"Compartilhamos
desafios", diz embaixador do México no Brasil
O
embaixador Carlos García de Alba desembarcou em Brasília há dois meses para
assumir a representação do México, um país que, faz questão de lembrar, tem
relação especialmente próxima com o Brasil — que ficou evidente na conquista do
tri pela Seleção Canarinho, em 1970, construída principalmente em Guadalajara,
cidade natal do diplomata.
Passado
mais de meio século, os dois países compartilham desafios e aspirações, em um
cenário regional e global marcado intensamente pelos primeiros 12 meses de
Donald Trump em seu retorno à Casa Branca. Da deportação em massa de imigrantes
à ofensiva militar anunciada contra as drogas — mas que teve o ponto crítico na
captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro —, o presidente Lula e a
colega Claudia Sheinbaum manobram entre esforços para integrar a América Latina
e cuidados para fazê-lo sem acirrar atritos com a superpotência.
Em
visita ao Correio, o embaixador falou sobre temas internacionais e
relações bilaterais. Confirmou os planos para simplificar a concessão de visto
e multiplicar as visitas de brasileiros ao México. E antecipou planos para
reforçar o intercâmbio "entre os povos", particularmente em Brasília.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Como o senhor vê o momento atual das relações bilaterais?
Entre
a presidente Claudia Sheinbaum e o presidente Lula, há uma afinidade política e
ideológica notável. Mas é preciso, também, uma relação econômica sólida e
crescente. Entre México e Brasil, temos um fluxo de comércio anual de US$ 17
bilhões, favorável ao Brasil em uma proporção de mais que dois para um. Esse
intercâmbio é muito baixo comparado ao tamanho das nossas economias — somos 65%
do PIB da América Latina. A economia do México corresponde a 80% do PIB
brasileiro. Portanto, não é o suficiente: temos que ao menos dobrar esse volume
de comércio, chegar a US$ 30 bilhões. Depois, fazer o necessário para
equilibrar essa balança. Chama muito a minha atenção que se fala muito pouco de
investimentos. Eles são 10 vezes maiores que o fluxo de comércio. Temos mais de
US$ 50 bilhões investidos no Brasil.
·
Que caminhos podem ser tentados para isso?
Temos
de diversificar o diálogo bilateral, porque muitas vezes o comércio cria
atritos nas relações, principalmente em tempos de Donald Trump. Falar de taxas
e tarifas de importação foi irritante. Existe espaço para aumentarmos o
comércio bilateral e os investimentos, mas temos de falar mais também sobre
intercâmbios acadêmicos, científicos, tecnológicos. O Brasil é uma potência em
matéria de saúde: vacinas, produção de medicamentos genéricos. Há ainda os
biocombustíveis, uma experiência de 50 anos. No fim de fevereiro, vamos receber
aqui uma missão mexicana de alto nível, que virá para aprender com a
experiência brasileira. O turismo deixa muito a desejar, são apenas 170 mil
brasileiros que visitam o México a cada ano. Vamos começar logo com a concessão
do visto por via eletrônica, e acreditamos que a simplificação dos trâmites
facilitará a ida de muitos brasileiros mais ao nosso país. A previsão é
começarmos em fevereiro, possivelmente já a partir do dia 5. Faremos o anúncio
oficial assim que tivermos todos os detalhes.
·
Como o senhor vê a posição de México e Brasil, da América
Latina, nesses primeiros 12 meses de presidência de Donald Trump?
Somos
uma região muito diversa, felizmente, na história, nas culturas, nos idiomas.
No entanto, compartilhamos uma geografia, compartilhamos desafios. Temos muitos
problemas sociais, desigualdade, pobreza. Questões ambientais. Nos últimos
meses, também nos vimos com um desafio observado por óticas distintas. Não é
segredo que o governo dos EUA vem dando muito mais atenção à América Latina.
Temos manifestado nosso desacordo com as iniciativas que tomaram. Mas esse
momento difícil uniu Brasil e México ainda mais. A comunicação entre nossos
governos é frequente, entre os chanceleres e os presidentes, porque temos de
estar muito coordenados. Somos os dois maiores países da América Latina,
econômica e demograficamente. Observamos os fatos com muita atenção, entendemos
as novas dinâmicas internacionais, vemos que o multilateralismo está passando
por uma prova muito dura. Ainda assim, é importante que tenhamos clareza de que
somos uma região que, por maiores que sejam as diversidades políticas, enfrenta
desafios comuns.
·
O senhor acha que se fez o suficiente a respeito do que
aconteceu na Venezuela, com o presidente Nicolás Maduro?
Cada
país se manifestou à sua maneira. O México condenou duramente os acontecimentos
de 3 de janeiro. Dissemos claramente que foi uma violação do direito
internacional, e isso não é aceitável. O Brasil e outros países da região
fizeram o mesmo, outros tiveram acordo com os EUA. Somos uma região plural, com
governos que pensam de maneiras distintas. Da nossa parte, estamos convencidos
de que é preciso respeitar a soberania nacional, que cada governo deve ser
livre para tomar suas decisões.
·
Como o governo mexicano vê possíveis operações militares
diretas contra os cartéis da droga em território do país?
A
presidente Sheinbaum foi muito clara. Estamos prontos para cooperar e coordenar
ações, mas sem submissão. Não será uma intervenção militar que resolverá o
problema complexo do crime organizado, no México ou em outras partes do mundo.
Desgraçadamente, o crime organizado é hoje um tema mundial. A solução, a saída,
não está em nenhum país sozinho. No âmbito bilateral, pedimos aos EUA, mais de
uma vez, que nos ajudem com a sua parte, reduzindo o consumo interno de drogas.
E temos também o tráfico de armas: os cartéis estão bem armados, e essas armas
chegam de outros países. Isso exige cooperação internacional, não uma
intervenção unilateral.
·
Temos em comum também a deportação em massa de imigrantes
pelos EUA. E o México é especialmente afetado...
Esse
é um tema complexo, triste. Temos visto as operações das autoridades
migratórias de lá, que estão distantes do ideal. Antes de tudo, o imigrante é
alguém que busca oportunidades, não um criminoso. E contribui com o país que o
recebe. Os EUA têm o direito de tomar suas decisões soberanas, o novo governo
tem adotado uma atitude muito mais agressiva quanto às deportações e à proteção
das fronteiras. As consequências, vamos ver no longo prazo, os efeitos
econômicos, sociais. Mas é importantíssimo o respeito aos direitos humanos.
·
Neste ano teremos eleições na Colômbia e o Brasil, cujos
governos têm diferenças marcantes com os EUA. Podemos temer algum tipo de
interferência externa nesses processos?
Tomara
que haja respeito, porque são os eleitores de cada país que devem decidir quem
os governa, de maneira democrática e soberana. Espero que não haja
interferências no Brasil, na Colômbia ou em qualquer país, da América Latina ou
do mundo.
·
Como a embaixada vê as possibilidades de um maior
intercâmbio humano e cultural aqui em Brasília?
Nos
tempos de hoje, é muito importantes exercermos a diplomacia cultural,
esportiva, turística. Elas não apenas aproximam os governos, mas os povos. O
primeiro presidente de algum país que visitou Brasília, três meses antes da
inauguração, foi o do México — na época, Adolfo López Mateos. Neste ano se
completam 50 anos da inauguração da nossa embaixada, com uma arquitetura única,
que lembra as escadarias das pirâmides de nossas grandes civilizações. Queremos
comemorar, e os arquivos do Correio podem nos ajudar a resgatar fotos, seria um
grande presente. O México tem uma conexão especial com o Brasil e com Brasília.
E neste ano teremos a Copa do Mundo: vamos nos tornar o primeiro país a receber
o campeonato pela terceira vez.
·
No terreno acadêmico, como o senhor vê as possibilidades
de intercâmbio com a UnB?
Já
estive com a reitora, tivemos uma boa conversa. E fiquei surpreso de saber que
na UnB temos só cinco estudantes mexicanos e só um professor. Isso não é
suficiente. Nesse ponto, lamentavelmente, como se conhece muito pouco o idioma
português, no México, isso dificulta a mobilidade acadêmica para cá.
Infelizmente, hoje o inglês tem um papel preponderante em muitos campos. Na
medida em que tenhamos mais programas de ensino dos idiomas, aqui e no México,
isso deve favorecer o intercâmbio acadêmico entre nossos países.
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Lula critica conselho de Trump e diz que EUA quer ser
"o dono da ONU"
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou nesta sexta-feira (23/1) o
Conselho da Paz proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e
afirmou que o mundo vive um momento “delicado e perigoso”, marcado pelo
enfraquecimento do multilateralismo e pela imposição da “lei do mais forte”. A
declaração foi feita durante discurso no 14º Encontro Nacional do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador.
Segundo
Lula, o cenário internacional aponta para o avanço de práticas unilaterais que
colocam em xeque a Carta das Nações Unidas e o próprio papel da Organização das
Nações Unidas (ONU). “O multilateralismo está sendo jogado fora. Está
prevalecendo a lei do mais forte, a Carta da ONU está sendo rasgada”,
declarou.
O
presidente também criticou diretamente a proposta atribuída a Trump de criar
uma nova organização internacional sob controle centralizado. “Ao invés de
corrigir a ONU, como a gente reivindica desde 2003, o presidente Trump está
fazendo uma proposta de criar uma nova ONU em que ele, sozinho, é o dono”,
disse.
No
discurso, Lula relacionou esse cenário global a instabilidades recentes na
América Latina e disse estar articulando uma frente internacional para defender
o multilateralismo. “Eu estou há uma semana telefonando para todos os países
tentando ver se é possível a gente arrumar uma forma de nos unir para não
permitir que o multilateralismo seja jogado no lixo”, afirmou. Segundo ele, já
conversou com líderes de países como China, Índia, Hungria, México e membros do
G20.
Lula
reforçou que o Brasil não adota alinhamentos automáticos. “O Brasil não tem
preferência de relação. O Brasil quer ter relação com os Estados Unidos, com
Cuba, com a China, com a Índia, com a Rússia”, disse. “O que a gente não aceita
mais é voltar a ser colônia para alguém querer mandar na gente”, emendou.
Ao
tratar da política externa, o presidente enfatizou sua defesa da paz e rejeitou
qualquer escalada militar. “Eu não quero guerra. Eu sou um homem da paz”,
afirmou. Lula ainda ironizou o discurso bélico de Trump. “Toda vez que o
presidente Trump fala na televisão, ele fala que tem o exército mais forte do
mundo, as melhores armas. Eu fico olhando e falo: eu não tenho nada. Muitas
vezes a gente nem tem dinheiro para comprar bala para treinar”.
Para o
petista, a disputa deve ocorrer no campo político e simbólico. “Eu não quero
fazer guerra armada. Eu quero fazer guerra com o poder do convencimento, com
argumento, com narrativa. A democracia é imbatível”, disse. Lula defendeu que
nenhum país imponha sua vontade a outro e rejeitou a retomada de uma lógica de
Guerra Fria.
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Gaza e Venezuela
O
presidente também condenou o que classificou como barbárie em Gaza. “Mataram
mais de 70 mil pessoas para depois dizer que vão recuperar a área e fazer hotel
de luxo. E o povo pobre que morreu vai morar onde?”, questionou, comparando a
situação com políticas habitacionais brasileiras. “Aqui, mesmo com divergência
política, a gente desapropria, paga e coloca o povo para morar
decentemente."
Lula
demonstrou indignação com os recentes acontecimentos na Venezuela e denunciou
ameaças à soberania regional. “Eu fico toda noite indignado com o que aconteceu
na Venezuela. Como é possível a falta de respeito à integridade territorial de
um país?”, disse. Para ele, a América do Sul deve permanecer como zona de paz.
“A gente não quer guerra. A gente não tem arma, mas tem caráter e dignidade e
não vai baixar a cabeça para ninguém."
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Eleições
No
plano interno, o presidente transformou o evento em um chamado à mobilização
política e eleitoral. “A desgraça de quem não gosta de política é que é
governado por quem gosta”, afirmou, incentivando o MST a ampliar sua
participação nas eleições. Ele comemorou o lançamento de candidaturas ligadas
ao movimento e alertou para o peso do Congresso Nacional. “Não adianta eleger
dois deputados sem-terra e deixar eleger mais de 500 parlamentares que não têm
compromisso com o povo."
Lula
também defendeu abertamente a disputa eleitoral futura. “Nós queremos ser
tetra. Vamos disputar as eleições. Não sei com quem, mas venha quem vier, nós
vamos mostrar que esse é o ano da verdade”, declarou. Segundo ele, o combate às
fake news será central. “Quem tiver celular para contar mentira e espalhar fake
news pode começar a guardar, porque a mentira não vai prevalecer."
Ao
abordar temas sociais, o presidente fez um discurso enfático contra a violência
de gênero. “A luta contra o feminicídio não é uma coisa das mulheres, é uma
coisa dos homens”, disse. “O cara que levanta a mão para bater em uma mulher
não precisa votar em mim para presidente da República. Somos nós, homens, que
temos que comprar essa briga.”
Ao
encerrar, Lula afirmou viver um de seus melhores momentos pessoais e políticos
e garantiu disposição para continuar governando. “Eu não tenho arma, mas tenho
coragem. E se depender de mim, a gente vai fazer muito mais.”
Fonte:
Correio Braziliense

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