sábado, 31 de janeiro de 2026

Gaza entre promessas de crescimento e exigências de justiça: uma leitura analítica da visão da Administração Trump

A visão da Administração Trump para Gaza, intitulada Conselho de Paz, é apresentada como uma iniciativa econômica ambiciosa, que promete lançar um novo caminho de crescimento e investimento, melhorar as condições de vida por meio da criação massiva de empregos e do desenvolvimento da infraestrutura. Em termos formais, essa visão adota uma linguagem atraente baseada em indicadores econômicos promissores e se apresenta como uma porta de entrada para a estabilidade e a reconstrução.

No entanto, qualquer abordagem séria sobre o futuro de Gaza exige que essa visão seja analisada dentro de seu contexto político e jurídico mais amplo. O desenvolvimento econômico, por mais atraente que pareça, não pode ser dissociado do ambiente em que se pretende que floresça, nem da realidade da ocupação e do bloqueio que restringem todos os aspectos da vida na Faixa.

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<><> Indicadores ambiciosos… e um contexto ausente

A visão se baseia em números chamativos que falam de crescimento do PIB, aumento da renda média e criação de centenas de milhares de empregos ao longo de uma década. Em qualquer economia normal, tais indicadores poderiam fundamentar um otimismo razoável.

O desafio central, contudo, reside no fato de que esses números são apresentados sem enfrentar as condições estruturais necessárias para sua concretização, sobretudo a ausência de soberania sobre fronteiras e recursos, bem como as severas restrições à circulação e ao comércio. Esses fatores tornam a realização de um crescimento sustentável extremamente complexa — se não impossível — sem uma mudança radical da realidade política existente.

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<><> O desenvolvimento não prospera no vazio

A visão parte do pressuposto de que é possível construir uma economia eficaz em um ambiente desprovido de independência econômica. Trata Gaza como se fosse uma entidade capaz de atrair investimentos livremente, quando a experiência demonstra que o verdadeiro desenvolvimento requer estabilidade política, garantias jurídicas, liberdade de circulação e controle nacional sobre os recursos.

Ignorar essas condições não diminui a importância das aspirações econômicas em si, mas levanta sérias dúvidas sobre sua viabilidade e traz de volta modelos de desenvolvimento anteriores que fracassaram por tratarem os efeitos sem enfrentar as causas.

<><> A economia como porta de entrada… não como substituto

A debilidade dessa visão reside em sua tendência de apresentar a economia como um substituto para soluções políticas, reduzindo a crise palestina a indicadores de pobreza e desemprego e adiando questões centrais relacionadas a direitos nacionais, soberania e autodeterminação.

Experiências internacionais demonstram que o desenvolvimento sustentável é mais bem-sucedido quando complementa um processo político equilibrado, e não quando o substitui. Melhorias nas condições de vida, por mais necessárias que sejam, não podem substituir direitos nem ser geridas à margem da justiça.

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<><> Desafios e riscos potenciais

A aplicação de uma visão econômica desvinculada de seu contexto político pode acarretar riscos complexos, entre eles o aprofundamento da dependência econômica em vez de sua superação, a reprodução de padrões frágeis de desenvolvimento e o reforço da separação geográfica e política entre Gaza e o restante do território palestino.

Além disso, tratar o bloqueio e a ocupação como realidades permanentes — em vez de situações excepcionais que violam o direito internacional — pode contribuir para normalizar a instabilidade, em vez de enfrentá-la de forma estrutural.

Qualquer visão econômica para o futuro de Gaza só poderá representar uma oportunidade real se partir do enfrentamento das causas políticas da crise, sobretudo o fim da ocupação, o levantamento do bloqueio e a garantia de soberania e liberdade de circulação. Gaza não precisa apenas de números atraentes, mas de um marco justo que permita transformar esses números em realidade concreta.

Nesse contexto, o desenvolvimento continua sendo uma ferramenta importante, mas só será sustentável quando estiver fundamentado na justiça e nos direitos, e não quando for utilizado como substituto deles. Gaza não é apenas um projeto econômico promissor, mas parte viva de uma causa de libertação nacional, cuja equação só se completa com a realização das condições de liberdade.

•        UNRWA entre cortes de recursos e a perseguição a refugiados

O que circula nos corredores da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) a respeito das iminentes decisões de cortar os salários dos funcionários em até 20%, reduzir a jornada de trabalho e demitir centenas de colaboradores não pode ser tratado como uma mera medida administrativa imposta por uma repentina crise financeira. O contexto em que essas medidas estão surgindo — sejam elas anunciadas oficialmente ou divulgadas gradualmente — revela profundas dimensões políticas e atinge o cerne do mandato da Agência junto à Organização das Nações Unidas (ONU) e seu papel na salvaguarda da estabilidade e dos direitos de milhões de refugiados palestinos.

A crescente discussão entre funcionários e sindicatos sobre reduções salariais e jornadas de trabalho mais curtas, juntamente com a demissão de mais de 600 colaboradores, reflete uma abordagem sistemática que coloca o fardo de uma crise agravada sobre os trabalhadores palestinos — uma crise na qual as considerações financeiras se cruzam com a crescente pressão política sobre a UNRWA. Na prática, essa trajetória não visa apenas os funcionários: mina os próprios alicerces dos serviços de educação, saúde e assistência dos quais dependem os refugiados na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e em outras áreas de refúgio.

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Os funcionários da UNRWA constituem a espinha dorsal do trabalho da Agência; não são um fardo financeiro a ser cortado sempre que a pressão aumenta ou o financiamento diminui. Qualquer redução nos salários ou na jornada de trabalho afetará diretamente a qualidade dos serviços nos campos, que já sofrem com a pobreza estrutural, a deterioração da infraestrutura e a ausência de segurança humana. Esse impacto é agravado na Faixa de Gaza, onde a população vive sob o peso de uma guerra devastadora e um bloqueio prolongado, tornando os serviços da UNRWA um recurso vital indispensável.

Desde o início de 2026, começaram a vazar informações sobre um pacote sem precedentes de medidas financeiras e administrativas, justificadas sob a alegação de déficit orçamentário. Essas medidas incluem cortes salariais, redução da jornada de trabalho e o término de centenas de contratos — particularmente os de funcionários de Gaza que estão forçados a sair da Faixa. Ao mesmo tempo, não há indícios sérios de medidas que afetem cargos de chefia ou privilégios administrativos, o que expõe um duplo padrão e mina a credibilidade da narrativa predominante de “austeridade”.

Mais alarmante ainda, transformar esses vazamentos em decisões oficiais criaria um precedente preocupante na história da UNRWA e do sistema das Nações Unidas. Tais medidas careceriam de transparência e de padrões legais justos, e promoveriam um processo gradual de esvaziamento da Agência de sua força de trabalho palestina, redefinindo-a como um órgão de assistência frágil e temporário, em vez de uma agência da ONU fundamentada em direitos e obrigações internacionais para com os refugiados.

Essa trajetória não pode ser dissociada do contexto político mais amplo, nem da crescente pressão internacional para reformular o papel da UNRWA ou restringir sua função jurídica ligada à questão dos refugiados. Nesse sentido, a “austeridade” surge como uma ferramenta política sutil para impor uma nova realidade na qual o funcionário palestino é o elo mais fraco e o refugiado, o maior perdedor.

Defender a UNRWA hoje não é defender uma instituição burocrática, mas sim a dignidade e os direitos inalienáveis dos refugiados palestinos — principalmente o direito de retorno, consagrado na Resolução 194 da Assembleia Geral da ONU. É uma defesa que exige ação política, sindical e midiática coordenada, responsabilizando as Nações Unidas e os Estados doadores por suas obrigações legais e morais, e rejeitando a transformação das crises financeiras em instrumentos para minar os direitos dos refugiados e os serviços essenciais.

<><> Inverno em Gaza: quando a consciência do mundo congela

Em Gaza, o inverno não chega como uma estação passageira, mas como uma punição adicional imposta a um povo exausto pela guerra e pelo bloqueio. Aqui, o frio intenso do inverno se soma ao alagamento de tendas e centros de abrigo para deslocados pelas águas da chuva, cruzando-se com o perigo de casas prestes a desabar sob o peso dos contínuos bombardeios israelenses. Bombardeios que não se contentam em destruir o que resta das casas e propriedades dos cidadãos, mas continuam ceifando vidas por meio da morte, da fome e do frio, diante de um silêncio internacional cada vez mais cruel e de um mundo que insiste em arrancar sua humanidade pedaço por pedaço.

Em Gaza, as crianças não se escondem da chuva em casas quentes, mas compartilham o medo com suas famílias sob lonas rasgadas que não protegem do frio nem impedem o afogamento. Refugiados dentro de sua própria pátria, enfrentam o inverno com corpos trêmulos, estômagos vazios e um céu que não derrama misericórdia, mas aprofunda a dor. Cada gota de água se transforma em ameaça, e cada noite fria pode ser a última para uma criança ou um idoso cujo corpo frágil não suportou a prova forçada da resistência.

Os bombardeios israelenses não cessam, como se a guerra tivesse decidido desafiar as estações e sitiar Gaza até mesmo nos momentos de chuva. Casas destruídas, bairros arrasados e uma infraestrutura colapsada, incapaz de drenar as águas pluviais, enquanto os centros de abrigo se transformam em armadilhas de morte lenta. Ainda assim, o mundo continua virando as costas, como se as cenas de afogamento, frio e fome não merecessem mais do que declarações frias, semelhantes ao clima das conferências internacionais.

O inverno de Gaza não é uma crise climática, mas um espelho escancarado do colapso dos valores humanos. É um teste para a consciência da humanidade, que congelou antes mesmo das águas da chuva, recusando-se a conceder aos pequenos — antes dos adultos — um único momento de calor. Um teste no qual a comunidade internacional falha repetidas vezes, quando iguala o carrasco à vítima e quando justifica o crime com silêncio ou cumplicidade.

Em Gaza, as pessoas não pedem o impossível. Pedem apenas o direito à vida, à segurança, a um teto que proteja seus filhos da chuva e a um inverno que não se transforme em mais uma arma numa guerra de extermínio. Mas até esse mínimo de humanidade parece pesado demais para um mundo acostumado a assistir à tragédia por trás das telas, sem sequer piscar.

A primavera um dia chegará, mas a pergunta que permanecerá suspensa é: quantas vidas serão enterradas sob os escombros e o frio antes que a consciência do mundo desperte?

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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