Seria
a decolonialidade “um grande FMI”?
Em seu
artigo “O grande FMI universitário”, publicado na revista Piauí (232, janeiro
de 2026), o professor Vladimir Safatle, deixando de lado a advertência de Bento
Prado Júnior, seu antigo orientador, aborda o pensamento decolonial usando
“luvas de boxe”, batendo sem piedade e rigor, o que sempre lhe é peculiar.
Apresento, então, um diálogo com o referido artigo e o seu autor. Antecipo que
o problema central da leitura de Safatle não reside na crítica ao pensamento
decolonial em si, mas na redução conceitual do campo, ao desconsiderar suas
distinções internas, diálogos críticos e densidade histórico-filosófica. Vamos
a algumas contestações ao texto do professor Safatle:
Primeira,
com o intuito de desqualificar o pensamento decolonial, Safatle afirma que “[…]
é a partir principalmente de universidades americanas que professores
expatriados pretendem definir para o resto do mundo qual o programa a seguir e
que conceitos usar para fazer avançar a decolonização de nós mesmos”. Todavia,
o fato é que a Rede Modernidade/Colonialidade foi formada por diversos
intelectuais latino-americanos situados em diferentes universidades das
Américas, com o desafio de produzir uma ruptura, um giro decolonial, com o
capitalismo, o imperialismo, o eurocentrismo e a colonialidade/modernidade.
Entre seus principais membros: Aníbal Quijano, no Peru; Enrique Dussel, no
México; Santiago Castro-Gómez, na Colômbia; Catherine Walsh, no Equador; Zulma Palermo,
na Argentina; Rita Segato, no Brasil/Argentina. Somente Walter Mignolo, Ramón
Grosfoguel e Maldonado Torres são academicamente domiciliados nos Estados
Unidos.
A
partir de 1992, com Enrique Dussel e Aníbal Quijano, o pensamento decolonial
vem reafirmando uma narrativa histórica que coloca a América Latina como lócus
de enunciação ou geopolítica do saber, rompendo com a imagem e o lugar da
América Latina, imposto pelo imaginário eurocêntrico, como o formulado por
Hegel, no qual somos apresentados como povos sem história, e a Modernidade,
apresentada como um ato histórico intra-europeu e não um fenômeno mundial.
Segunda,
Safatle, ao evocar que os estudos decoloniais incorrem em um paradoxo: “um
movimento teórico que insiste em dizer o processo de decolonização ainda não
terminou, ao mesmo tempo que estabelece um novo paradigma crítico que repete
dinâmicas do próprio colonialismo e da hegemonia cultural exercida pelos países
centrais, sobretudo pelo Estados Unidos”, ignora a distinção entre colonialismo
e colonialidade, realizada pelo pensamento decolonial, afirmando que
decolonização se contrapõe à colonialidade. Por outro lado, ao afirmar que o
pensamento decolonial estabelece, em simultâneo, um novo paradigma crítico que
repete o próprio colonialismo e a hegemonia exercida pelos países centrais,
sobretudo os Estados Unidos, ele desconsidera totalmente as críticas à
epistemologia moderna e ao eurocentrismo descrito por Aníbal Quijano; a defesa
de Walter Mignolo da desobediência epistêmica ao pensamento eurocêntrico e
estadunidense, e a sua proposta de pensamento decolonial como um pensamento
outro e; ainda, ignora a tese de Enrique Dussel da Filosofia da Libertação,
como fundamento filosófico do pensamento decolonial.
Se a
decolonialidade se contrapõe à colonialidade, um giro decolonial (ou uma ação
decolonizadora) deve ser pensado como um processo de longo prazo; deve se
dirigir contra as múltiplas relações de dominação, exploração e
subalternização, ou seja, de relações raciais, étnicas, sexuais, de gênero,
patriarcais, estéticas, de classes, políticas, jurídicas, econômicas e
imperiais.
Terceira,
Safatle, ao desconhecer a distinção entre colonialismo e colonialidade, trata o
pensamento decolonial apenas como uma crítica ao colonialismo e não à
colonialidade, como se fosse um pensamento pós-colonial e afirma que a crítica
ao colonialismo tem “em larga medida, três momentos históricos bem claros”. Em
contraste, os três momentos são apresentados de forma linear, a partir do qual
o pensamento decolonial é o último na linha temporal, mas não são apresentadas
as diferenças, as convergências, nem os vários diálogos abertos e possíveis
entre eles.
É muito
importante esclarecer a diferença realizada pelo denominado pensamento
decolonial entre colonialismo e colonialidade para melhor entender o que se
denomina de decolonial ou giro decolonial. A prática do colonialismo é antiga,
e bem anterior à Modernidade. O colonialismo é o domínio territorial, político,
administrativo e militar direto de um povo ou nação, por parte de um país
estrangeiro (colonizador), com o objetivo de obter vantagens econômicas e
rivalizar com a cultura local, tornando-a subalterna. Colonialismo, como afirma
Maldonado-Torres, “denota uma relação política e econômica, na qual a soberania
de um povo reside no poder de outro povo ou nação, o que constitui a tal nação
em um império”.
A
colonialidade e a modernidade, segundo Aníbal Quijano , “são duas faces da
mesma moeda, duas dimensões inseparáveis de um mesmo processo histórico de
formação do sistema-mundo moderno/colonial”. A colonialidade, para além do
colonialismo, diz respeito à lógica epistêmica e eurocêntrica colonial que
ganhou existência como parte constituinte e oculta da Modernidade. Daí a
expressão Modernidade-colonialidade (com o tracinho no meio) para expressar que
são inseparáveis, que não existe colonialidade sem Modernidade nem Modernidade
sem colonialidade. Então, não há como impor um fim à colonialidade, sem superar
a modernidade e o seu sistema econômico: o modo de produção capitalista.
Quarta,
o professor Safatle, ao longo do seu artigo, afirma que o pensamento decolonial
“defende que a crítica verdadeira à colonialidade deve entender a própria
modernidade como um empreendimento colonial, eurocêntrico”, e, por outro lado,
é “incapaz de produzir coordenadas para um pensamento crítico”. A primeira
parte da afirmação é um dos argumentos fundamentais do pensamento decolonial,
para o qual a modernidade é um projeto civilizador de morte e não um projeto
emancipador; que a modernidade não pode cumprir a sua promessa de emancipação
porque é constituída pela colonialidade do poder, do ser e do saber. A segunda
parte, contrário daquilo que pensa Safatle, para o pensamento decolonial, se
pode, sim, ser crítico sem ser adepto do pensamento decolonial, mas o
pensamento crítico a partir da modernidade tem se demonstrado incapaz de
desprendesse da racionalidade da modernidade com a colonialidade.
Quinta,
diferentemente do que afirma o professor Safatle, a modernidade não é pensada
de forma monolítica pelos estudos decoloniais, mas como um projeto civilizador
composto por uma racionalidade particular com pretensões universais,
constituída pela colonialidade do poder, do saber e do ser, bem como de um
sistema econômico, o modo de produção capitalista, e de um sistema político e
de um ordenamento jurídico fundamentados no jusnaturalismo. Portanto, a tese de
Safatle de que a crítica decolonial à modernidade é marcadamente idealista,
“pois ignora as condições materiais, de produção dos sistemas de ideias” é sem
fundamento.
Para o
pensamento decolonial, a retórica emancipatória da modernidade pressupõe uma
lógica de domínio da natureza e esconde uma lógica opressiva da política
(colonialidade do poder), uma epistemologia eurocêntrica/universal
(colonialidade do saber) e uma ontologia da invenção do outro como
inferior/sub-humano ou não humano (colonialidade do ser). A colonialidade,
segundo Maldonado-Torres, “ao invés de estar limitado a uma relação formal de
poder entre dois povos ou nações, refere-se antes à forma como o trabalho, o
conhecimento, a autoridade e as relações intersubjetivas se articulam entre si,
através do mercado capitalista mundial e da ideia de raça”.
Sexta,
o pensamento decolonial não é um pensamento identitário e uma cultura do
cancelamento; o assassinato de reputação; a execração de pessoas por meio de
boatos sem provas; e as práticas autoritárias por parte de militantes de
direita e de esquerda, bem como por indivíduos ou movimentos de explorados,
oprimidos e subalternos, são marcadores de colonialidade das quais são
hospedeiros por nascerem, viverem e serem sociabilizados num modo de ser e
estar no mundo marcado pela herança da colonialidade do ser, do saber e do
poder da modernidade.
Sétima,
ao equiparar o pensamento decolonial a “um grande FMI universitário”, afirmando
que ele oferece um mesmo receituário, normalmente errado, para toda e qualquer
realidade social, repetindo limitações e problemas políticos próprios à
acadêmica anglo-saxã, Safatle exagera no uso da “luva de boxe”, pois não
percebe que a razão moderna, a quem ele encontra-se acorrentado, feito
Prometeu, é quem se coloca, em sua diversidade epistêmica, como única razão do
mundo. Além de não apontar qual é o receituário oferecido pela crítica
decolonial para qualquer realidade social, Vladimir Safatle ignora as noções de
transmodernidade e pluriversalidade, categorias constituintes do pensamento
decolonial, formuladas por Enrique Dussel, para diferenciar as posições críticas
do pensamento decolonial à modernidade das críticas contra modernidades
realizadas pelo pensamento pós moderno e pelo pensamento pós-colonial.
Decolonizar,
além de tornar visível que a colonialidade é parte integrante e constituinte da
Modernidade, implica em uma ação de denegar a narrativa, segundo a qual a
Modernidade é um ato intra-europeu, e que sua ação colonizadora foi um ato
benevolente para nos tirar da condição de primitivos, atrasados,
subdesenvolvidos, acelerando, assim, nosso processo de desenvolvimento
civilizacional. Decolonizar implica afirmar a história a partir da visão dos
dominados, explorados e subalternizados.
<><>
O desafio de um pensamento outro
A
colonialidade se refere aos dois processos históricos ou eixos de poderes que
convergiram e se associaram para que a América se constituísse como o primeiro
espaço/tempo do padrão mundial de poder moderno: i) a codificação das
diferenças entre conquistadores e conquistados a partir da ideia de raça; ii) o
processo de constituição de uma nova estrutura de controle do trabalho e de
seus recursos pelo modo de produção capitalista.
Primeiro
processo, a codificação das diferenças entre conquistadores (colonizadores) e
conquistados (colonizados), com a ideia de raça, gera uma suposta distinção
estrutural biológica, que situava uns em situação natural de inferioridade em
relação aos outros. A ideia de raça e identidade racial foi estabelecida na
América como instrumento de classificação social da população. Essa foi a
primeira categoria conceitual de classificação social da Modernidade. A
formação de relações sociais fundadas na ideia de raça e identidade racial
produziu na América identidades historicamente novas: índios, negros, mestiços
e brancos. Na medida em que as relações entre colonizadores e colonizados foram
se configurando como relações de dominação e exploração, tais identidades foram
sendo associadas às hierarquias, lugares e papéis sociais correspondentes, como
constitutivas delas e do padrão de dominação imposto.
Na
América, a ideia de raça, para o pensamento decolonial, foi uma maneira de
outorgar legitimidade às relações de dominação ditadas pelos conquistadores aos
povos originários. Tratou-se da manifestação ontológica, da colonialidade do
ser, ou seja, da negação da condição de humanidade do outro, o não europeu,
considerado sem alma, sem história, sem escrita, sem lei, um não humano.
Quanto
ao segundo processo, o modo de produção capitalista, temos a constituição de
uma nova estrutura de controle do trabalho e seus recursos. No processo de
constituição histórica da América, todas as formas de controle e exploração do
trabalho, de produção apropriação-distribuição de mercadorias, foram
articuladas em torno da reprodução, acumulação de capital e do mercado mundial.
Em primeiro lugar, porque foram deliberadamente estabelecidas e organizadas
para produzir mercadorias para o mercado mundial. Ainda hoje, cabe à América
Latina o papel de produtora de bens primários para o mercado mundial. Em
segundo lugar, porque passaram a ser articuladas de maneira simultânea no mesmo
espaço/tempo com o capital e com o seu mercado, em uma relação de dependência
histórico-estrutural. Em terceiro lugar, para preencher as novas funções
inerentes ao mercado mundial, cada uma delas desenvolveu novos traços e novas
configurações histórico-estruturais.
Um
pensamento outro compreende uma energia outra de descontentamento, desconfiança
crítica e desprendimento do eurocentrismo como produção de saber, resistência à
violência colonial e imperial do projeto civilizador moderno, o que implica na
afirmação de um pensamento pluriversal e um mundo transmoderno. Uma ação
decolonizadora, ou um giro decolonial, é uma tarefa epistêmica, econômica e
política. A transmodernidade implica a ética dialógica e o cosmopolitismo
decolonial. Como afirma Maldonado-Torres: “o fim da ética e do cosmopolitismo é
fomentar a comunicação entre os condenados (da terra em referência a Fanon), ao
mesmo tempo destruir as hierarquias entre os sujeitos considerados humanos e os
sub-humanos”.
Decolonizar
é afirmar uma ecologia de saberes e reafirmar a sociologia das ausências,
rompendo com a monocultura da naturalização das diferenças, é romper com o
imaginário colonial, imperial que oculta as hierarquias patriarcais, de gênero,
de raça e de classes. Decolonizar é preciso, enquanto desprendimento da
colonialidade do ser, do poder e do saber.
Assim,
para além de uma crítica à modernidade, o pensamento decolonial afirma a
possibilidade histórica de outros mundos, outras racionalidades e outras formas
de vida. Que possamos imaginar e contar mais histórias de um mundo transmoderno
e pluriversal. Acabei de escrever um livro sobre o pensamento decolonial
produzido pela heterogênea rede de pensadores Modernidade/Colonialidade, espero
encontrar um editor e ampliar o debate com outros interlocutores. Abraços
decoloniais!
Fonte:
Por Uribam Xavier, em Outras Palavras

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