quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Gustavo Felipe Olesko: A atual contradição espaço-tempo

Há uma contradição espaço-tempo no hoje que muitos ignoram. É visto em diversas esferas, seja a acadêmica, a midiática, no cotidiano, uma quase pregação de que o hoje é dominado por formas fragmentadas. Busca-se aqui desmitificar tal máxima construindo a noção de totalidade, a qual está até certo ponto démodé, perdida ou dita como ultrapassada.

Diversos teóricos da pós-modernidade ou que ela a estudaram, como Lyotard, Baubrillard, Derrida, entre outros, frequentemente destacavam que a sociedade como um todo adentrava um período onde uma multiplicação de signos e significantes estava em marcha, o tempo era retalhado, a produção do espaço se tornava diversa e difusa, onde a fluidez construída um espaço – tempo hiperlocalizado e hiperconectado. Entravamos na era das narrativas, da subjetividade, da destruição de relações de classe, do individualismo exacerbado. A própria noção de aldeia global surgiria para tentar dar conta de explicar esse novo mundo.

Mas, de um ponto de vista do capital, isso tudo não implica a perda de unidade, ao contrário, o capital integra todas essas fragmentações dentro de um processo global de colonização – produção – circulação – valorização de si. Oras, embora tudo pareça fragmentado, ao mesmo tempo esse todo é capturado, centralizado e unificado por redes logísticas, financeiras, digitais e informacionais criadas e controladas pelos detentores do grande capital. É a aquilo que diversos marxistas e outros teóricos críticos já teorizam há anos: o capital só fragmenta para poder reorganizar e recompor a totalidade em seu favor.

<><> Espaço-tempo sob a lógica totalizante do capital

A noção de Marx da contradição aparência e essência auxilia na compreensão da contradição que se busca aqui entender: a aparência fragmentada é somente a superfície das relações no modo de produção capitalista, a essência se mantém totalizante. Exemplos do cotidiano podem ajudar nessa passagem.

Primeiro, para muitos, as lutas por trabalho contratual, ainda com todos seus problemas, não precarizado são apresentadas como anacrônicas. Dizem “como em um mundo informacional alguém pode defender Carteira Assinada, direitos trabalhistas? O tempo é do empresário de si, ele ou ela decidem como fazer sua gestão”. Oras, com trabalho remoto, plataformização, automação assistida, algoritmos de gestão e a vigilância digital o tempo socialmente disponível para o trabalho é colonizado pelo capital de maneira intensa.

O produto disto é a perda de uma separação nítida entre tempo produtivo, tempo reprodutivo, tempo de lazer e tempo de ócio. As máximas do sindicalismo dos fins do XIX e início do XX como “8 horas de trabalho, 8 horas de descanso, 8 horas de lazer” soam como absurdas frente a essa colonização. Em outras palavras, apesar de a vida parecer caótica na pós-modernidade, o tempo é cada vez mais unificado pela lógica do valor.

O mesmo serve para as questões espaciais. Uma vez que o espaço geográfico é um todo e é um produto social, sua fragmentação se dá, novamente, na aparência. Em essência ele é cada vez mais conectado e interdependente, como bem Henri Lefebvre havia destacado ainda nos anos 1960.

Hoje com cadeias globais de produção, fluxos financeiros instantâneos conectando cidades globais, plataformas criando “zonas de extração de valor” em qualquer lugar (Amazon, Ifood, Uber, etc), territorialidades móveis (destacando que móvel não deve, de forma alguma, remeter a desterritorializado ou puramente virtual) produzem não uma fragmentação, mas sim uma totalidade redobrada: o capital penetra e produz espaços de acordo com seus interesses para se reproduzir de forma ampliada ou para reproduzir capital, ou como apresenta David Harvey, o capital acelera o tempo para superar o espaço, mas ao fazer isso ele produz o próprio espaço para sustentar sua produção de capitais ou sua reprodução.

Rosa Luxemburgo foi quem primeiramente analisou essa expansão do capital. Citava que a acumulação primitiva de capital, na realidade, não havia sido um momento do modo de produção capitalista, mas sim uma lógica contínua, mais que isso, uma necessidade intrínseca ao capital. Esse capital precisa constantemente incorporar esferas não-capitalistas para poder sobreviver.

Tais esferas são comunidades camponesas, economias de subsistência, territórios coloniais, práticas sociais não mercantilizadas, tempos não produtivos da vida, relações domésticas e afetivas, saberes, culturas e espaços de autonomia. Ao dominar e destruir tais esferas, se produz capital que na sequência poderá ser ampliado noutros momentos.

A atualidade do pensamento de Rosa é notável em diversas contribuições de intelectuais como as de Harvey com a noção de acumulação dos despossessão; a de subsunção da vida que Raquel Rolnik apresenta; as noções de cercamento digital, financeiro, afetivo; as práticas que colonização do cotidiano, tão bem esmiuçadas por Lefebvre. Hoje, este processo se dá na essência da vida cotidiana, uma aparência de liberdade é, na realidade, um aprisionamento material.

<><> Liberdade formal frente ao aprisionamento perante o capital

Mas afinal, como ver tal leitura que soa anacrônica? Aquilo que a pós-modernidade enxerga como multiplicidade e liberdade, na realidade o capital vê como oportunidade de captura. Os sujeitos acreditam que estão livres e atomizados, quando na realidade estão ainda mais governados pelas lógicas do capital e do valor. Nisso há uma contradição, pois uma vez que o capital depende cada vez mais de fluxos flexíveis e mutáveis, mais ele precisa inserir cada dimensão da vida no circuito de valorização.

Buscando uma analogia multiescalar, se pode tentar entender as próprias lógicas do capital em duas esferas distintas: a atuação junto dos Estados, como suas ferramentas, seja para medidas do cotidiano, seja para ações globais de grande impacto.

Dois exemplos de ação deste capital na fragmentação aparente para totalização em essência ocorreram logo após a queda do socialismo real: o fim da URSS e o fim – caótico – da Iugoslávia. Na aparência o que se deu foi a aparente liberdade das sociedades de ambos Estados, os quais se fragmentaram. Michel Parenti faz uma análise riquíssima do colapso iugoslavo, e mostra como as guerras que assolaram o país e o destruíram em diversas nações, teve como objetivo a colonização e absorção para dentro das engrenagens de produção, acumulação e reprodução de capital, mercados, trabalhadores e matérias-primas que antes não eram disponíveis para este.

Do ponto de vista cotidiano, é interessante trazer uma anedota do senso comum: “só falta me cobrarem pelo ar que respiro”. Mas, será que este já não é indiretamente cobrado? Aqueles que vivem em porções valorizadas de grandes cidades possuem uma ação do capital para com paisagismo e até mesmo áreas verdes (vide os alphavilles, ecovilles e outros villes, vulgo condomínios fechados de alto padrão ao largo do Brasil) muito intensa.

Já as periferias da classe trabalhadora são verdadeiros “mares de concreto”, como são parte da Zona Leste de São Paulo capital e outras áreas periféricas urbanas do país. Ou seja, se fragmenta o espaço geográfico, porções se valorizam não somente pela proximidade de serviços, mas sim por questões que antes eram públicas como qualidade do ar e água.

O que era de fora do capital, agora é de dentro, é por ele colonizado, tornando-o ainda mais totalizante. Outros exemplos surgem: tempo de descanso transformado em tempo de prontidão (WhatsApp do trabalho), emoções convertidas em métricas (likes, reputação digital), deslocamento transformado em serviço privado (Uber), sociabilidade convertida em audiência (influencers), privacidade convertida em dado monetizável, cuidado familiar transformado em workload informal.

<><> Contradição no mundo informacional

Diferente do que o senso comum e seus críticos citam, a dialética materialista não é uma dual. A pós-modernidade através de sua guarda pretoriana acadêmico-crítica, buscou atacar o marxismo e outras vertentes da práxis crítica revolucionária como sendo economicistas e presos a um mundo dual. De início a crítica já se choca com um erro crasso: a dialética materialista não se divide em dois, como muitos pensam, mas em três momentos, no caso, a tese, antítese e síntese, as quais se dão em um espiral constante. Parte-se do real, para o teórico, para a práxis em um movimento constante.

Tendo isto em mente, é possível dizer que o capital precisa de elementos de fora para poder se reproduzir; mas tal colonização produz crises, que por suas vez produz novas esferas de fora do modo de produção; e isso se dá no tempo e no espaço.

Tal movimento contraditório, em suma, fragmenta o subjetivo ao mesmo tempo em que o unifica frente ao capital. É por isso que, hoje: o trabalho invade a vida, o lar vira empresa, o lazer vira conteúdo, a atenção vira mercadoria, a cidade vira logística, os afetos viram métrica, o espaço e o tempo parecem fragmentados, mas são unificados pela valorização do valor. E isso é a forma contemporânea da acumulação primitiva permanente.

O que parece ser livre e em retalhos é, na realidade, uma integração violenta ao capital, colonizando a autonomia e a criticidade de todos e todas, usando de uma antiga lógica: dividir para conquistar e governar.

•        Engenharia como questão de Estado: o gargalo silencioso do desenvolvimento. Por Francis Bogossian

O Brasil vive um paradoxo que ajuda a explicar parte de seus impasses históricos. O país dispõe de um sistema científico relevante, abriga universidades consolidadas, possui um parque industrial expressivo e retoma o tema da reindustrialização como estratégia de desenvolvimento. O conhecimento tem estado no centro das discussões nacionais e ainda assim, enfrenta dificuldades constantes para transformar grandes projetos nacionais em realidade concreta, no curto espaço de tempo. No centro desse paradoxo está um fator pouco debatido fora dos círculos especializados: a engenharia.

O seminário “A Nova Indústria Brasil e a Formação de Engenheiros: Subsídios Estratégicos” organizado pela Finep, o Clube de Engenharia, Sindicato dos Engenheiros do RJ (Senge/RJ) e Instituto de Estudos Políticos IBEP, em dezembro de 2025, demonstrou que a escassez de engenheiros e, sobretudo, a dificuldade de integrá-los de forma sistêmica aos desafios nacionais, não é um problema isolado nem conjuntural. Trata-se de um problema estrutural, que vivemos em muitas décadas, e que afastaram a engenharia das decisões estratégicas do país. Sabemos que não é possível falar em soberania tecnológica, transição energética, infraestrutura resiliente ou neoindustrialização sem colocar a engenharia no centro do projeto nacional e esta é uma preocupação que perpassa o governo, a indústria e a academia.Em países que avançaram de forma consistente, a formação de recursos humanos em áreas críticas, sempre foi tratada como uma espécie de infraestrutura do desenvolvimento. Alemanha, Coreia do Sul, Estados Unidos, China, Canadá, Finlândia e Índia seguiram caminhos distintos, mas com um ponto em comum: reconheceram que crescimento econômico, inovação e bem-estar social são construções planejadas, calculadas e executadas por profissionais qualificados. O desenvolvimento, nesses casos, não acontece por acaso, ele é “engenheirado”.

No Brasil, a trajetória foi mais errática. Entre ciclos de industrialização e períodos de reprimarização, a engenharia perdeu centralidade. Parte da formação passou a se distanciar das necessidades reais da indústria, da infraestrutura e das novas fronteiras tecnológicas. Ao mesmo tempo, o próprio tecido produtivo reduziu sua capacidade de demandar soluções complexas, o que enfraqueceu o vínculo entre formação, inovação e produção.

O desafio atual não é apenas formar mais engenheiros, mas alinhar formação com uma estratégia de desenvolvimento, que atenda aos anseios da sociedade, por mais crescimento e inclusão. Durante o seminário, um dos aspectos em debate foi o descompasso entre o que a indústria contemporânea (cada vez mais digital, sustentável e integrada) necessita e o conteúdo que muitos cursos de engenharia ainda oferecem. Esse desalinhamento não decorre de falta de capacidade técnica ou intelectual, mas da ausência, por longos períodos, de um horizonte claro de atuação deste profissional no cenário nacional.

Qualquer discussão sobre engenharia no Brasil precisa incluir a formação dos estudantes antes do ingresso na universidade. A fragilidade do ensino médio, especialmente em matemática e ciências, compromete a base sobre a qual se constrói toda a formação posterior. Mais do que índices de evasão ou desempenho, trata-se de um problema de percepção: muitos jovens deixam de enxergar a engenharia como um caminho possível, relevante e conectado a um projeto coletivo de futuro.

Nos países que conseguiram mudar esse quadro, o estímulo à engenharia começa cedo e está associado a uma narrativa clara de desenvolvimento. A formação técnica dialoga com a indústria, o ensino básico é tratado como parte da política tecnológica e a engenharia é apresentada como uma profissão capaz de gerar impacto econômico, social e ambiental para toda a sociedade.

Outro ponto central é a relação entre universidades e o setor produtivo. As universidades brasileiras avançaram de forma significativa nas últimas décadas com a expansão dos cursos e novos campos no interior do país, que produzem conhecimento de alto nível, mas que não chegam na ponta do setor industrial. Neste ciclo, a indústria inova menos do que poderia, e, consequentemente, absorve menos mão de obra qualificada. Essa distância não é apenas institucional; ela envolve cultura, incentivos, modelos de financiamento e formas de avaliação que nem sempre favorecem a cooperação.

Sem desafios reais, projetos estruturantes e interação contínua com a indústria, a formação tende a se tornar pouco conectada às transformações do mundo do trabalho. Experiências internacionais mostram que os melhores resultados surgem quando universidades, empresas e Estado atuam de forma articulada, compartilhando riscos, investimentos e objetivos.

Nesse sentido, a agenda da Nova Indústria Brasil representa uma inflexão importante. Ao recolocar a política industrial no centro da estratégia de desenvolvimento, o país volta a criar demanda concreta por engenharia, inovação e soluções tecnológicas próprias. Programas de financiamento, centros de pesquisa, parcerias público-privadas e projetos estruturantes sinalizam que há espaço para reconstruir um ambiente no qual a engenharia possa florescer e cumprir plenamente seu papel.

Os dados recentes de investimento em inovação indicam que essa capacidade existe. Sempre que surgem oportunidades consistentes, com escala e horizonte de longo prazo, a resposta é imediata: projetos de alto nível, parcerias robustas e propostas tecnicamente sofisticadas aparecem em volume muito superior ao esperado. Isso demonstra que a engenharia brasileira está viva, preparada e pronta para contribuir quando encontra condições adequadas.

O desafio, portanto, não é apenas ampliar recursos, mas garantir continuidade, coordenação e integração entre políticas industriais, educacionais e científicas. Tratar a engenharia como infraestrutura estratégica, tão essencial quanto energia, transportes ou comunicações deve ser condição para que a Nova Indústria Brasil se traduza em resultados duradouros.

“Engenheirar o país” não é uma metáfora vazia. Significa planejar com visão de longo prazo, executar com competência técnica, inovar com base científica sólida e formar profissionais capazes de transformar conhecimento em soluções concretas. Significa trocar improviso por método e descontinuidade por estratégia.

Sem isso, não haverá transição energética consistente, nem infraestrutura resiliente, nem autonomia tecnológica. O Brasil precisa decidir se continuará apenas consumindo tecnologia ou se assumirá o papel de produzi-la, adaptá-la e liderá-la em áreas estratégicas.

Em seu recente encontro com o Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação, o presidente Lula sintetizou esse desafio com precisão ao afirmar: “Temos a convicção de que investimento em ciência e tecnologia tem um objetivo principal: encontrar as melhores soluções para os grandes desafios nacionais… e na construção de um Brasil cada vez mais capaz de enfrentar vulnerabilidades históricas, liderar áreas estratégicas e transformar conhecimento em bem-estar para toda a população.”

O desafio não é pequeno, mas certamente a formação de recursos humanos é o caminho entre essa convicção e a realidade. É ela que transforma intenção em obra, ciência em tecnologia e projeto em país.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasil 247

 

Nenhum comentário: