Gustavo
Felipe Olesko: A atual contradição espaço-tempo
Há uma
contradição espaço-tempo no hoje que muitos ignoram. É visto em diversas
esferas, seja a acadêmica, a midiática, no cotidiano, uma quase pregação de que
o hoje é dominado por formas fragmentadas. Busca-se aqui desmitificar tal
máxima construindo a noção de totalidade, a qual está até certo ponto démodé,
perdida ou dita como ultrapassada.
Diversos
teóricos da pós-modernidade ou que ela a estudaram, como Lyotard, Baubrillard,
Derrida, entre outros, frequentemente destacavam que a sociedade como um todo
adentrava um período onde uma multiplicação de signos e significantes estava em
marcha, o tempo era retalhado, a produção do espaço se tornava diversa e
difusa, onde a fluidez construída um espaço – tempo hiperlocalizado e
hiperconectado. Entravamos na era das narrativas, da subjetividade, da
destruição de relações de classe, do individualismo exacerbado. A própria noção
de aldeia global surgiria para tentar dar conta de explicar esse novo mundo.
Mas, de
um ponto de vista do capital, isso tudo não implica a perda de unidade, ao
contrário, o capital integra todas essas fragmentações dentro de um processo
global de colonização – produção – circulação – valorização de si. Oras, embora
tudo pareça fragmentado, ao mesmo tempo esse todo é capturado, centralizado e
unificado por redes logísticas, financeiras, digitais e informacionais criadas
e controladas pelos detentores do grande capital. É a aquilo que diversos
marxistas e outros teóricos críticos já teorizam há anos: o capital só
fragmenta para poder reorganizar e recompor a totalidade em seu favor.
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Espaço-tempo sob a lógica totalizante do capital
A noção
de Marx da contradição aparência e essência auxilia na compreensão da
contradição que se busca aqui entender: a aparência fragmentada é somente a
superfície das relações no modo de produção capitalista, a essência se mantém
totalizante. Exemplos do cotidiano podem ajudar nessa passagem.
Primeiro,
para muitos, as lutas por trabalho contratual, ainda com todos seus problemas,
não precarizado são apresentadas como anacrônicas. Dizem “como em um mundo
informacional alguém pode defender Carteira Assinada, direitos trabalhistas? O
tempo é do empresário de si, ele ou ela decidem como fazer sua gestão”. Oras,
com trabalho remoto, plataformização, automação assistida, algoritmos de gestão
e a vigilância digital o tempo socialmente disponível para o trabalho é
colonizado pelo capital de maneira intensa.
O
produto disto é a perda de uma separação nítida entre tempo produtivo, tempo
reprodutivo, tempo de lazer e tempo de ócio. As máximas do sindicalismo dos
fins do XIX e início do XX como “8 horas de trabalho, 8 horas de descanso, 8
horas de lazer” soam como absurdas frente a essa colonização. Em outras
palavras, apesar de a vida parecer caótica na pós-modernidade, o tempo é cada
vez mais unificado pela lógica do valor.
O mesmo
serve para as questões espaciais. Uma vez que o espaço geográfico é um todo e é
um produto social, sua fragmentação se dá, novamente, na aparência. Em essência
ele é cada vez mais conectado e interdependente, como bem Henri Lefebvre havia
destacado ainda nos anos 1960.
Hoje
com cadeias globais de produção, fluxos financeiros instantâneos conectando
cidades globais, plataformas criando “zonas de extração de valor” em qualquer
lugar (Amazon, Ifood, Uber, etc), territorialidades móveis (destacando que
móvel não deve, de forma alguma, remeter a desterritorializado ou puramente
virtual) produzem não uma fragmentação, mas sim uma totalidade redobrada: o
capital penetra e produz espaços de acordo com seus interesses para se
reproduzir de forma ampliada ou para reproduzir capital, ou como apresenta
David Harvey, o capital acelera o tempo para superar o espaço, mas ao fazer
isso ele produz o próprio espaço para sustentar sua produção de capitais ou sua
reprodução.
Rosa
Luxemburgo foi quem primeiramente analisou essa expansão do capital. Citava que
a acumulação primitiva de capital, na realidade, não havia sido um momento do
modo de produção capitalista, mas sim uma lógica contínua, mais que isso, uma
necessidade intrínseca ao capital. Esse capital precisa constantemente
incorporar esferas não-capitalistas para poder sobreviver.
Tais
esferas são comunidades camponesas, economias de subsistência, territórios
coloniais, práticas sociais não mercantilizadas, tempos não produtivos da vida,
relações domésticas e afetivas, saberes, culturas e espaços de autonomia. Ao
dominar e destruir tais esferas, se produz capital que na sequência poderá ser
ampliado noutros momentos.
A
atualidade do pensamento de Rosa é notável em diversas contribuições de
intelectuais como as de Harvey com a noção de acumulação dos despossessão; a de
subsunção da vida que Raquel Rolnik apresenta; as noções de cercamento digital,
financeiro, afetivo; as práticas que colonização do cotidiano, tão bem
esmiuçadas por Lefebvre. Hoje, este processo se dá na essência da vida
cotidiana, uma aparência de liberdade é, na realidade, um aprisionamento
material.
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Liberdade formal frente ao aprisionamento perante o capital
Mas
afinal, como ver tal leitura que soa anacrônica? Aquilo que a pós-modernidade
enxerga como multiplicidade e liberdade, na realidade o capital vê como
oportunidade de captura. Os sujeitos acreditam que estão livres e atomizados,
quando na realidade estão ainda mais governados pelas lógicas do capital e do
valor. Nisso há uma contradição, pois uma vez que o capital depende cada vez
mais de fluxos flexíveis e mutáveis, mais ele precisa inserir cada dimensão da
vida no circuito de valorização.
Buscando
uma analogia multiescalar, se pode tentar entender as próprias lógicas do
capital em duas esferas distintas: a atuação junto dos Estados, como suas
ferramentas, seja para medidas do cotidiano, seja para ações globais de grande
impacto.
Dois
exemplos de ação deste capital na fragmentação aparente para totalização em
essência ocorreram logo após a queda do socialismo real: o fim da URSS e o fim
– caótico – da Iugoslávia. Na aparência o que se deu foi a aparente liberdade
das sociedades de ambos Estados, os quais se fragmentaram. Michel Parenti faz
uma análise riquíssima do colapso iugoslavo, e mostra como as guerras que
assolaram o país e o destruíram em diversas nações, teve como objetivo a
colonização e absorção para dentro das engrenagens de produção, acumulação e
reprodução de capital, mercados, trabalhadores e matérias-primas que antes não
eram disponíveis para este.
Do
ponto de vista cotidiano, é interessante trazer uma anedota do senso comum: “só
falta me cobrarem pelo ar que respiro”. Mas, será que este já não é
indiretamente cobrado? Aqueles que vivem em porções valorizadas de grandes
cidades possuem uma ação do capital para com paisagismo e até mesmo áreas
verdes (vide os alphavilles, ecovilles e outros villes, vulgo condomínios
fechados de alto padrão ao largo do Brasil) muito intensa.
Já as
periferias da classe trabalhadora são verdadeiros “mares de concreto”, como são
parte da Zona Leste de São Paulo capital e outras áreas periféricas urbanas do
país. Ou seja, se fragmenta o espaço geográfico, porções se valorizam não
somente pela proximidade de serviços, mas sim por questões que antes eram
públicas como qualidade do ar e água.
O que
era de fora do capital, agora é de dentro, é por ele colonizado, tornando-o
ainda mais totalizante. Outros exemplos surgem: tempo de descanso transformado
em tempo de prontidão (WhatsApp do trabalho), emoções convertidas em métricas
(likes, reputação digital), deslocamento transformado em serviço privado
(Uber), sociabilidade convertida em audiência (influencers), privacidade
convertida em dado monetizável, cuidado familiar transformado em workload
informal.
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Contradição no mundo informacional
Diferente
do que o senso comum e seus críticos citam, a dialética materialista não é uma
dual. A pós-modernidade através de sua guarda pretoriana acadêmico-crítica,
buscou atacar o marxismo e outras vertentes da práxis crítica revolucionária
como sendo economicistas e presos a um mundo dual. De início a crítica já se
choca com um erro crasso: a dialética materialista não se divide em dois, como
muitos pensam, mas em três momentos, no caso, a tese, antítese e síntese, as
quais se dão em um espiral constante. Parte-se do real, para o teórico, para a
práxis em um movimento constante.
Tendo
isto em mente, é possível dizer que o capital precisa de elementos de fora para
poder se reproduzir; mas tal colonização produz crises, que por suas vez produz
novas esferas de fora do modo de produção; e isso se dá no tempo e no espaço.
Tal
movimento contraditório, em suma, fragmenta o subjetivo ao mesmo tempo em que o
unifica frente ao capital. É por isso que, hoje: o trabalho invade a vida, o
lar vira empresa, o lazer vira conteúdo, a atenção vira mercadoria, a cidade
vira logística, os afetos viram métrica, o espaço e o tempo parecem
fragmentados, mas são unificados pela valorização do valor. E isso é a forma
contemporânea da acumulação primitiva permanente.
O que
parece ser livre e em retalhos é, na realidade, uma integração violenta ao
capital, colonizando a autonomia e a criticidade de todos e todas, usando de
uma antiga lógica: dividir para conquistar e governar.
• Engenharia como questão de Estado: o
gargalo silencioso do desenvolvimento. Por Francis Bogossian
O
Brasil vive um paradoxo que ajuda a explicar parte de seus impasses históricos.
O país dispõe de um sistema científico relevante, abriga universidades
consolidadas, possui um parque industrial expressivo e retoma o tema da
reindustrialização como estratégia de desenvolvimento. O conhecimento tem
estado no centro das discussões nacionais e ainda assim, enfrenta dificuldades
constantes para transformar grandes projetos nacionais em realidade concreta,
no curto espaço de tempo. No centro desse paradoxo está um fator pouco debatido
fora dos círculos especializados: a engenharia.
O
seminário “A Nova Indústria Brasil e a Formação de Engenheiros: Subsídios
Estratégicos” organizado pela Finep, o Clube de Engenharia, Sindicato dos
Engenheiros do RJ (Senge/RJ) e Instituto de Estudos Políticos IBEP, em dezembro
de 2025, demonstrou que a escassez de engenheiros e, sobretudo, a dificuldade
de integrá-los de forma sistêmica aos desafios nacionais, não é um problema
isolado nem conjuntural. Trata-se de um problema estrutural, que vivemos em
muitas décadas, e que afastaram a engenharia das decisões estratégicas do país.
Sabemos que não é possível falar em soberania tecnológica, transição
energética, infraestrutura resiliente ou neoindustrialização sem colocar a
engenharia no centro do projeto nacional e esta é uma preocupação que perpassa
o governo, a indústria e a academia.Em países que avançaram de forma
consistente, a formação de recursos humanos em áreas críticas, sempre foi
tratada como uma espécie de infraestrutura do desenvolvimento. Alemanha, Coreia
do Sul, Estados Unidos, China, Canadá, Finlândia e Índia seguiram caminhos
distintos, mas com um ponto em comum: reconheceram que crescimento econômico,
inovação e bem-estar social são construções planejadas, calculadas e executadas
por profissionais qualificados. O desenvolvimento, nesses casos, não acontece
por acaso, ele é “engenheirado”.
No
Brasil, a trajetória foi mais errática. Entre ciclos de industrialização e
períodos de reprimarização, a engenharia perdeu centralidade. Parte da formação
passou a se distanciar das necessidades reais da indústria, da infraestrutura e
das novas fronteiras tecnológicas. Ao mesmo tempo, o próprio tecido produtivo
reduziu sua capacidade de demandar soluções complexas, o que enfraqueceu o
vínculo entre formação, inovação e produção.
O
desafio atual não é apenas formar mais engenheiros, mas alinhar formação com
uma estratégia de desenvolvimento, que atenda aos anseios da sociedade, por
mais crescimento e inclusão. Durante o seminário, um dos aspectos em debate foi
o descompasso entre o que a indústria contemporânea (cada vez mais digital,
sustentável e integrada) necessita e o conteúdo que muitos cursos de engenharia
ainda oferecem. Esse desalinhamento não decorre de falta de capacidade técnica
ou intelectual, mas da ausência, por longos períodos, de um horizonte claro de
atuação deste profissional no cenário nacional.
Qualquer
discussão sobre engenharia no Brasil precisa incluir a formação dos estudantes
antes do ingresso na universidade. A fragilidade do ensino médio, especialmente
em matemática e ciências, compromete a base sobre a qual se constrói toda a
formação posterior. Mais do que índices de evasão ou desempenho, trata-se de um
problema de percepção: muitos jovens deixam de enxergar a engenharia como um
caminho possível, relevante e conectado a um projeto coletivo de futuro.
Nos
países que conseguiram mudar esse quadro, o estímulo à engenharia começa cedo e
está associado a uma narrativa clara de desenvolvimento. A formação técnica
dialoga com a indústria, o ensino básico é tratado como parte da política
tecnológica e a engenharia é apresentada como uma profissão capaz de gerar
impacto econômico, social e ambiental para toda a sociedade.
Outro
ponto central é a relação entre universidades e o setor produtivo. As
universidades brasileiras avançaram de forma significativa nas últimas décadas
com a expansão dos cursos e novos campos no interior do país, que produzem
conhecimento de alto nível, mas que não chegam na ponta do setor industrial.
Neste ciclo, a indústria inova menos do que poderia, e, consequentemente,
absorve menos mão de obra qualificada. Essa distância não é apenas
institucional; ela envolve cultura, incentivos, modelos de financiamento e
formas de avaliação que nem sempre favorecem a cooperação.
Sem
desafios reais, projetos estruturantes e interação contínua com a indústria, a
formação tende a se tornar pouco conectada às transformações do mundo do
trabalho. Experiências internacionais mostram que os melhores resultados surgem
quando universidades, empresas e Estado atuam de forma articulada,
compartilhando riscos, investimentos e objetivos.
Nesse
sentido, a agenda da Nova Indústria Brasil representa uma inflexão importante.
Ao recolocar a política industrial no centro da estratégia de desenvolvimento,
o país volta a criar demanda concreta por engenharia, inovação e soluções
tecnológicas próprias. Programas de financiamento, centros de pesquisa,
parcerias público-privadas e projetos estruturantes sinalizam que há espaço
para reconstruir um ambiente no qual a engenharia possa florescer e cumprir
plenamente seu papel.
Os
dados recentes de investimento em inovação indicam que essa capacidade existe.
Sempre que surgem oportunidades consistentes, com escala e horizonte de longo
prazo, a resposta é imediata: projetos de alto nível, parcerias robustas e
propostas tecnicamente sofisticadas aparecem em volume muito superior ao
esperado. Isso demonstra que a engenharia brasileira está viva, preparada e
pronta para contribuir quando encontra condições adequadas.
O
desafio, portanto, não é apenas ampliar recursos, mas garantir continuidade,
coordenação e integração entre políticas industriais, educacionais e
científicas. Tratar a engenharia como infraestrutura estratégica, tão essencial
quanto energia, transportes ou comunicações deve ser condição para que a Nova
Indústria Brasil se traduza em resultados duradouros.
“Engenheirar
o país” não é uma metáfora vazia. Significa planejar com visão de longo prazo,
executar com competência técnica, inovar com base científica sólida e formar
profissionais capazes de transformar conhecimento em soluções concretas.
Significa trocar improviso por método e descontinuidade por estratégia.
Sem
isso, não haverá transição energética consistente, nem infraestrutura
resiliente, nem autonomia tecnológica. O Brasil precisa decidir se continuará
apenas consumindo tecnologia ou se assumirá o papel de produzi-la, adaptá-la e
liderá-la em áreas estratégicas.
Em seu
recente encontro com o Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação, o presidente
Lula sintetizou esse desafio com precisão ao afirmar: “Temos a convicção de que
investimento em ciência e tecnologia tem um objetivo principal: encontrar as
melhores soluções para os grandes desafios nacionais… e na construção de um
Brasil cada vez mais capaz de enfrentar vulnerabilidades históricas, liderar
áreas estratégicas e transformar conhecimento em bem-estar para toda a
população.”
O
desafio não é pequeno, mas certamente a formação de recursos humanos é o
caminho entre essa convicção e a realidade. É ela que transforma intenção em
obra, ciência em tecnologia e projeto em país.
Fonte:
A Terra é Redonda/Brasil 247

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