Na
China, um possível Socialismo de Abundância
O
socialismo real do século XX enfrentou dilemas estruturais diversos, que se
tornaram centrais tanto para a crítica liberal quanto conduziram setores
marxistas ao que Losurdo (2004) chamou de autofobia. Em larga medida, essa
autofobia ganha curso no que chamamos de marxismo de cátedra, isto é, um
marxismo descolado das mediações concretas, das condições materiais do
desenvolvimento desigual e das circunstâncias históricas específicas, e que
desemboca em concepções messiânicas (Pautasso; Nogara, 2023). Ao abstrair a
luta de classes real e as limitações objetivas das formações sociais
periféricas, parte da crítica interna termina por reproduzir a narrativa de
inviabilidade dos projetos socialistas.
Os
desafios e contradições vividos pelas experiências socialistas do século XX
precisam fornecer as lições e direções para a construção de sociedades
pós-capitalistas na conjuntura histórica presente. É justamente aqui que se
encontra um ponto decisivo relacionado à emergência da atual fronteira
tecnológica-digital, capaz de reconfigurar as bases materiais da ação estatal e
coletiva, abrindo possibilidades inéditas para um socialismo do século XXI.
Aqui, os experimentos da China são determinantes.
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Alguns limites do socialismo real
As
experiências do socialismo real foram abrangentes no tempo (1917–91) e no
espaço (chegando a 32 países nos anos 1980). Apesar de inúmeros avanços,
expuseram contradições que levaram ao colapso do sistema. Era o caso das
limitações da planificação econômica, em sociedades cada vez mais complexas,
dificultando a coleta, o processamento e a análise eficiente de fluxos massivos
de dados analógicos. O planejamento soviético, por exemplo, baseava-se em
informações fragmentadas, lentas e muitas vezes desatualizadas, abrindo espaço
para gargalos produtivos, desequilíbrios setoriais e problemas de coordenação
que a teoria liberal transformou em dogmas sobre a inviabilidade do socialismo.
O mundo analógico impunha limites severos à coordenação em larga escala, pois
embora produzisse metas quantitativas isoladas, não captava demandas e
necessidades na base da sociedade e no conjunto das cadeias de valor. Essa
rigidez estrutural gerava desperdícios em alguns elos e gargalos em outros,
reduzindo a eficiência e o dinamismo dos investimentos.
Com
efeito, Alec Nove (1989) destaca como a maldição da escala e a fragmentação
burocrática tornavam o processo de tomada de decisão lento e desconectado da
realidade produtiva, enquanto a ausência de sinalizações impedia uma avaliação
racional de custos, qualidade e demanda. Além dessas distorções, a fixação em
indicadores físicos quantitativos (toneladas, unidades) pela planificação
central criava barreiras à inovação sistêmica, contrastando ilhas de progresso
tecnológico com dificuldade de suprir itens de consumo básicos.
Ainda
assim, como sublinhou Keeran e Kenny (2008), os avanços e conquistas dessas
experiências foram múltiplas, incluindo pleno emprego, universalização de
serviços como educação e saúde, industrialização acelerada, mobilidade social e
redução das desigualdades e o próprio planejamento de longo prazo dos setores
estratégicos.
Outro
limite estrutural dizia respeito à democracia e à participação política. O
socialismo real lidava com sociedades urbanizadas em que a deliberação política
se tornava cada vez mais intermediada por estruturas burocráticas. A
dificuldade de construir instituições democráticas, participativas e
responsivas em sistemas de larga escala constituiu uma das tensões entre
representação, governabilidade e participação popular. Tal problema era
agravado pela necessidade de garantir coesão política frente à pressão externa.
Como salientou Fernandes (2000), as condições particulares de atraso incidiram
fortemente sobre tais experiências, incluindo as formas altamente concentradas
e autônomas assumidas pelo poder de Estado.
Ademais,
o advento das revoluções em países periféricos tornou imperativo o
desenvolvimento das forças produtivas e da geração de riqueza. Ou seja, o
socialismo nas periferias estava condenado a realizar simultaneamente tarefas
civilizatórias, de modernização e de ruptura, um fardo histórico que exigia
saltos produtivos para elevar o padrão de vida mesmo sob cerco tecnológico e
bloqueios persistentes.
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A China diante da atual revolução tecnológico-digital
Como
sugeriu Giovanni Arrighi (1996), as transições sistêmicas envolvem
reorganizações econômicas e geopolíticas articuladas às novas infraestruturas
técnicas disponíveis. Os EUA têm liderado essa fronteira tecnológica no
Ocidente a partir da lógica oligopolista de suas big techs. A captura massiva
de dados e sua instrumentalização tem se desdobrado em maximização da
acumulação, ampliação das desigualdades, domínio da esfera pública,
mercantilização das interações sociais e precarização das condições de trabalho,
quando não de “revoluções coloridas” ou até, como sublinhou Amadeu (2023) em As
Big Techs e a Guerra Total, violência extrema e genocídios contemporâneos. Como
enfatizou Emmanuel Todd (2024) estamos diante de sociedades que, ao perder
dinamismo produtivo, vitalidade institucional e coesão social, se apoiam cada
vez mais em mecanismos coercitivos e em uma hipertrofia do setor financeiro
para manter sua posição internacional.
A
China, nesse sentido, desponta não apenas como concorrente nesta fronteira
tecnológico-digital, mas como o país que oferece novos paradigmas de regulação
e uso societário de tais inovações. Longe de reproduzir o modelo liberal de
governança da tecnologia, a China tem sido campo de experimentação para
aplicação de big data, plataformas integradas e inteligência artificial em
áreas como planejamento econômico, coordenação logística, gestão pública e
provisão de serviços.
Pequim
tem elevado a outros patamares o planejamento, ao prever gargalos produtivos,
otimizando cadeias de suprimentos, organização eficiente da logística nacional
e mapeando demandas sociais em tempo real. O planejamento deixa de ser um
processo manual, opaco e centralizado para converter-se em coordenação
tecnocientífica altamente responsiva. No caso chinês, essa planificação,
ancorada no controle do Estado e sustentada por grandes conglomerados, bancos
públicos, plataformas digitais e infraestrutura integrada, permite dirigir a
economia de modo coordenado e fazer o setor privado gravitar em torno dos
objetivos estratégicos do Partido Comunista da China. Não apenas o mercado, mas
o Estado chinês torna-se capaz de captar informações granulares, fornecendo
subsídios para que a planificação também consiga uma alocação eficiente e uma
racionalidade que antes era inviável. Do ponto de vista político, a
digitalização também abre caminhos institucionais inéditos.
A
governança digital tem permitido consultas públicas online, plataformas de
deliberação coletiva, auditoria e transparência sobre a gestão pública e
sistemas digitais de avaliação de serviços públicos. Com efeito, como
destacamos (Pautasso; Maia, 2024), têm se expandido os mecanismos consultivos e
os canais de interação entre Estado e sociedade, reduzindo barreiras à
participação e promovendo maior inclusividade no processo decisório e
legitimidade no processo político.
A China
oferece um caso paradigmático dessa transformação histórica. A partir de fortes
investimentos em big data, IA e governança digital, o país desenvolveu aparato
estatal capaz de ajustar políticas públicas de maneira ágil, coordenada e
precisa. Governos locais utilizam plataformas digitais para registrar queixas,
mapear problemas urbanos, acompanhar padrões epidemiológicos, otimizar
transporte e avaliar desempenho de serviços, realizar orçamentos
participativos, configurando uma administração pública preditiva, democrática e
orientada por evidências. A datificação tem viabilizado a alocação
territorializada do orçamento estatal com uma eficiência inédita, orientando
desde a distribuição de recursos segundo a dinâmica epidemiológica, até
investimentos em mobilidade e repasses intergovernamentais relacionados com
dados atualizados. Ou seja, a China desenvolve sua institucionalidade
combinando experimentação e pragmatismo político para dar conta dos desafios
contemporâneos que não contam com caminhos pré-concebidos, mas que se ancoram
nos valores que levaram à revolução de 1949.
Além
disso, a nova fronteira digital possibilita um salto qualitativo nas forças
produtivas, algo central para qualquer projeto socialista moderno. Tecnologias
como automação e logística inteligente, internet industrial, robótica avançada,
e agricultura de precisão ampliam radicalmente a produtividade em vários
setores. Isso cria possibilidade de uma sociedade que rompe com a lógica da
escassez e se aproxima de regime de abundância relativa. Tal horizonte permite
superar atividades repetitivas em favor de atividades criativas; substituir
longas jornadas mecânicas por tempo dedicado ao lazer, cultura, ciência e
desenvolvimento humano. Em última instância, aproxima-se da formulação marxiana
acerca de lograr um “reino da liberdade” ao transcender os imperativos das
necessidades básicas.
Não se
trata, contudo, de um determinismo tecnológico. A China enfrenta desafios
comuns a todo o sistema internacional decorrentes da revolução tecnológica
digital, como a plataformização da economia, os imperativos regulatórios e os
impactos da automação sobre o emprego, por exemplo. Gerir essas transformações
ressalta a centralidade de um Estado dotado de capacidade de regular e
enquadrar tais inovações aos interesses delimitados politicamente. A revolução
tecnológica digital não é optativa; a forma como ela é conduzida, entretanto,
constitui uma escolha política e um projeto de sociedade.
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Palavras finais
A
questão fundamental é como, a partir das condições tecnológicas do século XXI,
se pode pensar e implementar novos horizontes históricos para sociedades
pós-capitalistas. O século XXI implica extrair lições do passado e imaginar
novos paradigmas que articulem desenvolvimento tecnológico, soberania nacional
e projeto coletivo. Não se trata de imaginar um tipo ideal socialista, uma
espécie de Éden sem Estado, mercado ou conflito. Ao contrário, o desafio é
construir um projeto histórico tangível, atravessado por desafios reais,
contradições e possibilidades inéditas oferecidas pela atual revolução
tecnológico-digital.
Estamos
diante de transição sistêmica em que a China aparece não apenas como potência
emergente, mas como fornecedora de alternativas institucionais e materiais às
estruturas hegemônicas lideradas pelos EUA e suas contradições de fundo. Como
destacou Cheng Enfu (2025), a experiência chinesa oferece uma alternativa
sistêmica ao capitalismo, tanto para o Sul Global quanto para a teoria marxista
contemporânea, ao demonstrar que o socialismo não é um modelo fixo, mas um
processo histórico aberto, capaz de inovar institucionalmente, incorporar novas
tecnologias e responder aos desafios da modernidade sem abdicar de seus
fundamentos estruturais.
Em
suma, não se trata de uma transição geopolítica ou de uma competição
tecnológica, mas refere-se a divergência sobre projetos societários, modelos de
Estado, formas de organização político-institucionais e horizontes
civilizacionais. Num contexto mundial de grandes crises entrelaçadas e
potencial tecnológico disruptivo, a China cumpre papel central ao recolocar, de
maneira renovada, a possibilidade de pensar um socialismo em consonância com os
desafios e as condições materiais de nosso tempo.
Fonte:
Por Diego Pautasso e Isis Maia, em Outras Palavras

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