quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

"Compartilhamos desafios", diz embaixador do México no Brasil

O embaixador Carlos García de Alba desembarcou em Brasília há dois meses para assumir a representação do México, um país que, faz questão de lembrar, tem relação especialmente próxima com o Brasil — que ficou evidente na conquista do tri pela Seleção Canarinho, em 1970, construída principalmente em Guadalajara, cidade natal do diplomata.

Passado mais de meio século, os dois países compartilham desafios e aspirações, em um cenário regional e global marcado intensamente pelos primeiros 12 meses de Donald Trump em seu retorno à Casa Branca. Da deportação em massa de imigrantes à ofensiva militar anunciada contra as drogas — mas que teve o ponto crítico na captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro —, o presidente Lula e a colega Claudia Sheinbaum manobram entre esforços para integrar a América Latina e cuidados para fazê-lo sem acirrar atritos com a superpotência.

Em visita ao Correio, o embaixador falou sobre temas internacionais e relações bilaterais. Confirmou os planos para simplificar a concessão de visto e multiplicar as visitas de brasileiros ao México. E antecipou planos para reforçar o intercâmbio "entre os povos", particularmente em Brasília.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Como o senhor vê o momento atual das relações bilaterais?

Entre a presidente Claudia Sheinbaum e o presidente Lula, há uma afinidade política e ideológica notável. Mas é preciso, também, uma relação econômica sólida e crescente. Entre México e Brasil, temos um fluxo de comércio anual de US$ 17 bilhões, favorável ao Brasil em uma proporção de mais que dois para um. Esse intercâmbio é muito baixo comparado ao tamanho das nossas economias — somos 65% do PIB da América Latina. A economia do México corresponde a 80% do PIB brasileiro. Portanto, não é o suficiente: temos que ao menos dobrar esse volume de comércio, chegar a US$ 30 bilhões. Depois, fazer o necessário para equilibrar essa balança. Chama muito a minha atenção que se fala muito pouco de investimentos. Eles são 10 vezes maiores que o fluxo de comércio. Temos mais de US$ 50 bilhões investidos no Brasil.

·        Que caminhos podem ser tentados para isso?

Temos de diversificar o diálogo bilateral, porque muitas vezes o comércio cria atritos nas relações, principalmente em tempos de Donald Trump. Falar de taxas e tarifas de importação foi irritante. Existe espaço para aumentarmos o comércio bilateral e os investimentos, mas temos de falar mais também sobre intercâmbios acadêmicos, científicos, tecnológicos. O Brasil é uma potência em matéria de saúde: vacinas, produção de medicamentos genéricos. Há ainda os biocombustíveis, uma experiência de 50 anos. No fim de fevereiro, vamos receber aqui uma missão mexicana de alto nível, que virá para aprender com a experiência brasileira. O turismo deixa muito a desejar, são apenas 170 mil brasileiros que visitam o México a cada ano. Vamos começar logo com a concessão do visto por via eletrônica, e acreditamos que a simplificação dos trâmites facilitará a ida de muitos brasileiros mais ao nosso país. A previsão é começarmos em fevereiro, possivelmente já a partir do dia 5. Faremos o anúncio oficial assim que tivermos todos os detalhes.

·        Como o senhor vê a posição de México e Brasil, da América Latina, nesses primeiros 12 meses de presidência de Donald Trump?

Somos uma região muito diversa, felizmente, na história, nas culturas, nos idiomas. No entanto, compartilhamos uma geografia, compartilhamos desafios. Temos muitos problemas sociais, desigualdade, pobreza. Questões ambientais. Nos últimos meses, também nos vimos com um desafio observado por óticas distintas. Não é segredo que o governo dos EUA vem dando muito mais atenção à América Latina. Temos manifestado nosso desacordo com as iniciativas que tomaram. Mas esse momento difícil uniu Brasil e México ainda mais. A comunicação entre nossos governos é frequente, entre os chanceleres e os presidentes, porque temos de estar muito coordenados. Somos os dois maiores países da América Latina, econômica e demograficamente. Observamos os fatos com muita atenção, entendemos as novas dinâmicas internacionais, vemos que o multilateralismo está passando por uma prova muito dura. Ainda assim, é importante que tenhamos clareza de que somos uma região que, por maiores que sejam as diversidades políticas, enfrenta desafios comuns.

·        O senhor acha que se fez o suficiente a respeito do que aconteceu na Venezuela, com o presidente Nicolás Maduro?

Cada país se manifestou à sua maneira. O México condenou duramente os acontecimentos de 3 de janeiro. Dissemos claramente que foi uma violação do direito internacional, e isso não é aceitável. O Brasil e outros países da região fizeram o mesmo, outros tiveram acordo com os EUA. Somos uma região plural, com governos que pensam de maneiras distintas. Da nossa parte, estamos convencidos de que é preciso respeitar a soberania nacional, que cada governo deve ser livre para tomar suas decisões.

·        Como o governo mexicano vê possíveis operações militares diretas contra os cartéis da droga em território do país?

A presidente Sheinbaum foi muito clara. Estamos prontos para cooperar e coordenar ações, mas sem submissão. Não será uma intervenção militar que resolverá o problema complexo do crime organizado, no México ou em outras partes do mundo. Desgraçadamente, o crime organizado é hoje um tema mundial. A solução, a saída, não está em nenhum país sozinho. No âmbito bilateral, pedimos aos EUA, mais de uma vez, que nos ajudem com a sua parte, reduzindo o consumo interno de drogas. E temos também o tráfico de armas: os cartéis estão bem armados, e essas armas chegam de outros países. Isso exige cooperação internacional, não uma intervenção unilateral.

·        Temos em comum também a deportação em massa de imigrantes pelos EUA. E o México é especialmente afetado...

Esse é um tema complexo, triste. Temos visto as operações das autoridades migratórias de lá, que estão distantes do ideal. Antes de tudo, o imigrante é alguém que busca oportunidades, não um criminoso. E contribui com o país que o recebe. Os EUA têm o direito de tomar suas decisões soberanas, o novo governo tem adotado uma atitude muito mais agressiva quanto às deportações e à proteção das fronteiras. As consequências, vamos ver no longo prazo, os efeitos econômicos, sociais. Mas é importantíssimo o respeito aos direitos humanos.

·        Neste ano teremos eleições na Colômbia e o Brasil, cujos governos têm diferenças marcantes com os EUA. Podemos temer algum tipo de interferência externa nesses processos?

Tomara que haja respeito, porque são os eleitores de cada país que devem decidir quem os governa, de maneira democrática e soberana. Espero que não haja interferências no Brasil, na Colômbia ou em qualquer país, da América Latina ou do mundo.

·        Como a embaixada vê as possibilidades de um maior intercâmbio humano e cultural aqui em Brasília?

Nos tempos de hoje, é muito importantes exercermos a diplomacia cultural, esportiva, turística. Elas não apenas aproximam os governos, mas os povos. O primeiro presidente de algum país que visitou Brasília, três meses antes da inauguração, foi o do México — na época, Adolfo López Mateos. Neste ano se completam 50 anos da inauguração da nossa embaixada, com uma arquitetura única, que lembra as escadarias das pirâmides de nossas grandes civilizações. Queremos comemorar, e os arquivos do Correio podem nos ajudar a resgatar fotos, seria um grande presente. O México tem uma conexão especial com o Brasil e com Brasília. E neste ano teremos a Copa do Mundo: vamos nos tornar o primeiro país a receber o campeonato pela terceira vez.

·        No terreno acadêmico, como o senhor vê as possibilidades de intercâmbio com a UnB?

Já estive com a reitora, tivemos uma boa conversa. E fiquei surpreso de saber que na UnB temos só cinco estudantes mexicanos e só um professor. Isso não é suficiente. Nesse ponto, lamentavelmente, como se conhece muito pouco o idioma português, no México, isso dificulta a mobilidade acadêmica para cá. Infelizmente, hoje o inglês tem um papel preponderante em muitos campos. Na medida em que tenhamos mais programas de ensino dos idiomas, aqui e no México, isso deve favorecer o intercâmbio acadêmico entre nossos países.

¨      Lula critica conselho de Trump e diz que EUA quer ser "o dono da ONU"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou nesta sexta-feira (23/1) o Conselho da Paz proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e afirmou que o mundo vive um momento “delicado e perigoso”, marcado pelo enfraquecimento do multilateralismo e pela imposição da “lei do mais forte”. A declaração foi feita durante discurso no 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador.

Segundo Lula, o cenário internacional aponta para o avanço de práticas unilaterais que colocam em xeque a Carta das Nações Unidas e o próprio papel da Organização das Nações Unidas (ONU). “O multilateralismo está sendo jogado fora. Está prevalecendo a lei do mais forte, a Carta da ONU está sendo rasgada”, declarou. 

O presidente também criticou diretamente a proposta atribuída a Trump de criar uma nova organização internacional sob controle centralizado. “Ao invés de corrigir a ONU, como a gente reivindica desde 2003, o presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU em que ele, sozinho, é o dono”, disse.

No discurso, Lula relacionou esse cenário global a instabilidades recentes na América Latina e disse estar articulando uma frente internacional para defender o multilateralismo. “Eu estou há uma semana telefonando para todos os países tentando ver se é possível a gente arrumar uma forma de nos unir para não permitir que o multilateralismo seja jogado no lixo”, afirmou. Segundo ele, já conversou com líderes de países como China, Índia, Hungria, México e membros do G20.

Lula reforçou que o Brasil não adota alinhamentos automáticos. “O Brasil não tem preferência de relação. O Brasil quer ter relação com os Estados Unidos, com Cuba, com a China, com a Índia, com a Rússia”, disse. “O que a gente não aceita mais é voltar a ser colônia para alguém querer mandar na gente”, emendou. 

Ao tratar da política externa, o presidente enfatizou sua defesa da paz e rejeitou qualquer escalada militar. “Eu não quero guerra. Eu sou um homem da paz”, afirmou. Lula ainda ironizou o discurso bélico de Trump. “Toda vez que o presidente Trump fala na televisão, ele fala que tem o exército mais forte do mundo, as melhores armas. Eu fico olhando e falo: eu não tenho nada. Muitas vezes a gente nem tem dinheiro para comprar bala para treinar”.

Para o petista, a disputa deve ocorrer no campo político e simbólico. “Eu não quero fazer guerra armada. Eu quero fazer guerra com o poder do convencimento, com argumento, com narrativa. A democracia é imbatível”, disse. Lula defendeu que nenhum país imponha sua vontade a outro e rejeitou a retomada de uma lógica de Guerra Fria.

<><> Gaza e Venezuela 

O presidente também condenou o que classificou como barbárie em Gaza. “Mataram mais de 70 mil pessoas para depois dizer que vão recuperar a área e fazer hotel de luxo. E o povo pobre que morreu vai morar onde?”, questionou, comparando a situação com políticas habitacionais brasileiras. “Aqui, mesmo com divergência política, a gente desapropria, paga e coloca o povo para morar decentemente."

Lula demonstrou indignação com os recentes acontecimentos na Venezuela e denunciou ameaças à soberania regional. “Eu fico toda noite indignado com o que aconteceu na Venezuela. Como é possível a falta de respeito à integridade territorial de um país?”, disse. Para ele, a América do Sul deve permanecer como zona de paz. “A gente não quer guerra. A gente não tem arma, mas tem caráter e dignidade e não vai baixar a cabeça para ninguém."

<><> Eleições 

No plano interno, o presidente transformou o evento em um chamado à mobilização política e eleitoral. “A desgraça de quem não gosta de política é que é governado por quem gosta”, afirmou, incentivando o MST a ampliar sua participação nas eleições. Ele comemorou o lançamento de candidaturas ligadas ao movimento e alertou para o peso do Congresso Nacional. “Não adianta eleger dois deputados sem-terra e deixar eleger mais de 500 parlamentares que não têm compromisso com o povo."

Lula também defendeu abertamente a disputa eleitoral futura. “Nós queremos ser tetra. Vamos disputar as eleições. Não sei com quem, mas venha quem vier, nós vamos mostrar que esse é o ano da verdade”, declarou. Segundo ele, o combate às fake news será central. “Quem tiver celular para contar mentira e espalhar fake news pode começar a guardar, porque a mentira não vai prevalecer."

Ao abordar temas sociais, o presidente fez um discurso enfático contra a violência de gênero. “A luta contra o feminicídio não é uma coisa das mulheres, é uma coisa dos homens”, disse. “O cara que levanta a mão para bater em uma mulher não precisa votar em mim para presidente da República. Somos nós, homens, que temos que comprar essa briga.”

Ao encerrar, Lula afirmou viver um de seus melhores momentos pessoais e políticos e garantiu disposição para continuar governando. “Eu não tenho arma, mas tenho coragem. E se depender de mim, a gente vai fazer muito mais.”

 

Fonte: Correio Braziliense

 

 

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