Alexandre
Machado Rosa: Por que os países ainda não anunciaram boicote à Copa do Mundo
nos EUA?
O
futebol é, sem dúvidas, uma das maiores invenções da cultura moderna. Nascido
na Inglaterra vitoriana, já dava demonstrações de que não seria apenas um jogo.
Tornou-se expressão da sociedade matematizada. O tempo e o espaço do futebol
moderno traduzem a ideia de igualdade dentro de campo. Já fora dele, as
desigualdades são uma essência da modernidade capitalista.
O
futebol serviu de instrumento de disciplinamento social, de pacificação das
classes trabalhadoras e de reorganização simbólica de uma sociedade atravessada
por conflitos profundos produzidos pela industrialização.
Ao
longo do século XX, o futebol se expandiu como linguagem universal e conquistou
todos os continentes. Em 1928, Jules Rimet compreendeu que o jogo já não cabia
mais nos limites das Olimpíadas modernas, retomadas em 1896. A criação da Copa
do Mundo, em 1930, consolidou o futebol como espetáculo global e como projeto
político-cultural. Não por acaso, o Uruguai foi escolhido como sede inaugural.
A celeste olímpica, apelido que recebeu pela conquista do bicampeonato olímpico
(1924 e 1928). Além disso, estava celebrando o centenário de sua independência,
o que simbolizava uma modernidade possível fora do eixo europeu.
Cem
anos depois, às vésperas da Copa do centenário de 2030 — que será sediada por
Portugal, Espanha e Marrocos — o futebol encontra-se profundamente
transformado. Ou melhor, capturado. Em 2026, a Copa será realizada nos Estados
Unidos, Canadá e México, inaugurando um novo patamar de fragmentação
territorial do torneio, já ensaiado em 2002 por Japão e Coreia do Sul. A
dispersão das sedes não é só um detalhe logístico. É reflexo do sintoma de um
futebol cada vez mais subordinado à lógica do capital global e menos enraizado
em territórios, culturas e povos.
É nesse
contexto que se impõe a pergunta incômoda: por que os países que têm sido
humilhados, ameaçados ou diretamente afetados pelas políticas do governo Donald
Trump ainda não anunciaram boicote à Copa dos EUA?
Os
Estados Unidos, sob Trump, intensificaram a perseguição a imigrantes, promovem
deportações em massa e fortalecem uma polícia migratória — a ICE — que opera
com práticas de criminalização, violência institucional e violação sistemática
de direitos humanos. Trata-se de uma política de Estado, não de um desvio
episódico. Ainda assim, o futebol internacional segue como se nada estivesse
acontecendo.
A
resposta não está na ingenuidade dos governos, mas na perda de autonomia do
futebol enquanto fenômeno cultural. O futebol já não pertence aos povos nem
sequer aos Estados nacionais. Hoje, ele pertence a uma engrenagem transnacional
comandada pela FIFA e por interesses corporativos, financeiros e geopolíticos.
Boicotar uma Copa hoje não é apenas um gesto simbólico, como ocorreu aos Jogos
Olímpicos durante a guerra fria. Significa enfrentar sanções esportivas,
retaliações econômicas, isolamento institucional e custos políticos que poucos
governos, sobretudo os periféricos, estão dispostos a pagar.
Além
disso, os EUA não são apenas sede da Copa. Ainda são o centro do sistema
financeiro internacional, eixo do dólar, potência militar e ator decisivo em
organismos multilaterais. A humilhação diplomática promovida por Trump convive,
paradoxalmente, com uma dependência estrutural. Engole-se o insulto em nome da
estabilidade.
Soma-se
a isso o velho mito da neutralidade esportiva. Repete-se que “esporte não é
política”, quando, na prática, isso significa apenas que a política dos
poderosos não pode ser questionada pelo esporte. Perseguir imigrantes não
“politiza” a Copa. Questionar a sede, sim. A neutralidade opera sempre a favor
da ordem vigente.
Esse
silêncio não é novidade histórica. Em 1936, os Jogos Olímpicos foram realizados
em Berlim, já sob o controle do regime nazista. Muitos países sabiam o que
estava acontecendo. Sabiam da perseguição, da violência, do autoritarismo.
Ainda assim, prevaleceu a ideia de que era melhor “ir e ver de perto”. O
resultado foi a legitimação internacional do nazismo, o uso do esporte como
propaganda e a normalização do horror. Três anos depois, eclodiu a Segunda
Guerra Mundial.
A
história não se repete mecanicamente. Hoje, o que se naturaliza não é o nazismo
clássico, mas o autoritarismo de mercado, o racismo institucional, a
criminalização da migração e a violência estatal travestida de política de
segurança. A Copa nos EUA funciona como uma vitrine. Quer exibir diversidade,
festa e espetáculo, enquanto expulsa, encarcera e humilha populações inteiras.
O
futebol, que já foi projeto nacional, linguagem popular e espaço de
pertencimento coletivo, converteu-se em mercadoria global. O torcedor virou
consumidor. O estádio virou arena. O clube virou marca. O jogador virou ativo
financeiro. E o jogo — o jogo mesmo — tornou-se secundário.
Ao se
aproximar de seu centenário, a Copa do Mundo não celebra apenas uma história de
glórias esportivas. Ela expõe, de forma cristalina, o sequestro do futebol por
uma ordem que transforma tudo em espetáculo rentável e silencia qualquer
dissenso em nome do lucro.
Diante
disso, a pergunta permanece e se torna ainda mais incômoda: se nem a
perseguição explícita a imigrantes, o racismo institucional e a humilhação
diplomática são suficientes para provocar um boicote, o que ainda seria?
Ou
talvez a pergunta mais dura seja outra: o futebol ainda é capaz de dizer “não”
ou já perdeu definitivamente essa possibilidade?
• Crise da Groenlândia reacende debate
sobre boicote à Copa de 2026
A
escalada de tensão diplomática envolvendo declarações do presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, sobre a Groenlândia passou a ultrapassar o campo político
e chegou ao futebol internacional. Durante o Fórum Econômico Mundial, realizado
em Davos nesta terça-feira (20), parlamentares de diferentes países europeus
passaram a defender publicamente um possível boicote à Copa do Mundo de 2026,
que terá partidas sediadas nos Estados Unidos, além de Canadá e México.
A
reação ocorre após o endurecimento do discurso do presidente dos Estados Unidos
em relação ao território ártico ligado à Dinamarca. Embora o interesse de Trump
pela Groenlândia seja antigo, nas últimas semanas a Casa Branca passou a
sustentar de forma mais explícita a possibilidade de compra da ilha e, em tom
ainda mais grave, não descartou o uso da força militar caso não haja acordo. O
tema tem provocado forte desconforto entre líderes europeus e ampliado o
desgaste diplomático entre Washington e o continente.
A
discussão sobre um eventual boicote ganhou corpo na sexta-feira (17), quando o
parlamentar alemão Jürgen Hardt, da União Democrata Cristã (CDU), afirmou em
entrevista que uma ação contra a Copa do Mundo poderia ser utilizada como
instrumento de pressão política. Para ele, a medida seria “o último recurso
para fazer Trump cair em si na questão da Groenlândia”, destacando que o
presidente dos Estados Unidos já deixou claro “o quanto a competição é
importante para ele”.
Na
Alemanha, a proposta encontra respaldo relevante da opinião pública.
Levantamento divulgado pelo instituto INSA, realizado entre quarta-feira (15) e
quinta-feira (16), com 1.002 entrevistados, apontou que 47% dos alemães apoiam
um eventual boicote. Outros 35% rejeitam a ideia, enquanto 18% disseram estar
indecisos ou preferiram não opinar.
O
debate também avançou no Reino Unido, onde parlamentares de diferentes partidos
passaram a tratar o boicote como uma forma legítima de protesto diplomático. O
conservador Simon Hoare defendeu o envio de sinais claros a Washington.
“Devemos enviar o máximo de mensagens possível ao governo Trump e ao povo
americano de que existem certas linhas vermelhas em relação à preservação da
soberania e dos assuntos internacionais”, afirmou. Em seguida, completou: “Se
isso significa não ir à Copa do Mundo, então não devemos ir à Copa do Mundo”.
A
posição foi reforçada pela trabalhista Kate Osbourne, que relembrou
mobilizações políticas recentes no país. “No ano passado, houve grande apoio
público à campanha bem-sucedida para que Trump não discursasse no Parlamento.
Precisamos ver o mesmo agora em relação à Copa do Mundo”, disse. Para ela, “os
EUA não deveriam poder participar, muito menos fazer parte da organização do
torneio”.
Já o
liberal-democrata Luke Taylor adotou um tom ainda mais crítico ao avaliar o
comportamento do presidente dos Estados Unidos. Segundo ele, Trump não é um
“homem racional” e reage apenas a “vaidades, como visto na incrível saga do
Prêmio Nobel”. Além de apoiar o boicote esportivo, Taylor defendeu o
cancelamento da visita do rei Charles III aos Estados Unidos, afirmando que as
medidas serviriam para “mostrar a Donald Trump que a única coisa à qual ele
responde é o próprio orgulho”.
Apesar
do aumento da pressão política, nenhum país europeu anunciou oficialmente a
intenção de retirar sua seleção da Copa do Mundo. Após as declarações de Hardt,
o governo alemão afirmou que qualquer decisão sobre boicote caberia à Federação
Alemã de Futebol (DFB) e à FIFA. No Reino Unido, a secretária de Relações
Exteriores, Yvette Cooper, declarou que Londres seguirá priorizando o diálogo
diplomático com Washington e ressaltou que o “engajamento” entre o
primeiro-ministro Keir Starmer e o presidente dos Estados Unidos já resultou em
acordos e investimentos bilionários em tecnologia.
• Ministra descarta boicote da França à
Copa do Mundo nos EUA
A
França confirmou que pretende disputar normalmente a Copa do Mundo de 2026, que
será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. Segundo o governo francês,
não existe, neste momento, qualquer disposição oficial para um boicote ao
torneio, apesar de pressões políticas surgidas em diferentes países europeus
contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A
ministra dos Esportes da França, Marina Ferrari, disse que “não há vontade de boicote” por parte do
ministério, mesmo diante de manifestações de parlamentares que defendem uma
reação esportiva às posições do governo americano no cenário internacional.
Marina
Ferrari destacou que, embora existam debates políticos em curso, o esporte deve
ser preservado dessas disputas. “Agora, não faço previsões sobre o que pode
acontecer, mas também ouvi vozes que se levantam vindas de alguns blocos
políticos. Faço questão de que se dissocie o esporte (da política). A Copa do
Mundo de futebol é um momento extremamente importante para todos os amantes do
esporte”, afirmou a ministra.
As
declarações ocorrem em meio a uma mobilização de setores da esquerda europeia
que questionam a realização de jogos do Mundial em território norte-americano.
Na França, o deputado Éric Coquerel, do partido A França Insubmissa (LFI),
solicitou formalmente à Fifa que considere a possibilidade de a competição ser
disputada apenas no México e no Canadá.
Em
publicação na rede social X, Coquerel fez duras críticas ao governo dos Estados
Unidos e escreveu: “Sério, dá para imaginar jogar uma Copa do Mundo de futebol
em um país que agride seus ‘vizinhos’, ameaça invadir a Groenlândia, destrói o
direito internacional, quer sabotar a ONU, instaura uma milícia fascista e
racista em seu território, ataca as oposições, proíbe o acesso à competição de
torcedores de cerca de quinze países, planeja banir dos estádios qualquer sinal
LGBT, etc.?”.
O
debate também ganhou repercussão fora da França. Em entrevista ao jornal
francês Le Figaro, o ex-treinador da seleção do Senegal, Claude Le Roy,
mencionou as dificuldades que torcedores africanos podem enfrentar para obter
vistos de entrada nos Estados Unidos durante o Mundial. Segundo ele, seria
legítimo “se perguntar se não seria o caso de convocar um boicote à Copa do
Mundo de 2026, diante do comportamento de Donald Trump em relação ao
continente”.
No
Reino Unido, a discussão chegou ao Parlamento. O deputado conservador Simon
Hoare declarou que uma eventual retirada da seleção inglesa da Copa poderia ser
considerada como forma de pressão política sobre o presidente dos Estados
Unidos. “(Trump) é sensível, tem um ego inflado e não gosta de passar vergonha.
A visita de Estado (do Rei Charles aos EUA) deve acontecer? As seleções de
futebol devem jogar em estádios americanos na Copa do Mundo? Essas são coisas
que envergonhariam o presidente em casa. É necessário combater fogo com fogo”,
disse.
• Ingressos acessíveis disparam e geram
revolta na Copa de 2026
Na Copa
do Mundo de 2022, no Catar, torcedores Pessoas Com Deficiência (PCDs)
encontravam condições significativamente mais acessíveis para acompanhar as
partidas. Na fase de grupos, o ingresso destinado a esse público custava R$ 57,
e o acompanhante tinha entrada gratuita. Para a edição de 2026, que será
disputada nos Estados Unidos, o cenário mudou drasticamente e passou a gerar
indignação, especialmente entre cadeirantes.
De
acordo com informações publicadas pelo jornal britânico The Sun, reprecutidas
pelo jornal O Globo, o custo mínimo para um torcedor com deficiência assistir a
um jogo na próxima Copa será de R$ 2.860 por dois ingressos. Isso ocorre porque
não há mais previsão de gratuidade para acompanhantes e porque a categoria mais
barata de entradas não oferece os chamados assentos de acessibilidade. Na
prática, o aumento chega a cerca de 4.900% em relação ao que era cobrado no
Mundial do Catar.
Embora
o ingresso mais barato para o público em geral custe em torno de R$ 325, esses
setores não contam com estrutura adequada para pessoas com mobilidade reduzida.
Assim, torcedores com deficiência são obrigados a adquirir assentos especiais,
cujo valor mínimo gira em torno de R$ 1.430, além de pagar o mesmo montante
para garantir a presença de um acompanhante.
A
situação causa ainda mais revolta diante das declarações da Fifa, que anunciou
que a Copa do Mundo de 2026 estabeleceria “novos padrões de diversidade e
inclusão”. Na prática, além do aumento expressivo nos preços, a entidade também
reduziu em cerca de um terço o número de assentos acessíveis, chegando, em
alguns jogos, a uma média de apenas 18 lugares destinados a torcedores
cadeirantes.
Entre
os entrevistados pelo The Sun está Gregg Baxter, de 24 anos, atleta de futebol
em cadeira de rodas motorizada da seleção da Inglaterra. Portador de paralisia
cerebral, ele planejava acompanhar a estreia da seleção inglesa contra a
Croácia, em Dallas, mas afirmou que os valores cobrados inviabilizaram o plano.
— Não
tenho como pagar esses preços — afirmou Baxter. Ele também demonstrou
preocupação com o sistema de revenda de ingressos adotado para o torneio. — O
que impede uma pessoa sem deficiência de comprar um ingresso e revendê-lo por
um preço mais alto para uma pessoa com deficiência? É um absurdo.
A
crítica aos valores também partiu de dirigentes ligados à acessibilidade no
futebol. Stephen Reside, responsável pela área de acessibilidade na Federação
Escocesa de Futebol, classificou a política de preços como discriminatória.
Para ele, a estratégia adotada para o Mundial de 2026 representa “uma escolha
deliberada punir os torcedores com deficiência e extrair o máximo de dinheiro
possível de nós”.
Com o
aumento dos custos, a redução de assentos acessíveis e o fim de benefícios
antes garantidos, cresce a pressão sobre a Fifa e os organizadores da Copa de
2026. O debate sobre inclusão, diversidade e acesso igualitário aos grandes
eventos esportivos ganha força às vésperas do torneio, colocando em xeque o
compromisso público assumido pela entidade máxima do futebol mundial.
Fonte:
Brasil 247

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