sábado, 31 de janeiro de 2026

Quem tem diabetes dorme pior e acorda mais cansado, indica estudo

A relação entre alimentação, metabolismo e sono está cada vez mais bem estabelecida e vem ganhando maior destaque na literatura científica, inclusive quando se trata de pessoas com diabetes.

Um novo estudo, publicado na revista Frontiers in Nutrition, indica que a dieta e o controle glicêmico estão associados aos padrões e à duração do sono, reforçando que alterações metabólicas podem interferir diretamente no descanso noturno.

Baseada em dados de 66.148 participantes do NHANES (National Health and Nutrition Examination Survey), levantamento realizado nos Estados Unidos entre 2007 e 2020, a pesquisa mostra que indivíduos com diabetes apresentam maior prevalência de dificuldade para dormir (37,74%) e de diagnóstico de distúrbios do sono (9,56%). Esses resultados são superiores aos observados entre pessoas com pré-diabetes (30,88% e 5,89%) e entre aquelas com níveis normais de glicose no sangue (24,91% e 3,95%, respectivamente).

Sonos mais curtos, com menos de sete horas por noite, também foram mais frequentes entre participantes com diabetes (33,59%) e pré-diabetes (31,29%) do que entre indivíduos com glicemia normal (29,57%). Já o sono acima de nove horas, que também pode ser prejudicial, ocorreu com maior frequência entre pessoas com diabetes (7,79%) em comparação àquelas com pré-diabetes ou sem a condição.

A doença afeta o sono por diferentes mecanismos. “O diabetes não é apenas uma situação em que a glicemia está alta. Dependendo do tratamento, o paciente pode apresentar grandes oscilações glicêmicas, incluindo hipoglicemias noturnas, que causam sudorese, palpitação e despertares abruptos. Isso compromete a consolidação do sono”, explica a neurologista Letícia Soster, do Grupo Médico Assistencial do Sono do Einstein Hospital Israelita.

Além das variações da glicose, a condição também está associada a um estado inflamatório crônico, que pode interferir nos hormônios reguladores do sono. “Há ativação do eixo do estresse, com aumento do cortisol, que antagoniza a melatonina. Isso contribui para um sono mais fragmentado”, afirma Soster.

O sono inadequado também aumenta o risco de desenvolver diabetes tipo 2. A recomendação geral é que um adulto precisa dormir entre sete e nove horas por noite.

“Menos que isso prejudica a regulação hormonal e o controle do apetite e da glicemia. Dormir mais, por outro lado, muitas vezes reflete um organismo exausto e também merece investigação”, alerta a neurologista.

<><> A influência da alimentação

O padrão alimentar aparece como um componente central dessa relação. Segundo o estudo, dietas pobres em proteína estiveram associadas a piores desfechos de sono, independentemente do status glicêmico. Isso se explica pelo impacto dos macronutrientes — que incluem carboidratos, proteína e gorduras — sobre a glicemia. O consumo de carboidratos complexos, como os grãos integrais, tende a favorecer padrões mais saudáveis de sono ao contribuir para a estabilidade dos níveis de glicose no sangue.

Em contrapartida, dietas com maior participação de carboidratos de baixa qualidade e com elevado teor de carboidratos totais ao longo do dia estão associadas a um maior risco de distúrbios do sono. As proteínas também exercem papel importante nesse processo, por fornecerem aminoácidos que participam da síntese de neurotransmissores ligados à regulação do sono, como a serotonina e a melatonina.

De acordo com a pesquisa, uma alimentação com maior presença de proteínas magras (como peixes, aves e leguminosas) está associada a um melhor padrão de sono.

“Quando a dieta tem pouca proteína, ela tende a ser mais rica em carboidratos de rápida absorção, o que favorece picos de glicose. A proteína ajuda a estabilizar esses níveis. Comer 500 calorias com proteína é muito diferente de 500 calorias só de carboidrato”, observa Letícia Soster.

O estudo também observou que dietas com baixo teor de carboidratos e maior teor de gordura estão associadas a menor chance de sono curto em pessoas com diabetes e em indivíduos com glicemia adequada. No entanto, esses achados devem ser interpretados com cautela. “Trata-se de um estudo populacional, que identifica associações, e não relações de causa e efeito. Ainda assim, são dados valiosos para gerar hipóteses e orientar futuras pesquisas clínicas”, analisa a médica do Einstein.

Outro achado que chama atenção é que pessoas com diabetes e controle glicêmico mais rigoroso relatam mais dificuldade para dormir. Esse resultado pode estar relacionado à maior complexidade do manejo clínico. “Um controle mais estrito do diabetes geralmente envolve múltiplos medicamentos, eventualmente maior risco de hipoglicemia noturna temporária e o uso de fármacos que podem interferir na produção de melatonina. Não se trata apenas da hemoglobina glicada isolada, mas de um organismo inteiro submetido a um manejo mais intensivo”, explica Soster.

Daí a necessidade de uma abordagem integrada no cuidado ao paciente com diabetes. “O sono deve ser encarado como um pilar da saúde, ao lado da alimentação, da atividade física e da saúde mental. Priorizar horários regulares para dormir e acordar, garantir tempo adequado de sono e evitar refeições muito calóricas ou estimulantes à noite são medidas simples, mas fundamentais”, frisa a médica do Einstein.

•        Comer carboidrato no jantar leva ao pré-diabetes? Entenda

Muita gente ainda deixa arroz, macarrão e pães fora do prato do jantar. Isso porque existem mitos envolvendo o consumo de carboidratos após as 18 horas e problemas como desajustes metabólicos, aumento no risco do diabetes e, principalmente, ganho de peso. No entanto, o que diversas pesquisas atuais comprovam é que não há necessidade de banir esse nutriente.

“As evidências mais fortes até o momento mostram que tanto a qualidade quanto a quantidade da alimentação, independentemente do horário, é que impactam na regulação da glicose”, diz a nutricionista Letícia Ramalho, doutora pelo Laboratório de Cronobiologia e Sono, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Um estudo publicado em 2025 no periódico Nutrients chega para reforçar essa premissa. Conduzida na Universidade Aberta da Catalunha, na Espanha, em parceria com instituições dos Estados Unidos, a pesquisa incluiu 33 adultos, com diabetes e pré-diabetes, que seguiram dieta padronizada e utilizaram um monitor contínuo das taxas de glicose no sangue, durante 24 horas.

Os resultados mostram que, além de priorizar o cardápio equilibrado na última refeição, é preciso atentar-se para a sensibilidade à insulina de cada indivíduo. Os cientistas acreditam que os achados podem contribuir com estratégias para a prevenção do diabetes. “O trabalho destaca os efeitos da resistência insulínica, quadro em que a insulina secretada não exerce suas funções de forma eficaz”, comenta a endocrinologista Cláudia Schimidt, do Einstein Hospital Israelita.

A insulina é o hormônio responsável por permitir que a glicose entre nas células, gerando energia. Quando existe resistência à insulina, o pâncreas tenta compensar produzindo quantidades maiores desse hormônio para manter a glicemia dentro da normalidade. Se esse processo se estender por muito tempo, pode levar o organismo a perder a capacidade de controlar adequadamente o açúcar no sangue.

“Ocorre um aumento no risco do diabetes tipo 2”, observa Schimidt. E a primeira etapa tende a ser o que se chama de pré-diabetes. Esse distúrbio metabólico, que precede o diabete, é marcado por níveis alterados de glicose no sangue. Para o diagnóstico, são feitas análises laboratoriais, entre as quais a glicemia de jejum. “Ela indica a condição quando os níveis estão entre 100 e 125 mg/dl”, detalha a endocrinologista. Outro exame é a hemoglobina glicada, que traz uma média da oscilação da glicose ao longo de três meses. “Valores entre 5,7% e 6,4% correspondem ao pré-diabetes”, conta Schimidt.

<><> Para reverter o pré-diabetes

Quando não identificado precocemente, o quadro costuma evoluir para o diabetes tipo 2, doença vinculada a males circulatórios, renais e oculares. Mas, se detectado em estágio inicial, mudanças no estilo de vida tendem a reverter a situação. “Pode haver necessidade de ajustes de calorias e do uso de medicamentos em casos de sobrepeso e obesidade”, avisa a médica do Einstein.

É fundamental combater o acúmulo de gordura abdominal, que fica entremeada nos órgãos, e produz diversas substâncias, inclusive algumas pró-inflamatórias, levando às disfunções metabólicas. Além da prática cotidiana de atividade física, adotar uma dieta saudável é essencial. Hortaliças, frutas e sementes, que oferecem substâncias protetoras, não podem faltar diariamente. Quanto mais colorido o cardápio, melhor.

Também vale reduzir o consumo de gordura saturada, encontrada em alimentos de origem animal, como carnes vermelhas e lácteos, e em vegetais como o coco. Quanto aos carboidratos, é importante caprichar na escolha. “Recomenda-se priorizar carboidratos complexos ricos em fibras”, orienta Letícia Ramalho. Grãos integrais, como trigo, aveia, arroz e seus derivados, caso de massas e pães, assim como os tubérculos e raízes (isto é, batata, inhame, mandioca) são ótimas opções.

O cardápio deve contemplar ainda as leguminosas, ou seja, feijões, lentilha, ervilha e grão-de-bico. “Além de contribuir para o trânsito intestinal, as fibras colaboram para o equilíbrio glicêmico e de certos hormônios envolvidos na regulação do metabolismo energético”, comenta a nutricionista. E lembre-se: ainda que um alimento seja de excelente qualidade, o exagero na quantidade põe tudo a perder. Portanto, nada de excessos.

 

Fonte: Agencia Einstein

 

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