Oliveiros
Marques: Seria havaianas a última vítima da insanidade?
A
imbecilidade, ao que tudo indica, não conhece limites nem constrangimentos. Ela
se apresenta tanto naqueles que acreditam sinceramente - com fé quase religiosa
- nas bobagens que consomem, quanto na turma dos oportunistas profissionais,
sempre à espreita de uma espuma qualquer para tentar surfar na onda da
extrema-direita, imaginando que essa marola histérica será eterna e lhes
garantirá relevância para além do próximo ciclo de likes. Aos primeiros,
concedo o benefício da dúvida e até certa boa-fé. Aos segundos, bem… que se
arrebentem no primeiro teste em que o cálculo oportunista for confrontado com a
realidade.
A
insanidade da vez atende pelo nome de “cancelamento das Havaianas”. Sim, você
leu certo. Um conjunto de perfis extremistas decidiu se sentir profundamente
ofendido por uma fala da atriz Fernanda Torres, dita a partir de um roteiro
publicitário que, convém lembrar, não foi escrito por ela. Segundo essa gente,
Fernanda estaria atacando valores sagrados ao sugerir que as pessoas entrem no
ano novo não apenas com o pé direito - expressão popular -, mas com os dois
pés. Eis o crime: desejar que as pessoas caminhem inteiras para o ano seguinte.
Para os caçadores de comunistas imaginários, isso já foi o suficiente para
enxergar a foice e o martelo escondidos entre as tiras de borracha.
Não há
qualquer alusão ideológica no texto. Nenhuma. Zero. Mas os inimigos declarados
da sinapse parecem incapazes de compreender o óbvio. Ou, alternativamente,
fazem-se de desentendidos com método, criando uma cortina de fumaça
conveniente. E aqui a coincidência começa a ficar interessante: o chilique
coletivo surge justamente quando vêm à tona as pilhas de dinheiro encontradas
na residência do líder da extrema-direita na Câmara, Sóstenes Cavalcanti. Nada
como uma boa polêmica fabricada para deslocar manchetes, algoritmos e
indignações seletivas.
Ainda
assim, a estupidez consegue se superar. Em algum universo paralelo, poderíamos
vê-los acusando Fernanda Torres e as Havaianas de capacitismo, por “exigir”
dois pés. O déficit cognitivo é tão acentuado que nem percebem que, ao falar em
entrar com os dois pés, a atriz reforça - e não diminui - o protagonismo do
“adorado” pé direito. Mas pedir coerência a essa gente talvez seja capacitismo
intelectual da nossa parte.
Enquanto
isso, no mundo real, o suposto boicote parece ter produzido o efeito inverso.
Lojas abarrotadas, sandálias voando das prateleiras, filas nos shoppings. As
Havaianas, essa sandália que não tem cheiro e não solta as tiras, caminham
firmes para se tornar o item mais disputado do amigo secreto nas firmas e nos
encontros familiares. Se a intenção era punir a marca, parabéns: conseguiram
apenas fazer propaganda gratuita.
No fim
das contas, a extrema-direita segue prestando um serviço, neste caso
involuntário, ao capitalismo. E Fernanda Torres, sem esforço algum, entrou no
ano novo exatamente como sugeriu: com os dois pés - um deles, ao que tudo
indica, bem cravado no juízo.
• O chinelo comunista. Por Ricardo Nêggo
Tom
Botei
minha havaiana na janela do quintal, mas Papai Noel, aquele velho porco
capitalista que não gosta de pobre, como diz a música dos Garotos Podres –
banda que está sendo alvo de um inquérito policial por “incitar violência
contra pessoas de bem”, por causa de uma letra composta há 40 anos, criticando
uma “pessoa de bem” que nem existe - não deixou nenhum presente de Natal para
mim só porque que sou esquerdista. Aliás, parece que o bom velhinho também está
aderindo ao boicote a marca de chinelos mais popular do país, porque os seus
amigos bolsonaristas - tão porcos e capitalistas quanto ele – não gostaram da
propaganda da marca estrelada por Fernanda Torres.
O
motivo do desgosto? Eles entenderam como provocação a sugestão de entrar o
próximo ano com os dois pés, e não apenas com o pé direito. Nós sabemos que um
bolsonarista possui cascos e usa ferraduras como calçados, mas eles deveriam
saber que o casco esquerdo lhes sustenta o direito. Ou vice-versa. Na verdade,
eles querem mesmo é entrar 2026 com os dois pés, digo, os dois cascos na porta,
aprovando o PL da Dosimetria e aliviando a pena de seus amiguinhos criminosos
que tentaram dar um golpe de estado no país. Bem que eles mereciam, além das
penas que receberam, umas boas chineladas de Havaianas no bumbum para
aprenderem a respeitar o Estado democrático de direito.
Eduardo
Bolsonaro é uma das estrelas da campanha que tenta criminalizar uma marca de
chinelos, e combater o livre direito de escolha que as pessoas têm de usar a
tal marca. Sob o lema: “Direitos de chinelos, para chinelos direitos”, ele
aparece jogando seus chinelos no lixo e convocando os bolsonaristas a saírem às
ruas calçando ferraduras verde e amarelas nos pés, para fortalecer o
patriotismo pé de chinelo que eles professam. Ele que já está sem mandato e sem
passaporte diplomático, agora também ficou sem chinelo. Mas não para por aí.
Frei Gilson já convocou os católicos a rezarem um terço às 3 da madrugada
contra o comunismo havaiano, e orientou os fiéis a usarem apenas as sandálias
da humildade que o Pânico na TV oferecia aos convidados que se recusaram a lhe
dar entrevistas. Dom Odilo Scherer já autorizou a transmissão da reza do terço
em todas as emissoras do Brasil.
Sóstenes
Cavalcante já se comprometeu a doar os 430 mil reais encontrados pela PF em seu
flat, em Brasília, para a compra de chinelos de outras marcas para os
bolsonaristas de todo o Brasil. Silas Malafaia lançou a campanha do “chinelo
ungido”, onde fiéis evangélicos de sua igreja podem adquirir um par de
sandálias confeccionadas pelas mãos de Jesus, pela módica quantia de R$ 900
reais. “Este chinelo vai abençoar a sua vida”, diz ele rosnando em vídeo
postado no seu canal do youtube. Michelle Bolsonaro está organizando a marcha
das mulheres submissas e descalças, onde ela convocará um jejum de chinelos
havaianas, no qual suas seguidoras purificarão seus pés da influência diabólica
das sandálias que não deformam, não soltam as tiras e não tem cheiro. “Chulé é
coisa de Deus”, diz ela em línguas estranhas, enquanto calça uma sandália nos
pés de seu amigo maquiador.
Diversas
figuras do bolsonarismo estão publicando vídeos de adesão ao boicote contra a
marca de chinelos. Enquanto Tarcísio de Freitas apareceu destruindo um par de
havaianas à marteladas, Guilherme Derrite publicou um video onde ele aparece
atirando nos pés de pessoas que usavam o referido chinelo, e dizendo que
boicotar a marca é combater o crime organizado. Carla Zambelli invadiu o site
oficial da marca com a ajuda de um hacker da concorrência, mudou o slogan da
empresa para: “Sandálias espanholas, aquelas que dão prazer de calçar”, e
revelou que perseguiu armada o jornalista Luan Araújo pelas ruas de São Paulo,
porque se sentiu ameaçada ao vê-lo calçando um par de havaianas.
Prefeitos
bolsonaristas que governam cidades em Santa Catarina, determinaram que todos as
pessoas em situação de rua fossem jogadas em caminhões de lixo e descartados em
outras cidades do Brasil. “Esses pés de chinelos são todos havaianas”,
justificaram. Nikolas Ferreira jogou suas havaianas fora e disse que a
diversidade de cores e modelos oferecida pela marca, é pura ideologia de gênero
disfarçada de variedade. “Querem introduzir chinelos unissex nas escolas”,
disparou ele. Como entretenimento, o bolsonarismo é uma piada bufa e mal
cheirosa. O pum de uma legião de palhaços que já teve Regina Duarte como
ministra da sua falta de cultura, e Jair Bolsonaro como seu mito bufão e
inspirador da idiotia que lhes deturpa a cognição. Uma oligofrenia que bota
quaisquer havaianas no chinelo.
• Direita vê ideologia em Havaianas e
transforma chinelo em guerra cultural. Por Esmael Moraes
A
polêmica das Havaianas escancarou como a direita brasileira passou a tratar
publicidade como militância política. Após um comercial estrelado por Fernanda
Torres, setores do bolsonarismo anunciaram boicote à marca ao interpretar a
frase sobre não começar 2026 com o “pé direito” como provocação ideológica.
A
reação segue um padrão recente da direita, que transforma campanhas
publicitárias em disputas simbólicas e convoca boicotes como forma de
militância cultural. Bastou um chinelo para parte do campo conservador concluir
que a sandália ganhou ideologia, partido e, quem sabe, título de eleitor. O pé,
agora, também vota.
De
repente, o solado virou suspeito. Parlamentares passaram a listar marcas
“permitidas”, influenciadores gravaram vídeos indignados e houve quem jurasse
nunca mais pisar numa borracha potencialmente comunista. Nunca um par de
Havaianas provocou reflexão tão profunda sobre lateralidade política. Para
alguns, o calcanhar esquerdo virou marxista e o direito, vítima de censura
publicitária.
Do
outro lado, a resposta veio em tom de deboche institucional. O líder do PT na
Câmara, Lindbergh Farias (RJ), prometeu comparecer às sessões do próximo ano
calçando Havaianas, como quem lembra que o plenário já sobreviveu a coisas
piores do que dedos à mostra. No Paraná, Arilson Chiorato (PT), líder da
oposição na Assembleia Legislativa, aderiu ao figurino e elevou o chinelo à
condição de traje oficial da resistência parlamentar de verão.
No
Planalto, aliados relatam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
avalia usar Havaianas como símbolo de alinhamento com os mais pobres na
campanha pela reeleição. A mensagem seria direta, governar de pé no chão, sem
sapato importado nem verniz elitista. A oposição, claro, já enxerga subversão
até no solado.
O filme
é reprise. Em 2023, a direita declarou guerra ao chocolate Bis, da Mondelez
Brasil, produzido em Curitiba. O estopim foi a contratação do youtuber Felipe
Neto para uma campanha publicitária. Houve hashtag, vídeos em supermercados e
juramentos de boicote nas redes.
O
efeito prático foi o oposto do desejado. Segundo Célio Bolinha, presidente do
sindicato dos trabalhadores da empresa, o Sintrafucarb, o episódio coincidiu
com aumento no consumo e na produção, o que resultou em mais contratações na
fábrica instalada na capital paranaense.
A
polêmica campanha da Bis com Felipe Neto: deputado do PT traz chocolate para a
ALEP, enquanto Pimenta pede "bis" em 2026
Arilson
Chiorato, Paulo Pimenta e Wadih Damous pedem “bis” para Lula em 2026.
O
padrão se repete com precisão e já tem nome na ciência política, a politização
do consumo como extensão da guerra cultural. Produtos populares viram bodes
expiatórios, o carrinho do supermercado se transforma em urna simbólica e o
debate público escorre para a prateleira.
Na
prática, quem ganha com a polêmica das Havaianas não é a esquerda nem a
direita, mas a Alpargatas, controlada desde 2017 pela Itaúsa. Ou seja, o
barulho ideológico acaba convertendo engajamento político em valorização de
marca para o andar de cima, os mesmos oligarcas do sistema financeiro da Faria
Lima que historicamente operam em sintonia com a velha mídia e lucram quando o
debate público é deslocado da economia real para guerras simbólicas de consumo.
Aliás,
Fernanda Torres é uma das garotas-propaganda do Itaú Unibanco em 2025. Ela
estrelou campanhas de fim de ano ao lado da mãe, Fernanda Montenegro, além de
protagonizar a série Tá Feito sobre educação financeira, evidenciando uma
versatilidade que parece escapar aos bolsonaristas mais atentos ao solado do
chinelo do que ao currículo da atriz.
Enquanto
isso, o brasileiro médio segue indo à padaria de chinelo, alheio à guerra
imaginária travada nas redes. A polêmica das Havaianas diz menos sobre a marca
e mais sobre um campo político que vê ameaça em tudo. Quando até sandália vira
panfleto, talvez o problema não esteja no pé direito nem no esquerdo. Está na
cabeça.
• A propaganda criada para cutucar a
infantilidade da extrema direita. Por Moisés Mendes
Até o
cunhado do estagiário do marketing das Havaianas sabe que é uma provocação o
vídeo com Fernanda Torres preocupada em não começar o ano com o pé direito. Que
só funcionou porque as lideranças e as bases da extrema direita são infantis,
não só no Brasil.
O bom é
que temos humor depois do cansaço com o excesso de sobriedade de Hugo Motta,
Davi Alcolumbre, Guilherme Derrite, Sóstenes Cavalcante. Estava faltando a
guerra das Havaianas para encerrar o ano.
O
fascismo bem crianção precisava de uma provocação que cutucasse sua
infantilidade com alguma imaginação. Eles morderam a isca, as Havaianas vão
vender como nunca e o chinelo Rider voltará com força ao veraneio em Balneário
Camboriú.
A
propaganda dos chinelos é mais uma prova de que o fascismo infantilizou toda a
direita. Temos a primeira afronta de um produto de massa declaradamente
dirigida à estupidez desse vasto público.
O vídeo
de Fernanda Torres é um marco. As Havaianas vão dizer que não é nada disso, que
não mete os pés pelas mãos, que pés não têm ideologia, mas será conversa pra pé
dormir.
Outros
produtos poderiam explorar esse filão, como o carro que tem acelerador no pé
esquerdo e a fruteira de Ipanema que só vende frutas vermelhas.
É a
adequação do marketing incomodativo às tolices de quem acredita que marcianos
poderiam apoiar o golpe. Quase todas as ideias, as falas e as atitudes da
extrema direita são infantis, incluindo a Coca-Cola que Tarcísio de Freitas
deve tomar de canudinho.
É por
isso que Flávio não é o candidato da direita, mas do papai. Antes de ser um
nome assumido pela máquina do bolsonarismo, o filho precisa ter a unção de quem
manda em casa, mesmo estando preso.
Nikolas
Ferreira virou um fenômeno porque é mais do que imaturo, é infantil. Guardar
dinheiro vivo em casa é uma coisa infantil. Tem todos os ingredientes das
condutas que remetem à infância e aos esconderijos dos dinheirinhos.
A
minuta do golpe é um troço infantil, pela forma como foi elaborada e circulou e
pelo conteúdo precário. O texto com o pensamento digitalizado do general Mário
Fernandes, para assassinar Lula, Alckmin e Moraes, é uma atitude criminosa com
marcas de criancice.
O
fascismo só prospera pelas simplificações de ideias e discursos, ou de
narrativas, como eles dizem. É da contração de coisas complexas, das suas
sínteses às vezes grosseiras, que a extrema direita vive nos Estados Unidos, na
Argentina, no Brasil e agora no Chile.
Desencantos,
desesperanças e desilusões, muitas das quais provocadas pelas esquerdas,
acionam a infantilidade da direita. Que é regressiva porque é disso, dessa
infantilidade, que seus líderes dependem.
Os
estúpidos acreditam que Fernanda Torres os provocou porque de fato há uma
provocação. Que só funciona porque a propaganda usa chinelos, os dois pés, a
dualidade, o direito e o esquerdo, para implicar com o público que não irá
consumi-los e para conquistar os pés do outro lado.
É
singelo e simples e por isso mexeu com o bolsonarismo. A propaganda finalmente
desembarcou na polarização da política, e tinha que ser com Fernanda.
É o
fato do fim do ano, quase o primeiro sutiã, depois de décadas sem uma grande
sacada do que chamavam de publicidade. As Havaianas não vão quebrar por causa
da reação da direita, assim como Zezé Di Camargo não quebrará o SBT.
Esse é
o caminho. Para chegar à cabeça do fascismo, falem dos seus pés, porque assim
eles entendem. Mirem as vulnerabilidades de quem só capta mensagens, contra e a
favor, se forem condensadas e simplificadas.
Se a
humanidade tivesse três pés e a mesma provocação fosse feita, talvez eles não
entendessem, até porque um pé seria de centro, e o centro não existe mais no
Brasil, na Argentina, na Espanha.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário