sábado, 10 de janeiro de 2026

'Argentina atua de forma subordinada à agenda reacionária de Trump', diz Myriam Bregman

Enquanto grandes meios internacionais propagam uma narrativa de recuperação econômica na Argentina de Javier Milei, a realidade da maioria da população é de precarização, repressão e subordinação geopolítica. Em entrevista exclusiva a Opera Mundi, a deputada e advogada de direitos humanos Myriam Bregman (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade/PTS) desmontou o mito do “milagre” liberal, revelando que o plano econômico do governo “só seguiu adiante com um maciço apoio dos Estados Unidos“, incluindo desembolsos diretos do Tesouro norte-americano.

Essa dependência, segundo a parlamentar, transformou a Argentina em “um país totalmente subordinado” no eixo reacionário liderado por Donald Trump, votando ao lado de EUA e Israel contra a condenação da tortura na ONU – “algo muito grave para um país com nossa tradição de ditaduras”.

Diante deste cenário, a deputada anticapitalista defende a construção de uma alternativa classista e internacionalista. Ela explica que sua bancada luta no Congresso argentino por medidas como a jornada de trabalho de 6 horas e licenças parentais iguais, mas enfatiza que a batalha decisiva é extraparlamentar. “O que há que construir é uma política que derrote esse governo na rua“, afirmou.

>>>> Leia a entrevista na íntegra:

·        Myriam, diversos meios ocidentais vendem uma melhora na economia e na questão social da Argentina após a chegada de Javier Milei. Qual é a realidade do país?

Myriam Bregman: as políticas econômicas de Milei impactaram fortemente os setores sociais de trabalhadores, principalmente da economia informal, ou seja, trabalhadores precarizados. O plano econômico que estava praticamente esgotado obteve um grande apoio de ajuda dos Estados Unidos. Dessa forma, o governo Trump não só fez desembolsos enormes através do Fundo Monetário Internacional (FMI), mas também, dias antes das eleições, interferiu a partir do próprio tesouro norte-americano, algo que os EUA usam excepcionalmente, para sustentar a Argentina.

Dos países alinhados com Trump e com o que se tem chamado de internacional reacionária, vemos como o governo de Milei tornou a Argentina totalmente subordinada e o econômico está condicionando as políticas externas. Por exemplo, quando o governo argentino se opôs a condenar a tortura na ONU, considerando o histórico de ditaduras militar, é muito grave. Apenas EUA, Israel e Argentina votaram contra essa resolução.

·        Como a senhora vê o alinhamento da Argentina com os EUA e Israel, e o distanciamento de blocos como o BRICS, Mercosul e a relação com países como a China?

Há uma dupla discussão. Por um lado, a Argentina está totalmente alinhada com EUA, com Israel e acredito que é um dos poucos aliados incondicionais que restam ao genocida [Benjamin] Netanyahu. Isto implica que na Argentina falar da Palestina ou condenar o genocídio traz fortes represálias. Durante o juramento na Câmara de Deputados para tomar posse em 3 de dezembro, juramos também pelo povo palestino e foram apresentados projetos para nos expulsar, apenas por termos mencionado.

Agora, economicamente a China também tem muita influência na Argentina. Por exemplo, com um dos empréstimos que sustenta o valor da moeda argentina é chinês, o acordo cambial “swap” (troca), que permite à Argentina acessar liquidez para pagar dívidas (como ao FMI) e financiar comércio, sem usar dólares. Quando Milei assumiu, houve um desejo de romper com Pequim, mas logo percebeu que não podia, devido a esse acordo que fortaleceu a nossa economia.

·        Como você avalia a continuidade da gestão de Milei na Argentina?

É uma gestão marcada pela dependência econômica dos EUA, com a qual se Washington retirar seu plano econômico, nosso país entra em crise rapidamente, ou seja, é um plano muito frágil. Politicamente vemos uma queda de 15 pontos percentuais no apoio da população em dois anos, de novembro de 2023 a outubro de 2025. Dessa forma, o apoio popular está retrocedendo, principalmente na juventude mais pobre e precária, que estava entusiasmada com o discurso, mas que rapidamente percebeu que era um programa conservador, neoliberal, como tantos outros. Assim, o governo está atravessado pela dependência econômica total dos EUA e por uma perda de apoio popular importante.

A central sindical da Argentina, que segue tendo muita importância e influência, como é a CGT (Confederação Geral do Trabalho), está totalmente alinhada com o peronismo e inclusive agora que há uma reforma trabalhista muito retrógrada, regressiva, que o governo está impulsionando, só agora chamam a uma mobilização.

Ou seja, a oposição tradicional, a oposição burguesa, tem muita responsabilidade em que Javier Milei possa seguir governando, apesar de todos os ataques que está fazendo, que está ajustando e demais. É um governo fortemente repressivo, mas que por sua vez tem apoio da oposição, em alguns casos explícito, em outro caso porque não se enfrenta o plano de Milei.

Isto é importante de se ter em conta porque cada vez que se chamaram ações em defesa das universidades, em defesa da diversidade sexual, as ruas se encheram de gente, inclusive quando a CGT chamou uma greve, os trabalhadores e trabalhadoras pararam. Ou seja, cada vez que se convoca à mobilização e à expressão do descontentamento com o governo, a sociedade se expressa, o povo trabalhador se expressa, mas as direções sindicais, as direções dos movimentos sociais em sua maioria vêm tratando de que meu país siga avançando com seu plano sem muito conflito, com uma permanência e uma incidência na vida social e política muito grande. Ou seja, é um fator determinante.

Nas eleições de 26 de outubro fomos a terceira força, ou seja, saímos em terceiro, tanto na cidade de Buenos Aires, que é o centro político do país, onde eu obtive quase 10% dos votos, e na província de Buenos Aires também terceira força, onde ingressaram dois deputados. Além disso, só ingressaram deputados do peronismo, da força de meu país e da esquerda.

Ou seja, claramente somos uma terceira força nos principais distritos do país, com deputados nacionais que vamos renovando nossas cadeiras através dos anos e com muita presença tanto em sindicatos como nas universidades. Ou seja, a esquerda, claramente a esquerda que nós encabeçamos, a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade como expressão política, meu partido o PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas) na Frente de Esquerda como referente desse setor, é claramente um polo político de independência de classe e anticapitalista.

·        Em relação ao escândalo de corrupção que envolve Javier Milei e sua irmã Karina, como o país está lidando agora sobre o tema? Você vê a Justiça interessada no caso?

Impactou muito. Primeiro esteve o caso “$LIBRA”, que envolve o presidente pelas criptomoedas. Logo em seguida se conhece outro caso que envolve os fundos para a deficiência, que também impactou socialmente. Há cantos nos estádios de futebol, nos shows, contra a corrupção do governo. Nesse pior momento que estava o governo, pressionado pelas denúncias de corrupção, foi quando chegou a ajuda do secretário do Tesouro dos EUA e isso lhe permitiu manter estável o dólar e passar adiante as eleições. Mas como te digo, perdeu muito apoio se olha em quantidade de votos o que tem tido o governo, e um dos grandes motivos são os escândalos de corrupção.

·        A esquerda e o peronismo não kirchnerista aparecem fragmentados frente a Milei. O que é necessário para construir uma frente unida e eficaz de oposição que vá além das manifestações de rua?

O que há que construir é uma política que derrote esse governo que está lançando uma série de medidas contra o meio ambiente, contra os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, contra os direitos dos aposentados, e é agora que há que lutar. E o primeiro que há que fazer é isso: derrotá-lo na rua.

Politicamente, as frentes que se têm feito com a ideia de chegar ao governo e somente se opor à ultradireita que avança, nós vemos que fracassaram. De fato, os governos que tentam gerir o capitalismo sem questionar as condições estruturais em que estão nossos países, a curta ou a longa prazo fracassam, e isto é grave porque vimos no caso da Argentina que o fracasso do governo de Alberto Fernández, de Cristina Fernández de Kirchner, que agrupou todo o espectro – acho que ficou fora a ultradireita e a esquerda – agrupou todo o espectro de centro-esquerda com todos os referentes sociais dentro, referentes sindicais, ao não ter um programa para discutir a relação com o FMI, ao não ter um programa de saída para a crise que afete os interesses dos poderosos, dos grandes capitalistas, terminou fracassando estrepitosamente e abrindo a porta para Milei.

Nós dizemos que não há que repetir essas experiências que fracassaram, que o que temos que colocar de pé é um grande partido dos trabalhadores que tenha como determinante a independência política da classe trabalhadora, que não dependa de nenhum setor burguês, que não dependa das burocracias sindicais e que tenha um programa de ruptura com o capitalismo.

·        Em algum momento, os argentinos foram às ruas e foram reprimidos de forma ostensiva. Como o governo tem lidado com o direito à manifestação? Há espaço para o diálogo social, ou a estratégia é a criminalização do dissenso?

Eu sou advogada defensora dos direitos humanos. É um governo totalmente repressivo que impede a mobilização, e grande parte do respeito que hoje a esquerda tem em nosso país é porque nunca baixamos os braços, porque apesar da repressão sempre nos colocamos na frente, inclusive nós como referentes políticos nos colocamos à frente nas mobilizações que são duramente reprimidas. É um governo com muita perseguição.

Quando têm convocatórias amplas, a sociedade, seja do setor estudantil, de trabalhadores, das mulheres e da diversidade sexual, nos expressamos, saímos à rua e inclusive têm tido que retirar a repressão quando são muito massivas.

Por exemplo: nós temos um companheiro advogado que perdeu a visão de um olho durante a repressão porque diretamente havia ordem de atirar na cara. Um jornalista, arrancaram metade do crânio. Ou seja, assim são as mobilizações na Argentina.

Eu mesma tive que fazer um tratamento para os olhos, por conta do efeito dos gases lacrimogêneos que me causaram pela utilizaram nas mobilizações. Ou seja, há uma repressão muito dura.

·        A ex-presidente Cristina Kirchner foi condenada e está em prisão domiciliar desde junho. O peronismo fala em lawfare. Como avalia?

Nós consideramos a condenação de Cristina Kirchner como parte da ofensiva dos EUA na região, assim como no Brasil intervém para ajudar Bolsonaro, na Argentina interveio para que condenem Cristina Fernández de Kirchner. De fato, em 21 de março de 2023, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, solta uma declaração dizendo que Cristina já estava condenada por corrupção, que não podia entrar nos EUA, e poucos dias depois a Corte Suprema diz: Cristina está condenada por corrupção.

Ou seja, os EUA, uma das interferências que têm em nossa região, além da militar – no Caribe há muita interferência – além da econômica através do FMI, há uma interferência política muito importante. Assim como no Brasil interveio em seu momento para que Lula fosse para a cadeia, a mesma tônica tem intervindo na Argentina para que Cristina Kirchner seja condenada.

·        Como deputada, quais são as propostas que o Partido de los Trabajadores Socialistas está levantando na Câmara? E quais são as principais dificuldades enfrentadas no Congresso tanto com a direita quanto para aprovar as medidas?

Agora, principalmente, nos opomos a este plano que está apresentando o governo, contra a reforma trabalhista, contra o ataque às leis ambientais, contra o ataque aos aposentados, o plano que tem o governo. Nós que lutamos desde o Congresso para levantar uma voz, sabemos que a luta vai ser extraparlamentar, será nas ruas.

Estamos contra a reforma trabalhista, lutando contra uma jornada de trabalho de 6 horas, 5 dias por semana, com um salário que alcance – que alcance a cobrir a cesta familiar – e que as horas que ficam livres, que ficam vagas dessa redução de horas de trabalho, sejam distribuídas entre aqueles que hoje não têm um trabalho.

Essa é uma das questões que nós vimos apresentando, ao contrário das modificações que o governo apresenta, que são retrógradas. Hoje a Argentina tem uma das jornadas de trabalho mais extensas do mundo e o governo por sua vez quer ainda estendê-la mais.

Nós apresentamos licenças coparentais para que tanto a pessoa gestante quanto sua parceira/parceiro possam ter licenças quando nasce um bebê, se adota um filho ou uma filha.

Assim, estamos fazendo todo um plano de propostas diferente. Mas como te dizia antes, a Argentina tem um tema central que é a atadura ao FMI. Se não se começa a questionar isso e os lucros dos poderosos do país, dos grandes grupos capitalistas, tudo o que fica embaixo é muito pouco.

Em particular, me interesso pelo plano contra a violência de gênero. Na Argentina a violência de gênero tem crescido muitíssimo. Portanto, acredito que todas as mulheres e nós que lutamos pelos direitos da diversidade sexual precisamos nos unir e travar uma grande luta contra a violência machista, porque estão realmente nos matando. Assim, precisamos ter os fundos necessários, tudo o que for necessário para programas que sirvam para aliviar esta situação.

Sabemos que sob o capitalismo, o patriarcado não vai acabar, que ele é parte intrínseca do capitalismo, mas que existem medidas que poderiam ser tomadas se forem destinados fundos suficientes para isso.

·        Em um governo com um discurso mais conservador, como está sendo defender avanços em temas como os direitos das mulheres, da comunidade LGBT e ambientais?

É difícil porque o governo nos ataca, fazem denúncias contra nós o tempo todo e nos atacam muito nas redes sociais. No dia em que tomamos posse, fomos insultados pelo nosso viés.

Não vamos acabar com o FMI na Argentina, mas buscamos a solidariedade com outros povos do mundo que estão se levantando contra as mesmas políticas. Quando houve o golpe contra Dilma Rousseff, eu fui a primeira deputada na Argentina a levantar isso no Congresso argentino para que fosse repudiado.

Porque temos uma concepção internacionalista e para nós os povos são irmãos, a classe trabalhadora é uma, não tem fronteiras, e a partir disso também enfrentamos muitas dessas perseguições e ataques.

 

Fonte: Opera Mundi

 

Nenhum comentário: