Gilberto
Menezes Côrtes: Temas que fariam bem ao debate eleitoral 2026
O ano
eleitoral de 2026 promete esquentar a temperatura do debate político. Por ora,
diante do recesso do Legislativo (até 2 de fevereiro) e do Judiciário
(interrompido esta semana), o noticiário foi dominado pelos fragmentos do caso
do Banco Master, cujos estilhaços atingem o Banco Regional de Brasília, do
Distrito Federal e o ministro-relator do caso no Supremo Tribunal Federal, Dias
Toffoli. Seus irmãos e primos teriam o Master como sócio de um resort no
Paraná. E Daniel Vorcaro, o dono do Master, negociava uma fusão salvadora com o
banco do governo Ibaneis Rocha (MDB-DF), vetada, em setembro, pelo Banco
Central, quando chegou a ter mais de 6,5% das ações do banco estatal
brasiliense. Era um casamento para encobrir rombos de R$ 12 bilhões.
Os
estilhaços ameaçam muitos políticos e personagens que giravam no entorno do
Master, cujos satélites financeiros sofreram liquidação esta semana do Banco
Central. Haja esforço do ministro-relator do caso no (STF), Antônio Dias
Toffoli, cercar de sigilo as investigações do Banco Central e da Polícia
Federal que revelam tenebrosas transações, com imensos prejuízos para a banca
que sustenta o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) nas aplicações até R$ 250 mil.
A nota oficial do presidente do STF, ministro Edson Fachin, não afastou as
desconfianças sobre Toffoli.
Até
aqui a conta passa dos R$ 40 bilhões em indenizações, com perdas pesadas aos
que foram tentados pelos altos juros prometidos pelo Master, invertendo o tripé
de “segurança-liquidez-rentabilidade” para a escolha do investimento, fora os
R$ 6 bilhões do Will Bank, liquidado quarta-feira, 21, após calote no
Mastercard (não era do Master, e sim da bandeira mundial de cartões de
pagamento – crédito e débito). Fundos de pensão devem explicações.
Há
muito o que ajustar na abertura da porteira do “open finance”, badalado pelo
ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Paga-se agora o alto custo
de Campos Neto ter baixado excessivamente os juros na pandemia e de ter aberto
as comportas dos depósitos compulsórios das instituições financeiras,
dispensadas de ajustes prudenciais. O Master foi um dos bancos que navegaram na
bonança fazendo aquisições de pares em dificuldades, mas soçobrou na escalada
dos juros em 2023 e 2024, que tentou contornar oferecendo rendimentos abusivos
(140% do CDIs, a mediana do mercado).
Mas o
presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, que é um dos principais contribuintes
do Fundo Garantidor de Crédito (por ser o maior captador de depósitos e
aplicações do público amparadas pelo FGC, ao lado do Bradesco, BB, Santander,
Caixa e BTG-Pactual), chamou atenção para uma distorção a ser corrigida no
regulamento do FGC: o Master, além de prometer pagar 140% do CDI, usava a
parceria de instituições como a XP Investimentos, o BTG e o Nu(bank) para
vender agressivamente CDBs e letras de crédito na praça (não se sabe se incluía
fundos de pensão de servidores estatais), operação pela qual recebiam,
antecipadamente, altas comissões. Maluhy acha que quem contribuiu para a
derrama dos papéis do Master deve dar mais alguma contribuição extra para o
FGC, além de sua fatia proporcional à captação própria. Trata-se de um ônus
desigual para os grandes bancos, que implicou em mais ganhos para os espertos
vendedores dos papéis do Master.
O
Brasil num mundo mutante
Fora
isso, peço licença ao caro(a) leitor(a), para tocar em alguns temas explorados
pelo Departamento de Economia do Santander, chefiado pela economista Ana Paula
Vescovi, ex-secretária do Tesouro Nacional, que servem de pano de fundo ao
cenário eleitoral.
“O
ano de 2026 não representa um retorno ao regime macroeconômico que marcou a
década passada, tampouco inaugura um novo ciclo clássico de crescimento. Ele
consolida um novo contexto, caracterizado por crescimento moderado, custo de
capital estruturalmente mais elevado e maior sensibilidade das economias e dos
mercados à qualidade das decisões institucionais”, assinala.
“No
cenário internacional, a desaceleração das economias avançadas ocorre em uma
conjuntura distinta de episódios anteriores. A política monetária perdeu parte
relevante de sua capacidade de impactar a atividade, enquanto a política fiscal
reaparece de forma desigual, limitada por restrições de endividamento e por
questões de credibilidade. A fragmentação geopolítica deixa de ser um evento
pontual e passa a compor o pano de fundo permanente das decisões de
investimento, comércio e financiamento”.
Por
sinal, apesar das ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
contra as críticas do Brics lideradas pelo presidente Lula, ao uso mandatório
do dólar norte-americano como moeda de transações internacionais, em 2025 a
moeda dos EUA já deixou de ter a maioria: sua participação nas transações do
sistema “SWIFT” caiu de 50,2%, em 2024, para 46,7%. E tende a perder mais
espaço para o euro, com o acordo Mercosul-União Europeia, o futuro maior bloco
comercial do mundo.
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Menor fragmentação partidária aumenta força do Congresso
“Em
2026, estarão em disputa as 513 vagas da Câmara dos Deputados e 54 assentos no
Senado (2/3). [este é um tema sensível que mobiliza a oposição a formar uma
grande bancada de senadores para garantir “quórum” de metade mais um dos 81
senadores para a aprovação de pedidos de “impeachment” de ministros do STF e do
governo, incluindo o presidente da República, o que leva o PT a recrutar
ministros e políticos importantes para concorrer ao Senado];
Lembra
o Santander que “a renovação de grande parte do Congresso ocorrerá em um
contexto de elevação gradual da cláusula de desempenho (ou de barreiras), que
estabelece requisitos mínimos de votos e cadeiras para o funcionamento
partidário-parlamentar. Esse processo será concluído em 2030, quando a cláusula
de barreiras alcança seu nível final”.
“Até
lá, muitas legendas tendem a concentrar esforços na ampliação de bancadas, dado
seu impacto sobre o acesso ao financiamento público. O processo de consolidação
partidária observado nos últimos ciclos indica maior espaço para partidos de
centro, que historicamente têm direcionado recursos orçamentários para bases
locais e ampliado sua presença municipal. Esse conjunto de fatores costuma
favorecer a manutenção de parlamentares já estabelecidos e ampliar a
competitividade dessas siglas em relação a partidos com menor capilaridade”,
assinala o Santander.
Para o
banco, “a elevação das exigências da cláusula de desempenho pode afetar
sobretudo agremiações menores, que enfrentaram desafios para cumpri-la em
ciclos anteriores. Os dois maiores partidos, por sua vez, tendem a apresentar
variações menos pronunciadas em seu tamanho relativo, em razão da visibilidade
nacional de suas candidaturas presidenciais e das alianças construídas nos
estados. Isto gera mais risco de medidas com impacto fiscal”.
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Reforma Tributária: impacto estrutural nos negócios e impostos
“A
partir de 2026, o Brasil inicia a transição para um novo sistema de impostos
(IVA) com crédito amplo e tributação no destino. A reforma tem potencial para
reorganizar processos, sistemas, cadeias de suprimentos e decisões estratégicas
dentro das empresas, com relevante impacto positivo para o crescimento no médio
prazo. A simplificação não elimina a complexidade: ela desloca o desafio para
dentro das organizações”, informa o Santander.
“O
primeiro impacto será tecnológico. Sistemas terão de ser refeitos, controles
automatizados e processos ajustados para garantir precisão no novo modelo, que
inclui mecanismos como “split payment”. Isso reduz inadimplência, mas aumenta a
dependência de sistemas confiáveis. Há também impacto relevante na lógica
financeira. A reforma altera preços relativos, margens e fluxo de caixa,
exigindo revisão de precificação e planejamento de capital de giro”.
“Setores
industriais tendem a ganhar eficiência; serviços podem enfrentar maior pressão
tributária. No longo prazo, ganhos de produtividade e reformas podem compensar
custos iniciais, mas a percepção de risco e a capacidade de execução serão
decisivas. Empresas preparadas sairão fortalecidas; as demais podem enfrentar
rupturas operacionais e perda de competitividade. A reforma tributária de bens
e serviços (IVA) começa em 2026, e não é só uma mudança de alíquotas ou regras
fiscais. Representa uma transformação profunda dentro das empresas, afetando
finanças, operações, tecnologia e alocação”.
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Acordo Mercosul–UE: impacto estrutural no comércio
“Se
implementado [há pressões políticas sobre os respectivos parlamentos dos países
da União Europeia], o acordo comercial entre Mercosul e UE deverá criar o maior
mercado consumidor do mundo, abrangendo 720 milhões de pessoas e cerca de 20%
do PIB global,” lembra o Santander.
“Mais
do que uma abertura tarifária, o acordo tem potencial para ampliar o comércio,
estimular investimentos e promover ganhos de eficiência e competitividade. A
eliminação gradual de tarifas (até 92% das exportações do Mercosul para a UE em
10 anos e 91% das exportações europeias para o Mercosul em 15 anos) deve
facilitar o acesso a insumos, integrar empresas brasileiras às cadeias
industriais europeias e reorganizar processos produtivos”. Mas há proteção
a marcas. Queijos feitos no Brasil não poderão adotar nomes da Itália
(Parmesão, exclusivo de Parma) ou França (caso do camembert e do boursin), por
exemplo. E o “arroz à piemontese” corre risco...
Lembra
o Santander que “estudos do IPEA indicam que o acordo pode expandir o
PIB brasileiro em até 0,46% até 2040, melhorar o saldo comercial e elevar
investimentos. Setores como agricultura, alimentos, papel e celulose, vestuário
e transporte devem ser os mais beneficiados, enquanto segmentos industriais
mais expostos à concorrência europeia precisarão se adaptar. Além dos ganhos
econômicos, o acordo incorpora cláusulas ambientais e sociais, alinhando-se à
agenda verde europeia e à transição energética”.
“No
longo prazo, pode fortalecer a posição do Brasil no comércio internacional,
diversificar parcerias e elevar o bem-estar da população por meio de preços
mais baixos e maior oferta de produtos. O sucesso dependerá da capacidade de
adaptação das empresas e de políticas para mitigar impactos setoriais”.
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Demografia: razão de dependência em alta no horizonte
Outro
tema importante, esquecido no debate, mas que já afeta as famílias pelo
envelhecimento da população – com aumento da expectativa de vida, de um lado,
e, de outra parte, a redução do índice de natalidade (em todas as faixas de
renda diminuem os filhos por família). Isso tem implicações nos gastos
públicos, na mudança de prioridades no médio e longo prazo. As chamadas
economias maduras – caso das nações europeias e do Japão – desaceleraram a
economia na razão direta do envelhecimento dos cidadãos.
Usando
as projeções do IBGE, o Santander diz que “a razão de dependência (população
com menos de 14 anos e 65+ como proporção da população em idade ativa, 15–64)
atingiu seu ponto mínimo em 2017, em 44,4%, e desde então vem subindo
gradualmente, hoje em torno de 45%. Esse ponto de virada é relevante porque
sinaliza que a 'base de sustentação' relativa de trabalhadores já não está mais
se expandindo. A alta deve permanecer lenta nos próximos 10 anos, mas acelera
após 2040, com a razão projetada para chegar a aproximadamente 75% em 2070”.
Para o banco espanhol, “essa mudança tem duas implicações macro
principais. Primeiro, pesa sob o crescimento no médio e longo prazo: com a
redução da participação da população em idade ativa, o crescimento tendencial
do PIB passa a depender mais de ganhos de produtividade (capital humano, adoção
tecnológica e maiores taxas de participação). Segundo, intensifica pressões
fiscais: à medida que o envelhecimento eleva gastos com previdência e saúde. A
reforma da Previdência Social, de 2019, foi um passo importante, mas a elevação
projetada da razão de dependência sugere que novos ajustes (mudanças
paramétricas, incentivos à permanência no mercado de trabalho e ganhos de
eficiência no gasto em saúde) provavelmente continuarão na agenda ao longo do
tempo”.
E
conclui que “o envelhecimento tende a pesar cada vez mais sobre o crescimento
potencial e a elevar a demanda por gastos públicos". O Brasil já passou
pelo “piso” da sua razão de dependência, marcando o fim do “bônus demográfico”.
Está aí tema bem mais complexo que discussão de costumes, religião e gênero,
além das reinvindicações da bancada da bala, cujos disparos perdidos acabam
atingindo a população inocente e mais carente.
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São Paulo paga o preço do gigantismo
Não
fazer planejamento a longo prazo gera problemas. Veja São Paulo, a maior cidade
do país e motor da economia brasileira, que comemorou seus 472 anos neste
domingo com certa angústia. Quando chove, teme alagamentos e quedas de árvores
que deixam bairros e municípios da Grande São Paulo sem energia elétrica por
vários dias. A metrópole paga o preço do seu gigantismo e da sua rebeldia aos
planos (sensatos) do governo do general Ernesto Geisel. Em 1975, preocupado com
a forte expansão da capital e do ABCD, o presidente quis descentralizar a
industrialização do país e proibiu o Conselho de Desenvolvimento Industrial de
conceder incentivos a novas fábricas na capital e no seu entorno. Por isso, a
Fiat inaugurou em Betim (MG), em 1976, e o Paraná ganhou fábrica da Volvo.
Problemas
de logística fizeram, depois, a própria indústria automobilística trocar o ABC
pelo interior paulista e hoje outros estados (RS, SC, PR, MG, GO, RJ, BA, PE,
CE e AM) têm montadoras. A avidez de São Paulo tirou o centro financeiro do Rio
de Janeiro e ainda atraiu o segmento de serviços, o carro-chefe da economia e
do emprego, para a Grande São Paulo.
Se os
paulistas tivessem acatado mais os planos do governo Geisel e menos o ímpeto de
Paulo Maluf, que se elegeu na Associação Comercial de São Paulo, e depois
governador, o crescimento da área construída da Grande SP seria o em menor
ritmo e o progresso mais equilibrado por todo o país. E os paulistanos não
precisariam fazer torcida pelas chuvas (para garantir o abastecimento de água).
Ela traz a desgraça aos alagados e os prejuízos causados pelas quedas de
árvores e da fiação aérea a cada ventania mais forte. No Rio, na metade dos
anos 90, o prefeito César Maia enterrou os fios elétricos, bem como os de
comunicação nas calçadas remodeladas de boa parte dos bairros. A luz também é
cortada, mas por bem menos tempo.
Fonte:
JB

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