A
ESTÉTICA DA SUBMISSÃO: Tradwives e a performance da feminilidade conservadora
O
movimento das tradwives (traditional wives, ou mulheres tradicionais) tem
ganhado cada vez mais visibilidade, sobretudo nas redes sociais, onde
influenciadoras compartilham rotinas centradas na dedicação ao marido, à
maternidade e ao lar. Mais do que uma escolha de estilo de vida, o fenômeno
resgata um passado marcado pela rígida divisão de papéis de gênero e pela
valorização da família nuclear como modelo único. A performance, construída por
meio de discursos, conselhos de “feminilidade” e uma estética que associa
obediência à elegância, traduz uma dinâmica cultural que se conecta diretamente
ao avanço do conservadorismo contemporâneo.
A
ascensão desse fenômeno não se explica apenas pelo apelo “nostálgico”, mas pelo
diálogo direto com projetos políticos ultraconservadores em diversas partes do
mundo. Partidos e lideranças da extrema direita têm investido na retórica da
“restauração da ordem” e na defesa dos “valores tradicionais”, apresentando-se
como barreiras às políticas de equidade de gênero e à autonomia reprodutiva.
Nesse contexto, as tradwives operam como peças de legitimação simbólica:
suavizam os mecanismos de ação do conservadorismo ao transformá-los em um ideal
de vida doméstico, feminino e aparentemente inofensivo.
É nesse
contexto que a imagem de Ivanka Trump, durante a posse de Donald Trump em 20 de
janeiro de 2025, ganhou enorme repercussão. Vestida com um conjunto
monocromático verde e apresentando-se de forma sóbria, Ivanka evocou
comparações imediatas com a estética de O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale),
obra distópica de Margaret Atwood que retrata um regime teocrático e
totalitário nos Estados Unidos. A semelhança com as Esposas – mulheres casadas
com os Comandantes, que sustentam e legitimam o sistema de exploração das Aias
– foi vista como um gesto carregado de simbolismo político.
Como
destacou Bleiker, as imagens visuais são performances que circulam
politicamente e, por isso, tornam-se importantes instrumentos na “guerra das
imagens”, sendo capazes de moldar opiniões, percepções e influenciar debates.
Assim, a fotografia de Ivanka não pode ser compreendida como uma escolha
casual, mas como parte de uma performance que traduz a estética da feminilidade
conservadora. Sua presença encarna o mesmo espírito que sustenta o movimento
das tradwives: a legitimação de papéis de gênero rígidos, ocultada pelo
discurso da elegância e disciplina. Ao mesmo tempo em que desperta admiração em
setores conservadores, essa estética também funciona como instrumento de
naturalização de retrocessos em relação aos direitos das mulheres.
O atual
avanço do movimento dialoga diretamente com o momento pelo qual países do mundo
vivem, em especial o Brasil, com o avanço de diversas pautas conservadoras, e
por vezes retrógradas, que parecem querer suprimir direitos conquistados por
minorias durante décadas de luta.
Um dos
argumentos para o avanço desse fenômeno é a percepção de que essas mulheres
escolheram a família ao invés do feminismo. No entanto, essa ideia não encontra
respaldo na realidade, tendo em vista que, como prega Beauvoir, o feminismo
busca libertar a mulher das condições sociais e simbólicas que a colocam em
posição de subordinação e subalternização. Assim, o feminismo não impõe um
modelo único de vida, mas defende a autonomia da mulher para decidir o que
deseja para si, seja construir uma carreira, dedicar-se à família ou conciliar
ambas as escolhas, até porque, trabalho doméstico também é uma forma legítima
de trabalho.
Ademais,
outro ponto relevante é que, no cenário econômico-social atual, optar por não
trabalhar fora é uma realidade acessível a poucas mulheres, devido
principalmente às limitações financeiras. Segundo dados do IBGE, a renda média
mensal da população brasileira é de R$ 3.057,00 (três mil e cinquenta e sete
reais), sendo que as mulheres ganham, em média, 20,9% a menos que os homens.
Entre as mulheres negras, a desigualdade é ainda mais acentuada: elas recebem
menos do que os homens, independentemente da raça ou etnia, e também menos que
as mulheres brancas, com uma diferença que pode chegar a 110%.
O
Brasil possui uma população majoritariamente feminina, na qual a maioria das
mulheres é negra e está – historicamente – alocada em sub-empregos, trabalhos
informais ou trabalhos formais de baixa remuneração; logo, não trabalhar fora,
para parte significativa desse grupo, nunca foi uma opção. Dizer, mesmo que
indiretamente, que essas mulheres se dedicam menos à família, por não terem a
possibilidade de se concentrar exclusivamente nela, revela uma visão limitada
da realidade social e histórica, tendo em vista que muitas dessas mulheres são
as responsáveis por prover e manter a casa e a família, evidenciando, assim,
como o movimento tradwife é nichado e voltado para segmentos específicos de
mulheres com condições socioeconômicas privilegiadas.
Outro
ponto importante, ao optar por esse estilo de vida, é a questão da dependência
financeira que essa escolha pode acarretar. Por reforçar uma ideia patriarcal,
de que o homem é o único responsável por prover a casa, o poder e o controle
econômico ficam concentrados no marido, o que pode colocar a mulher em posição
de submissão por não deter autonomia financeira, já que a subordinação
econômica é uma forma estrutural de opressão feminina, limitando liberdade e
escolhas de vida. Além disso, em um país como o Brasil, em que os casos de
feminicídio e violência contra a mulher, infelizmente, aumentam a cada dia, a
hipossuficiência financeira só seria um elemento dificultador para que a mulher
possa romper com situações de abuso e agressão.
Diante
disso, é importante refletir sobre como modismos que evocam um modo de vida
conservador impactam a sociedade, especialmente em relação ao gênero, política
e cultura. Estilos de vida como o das tradwifes são apresentados a muitas
mulheres, em grande parte jovens, como um modelo ideal, sem que sejam
discutidos os possíveis contrapontos e limitações dessa escolha. Torna-se
igualmente necessário analisar criticamente quem ou o que impulsiona esses
movimentos, bem como o contexto sócio-político em que movimentos como esse
estão sendo fomentados, para compreender as implicações mais amplas dessa
tendência.
Fonte:
Por Isabela Tabarelli Cabral e Michele Ferreira, em Le Monde

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