A
música de Natal que Chico Buarque fez para imobiliária dar de presente a
clientes e virou raridade
Na
letra, na melodia e na voz de Chico Buarque, uma canção de Natal não precisa
ter aquele estilo solene de um coral, muito menos a atmosfera melancólica do
inverno europeu.
Para
Chico, o Natal também pode ser cantado como uma marchinha de Carnaval, de jeito
simples, alegre, descontraído.
O
músico tinha 23 anos e uma carreira ascendente quando, em 1967, foi contratado
pela maior imobiliária de São Paulo, a Clineu Rocha S.A., para compor um jingle
natalino.
Na
verdade, não exatamente um jingle — que seria uma canção estritamente
publicitária, para promover uma marca —, mas uma música sob encomenda que não
menciona a empresa, embora fosse utilizada apenas para divulgá-la.
Ele
criou, então, Tão Bom Que Foi o Natal, canção que saiu em um compacto que a
firma distribuiu como brinde de fim de ano a seus clientes.
Tornou-se
uma raridade — e, também, um conflito entre o músico e a empresa.
"Olha
a cidade, que linda/ Até parece deserta/ A meninada dormindo/ de janela
aberta", diz a letra de Chico.
"Papai
Noel completa toda coleção/ Boneca, bicicleta, bola, bala e balão."
A
canção tem elementos comuns na obra de Chico, como o clima de crônica e as
aliterações e assonâncias que realçam sua poesia.
O
músico, compositor e diretor de arte Bruno Leo Ribeiro, do podcast Silêncio no
Estúdio, afirma que a canção de Natal faz parte do início da evolução artística
de Chico.
"Apesar
de parecer simples, A Banda, do seu disco de estreia, retrata o Brasil com
sutileza e certa crítica social disfarçada. Na canção Tão Bom Que Foi o Natal,
parece que ele usa a mesma temática lírica e melódica, trazendo a melancolia de
músicas de Natal para essa marchinha", analisa Ribeiro.
O
pesquisador musical Giovani Marangoni nota na composição qualidades próprias da
obra de Chico Buarque, apesar da canção ter sido feita para fins comerciais.
"Ele
está muito jovem ali, mas eu consigo ver semelhança inclusive com A Banda, uma
ingenuidade, mas uma poética que brinca com as palavras", pontua
Marangoni, autor do livro Vivendo de Música na Era Online e professor da Escola
Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
O
disquinho distribuído a clientes da imobiliária começa com um narrador
apresentando Chico, descrito como "ídolo de velhos, de moços e de
crianças".
"Sem
falsa modéstia, queremos crer que essa nossa ideia, a de pedir ao Chico que
fizesse uma canção de Natal especialmente aos amigos do escritório imobiliário
Clineu Rocha, foi das melhores que já tivemos", diz o narrador.
O lado
B do compacto é um amontoado de jingles promocionais da empresa, veiculados nos
intervalos comerciais das rádios da época.
As
musiquinhas eram cantadas pelos chamados "bandeirantinhos", os
mascotes da empresa.
No meio
publicitário, foi um sucesso. Em 1968, a iniciativa da imobiliária recebeu
menção honrosa na primeira edição do Prêmio Colunistas, um reconhecimento da
Associação Brasileira dos Colunistas de Marketing e Propaganda (Abracomp).
Em
tempos sem redes sociais e "excesso de estímulos", a ideia fazia
ainda mais sentido, afirma o designer e especialista em marketing João Finamor,
professor da ESPM.
"Um
disquinho exclusivo, distribuído como brinde, com música original assinada por
um compositor em ascensão, criava exclusividade, prestígio, memória afetiva e
diferenciação competitiva", explica Finamor.
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As contas chegam para todo mundo
Chico
Buarque já era famoso naquele Natal de 1967. No ano anterior, havia lançado seu
primeiro álbum, Chico Buarque de Holanda, com faixas como A Banda, A Rita e
Pedro Pedreiro.
Com a
primeira, vencera o Festival de Música Popular Brasileira, em interpretação
inesquecível de Nara Leão (1942-1989).
No ano
em que compôs a canção natalina, ele estava em evidência.
"A
contratação do Chico Buarque tinha um objetivo simples e direto: transferir
parte do capital simbólico dele para a imobiliária paulistana", explica o
administrador de empresas e executivo de marketing João Ciaco, professor da
ESPM.
"Era
a tentativa de associar a Clineu Rocha à sensibilidade jovem, refinada e
moderna que o Chico representava."
O ano
de 1967 foi agitado, conforme mostra o jornalista Wagner Homem no livro Chico
Buarque (Leya, 2012).
Entre
viagens, apresentações na TV e participação em dois festivais, Chico ainda
gravou três compactos, o LP Chico Buarque de Hollanda vol. 2 e escreveu a peça
Roda-Viva, registrou o jornalista.
Chico
Buarque de Hollanda vol. 2 traz sucessos como Noite dos Mascarados, Com Açúcar,
Com Afeto e Quem Te Viu, Quem Te Vê.
Curiosamente,
o álbum tem outra canção festiva não muito conhecida de Chico, Ano Novo.
"E
quem já viu de pé/ O mesmo velho ovo/ Hoje fica contente/ Porque é Ano
Novo", diz um trecho da canção.
Se
muito provavelmente o que seduziu o então jovem Chico a compor Tão Bom Que Foi
o Natal foi principalmente a verdade incontornável de que todos temos contas a
pagar — então, um trabalhinho extra cai bem geralmente —, esta parceria entre
Chico Buarque e a Clineu Rocha não teria exatamente um final feliz como se
espera de um Natal.
Nos
anos seguintes, o músico e a empresa tiveram atritos. Segundo relatou Chico
posteriormente, a imobiliária passou a veicular a canção em rádios, o que seria
um desrespeito com o combinado com o artista de manter a gravação apenas no
disquinho-presente.
Em
junho de 1977, o cantor falou sobre o caso em entrevista veiculada pelo
CooJornal, histórico jornal alternativo que circulou nos últimos anos da
ditadura militar.
Àquela
altura, a Clineu Rocha havia fechado as portas — com problemas financeiros,
encerrou as atividades em janeiro daquele ano.
Na
entrevista, o repórter do jornal falou: "Aquela imobiliária de São Paulo,
a Clineu Rocha, usou com a maior cara de pau uma música tua como jingle".
Chico
completa: "Mas ela foi à falência como castigo [risos]".
"Eu
fiz uma musiquinha, gravei com violão assim, que era para essa empresa
distribuir aos seus clientes de brinde no Natal", contou o músico na
entrevista.
"Mas
estava escrito: não era gravação comercial, não era para tocar na rádio, nem
nada. Agora, há dois anos, usaram no Natal como jingle da firma. Aí, fui lá e
processei, e eles me deram a grana porque era um abuso."
A BBC
News Brasil procurou Chico Buarque para saber detalhes dessa história —
inclusive, os valores envolvidos na sua contratação e as condições que haviam
sido combinadas.
Sua
assessoria de imprensa limitou-se a dizer que não havia como ajudar com tais
informações "pois este é um assunto sem relevância dentro da
trajetória" do artista.
Essa
postura fica clara pela exclusão da canção em coleções que supostamente
abrangem toda a musicografia de Chico Buarque, como o livro Tantas Palavras -
Todas as Letras, publicado pela Companhia das Letras.
Entretanto,
no site oficial do músico, Tão Bom Que Foi o Natal aparece listada em sua obra.
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Uma imobiliária inovadora
O nome
Clineu Rocha traz uma história à parte.
O
fundador da imobiliária acabou se tornando uma referência para o setor. Filho
de um comerciante e advogado, mudou-se com a família de Descalvado, no interior
paulista, para a capital quando criança.
Era o
irmão mais velho dentre os cinco filhos, todos de nome começados com a letra C:
Clineu, Clóvis, Clunny, Clarice e Clélia.
A
família enfrentava problemas financeiros, e as crianças costumavam fazer bicos
— como engraxate, por exemplo. Quando Clineu Rocha tinha 11 anos, no segundo
semestre de 1932, conseguiu um emprego em uma atacadista de tecidos.
Fez
curso técnico de contabilidade e, quando tinha de 19 para 20 anos, foi
trabalhar em uma construtora. Na mesma época, decidiu estudar economia. Isso
fez com que ele ganhasse a confiança dos diretores da empresa e, aos poucos,
foi ascendendo — chegando a chefiar o escritório, cuidando da contabilidade e
da engenharia.
Em
1948, fez uma viagem aos Estados Unidos. Lá, encantou-se com a voracidade e o
profissionalismo do mercado imobiliário.
Quando
voltou ao Brasil, quis implementar o sistema americano em São Paulo, criando
uma imobiliária que tivesse um método de compra e vendas mais agressivo.
O
primeiro escritório da empresa Clineu Rocha foi aberto em 1950, e o auge
ocorreu nos anos 1960.
Nesse
período, a Clineu Rocha funcionava em um prédio próprio, na Avenida Angélica, e
contava com 400 corretores.
Caio
Calfat, vice-presidente de assuntos turísticos imobiliários do Sindicato das
Empresas de Compra, Venda e Administração de Imóveis de São Paulo (Secovi),
afirma que o modelo implementado por Clineu Rocha passou a ser utilizado pelas
"principais imobiliárias".
Uma das
inovações trazida pela empresa foi catalogar as opções conforme os bairros da
cidade e por faixas de preço.
Em uma
era analógica, a companhia criou filtros que facilitavam a busca, de forma que
o interessado conseguia pesquisar dentro da categoria que melhor lhe conviesse.
A
Clineu Rocha também é considerada a introdutora da figura do avaliador, um
profissional capaz de atribuir o preço correto para o imóvel.
Além
disso, destacou-se ao instituir um treinamento padrão para corretores e tornou
prática recorrente os anúncios em jornal.
O
estilo aguerrido da imobiliária impactou no setor publicitário — o caso do
disquinho do Chico Buarque não foi um esforço isolado.
No seu
podcast Zebras na Publicidade, em 2021, o publicitário Washington Olivetto
(1951-2024) destacou a trajetória de Clineu Rocha, enfatizando que a empresa
dele "era a maior imobiliária do Brasil" e "o maior anunciante
do jornal O Estado de S. Paulo".
A
decadência da firma espelhou o momento de crise econômica dos anos 1970,
marcado por episódios como o embargo de combustíveis imposto a vários países
pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) em 1973 e, dentro
do Brasil, por uma resolução do Banco Central que limitou, em 1976, o crédito
imobiliário, sufocando o setor.
O
cenário de inflação também dificultava investimentos.
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Raridade
Hoje, o
disquinho da Clineu Rocha virou uma peça rara.
Como a
tiragem do compacto foi pequena, é difícil encontrá-lo em versão física, mas a
música vem sendo reproduzida na internet.
Como
Chico Buarque detém os direitos autorais da canção, a reprodução correta da
faixa exige a regularização do uso e pagamento para o cantor e para o
Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).
Em
2022, a faixa Tão Bom Que Foi o Natal passou a integrar a playlist "Chico
Buarque: Raridades Analógicas", material garimpado pelo jornalista e
pesquisador musical Renato Vieira e veiculado pela Rádio Batuta, emissora
digital do Instituto Moreira Salles.
Como
repercutiu na mídia e entre entusiastas de MPB, isso deu nova vida à quase
esquecida canção.
A
especialista em projetos culturais Gisele Jordão, coordenadora do curso de
Cinema e Audiovisual da ESPM, diz que a faixa não é amplamente conhecida mesmo
entre admiradores de Chico, já que o disquinho teve "baixíssima
circulação".
O
músico Bruno Leo Ribeiro brinca: "Eu não conhecia essa história e agora
estou fascinado".
Fonte:
BBC News Brasil

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