Gaza
entre promessas de crescimento e exigências de justiça: uma leitura analítica
da visão da Administração Trump
A visão
da Administração Trump para Gaza, intitulada Conselho de Paz, é apresentada
como uma iniciativa econômica ambiciosa, que promete lançar um novo caminho de
crescimento e investimento, melhorar as condições de vida por meio da criação
massiva de empregos e do desenvolvimento da infraestrutura. Em termos formais,
essa visão adota uma linguagem atraente baseada em indicadores econômicos
promissores e se apresenta como uma porta de entrada para a estabilidade e a
reconstrução.
No
entanto, qualquer abordagem séria sobre o futuro de Gaza exige que essa visão
seja analisada dentro de seu contexto político e jurídico mais amplo. O
desenvolvimento econômico, por mais atraente que pareça, não pode ser
dissociado do ambiente em que se pretende que floresça, nem da realidade da
ocupação e do bloqueio que restringem todos os aspectos da vida na Faixa.
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Indicadores ambiciosos… e um contexto ausente
A visão
se baseia em números chamativos que falam de crescimento do PIB, aumento da
renda média e criação de centenas de milhares de empregos ao longo de uma
década. Em qualquer economia normal, tais indicadores poderiam fundamentar um
otimismo razoável.
O
desafio central, contudo, reside no fato de que esses números são apresentados
sem enfrentar as condições estruturais necessárias para sua concretização,
sobretudo a ausência de soberania sobre fronteiras e recursos, bem como as
severas restrições à circulação e ao comércio. Esses fatores tornam a
realização de um crescimento sustentável extremamente complexa — se não
impossível — sem uma mudança radical da realidade política existente.
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O desenvolvimento não prospera no vazio
A visão
parte do pressuposto de que é possível construir uma economia eficaz em um
ambiente desprovido de independência econômica. Trata Gaza como se fosse uma
entidade capaz de atrair investimentos livremente, quando a experiência
demonstra que o verdadeiro desenvolvimento requer estabilidade política,
garantias jurídicas, liberdade de circulação e controle nacional sobre os
recursos.
Ignorar
essas condições não diminui a importância das aspirações econômicas em si, mas
levanta sérias dúvidas sobre sua viabilidade e traz de volta modelos de
desenvolvimento anteriores que fracassaram por tratarem os efeitos sem
enfrentar as causas.
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A economia como porta de entrada… não como substituto
A
debilidade dessa visão reside em sua tendência de apresentar a economia como um
substituto para soluções políticas, reduzindo a crise palestina a indicadores
de pobreza e desemprego e adiando questões centrais relacionadas a direitos
nacionais, soberania e autodeterminação.
Experiências
internacionais demonstram que o desenvolvimento sustentável é mais bem-sucedido
quando complementa um processo político equilibrado, e não quando o substitui.
Melhorias nas condições de vida, por mais necessárias que sejam, não podem
substituir direitos nem ser geridas à margem da justiça.
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Desafios e riscos potenciais
A
aplicação de uma visão econômica desvinculada de seu contexto político pode
acarretar riscos complexos, entre eles o aprofundamento da dependência
econômica em vez de sua superação, a reprodução de padrões frágeis de
desenvolvimento e o reforço da separação geográfica e política entre Gaza e o
restante do território palestino.
Além
disso, tratar o bloqueio e a ocupação como realidades permanentes — em vez de
situações excepcionais que violam o direito internacional — pode contribuir
para normalizar a instabilidade, em vez de enfrentá-la de forma estrutural.
Qualquer
visão econômica para o futuro de Gaza só poderá representar uma oportunidade
real se partir do enfrentamento das causas políticas da crise, sobretudo o fim
da ocupação, o levantamento do bloqueio e a garantia de soberania e liberdade
de circulação. Gaza não precisa apenas de números atraentes, mas de um marco
justo que permita transformar esses números em realidade concreta.
Nesse
contexto, o desenvolvimento continua sendo uma ferramenta importante, mas só
será sustentável quando estiver fundamentado na justiça e nos direitos, e não
quando for utilizado como substituto deles. Gaza não é apenas um projeto
econômico promissor, mas parte viva de uma causa de libertação nacional, cuja
equação só se completa com a realização das condições de liberdade.
• UNRWA entre cortes de recursos e a
perseguição a refugiados
O que
circula nos corredores da Agência das Nações Unidas de Assistência aos
Refugiados da Palestina (UNRWA) a respeito das iminentes decisões de cortar os
salários dos funcionários em até 20%, reduzir a jornada de trabalho e demitir
centenas de colaboradores não pode ser tratado como uma mera medida
administrativa imposta por uma repentina crise financeira. O contexto em que
essas medidas estão surgindo — sejam elas anunciadas oficialmente ou divulgadas
gradualmente — revela profundas dimensões políticas e atinge o cerne do mandato
da Agência junto à Organização das Nações Unidas (ONU) e seu papel na
salvaguarda da estabilidade e dos direitos de milhões de refugiados palestinos.
A
crescente discussão entre funcionários e sindicatos sobre reduções salariais e
jornadas de trabalho mais curtas, juntamente com a demissão de mais de 600
colaboradores, reflete uma abordagem sistemática que coloca o fardo de uma
crise agravada sobre os trabalhadores palestinos — uma crise na qual as
considerações financeiras se cruzam com a crescente pressão política sobre a
UNRWA. Na prática, essa trajetória não visa apenas os funcionários: mina os
próprios alicerces dos serviços de educação, saúde e assistência dos quais
dependem os refugiados na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e em outras áreas de
refúgio.
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Os
funcionários da UNRWA constituem a espinha dorsal do trabalho da Agência; não
são um fardo financeiro a ser cortado sempre que a pressão aumenta ou o
financiamento diminui. Qualquer redução nos salários ou na jornada de trabalho
afetará diretamente a qualidade dos serviços nos campos, que já sofrem com a
pobreza estrutural, a deterioração da infraestrutura e a ausência de segurança
humana. Esse impacto é agravado na Faixa de Gaza, onde a população vive sob o
peso de uma guerra devastadora e um bloqueio prolongado, tornando os serviços
da UNRWA um recurso vital indispensável.
Desde o
início de 2026, começaram a vazar informações sobre um pacote sem precedentes
de medidas financeiras e administrativas, justificadas sob a alegação de
déficit orçamentário. Essas medidas incluem cortes salariais, redução da
jornada de trabalho e o término de centenas de contratos — particularmente os
de funcionários de Gaza que estão forçados a sair da Faixa. Ao mesmo tempo, não
há indícios sérios de medidas que afetem cargos de chefia ou privilégios
administrativos, o que expõe um duplo padrão e mina a credibilidade da
narrativa predominante de “austeridade”.
Mais
alarmante ainda, transformar esses vazamentos em decisões oficiais criaria um
precedente preocupante na história da UNRWA e do sistema das Nações Unidas.
Tais medidas careceriam de transparência e de padrões legais justos, e
promoveriam um processo gradual de esvaziamento da Agência de sua força de
trabalho palestina, redefinindo-a como um órgão de assistência frágil e
temporário, em vez de uma agência da ONU fundamentada em direitos e obrigações
internacionais para com os refugiados.
Essa
trajetória não pode ser dissociada do contexto político mais amplo, nem da
crescente pressão internacional para reformular o papel da UNRWA ou restringir
sua função jurídica ligada à questão dos refugiados. Nesse sentido, a
“austeridade” surge como uma ferramenta política sutil para impor uma nova
realidade na qual o funcionário palestino é o elo mais fraco e o refugiado, o
maior perdedor.
Defender
a UNRWA hoje não é defender uma instituição burocrática, mas sim a dignidade e
os direitos inalienáveis dos refugiados palestinos — principalmente o direito
de retorno, consagrado na Resolução 194 da Assembleia Geral da ONU. É uma
defesa que exige ação política, sindical e midiática coordenada,
responsabilizando as Nações Unidas e os Estados doadores por suas obrigações
legais e morais, e rejeitando a transformação das crises financeiras em
instrumentos para minar os direitos dos refugiados e os serviços essenciais.
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Inverno em Gaza: quando a consciência do mundo congela
Em
Gaza, o inverno não chega como uma estação passageira, mas como uma punição
adicional imposta a um povo exausto pela guerra e pelo bloqueio. Aqui, o frio
intenso do inverno se soma ao alagamento de tendas e centros de abrigo para
deslocados pelas águas da chuva, cruzando-se com o perigo de casas prestes a
desabar sob o peso dos contínuos bombardeios israelenses. Bombardeios que não
se contentam em destruir o que resta das casas e propriedades dos cidadãos, mas
continuam ceifando vidas por meio da morte, da fome e do frio, diante de um
silêncio internacional cada vez mais cruel e de um mundo que insiste em
arrancar sua humanidade pedaço por pedaço.
Em
Gaza, as crianças não se escondem da chuva em casas quentes, mas compartilham o
medo com suas famílias sob lonas rasgadas que não protegem do frio nem impedem
o afogamento. Refugiados dentro de sua própria pátria, enfrentam o inverno com
corpos trêmulos, estômagos vazios e um céu que não derrama misericórdia, mas
aprofunda a dor. Cada gota de água se transforma em ameaça, e cada noite fria
pode ser a última para uma criança ou um idoso cujo corpo frágil não suportou a
prova forçada da resistência.
Os
bombardeios israelenses não cessam, como se a guerra tivesse decidido desafiar
as estações e sitiar Gaza até mesmo nos momentos de chuva. Casas destruídas,
bairros arrasados e uma infraestrutura colapsada, incapaz de drenar as águas
pluviais, enquanto os centros de abrigo se transformam em armadilhas de morte
lenta. Ainda assim, o mundo continua virando as costas, como se as cenas de
afogamento, frio e fome não merecessem mais do que declarações frias,
semelhantes ao clima das conferências internacionais.
O
inverno de Gaza não é uma crise climática, mas um espelho escancarado do
colapso dos valores humanos. É um teste para a consciência da humanidade, que
congelou antes mesmo das águas da chuva, recusando-se a conceder aos pequenos —
antes dos adultos — um único momento de calor. Um teste no qual a comunidade
internacional falha repetidas vezes, quando iguala o carrasco à vítima e quando
justifica o crime com silêncio ou cumplicidade.
Em
Gaza, as pessoas não pedem o impossível. Pedem apenas o direito à vida, à
segurança, a um teto que proteja seus filhos da chuva e a um inverno que não se
transforme em mais uma arma numa guerra de extermínio. Mas até esse mínimo de
humanidade parece pesado demais para um mundo acostumado a assistir à tragédia
por trás das telas, sem sequer piscar.
A
primavera um dia chegará, mas a pergunta que permanecerá suspensa é: quantas
vidas serão enterradas sob os escombros e o frio antes que a consciência do
mundo desperte?
Fonte:
Diálogos do Sul Global

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