileiro. Vivemos um período de hegemonia política
não definida, no qual não prevalece com clareza um projeto nacional definido,
seja democrático e progressista de um lado ou destruidor de soberania do outro.
O
governo federal, eleito por uma margem estreita, enuncia uma agenda
progressista, mas convive com um Congresso majoritariamente desalinhado com
suas prioridades. Essa desconexão se estende a outras esferas decisórias da
sociedade – o Judiciário, grande parte da mídia, governos estaduais,
assembleias legislativas e setores da sociedade civil –, onde uma visão muitas
vezes neoliberal e antidemocrática mantém considerável influência.
Esse
impasse sobre qual projeto deve guiar o Brasil materializa-se de forma crua na
peça orçamentária. O Estado brasileiro se encontra em uma encruzilhada
histórica. De um lado, forças poderosas defendem e mantêm um Estado
minimalista, cujo papel como indutor do desenvolvimento e provedor de políticas
sociais fica drasticamente limitado.
Nesta
visão, o Estado deve estar primordialmente a serviço da lógica do capital
financeiro, garantindo ganhos imediatos via pagamento de juros da dívida
pública e com uma política de austeridade fiscal absoluta, sem preocupações com
geração de emprego, aumento de renda dos trabalhadores ou um projeto de uma
nação sólida, desenvolvida e sustentável. De outro lado, emerge um projeto
alternativo, que busca resgatar a capacidade estatal de formular e executar um
projeto soberano de desenvolvimento nacional de médio e longo prazos.
A
aprovação do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026, concluída em 19
de dezembro, mostra essa disputa de projetos. O texto, que prevê despesas
totais de R$ 6,5 trilhões, destina impressionantes 28% do orçamento fiscal e da
seguridade social (R$ 1,82 trilhão) ao serviço da dívida pública.
Paralelamente,
aloca mais de R$ 61 bilhões para emendas parlamentares. Essa dupla drenagem de
recursos – para a rolagem financeira da dívida pública, num contexto de taxa
dos juros Selic acima do razoável e metas de inflação muito restritivas, e para
as emendas parlamentares que são de efetividade duvidosa para um projeto
articulado de desenvolvimento – sangra a capacidade de investimento do Estado
em áreas sociais estruturantes (saúde, Educação, assistência, cultura,
habitação) e inviabiliza qualquer estratégia consistente de reindustrialização,
transição ecológica ou inserção autônoma do país na vanguarda tecnológica
global.
iente
desse desequilíbrio, o governo federal e movimentos sociais têm procurado, nos
últimos meses, tensionar a correlação de forças mediante a mobilização social.
Essa estratégia, que chamamos aqui de “estratégia da pinça” (essa denominação
já foi usada por outros autores), quer combinar a mobilização de forças na
institucionalidade e na sociedade civil.
Manifestações
contra a PEC da Blindagem e, mais recentemente, contra o feminicídio e a PEC da
Dosimetria, representam uma tentativa de combinar a pressão das ruas (uma
“haste” da pinça) com a ação institucional (a outra “haste”). Essa estratégia
obteve um êxito inicial, como visto na conquista da isenção do Imposto de Renda
para rendimentos de até R$ 5 mil.
Contudo,
a correlação de forças na sociedade brasileira, espelhando uma polarização no
Ocidente, permanece extremamente tensa. De um lado, uma militância organizada
em valores antidemocráticos e neoliberais, potencializada pelas big techs; de
outro, um campo democrático-popular que luta para ampliar seu espaço no
Congresso e defender avanços sociais.
O
resultado é a persistência de um Estado limitado pelo ideário minimalista, em
que pese os esforços importantes feitos pelo governo federal em sentido
contrário. Apesar dos avanços na Economia, nos índices de empregos, na
diminuição da desigualdade social, nas políticas sociais e na Nova Indústria
Brasil, temos um Estado ainda incapaz de superar uma ortodoxia fiscal que
prioriza honrar compromissos financeiros da dívida pública inchada pela taxa de
juros da Selic desnecessários, e sob a falaciosa crença de que o mercado, por
si só, geraria desenvolvimento.
Esta
visão, significativamente, já foi superada na prática pelas próprias nações que
a propagaram: Estados Unidos e Europa hoje realizam maciços investimentos
públicos em transição energética, reindustrialização e tecnologia. Enquanto
isso, China e outras potências do Sul Global há décadas contam com Estados
fortes, indutores e planejadores.
O
Brasil, como principal nação da América Latina, tem o papel histórico de
liderar a superação desse modelo de Estado mínimo e sem capacidade de
liderança, planejamento e indução de um projeto nacional na região, assegurando
não apenas a soberania territorial, mas também a econômica, científica e
política.
Esse
desafio do Brasil agora se reveste de importância estratégica, quando
justamente os Estados Unidos cercam parte do continente com agressões militares
por mar, bloqueios econômicos e ameaças de invasão e interferência direta nos
assuntos internos dos países soberanos do nosso continente.
Neste
contexto, o investimento nas universidades públicas transcende a mera rubrica
orçamentária: trata-se de pilar fundamental para a construção dessa soberania.
As universidades são centrais para a autonomia científica, cultural e
educacional do país. Elas não se furtam a este papel, participando ativamente
da formulação e execução de políticas públicas em Educação, saúde, cultura e
outras, estreitando laços com o mundo do trabalho através de editais como os da
FINEP, e contribuindo para projetos de ponta em tecnologia.
Além
disso, são espaços insubstituíveis de reflexão para a construção de um projeto
civilizacional democrático substantivo – uma democracia que garanta não apenas
direitos civis e políticos, mas também sociais, econômicos, culturais e o pleno
exercício da cidadania para toda a sua diversidade. Sua missão é oferecer uma
formação integral, que permita aos cidadãos usufruírem do patrimônio científico
e cultural da humanidade, indo muito além de uma simples preparação para o
mercado de trabalho.
No
entanto, o Projeto de Lei Orçamentária (PLOA) encaminhado pelo Executivo ao
Congresso Nacional para 2026 previu, inicialmente, R$ 6.893.118.614 para o
orçamento discricionário das 69 universidades federais. Em relação ao valor de
2025, que foi de R$ 6.575.520.952, isso representaria um aumento nominal de
apenas 4,83% – percentual inferior à inflação projetada.
Além
disso, quando considerados os reajustes do PASEP e as necessidades de
recomposição de recursos para as IFES com embarcações e sem Hospitais
Universitários, o incremento real cairia para apenas 3,44%.
Tal
cenário já seria insuficiente para garantir o funcionamento adequado das
instituições, haja vista os sucessivos cortes ocorridos entre 2017 e 2022 e a
recomposição parcial observada a partir de 2023. Para ilustrar a perda
acumulada: em 2016, o orçamento discricionário das federais foi de R$
7.209.812.571. Ajustado pela inflação do IPCA desde então (54,5%), esse
montante equivaleria, atualmente, a aproximadamente R$ 11,1 bilhões – valor
muito superior ao hoje disponível.
Durante
a tramitação no Congresso, a proposta já insuficiente sofreu novo corte.
Conforme documento da Andifes, os parlamentares reduziram em R$ 488.043.050
(7,05%) a dotação original. Ressalta-se que esses valores não incluem emendas
nem receitas próprias das IFES, as quais possuem destinação específica.
Paradoxalmente, os recursos totais para emendas parlamentares cresceram,
ultrapassando R$ 61 bilhões.
Compreendemos
que o Orçamento da União sofre duas distorções graves. Como anteriormente
apontado, a primeira é a expansão contínua das emendas parlamentares, a segunda
pressão indevida decorre do peso dos juros da dívida pública. Não se defende
aqui o não pagamento da dívida, mas questiona-se a taxa de juros excessivamente
alta e a precedência sistemática do serviço da dívida sobre investimentos
sociais e no desenvolvimento.
Outro
ponto crítico é o financiamento da assistência estudantil. Em julho de 2025, o
presidente Lula sancionou a Lei 3.818/2024, que direciona recursos do Fundo
Social do Pré Sal ao PNAES (Política Nacional de Assistência Estudantil),
alimentando a expectativa de um aporte extra superior a R$ 2 bilhões.
No
entanto, a versão final do orçamento 2026 aprovada pelo Congresso não apenas
cortou 7,05% do orçamento geral das universidades, como reduziu especificamente
os recursos da assistência estudantil em 7,30%. Tal diminuição afetará
diretamente a permanência de estudantes de baixa renda – majoritários hoje nas
federais –, cuja evasão está frequentemente ligada à necessidade de trabalhar
ou à falta de apoio financeiro.
Torna
se, portanto, urgente que a Educação seja excluída da lógica do superávit
primário, assegurando se que as dotações orçamentárias se convertam
efetivamente em recursos financeiros. É imperativa uma mobilização social e
institucional para reverter essas duas tendências: a escalada desproporcional
das emendas parlamentares e a priorização absoluta do serviço da dívida em
detrimento do investimento público. Sem isso, o Brasil não alcançará educação
pública de qualidade, nem saúde, assistência social ou uma política industrial
que assegure desenvolvimento sustentável e soberano.
As
Universidades são parte insubstituível de um Estado forte, indutor de
desenvolvimento e planejador a longo prazo de um projeto bem concatenado de
transformação social democrática, de transição socioecológica,
reindustrialização verde e disputa por uma cultura libertadora e diversa na
Sociedade.
A
defesa das Universidades são parte de um projeto de nação distinto e superior,
superando um modelo de país colonizado, incivilizado e predatório de riquezas
naturais.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário