sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A conservação como estratégia de exploração madeireira e extração de ouro

Os povos Munduruku há muito tempo afirmam que a demarcação de seus territórios e a regulamentação efetiva dessas fronteiras previnem o desmatamento, sem a necessidade de soluções financeiras adicionais, complexas e pouco transparentes. Artigo inédito escrito para o livro Direitos Humanos no Brasil 2025, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos...

Para os Wuyjuyũ, de língua munduruku e tronco Tupi, da Bacia do Rio Tapajós, na Amazônia brasileira, seu deus, Karosakaybu, criou seu povo – conhecido pelos estrangeiros como Munduruku – na aldeia de Wakopadi ka, perto das nascentes do Rio Crepori. Assim como outros povos indígenas dizimados pelas incursões coloniais europeias, as populações Munduruku estão crescendo, mas continuam enfrentando uma série de ameaças ao seu território, meios de subsistência e cultura.

É mais do que irônico que as áreas de conservação florestal no Brasil, apoiadas por governos e agências internacionais, representem algumas das maiores ameaças aos Munduruku, inclusive na floresta que leva o nome de Rio Crepori. A criação de áreas de conservação nacionais sob legislação do governo federal, chamadas de Florestas Nacionais (Flonas), pode dar a impressão de uma proteção reforçada da Floresta Amazônica. As promessas, por exemplo, do governo do Reino Unido, de investir 11,5 bilhões de libras esterlinas – cerca de R$ 84 bilhões – em territórios ultramarinos, incluindo o Brasil, para combater as mudanças climáticas parecem fortalecer essa ambição. Sob a égide do Crepori, no entanto, as contradições se tornam claras.

<><> Conservação de mercado

Em 2006, a Lei de Gestão de Florestas Públicas do Brasil reconheceu o potencial de “desenvolvimento sustentável local” das florestas. “O uso da exploração madeireira como um possível veículo para a conservação florestal” tem sido “defendido há muito tempo” pelo Serviço Florestal Brasileiro (SBF), órgão federal responsável pelas concessões florestais. Uma Flona, portanto, é uma designação específica que permite a extração comercial dentro de suas fronteiras. A justificativa requer uma segunda leitura sobre a exploração madeireira. O governo do Reino Unido firmou uma parceria com o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) para aumentar para 5 milhões de hectares (mais do que a área total dos Países Baixos) a área de exploração madeireira “legal” das árvores de madeira nobre mais valiosas da Amazônia. Além de iniciar novas operações madeireiras, o pacto entre as autoridades do Reino Unido e do Brasil na Amazônia “acelerará o uso de créditos de carbono em florestas públicas, fortalecerá a governança ambiental e promoverá a participação das comunidades locais”.

A “expansão das concessões florestais”, no que atualmente é terra pública, depende de certos discursos e políticas: 1) que as florestas preservadas devem ser vendidas para negócios comerciais e privados; 2) que os problemas de mineração e exploração madeireira ilegais são melhor enfrentados por meio da privatização e regulamentação do mercado; 3) o comércio beneficiará as comunidades originais da floresta. Este foi o argumento utilizado para justificar o leilão de uma grande faixa da Floresta do Crepori, que fica na divisa da Terra Indígena Munduruku oficialmente demarcada e dentro do território tradicional de uso dos Munduruku e de outros povos tradicionais. A decisão judicial de iniciar “o processo de licitação” para a extração regulamentada foi, em parte, justificada porque “o desmatamento está ocorrendo de forma predatória e exponencial em […] comunidades tradicionais e até mesmo povos indígenas da etnia Munduruku têm sofrido com a mineração ilegal em suas terras e áreas adjacentes”.

<><> Sob a copa de Crepori

Criada em 2006, a Flona do Crepori teve o processo de licitação de suas florestas entre 2013 e 2014. O leilão que permite explorar a floresta apresenta muitos problemas. Em primeiro lugar, as concessões florestais entram em conflito com os modos de vida dos Munduruku, que, por meio de suas assembleias e associações, denunciam a comercialização da floresta e se opõem à mineração, à exploração madeireira e aos esquemas de crédito de carbono. Isso é agravado pela negação de seu direito ao Consentimento Livre, Prévio e Informado, de acordo a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relação aos planos florestais, negação que permitiu a criação de um esquema de crédito de carbono em Crepori antes que os Munduruku se mobilizassem e revertessem a decisão. Como deixa clara a denúncia dos Munduruku ao Ministério Público Federal: “Nossas atividades de pesca, caça, coleta de frutas, palha e cipó estão proibidas em uma área que é nosso território tradicional, onde existem lugares sagrados, como o Dapito di, e lugares onde nossos avós viveram, como a antiga aldeia Arotek Kabuk [localizada próxima à margem direita do Rio Tropas, dentro da área destinada à Flona], que estavam dentro da área onde o governo federal criou a Flona, sem consultar nosso povo”.

O processo de demarcação do território Munduruku – reconhecimento oficial da Terra Indígena – começou em 1982 e foi concluído em 2024. De acordo com Jair Boro (2017, 2019), pesquisador Munduruku, muitos locais sagrados, de uso tradicional e as antigas aldeias (agõkabuk) onde a Floresta Nacional do Crepori está localizada continuam sendo usados para atividades como caça, cultivo e coleta de frutas, mas ficam fora da área oficialmente demarcada.

Testemunhos locais e denúncias formais das associações comunitárias descrevem os impactos de infraestruturas rodoviárias e ruído de máquinas; “nossos guerreiros agora precisam caminhar cada vez mais longe e voltar sem nada”. Eles foram proibidos de entrar na floresta por suas rotas tradicionais. Em recentes visitas de campo com guias Munduruku, as árvores marcadas para colheita comercial incluíam castanheiras-do-pará, mognos (Swietenia macrophylla) e acapus (Vouacapoua americana Aubl., Leguminosae). As castanheiras-do-pará servem como uma fonte vital de alimento, e suas folhas e leite são usados para fins medicinais. O mapa a seguir mostra como as unidades florestais se sobrepõem aos pontos de ocupação Munduruku registrados durante o trabalho de campo realizado em 2024.

Em 2014, o Serviço Florestal Brasileiro concedeu à empresa Brasad’Oc Timber o direito de exploração das Unidades de Manejo Florestal (UMF) II e III, que somavam 194 mil hectares dentro da Flona do Crepori. Logo que o leilão foi anunciado, o povo Munduruku começou a se mobilizar em oposição ao contrato. Isso levou o Ministério Público Federal (MPF) a impetrar a Ação Civil Pública 1.23.002.000352/201318, que em 2016, antes da exploração ter início, logrou uma decisão liminar da Justiça Federal proibindo a exploração madeireira nas UMF II e III. A concessão deveria ser paralisada até que o Estado providenciasse estudos antropológicos sobre a presença de povos e comunidades tradicionais na área. Dessa forma, o processo deveria ser reconstruído considerando-se tal ocupação.

Essa situação permaneceu até 2022, quando o SFB conseguiu reverter a decisão judicial. A Justiça Federal aceitou o argumento de que a exploração madeireira não traria impactos aos Munduruku, à medida que a não implementação da operação madeireira estaria provocando uma explosão na exploração garimpeira na área, subentendendo-se que, com a atividade da concessão, o garimpo seria combatido. A exploração madeireira foi retomada oficialmente em julho de 2023 (na UMF II). Entretanto, não houve declínio na mineração ilegal com a atividade madeireira (ver Figura 2). Com a ação dos garimpos, os estoques pesqueiros haviam desaparecido devido à poluição e sedimentação do rio. Águas antes cristalinas agora estão turvas por deposição de toxinas como o mercúrio utilizado na extração do ouro. Esse elemento químico contamina a água, envenena os peixes, prejudica as áreas de desova e entra na cadeia alimentar (Loures, 2017; Vega et al., 2021).

Pesquisas de campo realizadas em julho de 2024 e agosto de 2025 encontraram muitos garimpeiros, que relataram que as estradas para as minas foram abertas para exploração madeireira. Eles explicaram que mantinham um bom relacionamento com os extratores de madeira. Essa interconexão entre desmatamento, exploração madeireira e mineração é visível na figura 3, pois as áreas de mineração seguem o curso do rio e também a estrada aberta pela madeireira Brasad’oc.

As evidências das trilhas sob a copa das árvores de Crepori e dados locais indicam um profundo problema de desmatamento e mudanças climáticas, que se agravam com políticas de privatização da floresta. Os povos Munduruku demonstram que a demarcação de seus territórios e a regulamentação efetiva das fronteiras previnem o desmatamento, sem necessidade de negócios financeiros complexos e pouco transparentes. A criação de áreas de conservação, sem regulamentação efetiva, não previne invasões de garimpeiros e atividades ilegais. Os dados desta pesquisa mostram que estratégias de conservação florestal baseadas no mercado e na privatização não eliminam atividades ilegais. Pelo contrário, esses negócios facilitam atividades ilegais ao abrir novas rotas de acesso e infraestruturas em florestas antes remotas.

 

Fonte: Por Deise Lima, Steven Owens, Mauricio Torres, Rosamaria Loures, Brian Garvey, Hugo Gravina Affonso e Barbara Baracho Wanderley, em Le Monde

 

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