Padre
Júlio: fora das redes, doações para projetos caem e fiéis querem ajuda do
Vaticano
Desde a
proibição do uso das redes sociais pelo padre Júlio Lancellotti, em dezembro de
2025, a arrecadação para as ações da Pastoral de Rua, que atende a população em
situação de rua na capital paulista, está em franco declínio. Segundo a
aposentada Idalina Rodrigues, 58, conhecida como Ida, voluntária há cinco anos
do Centro Comunitário Santa Dulce dos Pobres, da paróquia do padre Júlio, as
doações já caíram mais de 20% em menos de dois meses.
“A
gente sempre recebeu muita coisa de higiene pessoal, absorvente, fralda. Depois
da interrupção dele [padre Júlio] nas redes sociais, a gente não recebe mais.
Antes vinha muito desodorante, nunca mais veio, depois que ele saiu das redes”,
relata.
Ida
Rodrigues vai todos os dias ao Centro Comunitário, de segunda à sexta-feira, e
ajuda nas atividades de 8h às 12h. O local fica a cerca de 100 metros da
Paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, região Leste de São Paulo, onde o padre
Júlio é o pároco responsável há mais de 40 anos. Segundo Ida, o Centro atende
mensalmente de 400 a 500 pessoas em situação de rua. Quando faltava algum item
específico, o pároco fazia o pedido nas redes sociais.
“As
pessoas vêm de outros estados para conhecer a obra, o padre Júlio, ver como
conseguem ajudar. Então, essa divulgação que era feita nas redes sociais, para
a gente era de extrema importância”, salienta.
A
professora Elisa Huertas, 43, frequentadora há 25 anos da paróquia, catequista
e membro da pastoral de comunicação, explica que a congregação é formada por
cerca de 300 fiéis que contribuem financeiramente todos os meses. Sem as
doações externas, diz Huertas, eles não conseguem manter todos os serviços
prestados.
O
Centro Comunitário fornece diariamente café da manhã para cerca de 350 pessoas
em situação de rua. Também são oferecidos serviços como orientação jurídica,
psicológica e de assistência social, corte de cabelo e doação de óculos de
grau. Ficam à disposição para uso gratuito biblioteca, computadores, telefones
e roupas. O Centro ainda conta com o atendimento ao trabalhador, para
elaboração de currículos, emissão de documentos, acesso ao gov.br,
encaminhamento para vagas de trabalho, impressão e plastificação de documentos.
A
determinação que o padre Júlio não usasse mais as redes sociais e não
transmitisse as missas pela internet, veio de Dom Odilo Scherer, arcebispo
metropolitano de São Paulo. Com o intuito de reverter a decisão, a comunidade
da paróquia reuniu mais de mil assinaturas em um abaixo-assinado de apoio ao
padre Júlio e tentou entregar o documento ao cardeal.
“A
Paróquia, os paroquianos, querem que continue [as postagens nas redes sociais].
Tentamos contato, mandamos mensagem para Dom Odilo. Ele me respondeu que era
para entregar na região episcopal de Belém. Já Dom Cícero [bispo responsável
pela região] mandou entregar na chancelaria da arquidiocese de São Paulo.
Deixei claro nas mensagens que não queria apenas entregar, eu queria conversar,
e eles se recusam”, declara Huertas. Diante das recusas, o grupo de fiéis
pretende enviar o abaixo-assinado para o Vaticano.
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Por que isso importa?
• O padre Júlio Lancellotti, reconhecido
como defensor de direitos humanos e por suas obras assistenciais com populações
de rua da capital paulista, foi proibido de usar redes sociais pela
Arquidiocese de São Paulo em dezembro de 2025.
• A proibição, vista por apoiadores como
censura e perseguição política, está impactando as doações para a pastoral que
atende pessoas em situação de rua na cidade.
“A
gente fez alguns contatos com o Dom Odilo e sem sucesso. Contatos muito
respeitosos, com muita delicadeza. Nosso contato foi no sentido de mostrar a
importância desse trabalho, a importância do padre Júlio [estar] nas redes
sociais, mas a gente não teve sucesso, não conseguiu nenhum retorno”, confirma
Ida.
Os
fiéis ouvidos pela reportagem salientaram que o padre tem seguido rigorosamente
a orientação da Arquidiocese. “Desde que houve essa proibição, o padre [a]
seguiu à risca. Ele nunca mais usou [as redes sociais], nunca desrespeitou a
proibição do cardeal. Com isso, a gente está tendo que fundar [as redes sociais
da paróquia] do zero. Isso atrapalha a arrecadação da igreja, atrapalha as
pessoas conseguirem ver quais os eventos estamos promovendo”, explica a
advogada Amanda Lopes, 27, que é também voluntária no Centro Comunitário e
membro da Pastoral de Comunicação.
Para a
advogada, a orientação dada ao pároco afeta negativamente o trabalho de toda a
comunidade. “Eles [Dom Odilo e Dom Cícero] não estão atacando o padre Júlio,
estão atacando a pessoa em situação de rua, quem vem aqui pegar um pão, tomar
um banho. Isso não é sobre o Padre Júlio, isso é sobre as pessoas que dependem
da paróquia São Miguel Arcanjo para ter o mínimo”, critica.
A falta
de diálogo com a Arquidiocese gera dúvidas entre os integrantes da igreja. “Por
que nós somos ignorados pelo nosso bispo? Eu sou fiel, sou paroquiana, vou
todos os dias à missa e ele é meu bispo. […] Tem uma obra sendo feita que está
completamente de acordo com a doutrina social da igreja, com o Concílio
Vaticano II. Tudo de acordo com o que a igreja preconiza, de acolhimento, de
ajuda, de olhar para o pobre, de caridade”, salienta Huertas.
O casal
de professores Maria Lúcia Taiar Santos, 59, e Tarcísio Santos, 60, frequenta a
paróquia há cerca de 50 anos e se diz “indignado” com a ausência do padre nas
redes sociais. “O que percebemos é que a cada dois anos, sempre em ano de
eleição, tem alguma iniciativa contra o padre Júlio. [Em 2024], estive
conversando com o Dom Odilo, mostrando que ele não estava isolado, tinha a voz
da comunidade junto”, conta Santos.
O
professor admite, no entanto, que agora esse contato não foi possível. “Não
fomos atendidos, enquanto comunidade. Está havendo aí, parece que um bloqueio,
uma resistência, não consegue nem encaminhar o abaixo-assinado”, alega Santos.
“O que
é estranho, porque na verdade o papel deles é estar junto [dos fiéis]. Essa
indiferença parece um descaso ou uma rejeição à população que é da comunidade
[da igreja]. A gente vê nisso um contrassenso’, complementa Taiar Santos.
Questionada
pela Agência Pública sobre as negativas, a Arquidiocese de São Paulo informou
em nota que “as solicitações de audiências com o Arcebispo de São Paulo devem
ser feitas por meio do e-mail casaepiscopalsp@terra.com.br. Informamos, ainda,
que, nas últimas semanas, tanto o Cardeal Odilo Pedro Scherer quanto Dom Cícero
Alves de França estiveram em compromissos pastorais fora da cidade de São
Paulo”.
A ideia
de enviar o abaixo-assinado para o Vaticano surgiu em função dessa dificuldade
de diálogo com a Arquidiocese de São Paulo, e também por causa da ação de um
político de Belo Horizonte, afirmaram os paroquianos. “Eles enviaram um
documento contrário ao padre Júlio, então queremos enviar nosso abaixo-assinado
que é a favor”, diz Huertas.
Em
novembro de 2025, o deputado federal Junio Amaral (PL-MG) e sua esposa Marília
Amaral, apresentaram uma denúncia contra o pároco na Embaixada da Santa Sé, em
Brasília e em um departamento da Cúria Romana no Vaticano.
Amaral
foi multado em outubro de 2024 pela Justiça Eleitoral por “veicular informação
sabidamente falsa” durante as eleições em que ele concorreu para prefeito de
Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Em 2022, ele teve suas
contas nas redes sociais X (antigo Twitter), Facebook e Instagram suspensas por
determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes,
por publicações consideradas violadoras de “diretrizes legais”.
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Centro comunitário é alvo de hostilidade dos moradores
Entre
os voluntários da Paróquia São Miguel Arcanjo, uma reclamação comum é a falta
de compreensão dos moradores do bairro do trabalho de solidariedade feito pelos
fiéis e pelo padre Júlio Lancellotti.
“As
pessoas do bairro, principalmente. É a nossa maior dificuldade, porque eles
acham que as pessoas em situação de rua desvalorizam a região”, lamenta
Rodrigues. “Eles não entendem que não é porque o padre Júlio dá de comer que as
pessoas estão em situação de rua. É o inverso. O padre Júlio dá de comer, e
assistência, porque existem pessoas nas ruas”, ressalta.
Um
levantamento feito pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a
População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no
ano passado, mostrou que são cerca de 96 mil pessoas em situação de rua na
cidade de São Paulo.
Segundo
o último Censo da População em Situação de Rua, realizado pela prefeitura de
São Paulo em 2021, 18,2% se estabeleceram na região da Mooca. Perde apenas para
a região da Sé, com 40,3% das pessoas em situação de rua. Na sequência, estão
os bairros Santana/Tucuruvi e Vila Maria, ambos com 3,9% do total.
Por
nota, a Prefeitura de São Paulo informa que “o próximo Censo da População em
Situação de Rua no município será realizado neste ano, conforme o cronograma
previsto. O levantamento terá início com o trabalho de campo em março de 2026”.
Obra em
frente ao Centro Comunitário é exemplo da expansão imobiliária da região
Interesses
econômicos também são considerados pelos paroquianos como uma ameaça para as
obras da paróquia. “O bairro está passando por um processo de gentrificação,
são muitos prédios sendo construídos e eles acham que as pessoas em situação de
rua atrapalham”, afirma Elisa Huertas. Segundo a consultoria imobiliária
Binswanger Brazil, desde 2020 a região da Mooca teve 80 empreendimentos
imobiliários aprovados, sendo que 36 ainda estão em obras.
Fonte:
Por Ludmila Pizarro, da Agencia Pública

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