sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Maria Luiza Falcão: O Fed sob pressão, o retorno do dinheiro fácil e a aceleração silenciosa da desdolarização

O corte de juros anunciado pelo Federal Reserve (Fed), em 10 de dezembro de 2025 não foi apenas mais um ajuste de política monetária. Foi um sinal inequívoco de que o centro do sistema financeiro global opera, cada vez mais, sob constrangimentos políticos e fiscais que limitam sua autonomia. Ao reduzir a taxa básica para o intervalo entre 3,5% e 3,75% — o terceiro corte consecutivo desde setembro — o banco central dos Estados Unidos revelou não apenas preocupação com a conjuntura doméstica, mas as tensões estruturais de um modelo que já não consegue sustentar sua centralidade sem recorrer a mecanismos extraordinários.

A queda de juros já era esperada. A grande surpresa da reunião de dois dias do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, da sigla em inglês) foi o anúncio de que o Fed começaria a expandir seu balanço patrimonial comprando US$ 40 bilhões em títulos do Tesouro por mês.

De um lado, o Fed reconhece a perda de dinamismo no mercado de trabalho e os riscos crescentes à atividade econômica. De outro, expõe as fraturas entre independência institucional, pressão política e a própria sustentabilidade da hegemonia do dólar. O debate que se abriu nos Estados Unidos desde então é menos sobre a “correção” técnica da decisão e mais sobre o que ela revela: os limites do modelo macroeconômico norte-americano em um mundo que já não gira em torno de um único centro financeiro.

<><> Um Fed menos autônomo em um cenário político mais agressivo

A justificativa formal apresentada por Jerome Powell foi clara: sinais de desaquecimento do mercado de trabalho e perspectiva de desaceleração da economia doméstica. Ainda assim, o contexto político é impossível de ignorar. Donald Trump voltou à Casa Branca com uma agenda abertamente hostil à política monetária restritiva, pressionando publicamente o Fed por cortes de juros enquanto defende políticas fiscais expansionistas, tarifas comerciais e estímulos seletivos à indústria doméstica.

Essa combinação cria uma armadilha clássica. Déficits elevados e dívida pública crescente exigem juros mais baixos para se manterem administráveis, enquanto as próprias políticas do governo tendem a gerar pressões inflacionárias potenciais.

Nesse ambiente, o Fed deixa de operar exclusivamente como guardião da estabilidade de preços e passa a atuar, de forma cada vez mais explícita, como gestor indireto da dívida soberana americana. A política monetária se desloca: menos instrumento de estabilização macroeconômica, mais engrenagem de sustentação do sistema fiscal.

Esse deslocamento é central para compreender a inquietação atual dos mercados.

<><> O retorno funcional do Quantitative Easing 

Embora o Federal Reserve tenha concentrado sua comunicação recente nos sucessivos cortes da taxa básica de juros, notícias divulgadas a respeito da retomada de compras de ativos e operações de provisão de liquidez, envolvendo cerca de US$ 40 bilhões em títulos de curto prazo, surpreendeu o mercado. A linguagem adotada é cuidadosamente técnica — “ajustes de balanço”, “operações de mercado” —, mas a função é conhecida: conter a volatilidade dos juros longos, sustentar o mercado de títulos e preservar a fluidez do sistema financeiro.

Mais do que uma escolha discricionária, esse movimento revela uma necessidade funcional. Em um ambiente de desaceleração econômica, volatilidade financeira e elevada sensibilidade do Tesouro norte-americano ao custo de rolagem da dívida pública, os instrumentos tradicionais de política monetária tornam-se insuficientes. Um aperto via juros aprofundaria a retração e elevaria o desemprego; a manutenção de juros elevados pressionaria ainda mais o mercado de títulos públicos.

Nesse contexto, a expansão do balanço do Fed — mesmo sem o rótulo explícito de Quantitative Easing (QE) — passa a funcionar como mecanismo de estabilização financeira. Seu objetivo não é combater a inflação, mas conter a volatilidade dos mercados de dívida, reduzir prêmios de risco e garantir condições mínimas para o financiamento do setor público. A sobreposição entre política monetária e gestão fiscal deixa de ser exceção e passa a integrar o funcionamento regular do sistema.

Os rumores sobre o retorno do QE – afrouxamento quantitativo - foram acompanhados por uma valorização expressiva do ouro, tradicionalmente visto como ativo de proteção em ambientes de expansão monetária, enfraquecimento do dólar e aumento da incerteza institucional. O movimento revela menos temor inflacionário imediato e mais uma percepção difusa: a de que o sistema financeiro norte-americano volta a operar sob condições extraordinárias, em que a autonomia do banco central se mostra cada vez mais limitada.

<><> Efeitos das políticas de Quantitative Easing

As políticas de Quantitative Easing afetam a economia norte-americana por canais que ultrapassam amplamente o sistema bancário. Ao expandir seu balanço e reduzir artificialmente os juros de longo prazo, o Federal Reserve barateia o crédito imobiliário, o financiamento ao consumo e o custo de capital das grandes corporações, sustentando a demanda agregada em momentos de desaceleração. Esse mecanismo ajuda a conter o desemprego e a evitar recessões mais profundas, mas o faz de maneira desigual: a valorização de ações e imóveis beneficia sobretudo os detentores de ativos, enquanto os salários reais permanecem pressionados. O resultado é uma recuperação apoiada no efeito riqueza e no endividamento, com impactos sociais assimétricos e aumento da desigualdade patrimonial.

Para os parceiros econômicos dos Estados Unidos, o QE funciona como um poderoso transmissor internacional de liquidez e volatilidade. Juros persistentemente baixos no centro do sistema financeiro empurram capitais para economias emergentes, pressionando moedas locais, inflando mercados de ativos e criando ciclos de entrada e saída abrupta de recursos. Ao mesmo tempo, a expansão monetária tende a enfraquecer o dólar no curto prazo, afetando a competitividade comercial de terceiros países e impulsionando os preços globais de commodities. Para economias dependentes de importações de alimentos e energia, isso se traduz em inflação importada; para exportadores, em ganhos temporários acompanhados de maior vulnerabilidade macroeconômica.

Em termos sistêmicos, o QE revela um paradoxo central da hegemonia monetária americana. Ao mesmo tempo em que sustenta o financiamento da dívida pública dos EUA e preserva o papel internacional do dólar, o Federal Reserve exporta instabilidade para o resto do mundo e expõe o caráter cada vez mais político da gestão da moeda global. Essa assimetria tem incentivado movimentos defensivos de diversificação de reservas, ampliação de acordos em moedas locais e busca por mecanismos alternativos de liquidação financeira, especialmente entre países do BRICS+ e do Sul Global. Assim, o QE deixa de ser apenas um instrumento de estabilização doméstica e passa a atuar como catalisador silencioso da fragmentação monetária internacional.

<><> Fed, dólar e ouro: sinais de desgaste no centro

Em condições normais, a queda dos juros nos Estados Unidos estimularia a migração de capitais para economias emergentes como o Brasil que tem uma das taxas de juros mais elevadas do planeta. Contudo, o que se observou foi um fluxo significativo de capitais em direção ao ouro. Esse desvio do padrão esperado é revelador. Ele sinaliza não apenas maior aversão ao risco, mas um desgaste da credibilidade da moeda hegemônica no próprio mercado norte-americano.

No curto prazo, juros mais baixos nos EUA aliviam pressões financeiras globais, especialmente sobre países endividados em dólar. Esse alívio, contudo, vem acompanhado de maior volatilidade cambial, fluxos especulativos instáveis e riscos de reversão abrupta de capitais.

No longo prazo, o efeito é mais profundo: cada rodada de flexibilização monetária sob pressão política enfraquece a narrativa ortodoxa do dólar como ativo neutro, tecnicamente gerido e imune a disputas domésticas.

O dólar permanece dominante, mas sua autoridade simbólica se desgasta.

É nesse ponto que entram o BRICS+ e a China.

<><> BRICS+, China e a desdolarização como resposta sistêmica

A desdolarização não nasce de discursos ideológicos, mas de incentivos econômicos concretos. Quando o principal emissor da moeda internacional passa a utilizá-la como instrumento de política doméstica — seja por meio de sanções, seja pela gestão monetária voltada à rolagem da dívida — outros países buscam reduzir sua exposição sistêmica.

A China tem sido a principal articuladora desse movimento, ampliando acordos bilaterais em moedas locais, fortalecendo o uso do renminbi no comércio internacional e defendendo, no âmbito dos BRICS, mecanismos alternativos de liquidação e financiamento. O Novo Banco de Desenvolvimento e os acordos de swap entre bancos centrais não representam rupturas abruptas, mas elementos de uma arquitetura paralela em construção.

Paradoxalmente, o corte de juros do Fed e os sinais de retorno do dinheiro fácil funcionam como catalisadores desse processo. Ao evidenciar que a política monetária americana está cada vez mais condicionada à política interna, Washington incentiva outros países a buscar proteção fora do circuito exclusivo do dólar.

<><> Não é o fim do dólar — é o fim da exclusividade

É fundamental evitar leituras apressadas. O dólar não está em colapso, nem será substituído de forma abrupta. O que está em curso é um processo mais silencioso e estrutural: a perda gradual de exclusividade. O sistema monetário internacional caminha para uma configuração mais fragmentada, com múltiplos polos, moedas regionais fortalecidas e maior valorização de ativos reais.

Nesse cenário, os BRICS não atuam como um bloco ideológico homogêneo, mas como um espaço pragmático de coordenação diante da instabilidade do centro. A China, por sua vez, não propõe um novo padrão hegemônico clássico, mas uma transição para uma ordem menos dependente de uma única moeda e de um único banco central.

<><> Quando o centro pede tempo, a periferia se reorganiza

O corte de juros do Fed em dezembro e os sinais de retorno do dinheiro fácil não são episódios isolados. Eles expressam as dificuldades de um sistema que tenta preservar sua centralidade em um mundo estruturalmente transformado.

Para os Estados Unidos, trata-se de ganhar tempo. Para o resto do mundo, trata-se de reduzir vulnerabilidades.

A história monetária mostra que hegemonias não caem por colapso, mas por adaptação forçada. O que se observa hoje é exatamente isso: os Estados Unidos seguem no centro do sistema, mas já não sozinhos. A desdolarização avança não porque o dólar seja fraco, mas porque sua gestão tornou-se politicamente exposta — e, quando alternativas deixam de ser exceção, o desgaste deixa de ser invisível e passa a ser estrutural.

¨      Da Fábrica do Mundo ao Mercado Interno

Diante de um mundo mais instável e fragmentado, fortalecer o mercado interno tornou-se não apenas uma opção econômica, mas um imperativo de soberania...

<><> A virada estratégica do modelo chinês de desenvolvimento

A decisão chinesa de colocar a expansão da demanda doméstica no centro de sua estratégia de desenvolvimento não surge do nada nem responde apenas às dificuldades conjunturais recentes. Ela é o resultado de uma evolução histórica do modelo econômico chinês, marcada por sucessos extraordinários, limites estruturais crescentes e transformações profundas no ambiente internacional. O editorial do China Daily (16/12), ao ecoar o artigo de Xi Jinping publicado na Qiushi, ajuda a compreender o modelo atual, mas ele só se revela plenamente quando contrastado com o modelo anterior e com as razões que tornaram inevitável a mudança.

<><> O modelo exportador e investidor que moldou a China contemporânea

Durante cerca de quatro décadas, especialmente entre os anos 1990 e meados da década de 2010, a China seguiu um modelo de crescimento baseado em exportações, investimento pesado e rápida industrialização. Esse modelo apoiou-se em alguns pilares bem definidos: abundância de mão de obra, salários relativamente baixos, forte capacidade estatal de planejamento, investimentos maciços em infraestrutura e uma inserção estratégica nas cadeias globais de valor. 

A adesão à OMC, em 2001, consolidou esse caminho. A China tornou-se a “fábrica do mundo”, acumulando superávits comerciais expressivos, reservas internacionais gigantescas e taxas de crescimento sem precedentes na história econômica moderna.

Esse modelo cumpriu um papel histórico decisivo. Ele permitiu retirar centenas de milhões de pessoas da pobreza, construir uma base industrial completa, urbanizar o país em ritmo acelerado e criar capacidades tecnológicas e produtivas que hoje colocam a China na fronteira de setores como energia renovável, telecomunicações, transporte ferroviário, inteligência artificial e manufatura avançada. No entanto, justamente por seu sucesso, o modelo começou a revelar contradições internas e externas.

<><> Os limites internos do crescimento baseado em exportações

No plano interno, o crescimento excessivamente apoiado em investimento e exportações passou a gerar desequilíbrios estruturais. A participação do consumo das famílias no Produto Interno Bruto (PIB) permaneceu relativamente baixa por muito tempo, enquanto o investimento atingia níveis difíceis de sustentar. Surgiram problemas de sobre capacidade em setores industriais, pressões ambientais severas, desigualdades regionais e sociais, além de um endividamento crescente de governos locais e empresas estatais.

À medida que a renda per capita aumentava, também cresciam as expectativas da população por serviços públicos de melhor qualidade, bem-estar, saúde, educação, lazer e segurança social — demandas que não podiam ser atendidas apenas com mais aço, cimento e exportações.

A crise do setor imobiliário tornou-se talvez a expressão mais visível desses limites. Durante anos, a construção civil e o mercado de imóveis funcionaram como pilares do crescimento, da arrecadação dos governos locais e da formação de riqueza das famílias. O colapso de grandes incorporadoras, como a China Evergrande Group, simbolizou o esgotamento desse ciclo. A correção do setor passou a afetar diretamente a confiança dos consumidores, a renda esperada e a disposição das famílias para gastar. A moradia, tratada por décadas como ativo financeiro, reaparece agora como questão social e econômica central, reforçando a necessidade de um modelo de desenvolvimento menos dependente da especulação e mais orientado para as necessidades reais da população.

<><> Um ambiente internacional cada vez menos favorável

No plano externo, o ambiente que havia favorecido o modelo exportador chinês começou a se deteriorar. A crise financeira global de 2008 já havia sinalizado os limites da dependência da demanda externa. Mais recentemente, a intensificação das tensões geopolíticas, a guerra comercial e tecnológica com os Estados Unidos, o avanço do protecionismo, a fragmentação das cadeias globais de valor e a crescente securitização do comércio tornaram claro que apostar excessivamente no mercado externo aumentava a vulnerabilidade da economia chinesa.

O mundo deixou de ser um espaço previsível e aberto para a expansão contínua das exportações.

<><> A demanda doméstica como estratégia, não como paliativo

É nesse contexto que se insere a virada estratégica para a expansão da demanda doméstica, agora reafirmada por Xi Jinping como uma medida estrutural e de longo prazo, e não como um expediente anticíclico. A lógica do novo modelo é distinta: trata-se de construir um equilíbrio dinâmico entre oferta e demanda, no qual o aumento da renda, do consumo e da qualidade de vida da população alimente a inovação, a modernização produtiva e o crescimento sustentável.

Os dados citados no editorial do China Daily ilustram essa transição em curso. O fato de o consumo final já responder por mais da metade do crescimento econômico em 2025 não é trivial. Ele sinaliza uma mudança qualitativa: a economia passa a ser impulsionada menos por volumes e mais por qualidade, serviços, inovação e valor agregado.

<><> Serviços, inovação e bem-estar no centro do novo ciclo

A ênfase em setores como cuidados com idosos, turismo, educação, cultura, economia digital e consumo verde revela um esforço consciente de alinhar crescimento econômico com transformações demográficas, tecnológicas e ambientais. Outro aspecto central do novo modelo é o papel do Estado como coordenador estratégico, e não apenas como investidor direto.

As iniciativas conjuntas do Ministério do Comércio, do Banco Popular da China e do órgão regulador financeiro mostram como política industrial, política financeira e política de consumo está sendo integradas. Ao direcionar crédito, criar garantias, subsidiar juros e estimular novos modelos de consumo, o Estado busca ativar a demanda interna de forma descentralizada, respeitando as diferenças regionais e evitando soluções uniformes.

<><> O desenvolvimento orientado para as pessoas 

Essa mudança também dialoga com o conceito de “novas forças produtivas de qualidade”, frequentemente mencionado pela liderança chinesa. Diferentemente do antigo modelo, baseado na expansão extensiva da capacidade produtiva, o atual enfatiza capacidades individuais, inovação tecnológica, sustentabilidade ambiental e serviços sofisticados. Investir em pessoas torna-se tão importante quanto investir em ativos físicos, sinalizando uma maturação do projeto de desenvolvimento.

<><> Mercado interno forte e abertura externa não são opostos

Por fim, é crucial destacar que a expansão da demanda doméstica não representa um recuo da China em relação à abertura econômica. Ao contrário, um mercado interno mais robusto torna o país ainda mais atraente para o investimento estrangeiro. A lógica se inverte: não se trata mais de crescer para exportar, mas de crescer para atender um vasto mercado interno que, justamente por isso, se torna um polo de atração global.

<><> Uma adaptação histórica ao novo mundo

Em síntese, a transição do antigo modelo exportador-investidor para um modelo centrado na demanda doméstica reflete não uma ruptura, mas uma adaptação estratégica às novas condições históricas. A China não abandona os ganhos do passado; ela os transforma em base para um novo estágio de desenvolvimento.

Diante de um mundo mais instável e fragmentado, fortalecer o mercado interno tornou-se não apenas uma opção econômica, mas um imperativo de soberania, resiliência e sustentabilidade de longo prazo.

 

Fonte: Brasil 247

 

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