Terra:
As artes visuais contra o efeito manada
Cada
vez mais fica difícil avaliar a veracidade dos conteúdos, ou acompanhar
minimamente o volume e a velocidade da circulação de mensagens. Essa desordem
informacional equaliza múltiplas narrativas, seja fato ou mentira descarada,
saturando a atenção e o discurso público. A factualidade vale menos que a
adesão emocional, e diferentes verdades se contradizem e pulverizam.
No
Brasil, a desordem informacional sobre o uso da terra, conceito que eu e Bruna
Távora estamos desenvolvendo com foco no caso nacional, envolve um complexo
regime que sobrepõe dados fundiários precários e manipulados, grilagem
historicamente legalizada em larga escala. Isso gera concentração, registros
oficiais incompletos ou errados sobre a posse da terra, epistemicídio, discurso
de ódio sobre movimentos socioterritoriais e povos tradicionais, lobby para
flexibilizar licenciamento ambiental, entre outras questões estruturais. A
boiada passa em defesa do desenvolvimento e geração de emprego.
Enquanto
isso, o agronegócio tem a bancada mais forte do Congresso, e a mídia comercial
enquadra o debate socioambiental a partir dos interesses do mercado. A campanha
multimilionária “O agro é pop” é um dispositivo de legitimação emblemático, por
ter construído uma narrativa positiva e homogênea do setor. Apagam-se
controvérsias como o exílio da cientista Larissa Bombardi, que deixou o país
sob ameaças de morte após demonstrar os danos dos agrotóxicos à saúde e a
escala do uso no Brasil, o maior consumidor mundial. Problemas centrais para a
realidade nacional acabam ofuscados pela desordem informacional.
Observar
as novas gerações ajuda a entender aonde estamos indo. Em sala de aula, grande
parte dos universitários demonstra pouca dedicação para estudar a fundo e com
afinco. Falta tempo e foco, falta propósito — compreensível, considerando a
precarização do trabalho e a desvalorização do ensino. Males que acometem a
sociedade capitalista em geral, mas comprometem especialmente estudantes em
formação e o engajamento amplo de cidadãos em regimes ditos democráticos, que
deveriam ser participativos.
É aí
que a arte entra e, quiçá, chacoalha a apatia.
A
renomada fotógrafa de conservação Cristina Mittermeier fez a transição da
carreira como bióloga marinha para a fotografia porque percebeu que a arte,
especificamente as visuais, pode preencher melhor a lacuna entre as evidências
científicas e a sensibilização pública. Mittermeier constatou que os dados
científicos não bastam por si só para inspirar atitudes em prol da conservação,
enquanto imagens poderosas podem comunicar assuntos ambientais complexos em uma
linguagem mais universal, tocando as mentes de uma maneira que a ciência,
desconectada da maioria das pessoas, não consegue. Para Letícia Cesarino, há
uma crise nos sistemas peritos que organizavam a modernidade, a exemplo da
ciência, da imprensa e dos partidos políticos.
Como
mudar sistemas de longa duração, estando do lado da história com menos
recursos? Como disputar essa hegemonia transnacional tricentenária? O cartaz de
Minerva Cuevas na exposição Ecologia social, no Museu de Arte de São Paulo
Assis Chateaubriand (MASP), avisa: SE NÃO FIZERMOS O IMPOSSÍVEL TEREMOS QUE
ENFRENTAR O IMPENSÁVEL
Do
circuito institucional da arte, ainda que também conforme espaços cercados,
ecoam brechas contra a lógica da mercadoria e do extrativismo.
A
exposição Histórias da ecologia, inaugurada em setembro de 2025 e que vai até 2
de fevereiro, disputa a desordem informacional sobre o uso da terra ao promover
regimes contra-hegemônicos de informação, comunicação e conhecimento ao longo
de cinco andares com obras de 116 artistas, majoritariamente do sul global. A
inteligibilidade e amplitude do conflito territorial ganham novas condições
sensoriais e de imaginação política, pelas quais a terra não seja reduzida a
recurso, fronteira ou ativo a ser explorado.
Cabe à
experiência da visita dar conta da profusão de linguagens e formatos —
pinturas, desenhos, fotos, vídeos, instalações, esculturas, cartazes, têxteis,
bordados, cerâmicas, colagens botânicas, documentos, cartografias, infografias.
A seguir, buscamos apenas sintetizar três aspectos da exibição: o conceito de
ecologia no título, mais relacional que o termo natureza, a forte presença do
MST no primeiro núcleo da exposição, e um quadro no penúltimo núcleo mostrando
a complexidade sistêmica.
Sobre o
conceito de natureza, o indígena Ailton Krenak analisa que, quando as
sociedades ocidentais reverenciam o mundo natural, isso se dá de forma vaga ou
abstrata. Já a visão de mundo animista respeita a potência integral do
ecossistema, onde cada ser vivo, humano ou não, e cada objeto inanimado tem
essência vital. O respeito à natureza se manifesta nos entes locais: esta
montanha que vejo carrega história, esta terra onde piso me alimenta, este
ecossistema bem aqui, não qualquer outro mundo afora.
A
curadoria de André Mesquita e Isabella Rjeille para o MASP responde a essa
superficialidade, ou desancoramento, ao optar por “ecologia”, um conceito mais
relacional. “Natureza” carrega a ideia de exterioridade, pois as sociedades
ocidentais não se consideram parte. Desvelar dicotomias como natureza/cultura,
humano/não humano, tão enraizadas no pensamento cartesiano, é o ponto de
partida que contesta a fragmentação neoliberal e, por extensão, os modos da
polarização social e da desinformação.
Entrando
no primeiro núcleo, denominado Teias da Vida, há em destaque 11 cartazes do MST
que defendem pautas históricas do movimento, como reforma agrária, soberania
alimentar e os direitos dos povos do campo. É a autoria mais recorrente em toda
a mostra, uma decisão curatorial que reconhece a cultura visual e a verve da
luta popular concreta. Cartazes originalmente concebidos com função
comunicativa, para circular e disputar sentidos no espaço público, foram
alçados a peças museológicas localizadas já no início do percurso, contrapondo
o valor de uso ao valor patrimonial.
Adoraria
elaborar mais sobre outras obras, como a foto de Tuíre Kayapó, em uma audiência
pública em 1989, ameaçando com facão o engenheiro da atual Usina de Belo Monte.
Ou o curta Maré profunda, da franco-guineense Tabita Rezaire, uma denúncia ao
colonialismo digital que desmonta a falácia da nuvem: as redes globais de
comunicação não estão no ar, mas na terra e na água, em cabos submarinos que
coincidem com as antigas rotas de tráfico escravagista.
Mesmo
se incluíssemos todos os elementos da exposição, os sentidos da experiência são
irredutíveis às legendas e categorias.
Dentre
as centenas de obras sobre um assunto que abarca a vida, uma delas assume o
desafio de tentar expressar visualmente a totalidade, demonstrando como debates
desse tipo não se encerram. O quadro Gestão responsável da terra, do coletivo
francês Bureau d’Études, cobre toda a altura da parede e vários metros de
comprimento, uma enorme quantidade de informações (arte!) conectando esferas
que existem separadamente só no senso comum. Conjuntos de centros decisórios,
interligados por setas, expõem as relações entre agricultura capitalista com
uso intensivo de produtos químicos, mercado de commodities, políticas de
alimentos, políticas de defesa, políticas cognitivas das big techs, e até
políticas da exosfera, com mineração espacial. As cosmologias animistas aparecem
à margem, apesar de mestras da gestão responsável.
A
própria forma de diagrama enuncia a necessidade de realizar uma leitura
interdisciplinar e sistêmica. A terra, literalmente raiz e rede, ou seja,
matéria e sistema, entrecruza conflitos sociais, regimes jurídicos,
dispositivos institucionais, infraestruturas, mercados, e narrativas de
legitimidade, uma ecologia de relações que ultrapassa recortes profissionais ou
disciplinares estanques. Não sendo uma arte contemplativa pela estética, o
quadro é uma ferramenta crítica de artivismo, oferecendo ao visitante com
paciência para dissecá-lo uma ampliação da perspectiva sistêmica. A governança
da terra está diretamente relacionada a objetivos sociais amplos, como
soberania nacional, redução da pobreza, saúde pública e justiça climática.
***
O museu
continua sendo um espaço de elite, marcado por barreiras de capital simbólico,
o tempo disponível para lazer e deslocamento das periferias. No caso do MASP, a
democratização do acesso se dá por ações como programas públicos, eventos
abertos e gratuidade para professores, pessoas com deficiência, crianças,
grupos de instituições públicas e do terceiro setor. A “terça grátis”,
oferecida por uma fintech, garante entrada gratuita para o público espontâneo,
uma campanha inscrita no marketing cultural e veiculação da marca. O patrocínio
do banco digital que se tornou a maior empresa do país em poucos anos pode
entregar mais. A brecha, porém, em plena Avenida Paulista, importa porque uma
instituição de prestígio produz legitimidade. Artistas e movimentos sociais do
sul global podem alcançar públicos com capacidade de amplificação.
Não
defendemos a instrumentalização da arte, tampouco alguma mágica difusão de
conhecimento e de contracolonialidade, nos termos de Nêgo Bispo. As expressões
criativas servem como ferramenta até certo ponto, pois orientam a atenção,
reordenam afetos, fermentam linguagens, abrem os campos da experiência
ontológica e cognitiva, reposicionando o que é comum ao humano na diversidade.
Mas, na essência, a arte não tem função e antecede o valor de troca. A
potencialidade da fruição artística depende de dispositivos de tradução,
disputa, reuso coletivo e, principalmente, de políticas públicas e abordagens
interdisciplinares, robustas o suficiente para abranger o escopo sistêmico e de
longa duração da desordem informacional sobre o uso da terra.
Fonte:
Por Monique Figueira, em Outras Palavras

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