Sonia
Fleuri: Quanta desigualdade a democracia suporta?
Falar
das ameaças à democracia nos remete, inexoravelmente, a tratar das ameaças à
saúde. Desde o início da Reforma Sanitária, postulamos essa relação
fundamental, que nos distingue muito de outros processos de criação ou reforma
de sistemas de saúde. Essa vinculação entre democracia e saúde é uma marca
constitutiva e fundamental da Reforma Sanitária Brasileira: quando a democracia
está sob ameaça, o sistema de saúde está sob ameaça e as políticas de proteção
social também. Portanto, a nossa luta é sempre muito mais que uma luta setorial
– ela é uma luta global pelo sistema democrático e pelos direitos sociais e
humanos.
No
entanto, a questão do desmonte da proteção social não está dissociada das
atuais formas de reprodução do capital, em que o predomínio do capital
financeiro sobre todas as outras formas de capital implica nas grandes
transformações que vivemos nas últimas décadas. Essas transformações têm
ocorrido especialmente desde a última crise econômica internacional, incluindo
a resposta a ela, que foi de desregulação dos mercados. Tudo isso involucrado
sob a hegemonia da ideologia neoliberal que privilegia o mercado e tenta
reduzir a participação do Estado na economia através da diminuição de gastos,
como se a crise tivesse se originado como decorrência da presença do Estado, da
proteção social e do investimento público – e não da própria dinâmica do
mercado. Esse processo levou a um aumento exponencial das desigualdades no
mundo, uma concentração plutocrática da renda.
A
desregulação ainda tem implicações sobre a crise climática, na medida em que a
acumulação capitalista enfraquece enormemente as capacidades de regulação de
Estado. Isso também reorganizou o tecido produtivo, levando à reprimarização
das economias menos desenvolvidas, fragilizando-as e aumentando sua dependência
em relação a produtos com maior valor agregado que incorporam novas
tecnologias. Tais transformações têm afetado profundamente o mundo do trabalho,
tanto com a flexibilização das proteções trabalhistas quanto com a produção de
milhões de trabalhadores que se situam nas novas formas de informalidade ou se
convertem em população de rua. Ao mesmo tempo em que aumenta o número de
trilionários no mundo, aumenta a população de trabalhadores descartáveis.
Paralelamente,
nas últimas décadas, houve a emergência do enorme poder das Big Techs, cujo
poder se materializa na foto da posse de Trump com a presença de todos os CEOs
dessas grandes empresas, mostrando que já não há mais separação entre tais
corporações e o poder político. Trata-se de um retrato do capitalismo
desregulamentado, com a associação simbiótica entre o grande poder das Big
Techs e um poder político de que se pretende imperial. É isso que estamos tendo
que enfrentar – e vamos enfrentar em 2026.
Todas
essas mudanças tiveram enormes impactos geopolíticos, que desafiam as
capacidades dos estados nacionais – hoje, bastante diminuídas – e o modelo de
governança de Bretton Woods. Todas as instituições criadas como forma de
governança global estão em crise, inclusive a Organização Mundial da Saúde –
algo que nos afeta em particular. Além disso, o crescimento da presença da
Inteligência Artificial e dos algoritmos, que têm impacto no cotidiano de cada
um de nós, tem levado a novas formas de sociabilidade e comportamento político,
que também nos afetam profundamente.
Diante
desse quadro, há uma nova situação geopolítica em que os Estados Unidos se
apresentam como a expressão decadente do capitalismo e da hegemonia do seu poder político em declínio. Sua reação a este
quadro é um governo que se pretende imperial, com o objetivo de tentar resgatar
seu poder frente ao crescimento da importância do papel da China no mundo. Isso
nos coloca em uma situação de instabilidade global, com guerras e
enfrentamentos constantes.
Diante
disso, a que conclusão chegamos? Que há uma instabilidade que nos afeta
profundamente, levando a um grande conjunto de inseguranças. As pessoas se
sentem inseguras diante desse novo mundo. Antes, havia um certo ordenamento, em
que as pessoas pensavam que haveria progresso: a vida do seu filho seria melhor
que a sua, você teria aposentadoria depois de trabalhar tantos anos, existia a
sociabilidade de família e vizinhos. Tudo isso está sendo desorganizado
profundamente, afetando não só a geopolítica, mas o cotidiano da vida. Há uma
grande perda de esperança de mudança social, que afeta particularmente os
jovens. Desigualdades, inseguranças, falta de perspectiva no futuro e
emergências climáticas determinam a deterioração das condições de vida, em especial
da população mais pobre, e limitam as possibilidades de cuidado e dos sistemas
de saúde.
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A política do medo e do ressentimento
Algumas
décadas atrás, um famoso estudo do cientista político Norbert Lechner mostrou
que as pessoas não estavam felizes no Chile, o único lugar da América Latina em
que estava havendo algum desenvolvimento econômico na época. Havia um forte
mal-estar societário. Ele chama atenção para algo muito importante em nosso
atual momento: o papel do medo, diante da insegurança.
Lechner
avalia que há três tipos de medo que estavam afetando profundamente aquela
sociedade – e que, de lá para cá, só cresceram.
O
primeiro é o medo do outro. O outro passa a ser um risco, alguém que pode nos
afetar negativamente. Numa situação cotidiana, isso leva as pessoas a terem
medo dos desconhecidos.
O
segundo é o medo da exclusão econômica e social. As pessoas têm inseguranças se
elas vão conseguir manter essa posição na vida e continuar melhorando.
E o
terceiro é o medo da falta de sentido, de uma vida sobre a qual não se tem
controle. Isso afeta emocionalmente, sociologicamente e politicamente as
pessoas. Vemos hoje um grande aumento do número de suicídios entre crianças e
jovens, algo muito ligado a essa falta de perspectiva e sentido, com o fato
de não saber para onde a vida está se
direcionando.
Esses
medos, como diz Lechner, são muito facilmente capturados para se tornarem
ressentimento. Contra migrantes, favelados, mulheres, negros, homossexuais –
aquele que é o outro, que pode ser o bode expiatório da culpa de seus
problemas.
A
situação de insegurança e medo levou a uma corrosão dos laços sociais e do
funcionamento das instituições democráticas. Mesmo em lugares que possuíam
níveis democráticos mais assegurados e institucionalizados, estamos assistindo
a processos de autocratização e desdemocratização.
O
relatório anual do instituto Varieties of Democracy mostra que uma parcela
crescente da população mundial está vivendo sob regimes autocráticos. Já em
outros países, registram-se retrocessos nas conquistas democráticas, voltando
para os níveis de trinta anos atrás. Isso se conecta ao ressentimento, à
sensação de frustração, à ideia de que os governos são todos corruptos. Parte
do caldo de cultura que favorece o surgimento e a ascensão dos populistas
autoritários é essa descrença nas políticas públicas e a insatisfação com a
classe política.
No caso
do Brasil, surgem aqueles que viveram a vida inteira na política tradicional
mas se colocam como antissistema, canalizando o ressentimento. O sistema
político é o que não presta, a política não vale a pena, esse é o mote reproduzido pelas lideranças
populistas autoritárias. Apoiam-se, em nosso país, em militares saudosistas da
ditadura e em uma rede de lideranças religiosas conservadoras, para implantar
políticas que favorecem setores do agronegócio e do capital financeiro.
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Capitalismo desregulado e desigualdade: antônimos da democracia
A
partir desse quadro, faço duas perguntas.
Quanta
desigualdade pode suportar uma democracia? Creio que chegamos a um ponto em
que, para seguir aprofundando as desigualdades, surge a necessidade do
autoritarismo e do populismo.
Quanta
desregulação do processo de acumulação e distribuição das riquezas o
capitalismo ainda pode sustentar? Estamos em uma fase em que o capitalismo está
claramente em crise, mas ainda parece ter conseguido uma sobrevida. No entanto,
vemos a destruição da natureza por uma acumulação capitalista desregulada como
ameaça à própria vida.
O
sociólogo e economista alemão Wolfgang Streeck aponta que a situação em que
vivemos está intimamente ligada a um movimento do capital financeiro em que os
Estados passaram a ser os maiores devedores. Na fase de convivência entre
capitalismo e democracia, os Estados eram arrecadadores e podiam desenvolver
políticas redistributivas que caracterizaram os Estados do Bem-Estar Social.
Hoje, anualmente, o Brasil paga R$1 trilhão de juros da dívida. É dinheiro que
não vai para a Saúde, para a Educação, nada disso: o superávit primário precisa
ser feito para pagar esse trilhão anual. Opõem-se, assim, os interesses do que Streeck chama de “povo
do Estado”, os cidadãos com direitos civis e voto, e do “povo de Mercado”, os
credores e investidores internacionais.
Governos
progressistas se sentem tolhidos a cumprir os ditames da ordem financeira
global, produzindo crescentes superávits esterilizados no pagamento de juros da
dívida. Frustram seus eleitores, com medidas de ajuste fiscal que comprometem e
invalidam suas promessas de campanha de melhoria da vida dos cidadãos.
Ao
vencer as eleições, os líderes populistas autoritários começam a minar
instituições e desfigurar a democracia constitucional, buscando a unanimidade
de um “povo único” ou “povo verdadeiro” – usando a questão religiosa para
tentar alcançar a sociedade sem mediações políticas.
Esse é
um movimento internacional, que estamos vendo em vários países ocidentais,
calcado em liberalismo econômico, forte guerra cultural e negacionismo. O
combate à ciência é um aspecto central, já que ela parte do questionamento,
algo impensável para um governo autoritário, cuja aderência ao líder deve ser
baseada na fé.
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O caso brasileiro
O que
vemos ocorrendo hoje nos Estados Unidos, também foi possível ver no Brasil:
negacionismo, crença no “mito”, retórica em torno de conceitos como liberdade e
pátria e, principalmente, desmonte das políticas públicas.
No
livro Cidadania em Perigo: Desmonte das Políticas Sociais e Desdemocratização
no Brasil, estudamos como o governo Bolsonaro, juntando pandemia e pandemônio,
desmontou a proteção social e diversas políticas públicas, como as de trabalho
e previdência. Algo importante que o livro identifica é que a estratégia de
desmonte foi diferente em cada área – nos três grandes sistemas de proteção
social: saúde, assistência social e segurança alimentar e nutricional – se
baseou nas fragilidades da institucionalidade brasileira na trajetória de
construção do SUS, do SUAS e do SISAN.
É um
problema a que precisamos estar atentos: ou superamos essas fragilidades, em
relação ao financiamento, institucionalização e capacidades estatais, ou
teremos novos riscos. Por exemplo, nos espaços em que a existência dos
conselhos de participação social não era fundamentada em lei, eles foram
extintos. Não é o caso da Saúde, porque havia uma institucionalização legal do
CNS. No entanto, boa parte dos funcionários do Ministério da Saúde hoje não são
servidores de carreira. Sem isso, não teria sido possível infiltrar dezenas de
militares na pasta, com as consequências que conhecemos.
Nesse
aspecto, o caso brasileiro se distingue de outros países, em que o populismo
autoritário não contou com um papel tão forte dos militares. Aqui, eles se
consideram tutores da Constituição através do artigo 142, que precisará ser
alterado em algum momento. Outro aspecto que singulariza o Brasil é o grande
papel das igrejas neopentecostais, que difundiram um conservadorismo moral e de
costumes que deu base popular para legitimar os políticos populistas
autoritários. É importante fazer a crítica desse conservadorismo, mas também é
preciso entender o que faz as pessoas buscarem essas igrejas. Além da fé, elas
procuram redes de solidariedade e um apoio e acolhimento que as políticas
públicas não dão, além de uma relação personalizada de escuta dos problemas de
cada uma dessas pessoas, que vivem em situações tão vulneráveis.
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Onda Rosa: um balanço crítico
Também
é preciso revisitar as limitações do próprio progressismo na América Latina.
Nos anos 2000, a Onda Rosa tomou a região, mas o que foi feito? Não se criou um
modelo econômico soberano, inclusivo e de reindustrialização. Pelo contrário,
com o boom das commodities, houve uma reprimarização da economia: nos tornamos,
todos os países da América Latina, exportadores de produtos primários, com
baixo valor agregado. Além de essa economia primária não ser capaz de absorver
a força de trabalho, os governos progressista não enfrentaram nem as
oligarquias nem o capital financeiro, o que impossibilitou medidas de maior
ousadia que deslocassem o centro das políticas públicas desde a proteção da
propriedade para a proteção da cidadania. Foram incapazes de implantar as reformas estruturais mais
importantes e necessárias, como a reforma agrária e a reforma urbana, a
proteção ambiental e dos povos originários, reverter a privatização dos
serviços nas políticas sociais.
Ao lado
de um processo exponencial de acumulação de riqueza do capital financeiro, os
governos progressistas na América Latina fizeram transferência de renda,
introduziram cotas para acesso aos serviços públicos e diminuíram a extrema
pobreza, significativamente. No entanto, isso acabou não sendo uma mudança tão
grande. Criaram-se consumidores individualizados, já que não houve um processo
de emancipação das pessoas no sentido político, de entender que não adianta só
receber um benefício assistencial, mas também é preciso compreender as causas
da pobreza e se organizar para construir uma saída coletiva dessa situação.
Agora
que não temos mais um governo populista autoritário, temos que ter o
compromisso de não voltar atrás. Precisamos avançar e não retornar ao cenário
que, com suas limitações, criou as condições para o populismo.
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Direita no contrapé
O
momento da conjuntura política é de grande movimentação. Desde a manifestação
da sociedade organizada contra a PEC da Blindagem, há uma virada política
importante. Além disso, o governo Lula ganhou de presente o enfrentamento com o
governo Trump, ampliando sua legitimidade popular a partir da bandeira da
soberania.
A
atuação da Polícia Federal chega no encalço das relações entre o PCC, as
fintechs e ameaça parlamentares do Centrão. A direita se debate na tentativa de
não perder os votos bolsonaristas mas de também não ser identificada a este
movimento, e busca criar uma alternativa eleitoral.
É uma
janela de oportunidade muito importante para a esquerda. O Governo acerta ao
avançar com a isenção do imposto de renda e a ideia de taxar os superricos,
acabar com os privilégios e criar justiça tributária e social.
É hora
de dar visibilidade a essas e outras questões, lançando um programa de combate
aos privilégios, soberania, justiça tributária, vida além do trabalho, com o
fim da escala 6×1, e mobilidade urbana, com a implementação do passe livre.
Esse programa é o que temos que trabalhar nas eleições do ano que vem.
Enfrentar todos esses temas dependerá do fim do Arcabouço Fiscal e de outros
fatores que limitam as capacidades do governo.
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Uma agenda para avançar
Qual
será o principal desafio que teremos de enfrentar nesse momento? Traduzir essa
agenda para o cotidiano das pessoas. Para isso, é preciso chegar no mundo em
que elas vivem e sofrem, disputar significados.
Primeiro,
é preciso travar uma forte luta ideológica e política. Ao se concentrar
prioritariamente em erguer instituições democráticas, deixamos de construir um
projeto ideológico e político que possa se traduzir em uma luta por
significados.
Ao
falar de justiça tributária para uma população que é completamente contra pagar
impostos, é preciso frisar que ela não vai mais pagar imposto de renda, mas
também que ela é muito afetada pelo não pagamento de tributos pelos mais ricos.
Hoje, a
direita fala muito em liberdade. O que nós temos a dizer sobre liberdade?
Liberdade é a capacidade da pessoa de decidir sobre sua vida ou a capacidade de
ser rico e comprar coisas? É preciso disputar isso.
O que é
meritocracia? Muitas pessoas que receberam Bolsa Família ou outros programas
sociais dizem que sua ascensão na vida se deve apenas ao mérito individual. Sem
dúvida, ele é importante, mas as oportunidades que foram dadas precisam ser
levadas em conta, ao pensar como essa autonomia que foi conquistada.
Em
nossa cultura, as pessoas sentem uma forte ligação com a família. O que é a
família? São laços afetivos, materiais, de cuidado e proteção uns aos outros. É
possível disputar essas concepções.
Como
segundo ponto, é preciso mudar o exercício da política. É necessário
recuperá-la como um espaço dialógico, em que as pessoas sintam que estão
dialogando umas com as outras e também sendo ouvidas pelo Estado. Forjar o
espaço para construir uma cultura cívica no país.
Chamo
isso de um “Estado pedagógico”, em que cada encontro do cidadão com o Estado
deve ser um momento que busca o diálogo para a transformação e a emancipação,
não para a subordinação das pessoas por uma burocracia insensível. A humilhação
é a grande queixa das pessoas nas interações com agentes públicos. Para mudar
isso, é preciso enfrentar temas como combate à corrupção, aumento da
transparência na gestão pública e a eliminação da violência estatal a que as
pessoas são submetidas.
Um
último ponto é que é preciso investir na vida digna. Como falou Jairnilson Paim
aqui no Abrascão, a Saúde não pode garantir apenas vida. Precisamos garantir a
vida digna!
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O Cuidado deve ser a essência da ação por uma vida digna
O eixo
das políticas de inclusão, participação e redistribuição. O Cuidado implica em
alteridade, é sempre em relação ao outro, aceitando o outro. É o contrário do
“medo do outro” de que fala Norbert Leschner, que leva ao desejo de excluir e
até matar o outro. O Cuidado é a ética da alteridade, e é preciso entender que
ele sempre se dá em um espaço territorial, e portanto é preciso que as
políticas sejam territorializadas. Nos territórios é que haverá o diálogo e a
intersecção, não a fragmentação das políticas.
É
possível transformar a potência do Cuidado que vimos nas favelas e periferias
durante a pandemia em uma alavanca de transformação social. O cuidado com as
pessoas e com o território deve implicar em políticas de garantia de emprego
para promoção da qualidade de vida em favelas e periferias, criando espaços de
produção do comum, da solidariedade, dos laços culturais e das oportunidades
para os jovens.
Para
isso, porém, há três condições. É necessária uma nova política econômica, que
não seja o Arcabouço Fiscal. Também é
preciso entender que as alianças feitas para eleger Lula não permitiram
governar, cumprindo com o programa eleito. Por fim, temos de ter um governo
composto por quadros comprometidos com esse projeto de transformação social, e
não com as alianças com setores conservadores.
Fonte:
Outra Saúde

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