terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Jesus Cristo nasceu em Belém, Palestina

Na véspera de Natal, milhões de cristãos ao redor do mundo celebram o nascimento de Jesus Cristo como uma mensagem de amor, justiça e dignidade humana. No entanto, poucos param para refletir sobre uma verdade histórica inegável que é deliberadamente silenciada hoje: Jesus Cristo nasceu em Belém, Palestina, viveu como palestino e morreu sob um regime de ocupação.

Belém não é um símbolo abstrato ou um cenário mítico dissociado da realidade. É uma cidade palestina viva e ferida, cercada hoje por muros, postos militares e assentamentos ilegais. A própria terra onde o menino Jesus nasceu continua sendo palco de perseguição, expulsão e desumanização.

Jesus Cristo nasceu pobre, em uma manjedoura, perseguido desde o nascimento pelos poderes políticos de sua época. Ele teve que fugir com sua família para salvar sua vida. Foi escolhido a dedo, vigiado, acusado e, finalmente, executado por um sistema colonial que temia sua mensagem de justiça e libertação. Não é essa a mesma lógica que está sendo aplicada contra o povo palestino hoje?

Se Jesus Cristo tivesse nascido nesta época, o sionismo o rotularia como uma ameaça, o monitoraria, o acusaria de incitação, o prenderia sem acusação ou o assassinaria sob o pretexto de “segurança”. Maria seria interrogada em um posto de controle. José precisaria de uma permissão para trabalhar. E Belém estaria cercada por muros e soldados.

Esta não é uma metáfora exagerada. É a realidade diária do povo palestino.

É profundamente contraditório que, enquanto missas são celebradas e luzes de Natal são acesas, os cristãos palestinos — descendentes diretos da terra de Cristo — sejam expulsos, suas igrejas atacadas e sua presença reduzida a menos de 2% da população, precisamente por causa da ocupação e suas políticas sistemáticas.

Jesus Cristo não nasceu europeu. Ele não nasceu ocidental. Ele nasceu palestino, falava a língua do seu povo, caminhou pela sua terra e enfrentou a opressão do seu tempo com uma mensagem clara: a verdade liberta, a justiça incomoda e o poder injusto sempre teme o amor consciente.

Da União Palestina da América Latina (UPAL), afirmamos que defender a Palestina hoje é honrar a mensagem de Jesus Cristo, não traí-la. O silêncio diante da injustiça não é neutralidade; é cumplicidade. E celebrar o Natal ignorando o sofrimento do povo onde Cristo nasceu é esvaziá-lo do seu significado mais profundo.

Neste Natal, lembramos que Belém permanece crucificada, que a Palestina continua a aguardar a ressurreição e que a verdadeira fé não se mede por rituais, mas pela defesa ativa da dignidade humana.

Jesus Cristo nasceu na Palestina.

E a Palestina continua a aguardar justiça.

•        Washington Araújo: E se Jesus tivesse nascido em Gaza?

Há mais de dois mil anos, Belém era uma vila pobre submetida ao jugo do Império Romano. Soldados vigiavam ruas estreitas, censos, impostos esmagavam famílias, e o medo organizava a vida cotidiana. Foi nesse cenário de dominação e penúria que um casal deslocado, Maria e José, percorreu portas fechadas até que uma manjedoura improvisada, entre animais, se tornasse abrigo. O nascimento celebrado pelo cristianismo não ocorreu no centro do poder, mas à margem dele. Não havia lugar para eles nas estalagens — havia controle, vigilância e exclusão.

A força dessa narrativa não reside apenas na dimensão religiosa, mas na sua perturbadora atualidade.

O Natal nasce como denúncia silenciosa: a vida insistindo em existir quando a ordem estabelecida decide que não há espaço para os frágeis. O presépio é, antes de tudo, uma cena política. Ele expõe um sistema incapaz de acolher quem não produz, quem não “serve”, quem não se encaixa no fluxo normalizado do mundo.

Hoje, a cerca de 70 quilômetros dali, Gaza devolve essa imagem em chave trágica e contemporânea. Antes da guerra iniciada em outubro de 2023, o território abrigava cerca de 2,3 milhões de pessoas; desde então, estimativas apontam para uma população em torno de 2,1 milhões, não porque a vida tenha encolhido, mas porque foi interrompida, ferida, arrancada de seus lugares. Quase toda essa população foi deslocada ao menos uma vez, muitas vezes repetidamente, numa geografia onde a ideia de “lar” se tornou provisória, frágil, desmontável.

Quando se fala em Gaza, os números costumam falhar por excesso de hábito: viram estatística, painel, argumento. Mas eles carregam um peso moral incontornável. Indicam a escala de uma vida coletiva empurrada para fora de si. Hospitais atingidos, bairros reduzidos a escombros, famílias inteiras em deslocamentos sucessivos, crianças nascendo em tendas improvisadas, sem água potável, eletricidade ou medicamentos. Em vez de discutir apenas “zonas”, “alvos” e “operações”, a pergunta decisiva permanece intocada: onde está o lugar humano quando tudo o que deveria protegê-lo se converte em risco?

Belém, por sua vez, é hoje uma pequena cidade com cerca de 30 mil habitantes, inserida num Estado altamente militarizado, onde a presença constante de forças armadas e controles rígidos molda o cotidiano. O turismo definha, a economia local encolhe, e o Natal acontece em tom contido, quase sussurrado. A cidade onde nasceu o símbolo maior da esperança cristã celebra cercada por um mundo em convulsão.

É nesse ponto que o Natal deixa de ser rito e se torna pergunta moral.

Não há coerência em celebrar a manjedoura enquanto se normaliza a morte de crianças como ruído inevitável do mundo. A espiritualidade, quando existe, não é fuga: é responsabilidade. É recusar a anestesia que transforma dor em abstração. É chamar as coisas pelo nome, não para inflamar ódios, mas para impedir que a linguagem seja cúmplice do apagamento.

E então a reflexão chega sem ornamento, como deve ser: e se Jesus tivesse nascido em Gaza nos últimos três anos?

Teria sobrevivido aos bombardeios? Em que rua haveria abrigo?

Em qual hospital haveria incubadora?

Teria havido tempo para o nome antes da sirene?

Essas perguntas não buscam efeito retórico; medem a distância entre a história que veneramos e o presente que aceitamos. Se o nascimento do Príncipe da Paz ocorreu entre portas fechadas e precariedade, o mínimo que se exige de nós é não transformar a precariedade alheia em paisagem distante, consumível, descartável.

Neste Natal, escolho estar atento e forte. Não confundo tolerância com conivência, nem silêncio com paz. Que a mesa seja simples, a palavra responsável e o gesto consequente. Que a esperança não seja ornamento, mas prática cotidiana. E que a alegria — se vier — nasça do compromisso com a vida inteira, indivisível e comum a todos, não somos todos “ondas de um mesmo mar, estrelas de um mesmo céu?”

 

Fonte: União Palestina da América Latina – UPAL/Brasil 247

 

Nenhum comentário: