sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Alexandre Machado Rosa: Por que os países ainda não anunciaram boicote à Copa do Mundo nos EUA?

O futebol é, sem dúvidas, uma das maiores invenções da cultura moderna. Nascido na Inglaterra vitoriana, já dava demonstrações de que não seria apenas um jogo. Tornou-se expressão da sociedade matematizada. O tempo e o espaço do futebol moderno traduzem a ideia de igualdade dentro de campo. Já fora dele, as desigualdades são uma essência da modernidade capitalista.

O futebol serviu de instrumento de disciplinamento social, de pacificação das classes trabalhadoras e de reorganização simbólica de uma sociedade atravessada por conflitos profundos produzidos pela industrialização.

Ao longo do século XX, o futebol se expandiu como linguagem universal e conquistou todos os continentes. Em 1928, Jules Rimet compreendeu que o jogo já não cabia mais nos limites das Olimpíadas modernas, retomadas em 1896. A criação da Copa do Mundo, em 1930, consolidou o futebol como espetáculo global e como projeto político-cultural. Não por acaso, o Uruguai foi escolhido como sede inaugural. A celeste olímpica, apelido que recebeu pela conquista do bicampeonato olímpico (1924 e 1928). Além disso, estava celebrando o centenário de sua independência, o que simbolizava uma modernidade possível fora do eixo europeu.

Cem anos depois, às vésperas da Copa do centenário de 2030 — que será sediada por Portugal, Espanha e Marrocos — o futebol encontra-se profundamente transformado. Ou melhor, capturado. Em 2026, a Copa será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, inaugurando um novo patamar de fragmentação territorial do torneio, já ensaiado em 2002 por Japão e Coreia do Sul. A dispersão das sedes não é só um detalhe logístico. É reflexo do sintoma de um futebol cada vez mais subordinado à lógica do capital global e menos enraizado em territórios, culturas e povos.

É nesse contexto que se impõe a pergunta incômoda: por que os países que têm sido humilhados, ameaçados ou diretamente afetados pelas políticas do governo Donald Trump ainda não anunciaram boicote à Copa dos EUA?

Os Estados Unidos, sob Trump, intensificaram a perseguição a imigrantes, promovem deportações em massa e fortalecem uma polícia migratória — a ICE — que opera com práticas de criminalização, violência institucional e violação sistemática de direitos humanos. Trata-se de uma política de Estado, não de um desvio episódico. Ainda assim, o futebol internacional segue como se nada estivesse acontecendo.

A resposta não está na ingenuidade dos governos, mas na perda de autonomia do futebol enquanto fenômeno cultural. O futebol já não pertence aos povos nem sequer aos Estados nacionais. Hoje, ele pertence a uma engrenagem transnacional comandada pela FIFA e por interesses corporativos, financeiros e geopolíticos. Boicotar uma Copa hoje não é apenas um gesto simbólico, como ocorreu aos Jogos Olímpicos durante a guerra fria. Significa enfrentar sanções esportivas, retaliações econômicas, isolamento institucional e custos políticos que poucos governos, sobretudo os periféricos, estão dispostos a pagar.

Além disso, os EUA não são apenas sede da Copa. Ainda são o centro do sistema financeiro internacional, eixo do dólar, potência militar e ator decisivo em organismos multilaterais. A humilhação diplomática promovida por Trump convive, paradoxalmente, com uma dependência estrutural. Engole-se o insulto em nome da estabilidade.

Soma-se a isso o velho mito da neutralidade esportiva. Repete-se que “esporte não é política”, quando, na prática, isso significa apenas que a política dos poderosos não pode ser questionada pelo esporte. Perseguir imigrantes não “politiza” a Copa. Questionar a sede, sim. A neutralidade opera sempre a favor da ordem vigente.

Esse silêncio não é novidade histórica. Em 1936, os Jogos Olímpicos foram realizados em Berlim, já sob o controle do regime nazista. Muitos países sabiam o que estava acontecendo. Sabiam da perseguição, da violência, do autoritarismo. Ainda assim, prevaleceu a ideia de que era melhor “ir e ver de perto”. O resultado foi a legitimação internacional do nazismo, o uso do esporte como propaganda e a normalização do horror. Três anos depois, eclodiu a Segunda Guerra Mundial.

A história não se repete mecanicamente. Hoje, o que se naturaliza não é o nazismo clássico, mas o autoritarismo de mercado, o racismo institucional, a criminalização da migração e a violência estatal travestida de política de segurança. A Copa nos EUA funciona como uma vitrine. Quer exibir diversidade, festa e espetáculo, enquanto expulsa, encarcera e humilha populações inteiras.

O futebol, que já foi projeto nacional, linguagem popular e espaço de pertencimento coletivo, converteu-se em mercadoria global. O torcedor virou consumidor. O estádio virou arena. O clube virou marca. O jogador virou ativo financeiro. E o jogo — o jogo mesmo — tornou-se secundário.

Ao se aproximar de seu centenário, a Copa do Mundo não celebra apenas uma história de glórias esportivas. Ela expõe, de forma cristalina, o sequestro do futebol por uma ordem que transforma tudo em espetáculo rentável e silencia qualquer dissenso em nome do lucro.

Diante disso, a pergunta permanece e se torna ainda mais incômoda: se nem a perseguição explícita a imigrantes, o racismo institucional e a humilhação diplomática são suficientes para provocar um boicote, o que ainda seria?

Ou talvez a pergunta mais dura seja outra: o futebol ainda é capaz de dizer “não” ou já perdeu definitivamente essa possibilidade?

•        Crise da Groenlândia reacende debate sobre boicote à Copa de 2026

A escalada de tensão diplomática envolvendo declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Groenlândia passou a ultrapassar o campo político e chegou ao futebol internacional. Durante o Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos nesta terça-feira (20), parlamentares de diferentes países europeus passaram a defender publicamente um possível boicote à Copa do Mundo de 2026, que terá partidas sediadas nos Estados Unidos, além de Canadá e México.

A reação ocorre após o endurecimento do discurso do presidente dos Estados Unidos em relação ao território ártico ligado à Dinamarca. Embora o interesse de Trump pela Groenlândia seja antigo, nas últimas semanas a Casa Branca passou a sustentar de forma mais explícita a possibilidade de compra da ilha e, em tom ainda mais grave, não descartou o uso da força militar caso não haja acordo. O tema tem provocado forte desconforto entre líderes europeus e ampliado o desgaste diplomático entre Washington e o continente.

A discussão sobre um eventual boicote ganhou corpo na sexta-feira (17), quando o parlamentar alemão Jürgen Hardt, da União Democrata Cristã (CDU), afirmou em entrevista que uma ação contra a Copa do Mundo poderia ser utilizada como instrumento de pressão política. Para ele, a medida seria “o último recurso para fazer Trump cair em si na questão da Groenlândia”, destacando que o presidente dos Estados Unidos já deixou claro “o quanto a competição é importante para ele”.

Na Alemanha, a proposta encontra respaldo relevante da opinião pública. Levantamento divulgado pelo instituto INSA, realizado entre quarta-feira (15) e quinta-feira (16), com 1.002 entrevistados, apontou que 47% dos alemães apoiam um eventual boicote. Outros 35% rejeitam a ideia, enquanto 18% disseram estar indecisos ou preferiram não opinar.

O debate também avançou no Reino Unido, onde parlamentares de diferentes partidos passaram a tratar o boicote como uma forma legítima de protesto diplomático. O conservador Simon Hoare defendeu o envio de sinais claros a Washington. “Devemos enviar o máximo de mensagens possível ao governo Trump e ao povo americano de que existem certas linhas vermelhas em relação à preservação da soberania e dos assuntos internacionais”, afirmou. Em seguida, completou: “Se isso significa não ir à Copa do Mundo, então não devemos ir à Copa do Mundo”.

A posição foi reforçada pela trabalhista Kate Osbourne, que relembrou mobilizações políticas recentes no país. “No ano passado, houve grande apoio público à campanha bem-sucedida para que Trump não discursasse no Parlamento. Precisamos ver o mesmo agora em relação à Copa do Mundo”, disse. Para ela, “os EUA não deveriam poder participar, muito menos fazer parte da organização do torneio”.

Já o liberal-democrata Luke Taylor adotou um tom ainda mais crítico ao avaliar o comportamento do presidente dos Estados Unidos. Segundo ele, Trump não é um “homem racional” e reage apenas a “vaidades, como visto na incrível saga do Prêmio Nobel”. Além de apoiar o boicote esportivo, Taylor defendeu o cancelamento da visita do rei Charles III aos Estados Unidos, afirmando que as medidas serviriam para “mostrar a Donald Trump que a única coisa à qual ele responde é o próprio orgulho”.

Apesar do aumento da pressão política, nenhum país europeu anunciou oficialmente a intenção de retirar sua seleção da Copa do Mundo. Após as declarações de Hardt, o governo alemão afirmou que qualquer decisão sobre boicote caberia à Federação Alemã de Futebol (DFB) e à FIFA. No Reino Unido, a secretária de Relações Exteriores, Yvette Cooper, declarou que Londres seguirá priorizando o diálogo diplomático com Washington e ressaltou que o “engajamento” entre o primeiro-ministro Keir Starmer e o presidente dos Estados Unidos já resultou em acordos e investimentos bilionários em tecnologia.

•        Ministra descarta boicote da França à Copa do Mundo nos EUA

A França confirmou que pretende disputar normalmente a Copa do Mundo de 2026, que será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. Segundo o governo francês, não existe, neste momento, qualquer disposição oficial para um boicote ao torneio, apesar de pressões políticas surgidas em diferentes países europeus contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A ministra dos Esportes da França, Marina Ferrari, disse que  “não há vontade de boicote” por parte do ministério, mesmo diante de manifestações de parlamentares que defendem uma reação esportiva às posições do governo americano no cenário internacional.

Marina Ferrari destacou que, embora existam debates políticos em curso, o esporte deve ser preservado dessas disputas. “Agora, não faço previsões sobre o que pode acontecer, mas também ouvi vozes que se levantam vindas de alguns blocos políticos. Faço questão de que se dissocie o esporte (da política). A Copa do Mundo de futebol é um momento extremamente importante para todos os amantes do esporte”, afirmou a ministra.

As declarações ocorrem em meio a uma mobilização de setores da esquerda europeia que questionam a realização de jogos do Mundial em território norte-americano. Na França, o deputado Éric Coquerel, do partido A França Insubmissa (LFI), solicitou formalmente à Fifa que considere a possibilidade de a competição ser disputada apenas no México e no Canadá.

Em publicação na rede social X, Coquerel fez duras críticas ao governo dos Estados Unidos e escreveu: “Sério, dá para imaginar jogar uma Copa do Mundo de futebol em um país que agride seus ‘vizinhos’, ameaça invadir a Groenlândia, destrói o direito internacional, quer sabotar a ONU, instaura uma milícia fascista e racista em seu território, ataca as oposições, proíbe o acesso à competição de torcedores de cerca de quinze países, planeja banir dos estádios qualquer sinal LGBT, etc.?”.

O debate também ganhou repercussão fora da França. Em entrevista ao jornal francês Le Figaro, o ex-treinador da seleção do Senegal, Claude Le Roy, mencionou as dificuldades que torcedores africanos podem enfrentar para obter vistos de entrada nos Estados Unidos durante o Mundial. Segundo ele, seria legítimo “se perguntar se não seria o caso de convocar um boicote à Copa do Mundo de 2026, diante do comportamento de Donald Trump em relação ao continente”.

No Reino Unido, a discussão chegou ao Parlamento. O deputado conservador Simon Hoare declarou que uma eventual retirada da seleção inglesa da Copa poderia ser considerada como forma de pressão política sobre o presidente dos Estados Unidos. “(Trump) é sensível, tem um ego inflado e não gosta de passar vergonha. A visita de Estado (do Rei Charles aos EUA) deve acontecer? As seleções de futebol devem jogar em estádios americanos na Copa do Mundo? Essas são coisas que envergonhariam o presidente em casa. É necessário combater fogo com fogo”, disse.

•        Ingressos acessíveis disparam e geram revolta na Copa de 2026

Na Copa do Mundo de 2022, no Catar, torcedores Pessoas Com Deficiência (PCDs) encontravam condições significativamente mais acessíveis para acompanhar as partidas. Na fase de grupos, o ingresso destinado a esse público custava R$ 57, e o acompanhante tinha entrada gratuita. Para a edição de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, o cenário mudou drasticamente e passou a gerar indignação, especialmente entre cadeirantes.

De acordo com informações publicadas pelo jornal britânico The Sun, reprecutidas pelo jornal O Globo, o custo mínimo para um torcedor com deficiência assistir a um jogo na próxima Copa será de R$ 2.860 por dois ingressos. Isso ocorre porque não há mais previsão de gratuidade para acompanhantes e porque a categoria mais barata de entradas não oferece os chamados assentos de acessibilidade. Na prática, o aumento chega a cerca de 4.900% em relação ao que era cobrado no Mundial do Catar.

Embora o ingresso mais barato para o público em geral custe em torno de R$ 325, esses setores não contam com estrutura adequada para pessoas com mobilidade reduzida. Assim, torcedores com deficiência são obrigados a adquirir assentos especiais, cujo valor mínimo gira em torno de R$ 1.430, além de pagar o mesmo montante para garantir a presença de um acompanhante.

A situação causa ainda mais revolta diante das declarações da Fifa, que anunciou que a Copa do Mundo de 2026 estabeleceria “novos padrões de diversidade e inclusão”. Na prática, além do aumento expressivo nos preços, a entidade também reduziu em cerca de um terço o número de assentos acessíveis, chegando, em alguns jogos, a uma média de apenas 18 lugares destinados a torcedores cadeirantes.

Entre os entrevistados pelo The Sun está Gregg Baxter, de 24 anos, atleta de futebol em cadeira de rodas motorizada da seleção da Inglaterra. Portador de paralisia cerebral, ele planejava acompanhar a estreia da seleção inglesa contra a Croácia, em Dallas, mas afirmou que os valores cobrados inviabilizaram o plano.

— Não tenho como pagar esses preços — afirmou Baxter. Ele também demonstrou preocupação com o sistema de revenda de ingressos adotado para o torneio. — O que impede uma pessoa sem deficiência de comprar um ingresso e revendê-lo por um preço mais alto para uma pessoa com deficiência? É um absurdo.

A crítica aos valores também partiu de dirigentes ligados à acessibilidade no futebol. Stephen Reside, responsável pela área de acessibilidade na Federação Escocesa de Futebol, classificou a política de preços como discriminatória. Para ele, a estratégia adotada para o Mundial de 2026 representa “uma escolha deliberada punir os torcedores com deficiência e extrair o máximo de dinheiro possível de nós”.

Com o aumento dos custos, a redução de assentos acessíveis e o fim de benefícios antes garantidos, cresce a pressão sobre a Fifa e os organizadores da Copa de 2026. O debate sobre inclusão, diversidade e acesso igualitário aos grandes eventos esportivos ganha força às vésperas do torneio, colocando em xeque o compromisso público assumido pela entidade máxima do futebol mundial.

 

Fonte: Brasil 247

 

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