A
nova rota do ouro clandestino no Brasil que abastece o mercado internacional
O dia 2
de dezembro de 2025 tinha tudo para ser uma terça-feira de rotina para um grupo
de agentes da Polícia Federal e da Agência Nacional de Aviação Civil
(Anac),
em Boa Vista.
De
carro, eles se deslocaram para a Fazenda Timbó, uma pista de pouso para
pequenas aeronaves nos arredores da capital de Roraima, para esperar pela
chegada de um avião sob monitoramento.
Mas o
clima de aparente normalidade mudou rapidamente quando, em vez de seguir o
plano de voo original e pousar na fazenda, o avião alterou a rota e aterrissou
no Aeroporto Internacional de Boa Vista.
O
movimento chamou atenção dos agentes, e uma equipe foi enviada rapidamente ao
aeroporto.
Ao
abordarem a aeronave, a PF e a Anac encontraram o que talvez possa ajudar a
esclarecer a mudança repentina de rota: 51 kg de barras de ouro transportados
sem notas fiscais ou outros documentos sobre sua procedência.
Segundo
a PF, a carga foi avaliada naquele momento em R$ 36 milhões — e que, agora,
pode ser ainda maior com a disparada no mercado internacional do
preço do ouro, que vem batendo recorde atrás de recorde, o que torna o
comércio ilegal ainda mais lucrativo e atraente e que pode levar a um aumento
desse tipo de atividade criminosa, segundo especialistas.
No
depoimento às autoridades, os ocupantes do avião afirmaram à polícia que o ouro
havia sido embarcado em Itaituba, no Pará, cidade conhecida como um dos
principais entrepostos desse metal precioso extraído de terras indígenas da
região.
Eles
também afirmaram que já haviam feito outros voos semelhantes transportando ouro
do Pará para Roraima, mas não apontaram quem seriam os donos da carga
milionária.
A
apreensão chamou ainda mais atenção das autoridades, porque reforçou a
percepção de investigadores e especialistas ouvidos pela BBC News Brasil de que
se consolidou uma nova rota para escoar ouro clandestino do Brasil rumo ao
exterior.
Durante
décadas, toneladas de ouro foram extraídas ilegalmente da Terra Indígena Yanomami e enviadas a diversos Estados do
Brasil antes de serem exportadas com base em documentos falsos. Agora, o fluxo
parece ter se invertido.
"Identificamos
uma mudança na rota do ouro. Agora, o ouro extraído em outras áreas do país
está sendo enviado para Roraima, e o Estado está funcionando como um ponto de
passagem para outros países", disse à BBC News Brasil o delegado da PF
Caio Luchini, que atua no combate a crimes ambientais em Roraima.
Dados
sobre apreensões de ouro realizadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF)
obtidos pela BBC News Brasil são mais um indício deste novo fluxo.
Entre
2024 e 2025, houve um aumento de 368% no volume de ouro apreendido pela PRF nas
estradas de Roraima.
Em
2024, foram 22,3 kg. Em 2025, foram 104,5 kg — mas esse valor é provavelmente
bem maior, porque não contabiliza as apreensões feitas pela PF em dezembro,
como os 51 kg achados no avião em Boa Vista.
A
hipótese investigada por autoridades é de que um aumento de ações contra o
comércio ilegal de ouro esteja levando organizações criminosas a tentarem
contrabandear o metal pela Venezuela e pela Guiana, passando pela fronteira em
Roraima.
Segundo
especialistas, os países foram escolhidos pela proximidade, pela fiscalização
local menos rigorosa e por Roraima já contar com uma estrutura logística
voltada para o transporte clandestino de ouro montada durante a época em que o
garimpo na Terra Yanomami funcionava a pleno vapor.
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A tradição garimpeira de Roraima
Localizado
no extremo-norte do Brasil, o Estado de Roraima ficou conhecido nacional e
internacionalmente por atrair garimpeiros de todo o país para atuar,
principalmente, na Terra Yanomami, que abriga uma população de aproximadamente
33 mil indígenas.
Essa
atividade é tão forte que um dos principais pontos turísticos da capital Boa
Vista é o Monumento do Garimpeiro, uma estátua de concreto com mais de 7 metros
de altura e 15 de comprimento erguida na década de 1960 que mostra um homem com
uma bateia para homenagear as milhares de pessoas de todo o país que migraram
para a região em busca de ouro.
Investigações
da PF e do Ministério Público Federal (MPF) apontaram, ao longo dos últimos
anos, que parte expressiva do ouro extraído da Terra Yanomami alimentava não só
o mercado nacional, mas também o internacional, exportada para países da Europa
e da Ásia e para os EUA.
Para
entrar no mercado de forma legal, esse ouro era "esquentado" com
emissão de notas fiscais fraudulentas que vinculavam o ouro da terra indígena a
permissões de lavra garimpeira emitidas em outros locais. O ouro era então
comercializado no Brasil ou enviado para o exterior.
Nesse
processo para "legalizar" o ouro clandestino, segundo a PF e a PRF, o
material extraído em Roraima era encaminhado para outros Estados, onde
funcionava a estrutura burocrática e logística de organizações criminosas
especializadas nisso.
"Há
alguns anos, fizemos diversas operações que identificaram o envio do ouro para
São Paulo, Pará e Rondônia, onde era feito o esquentamento por meio da
confecção de documentações fraudulentas, deixando o ouro livre para ser
comercializado", diz Luchini.
A
mudança na rota do ouro clandestino do Brasil e o novo papel que Roraima passou
a desempenhar como porta de saída do país começaram a ser notados por
investigadores e por especialistas nos últimos dois anos.
"Fizemos
diversas apreensões de ouro que vinham do Amazonas e de Rondônia, Estados onde
existe uma forte presença de garimpos ilegais, além do Pará", diz à BBC
News Brasil o diretor nacional de operações da PRF, Marcus Vinícius de Almeida.
Em
agosto de 2025, por exemplo, a PRF realizou a maior apreensão de ouro de sua
história ao abordar em Roraima uma caminhonete que trafegava pela rodovia
BR-401, que liga Boa Vista às cidades de Normandia e Bonfim, ambas na fronteira
com a Guiana.
Segundo
dados do processo ao qual a BBC News Brasil teve acesso, o motorista do
veículo, Bruno Mendes de Jesus, estava acompanhado da mulher e do filho de 9
meses de idade. Ao ser questionado sobre o motivo da viagem, ele teria dito que
estava indo de Manaus para Boa Vista para vistoriar uma obra, mas não soube
indicar qual seria.
Desconfiados,
os agentes da PRF vasculharam o veículo e encontraram 205 barras de ouro que
totalizavam 103 kg, uma carga avaliada então em R$ 61 milhões.
Os
autos do processo apontam que o motorista não revelou a origem e nem o destino
da carga. Em dezembro de 2025, ele foi condenado a oito anos de prisão por
transporte ilegal de matéria-prima da União. Procurada pela BBC News Brasil,
sua defesa não respondeu às questões enviadas.
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O que está por trás da nova rota do ouro clandestino?
Mas o
que está por trás da mudança no fluxo do ouro clandestino no Brasil?
Apesar
de relatos e estudos recentes apontarem que facções criminosas com atuação
nacional estariam atuando em garimpos de ouro, os delegados Caio Luchini e
Milena Coutinho afirmam que ainda não há indícios concretos de que a nova rota
do ouro clandestino esteja sendo explorada por grupos como o Comando Vermelho
ou o Primeiro Comando da Capital (PCC).
"É
preciso aprofundar as investigações que temos em curso, mas, neste momento,
seria prematuro afirmar isso", diz Coutinho.
Segundo
Coutinho, chefe do setor de repressão aos crimes contra os recursos minerais e
de poluição da PF, há três motivos principais para a mudança do fluxo do ouro
clandestino.
"Houve
uma intensificação da repressão ao garimpo na Terra Indígena Yanomami, e isso
diminui a extração ilegal nessa região", diz a delegada.
"Além
disso, houve duas medidas que dificultaram o esquentamento do ouro. A
obrigatoriedade da nota fiscal eletrônica para a compra de ouro de garimpo e o
fim da presunção de boa-fé nesse comércio."
O
aumento da fiscalização mencionado pela delegada aconteceu a partir de 2023,
após a deflagração de uma crise humanitária na Terra Indígena Yanomami.
Na
época, vieram à tona imagens de crianças, mulheres e idosos yanomamis
aparentando subnutrição. Lideranças indígenas e agentes do governo afirmavam
que o quadro era resultado do avanço do garimpo na região nos anos anteriores.
Segundo
eles, os garimpeiros estariam aumentando as áreas desmatadas, afastando a caça,
poluindo os rios com mercúrio e ameaçando indígenas que se opunham à extração
de ouro.
No
início de 2023, o governo federal montou uma estrutura chamada Casa de Governo,
em Boa Vista, que reúne diversos órgãos públicos e agências para combater o
garimpo ilegal e melhorar a assistência humanitária ao povo Yanomami.
Desde
então, agentes da PF, da Força Nacional e do Instituto Brasileiro de Meio
Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) passaram a intensificar as
operações na terra indígena.
Segundo
o governo federal, isso levou a uma redução no número de alertas de
desmatamento por garimpo na Terra Yanomami. Em janeiro de 2024, por exemplo, o
governo divulgou que os alertas chegaram a zero pela primeira vez em quase 20
anos de monitoramento.
Os dois
outros fatores apontados pela delegada atacaram a engrenagem burocrática
responsável por "esquentar" o ouro ilegal para ser vendido nacional
ou internacionalmente.
O
primeiro foi a obrigatoriedade do uso de notas fiscais eletrônicas em
transações envolvendo o ouro de garimpo, determinada pela Receita Federal em
2023.
"Antes,
os compradores de ouro de garimpo podiam usar notas fiscais de papel, o que
dificultava muito a fiscalização", diz à BBC News Brasil a diretora de
pesquisas do Instituto Escolhas, Larissa Rodrigues, especialista no mercado de
ouro brasileiro.
"As
empresas compradoras mantinham caixas e mais caixas de notas em papel. Quando
vinha a fiscalização, era muito difícil separar o joio do trigo. A exigência de
nota fiscal eletrônica facilitou a fiscalização pela Receita Federal."
A
segunda mudança foi o fim da chamada "presunção de boa-fé" nas
transações envolvendo o ouro de garimpo.
A lei
brasileira determina que apenas distribuidoras de títulos e valores mobiliários
(DTVMs) podem comprar ouro de garimpo.
Mas,
até 2023, prevalecia o princípio de que bastava o garimpeiro informar uma lavra
autorizada como origem do ouro para que a transação fosse considerada regular.
Desta forma, as DTVMs não poderiam ser responsabilizadas caso o ouro fosse de
garimpo.
Em
2023, o STF considerou esse princípio inconstitucional, impondo mais restrições
às distribuidoras.
"Com
essas duas medidas, ficou muito mais difícil lavar ouro no Brasil", diz
Rodrigues.
Outro
dado que aponta nesta direção foi a queda no volume de ouro exportado pelo
Brasil nos últimos anos.
Segundo
o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em
2022, antes do cerco à estrutura de lavagem de ouro ilegal, o Brasil exportou
96 toneladas. Em 2025, foram 66 toneladas, uma queda de 31%.
Com a
estrutura de "lavagem" do ouro ilegal afetada, as organizações
criminosas buscaram novas formas de escoar o produto.
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Como o crime se reorganizou - e o que esperar agora
Para
Coutinho, o contrabando em direção à Venezuela e à Guiana reflete essa
adaptação dos grupos criminosos. Ela aponta as razões para a escolha da nova
rota.
"Já
existe uma estrutura logística bem montada em Roraima que atendia o comércio do
ouro. Isso facilita o escoamento através das fronteiras", diz a delegada.
Essa
estrutura, detalha Coutinho, é composta por pistas de pouso clandestinas, polos
de abastecimento de combustível e pilotos que atuam em garimpos e conhecem bem
a região tanto do lado brasileiro quanto do outro lado da fronteira.
Outro
motivo é como a Venezuela e a Guiana lidam com o comércio do ouro. "Há uma
fiscalização mais branda nesses dois países", afirma a delegada.
Na
Guiana, o garimpo de ouro é legalizado, e a extração do metal é uma das
principais fontes de renda do país. Isso dificulta a identificação pelas
autoridades do que é ouro produzido no país e o que foi contrabandeado do
Brasil.
Na
Venezuela, por outro lado, o problema seria a extensão da ilegalidade em torno
da cadeia do ouro.
Um
relatório divulgado em 2025 pela coalizão Fact, instituto de pesquisa focado em
transparência corporativa e financeira, apontou que até 91% do ouro produzido
na Venezuela é extraído e comercializado de forma ilegal e que a cadeia do
produto seria controlada por militares ligados ao governo, grupos guerrilheiros
e gangues transnacionais.
Ainda
segundo o relatório, parte do ouro extraído na Venezuela vai parar no mercado
americano por meio de contrabando e transações financeiras clandestinas.
Em meio
ao que parece ser a "reorganização" do crime organizado diante do
cerco ao garimpo ilegal, o diretor da PRF Marcus Vinícius Silva de Almeida
afirma que a corporação tenta se antecipar aos criminosos, apesar do efetivo
considerado insuficiente para fiscalizar a região.
"O
território é muito grande, e a quantidade de policiais que temos hoje não supre
as necessidades para o tamanho da região", diz Almeida.
"Mas
temos feito um trabalho de análise de risco de novas rotas com o uso de dados e
de inteligência e, por isso, temos feito essas apreensões", diz.
Para o
delegado Caio Luchini, as apreensões recentes de ouro em Roraima são um alerta
sobre a capacidade de adaptação das organizações criminosas.
"A
prática do crime sempre vai existir e isso é fato. O que as autoridades têm
feito é intensificar as ações de fiscalização. Tanto é assim que resultaram
nessas apreensões", diz Luchini.
"Então,
ainda que as organizações criminosas tentem usar Roraima como rota do
contrabando do ouro, a polícia está se adequando. O crime vai sempre tentar se
moldar e burlar a fiscalização."
Outro
ponto de atenção, segundo Larissa Rodrigues, é a valorização do ouro no mercado
internacional, que superou pela primeira vez na história a cotação de US$ 5 mil
(R$ 26 mil) por onça.
A
especialista diz que a disparada no preço sempre acontece em momentos de
incerteza na economia mundial, como o que se atravessa agora por conta de
guerras como as entre Rússia e Ucrânia e entre Israel e Hamas e pela
instabilidade global criada por ações do governo de Donald Trump nos Estados
Unidos.
Como o
ouro é considerado um ativo financeiro seguro, a demanda por ele cresce em
situações assim, como ocorreu no passado após a crise financeira mundial de
2008 e a pandemia de covid-19, a partir de 2020.
"Sempre
que há um aumento no preço do ouro, há também na mesma proporção um estímulo à
extração do metal — seja em áreas legalizadas ou de forma ilegal.
O preço
mais alto no mercado internacional acaba fazendo com que o cálculo entre os
riscos do crime e os ganhos com isso se torne mais atraente.
"Por
isso, com o ouro a um preço tão alto, é esperado que vejamos um aumento na
extração ilegal e uma maior movimentação e comércio de ouro ilícito
principalmente nas regiões de fronteira do Brasil."
Fonte:
BBC News Brasil

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