SER
MULHER NO BRASIL É VIVER EM ALERTA CONSTANTE
Ser
mulher no Brasil é viver em alerta
constante, não é metáfora, é sobrevivência. Meninas nascem e já encontram
pronta uma pedagogia do medo que não precisou ser criada, foi herdada. Cada
conselho dado ainda na infância funciona como manual de autopreservação: cruze
as pernas, sente direito, não corra tanto, não use saia sem shorts por baixo,
não ria alto, não seja simpática demais, não demonstre inocência, não confie em
quem olha demais, nem em quem olha de menos. São regras não escritas, mas
indispensáveis, porque a violência aqui não é possibilidade, é probabilidade.
E é
impossível fingir que isso é normal. É impossível seguir vivendo como se o
risco fosse imaginário quando os números escancaram a verdade todos os dias.
Lembro-me de uma roda de conversa majoritariamente masculina em que a
Subinspetora Aline, coordenadora do Grupamento Especializado de Proteção a
Mulheres, fez uma provocação direta: imaginem as quatro mulheres mais
importantes da vida de vocês, filhas, esposas, mães ou irmãs. Agora escolham
uma delas para sofrer algum tipo de violência. É cruel, é duro, mas é real. São
mais de treze mulheres violentadas por dia no Brasil, segundo o Atlas da
Violência 2025. Dez. Três. Mulheres. Por. Dia. E seguimos ouvindo discursos de
que o problema é “exagero”, “vitimismo”, “mimimi”.
O
feminicídio no Brasil não é acaso, não é surto, não é exceção. É o ponto final
de uma frase que começou muito antes. É o resultado de um processo cultural tão
profundo que ainda há quem acredite que ele começa “no calor do momento”. Não
começa. Ele começa décadas antes, e a cada caso emblemático essa estrutura se
revela.
Ao
revisitar esses episódios, a indignação cresce.
Ângela
Diniz, assassinada em 1976, foi julgada moralmente por ousar viver como queria.
A ela não foi garantida sequer a proteção da própria morte: seu assassino teve
a “honra” defendida em tribunal. A dela, ninguém defendeu.
Eloá
Pimentel, morta ao vivo, em rede nacional, enquanto o país assistia a cobertura
que romantizava seu agressor, como se a violência fosse prova de amor. E agora,
em 2025, duas servidoras assassinadas por um colega que não tolerava a
autoridade feminina. Ele não matou “por amor”. Ele matou porque achava que
podia. Porque achava que tinha esse direito.
Décadas
nos separam desses casos, mas a lógica que os produz é a mesma. Seguimos
escrevendo capítulos novos de um livro que nunca deveria ter sido iniciado.
O que
mudou não foi a misoginia, foi sua velocidade. A internet amplificou o ódio e o
organizou. Criou a machosfera, onde homens transformam ressentimento em
identidade e violência em projeto político. Onde a cultura red pill prega que
mulheres são inimigas estratégicas, incapazes de lealdade, inferiores por
definição. Isso não é opinião, é doutrinação. E doutrinação produz homens
dispostos a matar.
O mais
alarmante é perceber que esse discurso está moldando meninos que mal atingiram
a vida adulta. Jovens sem qualquer experiência afetiva, mas já convencidos de
que mulheres são ameaças, obstáculos, inimigas. Jovens instruídos por
influenciadores que glamourizam o feminicídio como ato de “recuperação da
masculinidade”. Eles não estão sendo apenas influenciados, estão sendo
treinados.
E o
preço desse treinamento aparece quando um homem entra armado em um instituto
federal e assassina duas mulheres porque não admite ser chefiado por elas. Ele
não é um caso isolado, ele é o produto final de um sistema. Ele é a prova de
que discurso mata. Sempre matou.
Como
isso se sustenta? Porque há conveniência social em fingir que o problema não
existe. Há instituições que relativizam, há Justiça que hesita, há imprensa que
suaviza, há famílias que silenciam. E, acima de tudo, há uma sociedade inteira
que sempre achou aceitável que mulheres vivessem com medo.
E
existe outra ferida, que não sangra por fora, mas corrói por dentro: a
maternidade. Ensinar uma menina a viver aqui é ensiná-la a desconfiar de tudo.
É prevenir sem traumatizar, alertar sem destruir a infância. É pedir que ela
sonhe e, ao mesmo tempo, pedir que ela olhe por cima do ombro. É ensiná-la
liberdade com as mãos e medo com os olhos.
E há
ainda o outro lado, o que quase ninguém discute: ser mãe de um menino. E
entender que cabe a você desfazer tudo o que o mundo fará para moldá-lo. Cabe a
você ensinar que mulheres não são objetos, que “não” é frase completa, que
pornografia não é escola, que masculinidade não se prova com violência. Cabe a
você monitorar o que ele consome, quem influencia, que tipo de homem ele se
tornará. E essa responsabilidade, gigantesca, injusta, desumana, recai quase
sempre sobre as mães.
A
violência de gênero não começa no ato, começa no discurso. O feminicídio é
apenas o capítulo final de uma narrativa que a sociedade insiste em recontar. E
enquanto evitarmos nomear a misoginia como crime, ela continuará se
fortalecendo.
O
Brasil é um país onde mulheres estudam mais, trabalham mais, lideram mais. E
morrem como se nada disso importasse.
Ser
mulher no Brasil é resistir.
Mas
nenhuma sociedade que se diz civilizada deveria exigir tanta resistência de
metade da sua população.
Nenhuma.
• Como viver em um país que naturalizou o
assassinato de mulheres? Por Liliane Rocha
A
mensagem das ruas, com o lema “Basta de feminicídio. Queremos as mulheres
vivas”, desmascara um país que se apresenta cordial aos olhos estrangeiros, mas
convive com problemas profundos de ódio, preconceito, machismo e misoginia.
Figuramos
como o 5º país com maior número de feminicídios no mundo, de acordo com dados
do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).
Apenas El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia registram índices superiores
de assassinatos de mulheres. A disparidade torna-se ainda mais evidente quando
comparada a nações desenvolvidas: no Brasil, mata-se 48 vezes mais mulheres do
que no Reino Unido, 24 vezes mais do que na Dinamarca e 16 vezes mais do que no
Japão ou na Escócia.
Somente
em novembro, ocorreram alguns dos casos mais brutais da história recente. No
Acre, Josie Silva da Costa, de 42 anos, foi assassinada, na zona rural de
Bujari, com um tiro na nuca pelo marido. Em Tocantins, o marido de Maysa
Rodrigues Fernandes Cardoso, de 35 anos, confessou ter matado e enterrado a
esposa após uma discussão. Em Florianópolis, Catarina Kasten, de 31 anos, foi
violentada e morta por um desconhecido a caminho da aula de natação.
A
mensagem parece ser uma só: se você é mulher e brasileira, não pode ter
desavença com marido, namorado ou noivo. Não pode fazer trilha. Não pode andar
na rua após às 22h ou antes das 6h. Não pode sequer trabalhar. Allane de Souza
Pedrotti Matos, de 41 anos, e Layse Costa Pinheiro, respectivamente diretora e
psicóloga do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca
(CETEF), no Rio de Janeiro, foram mortas por um funcionário após uma desavença
de trabalho.
O
Brasil também está acompanhando a luta pela vida de Tainara Souza Santos, que
teve as pernas amputadas em decorrência de ter sido arrastada por cerca de 1,2
quilômetro. O acusado é identificado como um possível ex-companheiro.
Mesmo
em grandes empresas, no trabalho realizado pela Gestão Kairós, já acompanhamos
casos de feminicídio entre funcionários que eram cônjuges.
Não
estamos testemunhando tragédias isoladas, mas um problema estrutural que
atravessa gerações e molda comportamentos de uma cultura que naturaliza a
violência contra mulheres e, sobretudo, normaliza a impunidade de homens que se
julgam proprietários da vida e do corpo delas.
Nada
acontece em uma sociedade sem que isso seja, de alguma forma, aceito ou
pactuado por seus cidadãos. Aquilo que não é tolerado por uma sociedade não se
sustenta nela. Mas o horror, ao que tudo indica, só tomou conta de metade da
população. Poucos homens se manifestam com a contundência necessária diante das
atrocidades que testemunhamos. Isso porque o medo, a insegurança e a sensação
de ser uma próxima vítima não são marcas do corpo masculino.
É
inaceitável falar sobre isso exaustivamente. Portanto, não compactue. Empodere
mulheres. Ensine meninos. Invista na sua empresa. Cobre o governo. Escolha bem
seus candidatos na próxima eleição. A solução passa, obrigatoriamente, por
todos nós. E o primeiro passo é a indignação.
Fonte:
Por Fernanda Augusta de Vasconcelos Roa, no Le Monde

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