A
força e a fraqueza de “O evangelho da revolução”
Quando
assisti a O evangelho da revolução, a convite do International Journal of Latin
American Religions para escrever-lhes uma resenha do filme, vi pela primeira
vez, no auge dos meus 24 anos, sob as luzes que entravam nas retinas dos meus
olhos, memórias a que eu só tinha tido acesso através das palavras. Cresci em
uma família evangélica e só conheci a tradição do Cristianismo de Libertação
quando cursei um bacharelato em Teologia. Dando voltas na biblioteca, já que
não estavam na bibliografia básica das disciplinas, encontrei: Por uma teologia
da Libertação protestante (1968), de Rubem Alves; Teologia da libertação:
roteiro didático para um estudo (1987), de João Batista Libanio; Teologia da
Libertação, perspectivas (1971), de Gustavo Gutierrez, e por aí foi indo. Os
textos que surgiam, em sua maioria, da quentura dos fatos históricos vivos, da
força da fé popular em lutar pela sua sobrevivência, da dor e da catástrofe da
repressão em toda a América Latina revelavam também o tesão e a luz que a
violência de Estado não conseguia segurar. Tudo isso chegava a mim embalado em
livros velhos, normalmente com um mau cheiro de mofo e preço baixo na Estante
Virtual. Mesmo assim, ler a Ética comunitária (1986) de Enrique Dussel me fazia
não conseguir dormir. Algo naquelas palavras esquecidas nos velhos livros
acendia em mim uma janela de esperança de que as coisas pudessem ser
diferentes, mesmo que o único laço que eu guardava com elas fosse o das
próprias palavras. Não pude conhecer nenhum dos grandes teólogos que me formou.
Até meus 22 anos eu nunca tinha ido em uma CEB e a que visitei não tinha nenhum
jovem.
Se o
filme de François-Xavier Drouet fosse somente um compilado de imagens desse
tempo em que eu não tive o prazer de viver, já seria uma contribuição sem
tamanho para pessoas que, como eu, nasceram em tempos sombrios. Mas o cineasta
vai além. O evangelho da revolução é dividido em cinco capítulos e percorre
quatro países: El Salvador, Brasil, Nicarágua e México. Em cada país, o diretor
busca antigos protagonistas dos movimentos, tanto religiosos quanto leigos,
recolhendo suas memórias sobre aquela época.
O tema
do documentário pertence ao passado. O acesso a ele se dá pelas lembranças dos
que viveram aqueles anos e por imagens de arquivo retiradas de filmes e
documentários da época. Drouet leva os entrevistados aos lugares em que viveram
esses momentos: as montanhas da Nicarágua, as igrejas nos vales de Chiapas, as
celas de prisão e tortura no Brasil.
Em cada
capítulo do filme, a história é retomada. Contradições fundamentais dos anos
1960, próprias de cada país, geraram um tipo de fé cristã que se realizava na
luta política por transformação radical — uma revolução liderada pelo “povo de
Deus”. Essa radicalização política encontrou resposta imediata das estruturas
de poder: repressão, assassinatos e supressão de direitos sob os regimes
militares. A Teologia da Libertação foi um movimento latino-americano, mesmo
que cada país tivesse uma reação popular referente às contradições de cada
nação em seus respectivos lugares na divisão internacional do trabalho, o
horizonte que surgia da própria luta, libertação, era uma visão comum que fazia
da luta dos indígenas em Chiapas, das guerrilhas na Nicarágua e dos sem terra
no sul do Brasil uma luta comum. A nível teológico, essas experiências seriam
possivelmente referenciadas na libertação enquanto signo, núcleo simbólico que
condensava as próprias expectativas que davam tração à luta social.
O filme
é conduzido por um narrador, ele dá testemunho da sua própria experiência como
um europeu que perdeu a fé na adolescência, mas que acendeu sua esperança na
luta política e que encontrou uma forma de ver a fé que era política na América
Latina. Ao colocar as pessoas que viveram o Cristianismo de Libertação nos
lugares onde elas vivenciaram, o que fica é o contraste da própria realidade
social. É claro que a saída do diretor para explicar a mudança é politicista,
remetendo à condenação do Vaticano e à perseguição sofrida pelas guerrilhas na
América Central, e não deixa ver as mudanças estruturais que aconteceram na
realidade latino-americana (que dão os dons das variações políticas).
Uma das
cenas mais descritivas do filme está na sua viagem a El Salvador. Ele nos
apresenta, encostado a uma parede sem reboco, um homem idoso, que permanece
imóvel. À sua frente, o chão foi aberto. A terra está revirada, empilhada em
montes baixos, misturada a pedras e raízes. Homens com luvas e pás escavam
lentamente. São técnicos enviados pelo Estado. O trabalho é metódico, quase
cirúrgico: retirar camada por camada, separar o solo dos fragmentos de ossos,
registrar. Tudo acompanhado de advogados e pessoas de renome. O homem observa
sem falar. Seu olhar não se fixa exatamente nas mãos que escavam, mas no buraco
que se aprofunda. Em algum momento, sua voz rompe: “Como uma criança de onze
meses pode ser guerrilheira?” Fica suspensa no ar. Ele continua: “Ou alguém de
oitenta, noventa anos?” Um dos agentes se aproxima e pergunta o que ele sente
ao ver aquela exumação. O homem não responde. Apenas abaixa a cabeça, desvia o
olhar, e sua boca se contrai. Seus ombros se movem levemente, como quem tenta
conter o choro. A câmera não se afasta.
Não
sabemos seu nome. Não sabemos se ali estão seus filhos, seus irmãos, seus
vizinhos. Sabemos apenas o nome do lugar: El Mozote, em El Salvador. Quarenta
anos antes, ali se deu uma das matanças mais brutais da história recente da
América Central. O filme então muda de cenário. A comunidade desaparece. Surge
a capital. San Salvador. Um memorial de concreto ocupa a tela. Muros largos,
escuros, cobertos de centenas, milhares de nomes gravados. Letras alinhadas em
colunas. Uma escrita repetitiva, quase infinita. Um homem caminha lentamente
diante desses muros. É o mesmo homem, que sobreviveu àquele massacre, mesmo que
não seja o mesmo indivíduo. A voz em off atravessa as imagens. Recorda que,
depois de anos de guerra, o exército assinou acordos de paz com as forças
guerrilheiras. As eleições foram restabelecidas. As armas silenciaram. Nada,
porém, se transformou de forma radical. Enquanto o narrador menciona a queda do
Muro de Berlim e o fim das grandes utopias, a imagem mostra outra paisagem:
avenidas largas, trânsito espesso, ruído constante de motores. Outdoors
gigantescos ocupam o horizonte: marcas multinacionais, promessas de felicidade,
consumo, velocidade. À margem da estrada, subindo uma ladeira estreita, um
homem empurra lentamente um carrinho de comida ou qualquer mercadoria que se
venda. O mesmo homem, trabalhador, sobrevivente a El Salvador. Nas margens de
uma grande avenida carregando seu carrinho que lhe dá sua sobrevivência diária.
Um percurso ao nosso tempo.
Outra
das grandes cenas do filme está no seu percurso no México, em Chiapas. No
território que antes havia sido atravessado pela presença de padres
comprometidos com mediações de conflito e com a sustentação de movimentos
populares, como o Exército Zapatista, o que agora emerge é outro tipo de
expectativa: a migração.
Em
Veracruz, ao norte de Chiapas, a câmera se detém em um abrigo simples. Um
portão metálico. Um pátio de cimento gasto. Homens sentados jogam cartas sobre
uma mesa improvisada. No verso das cartas, a bandeira dos Estados Unidos
aparece repetidamente. O abrigo oferece o básico: um pouco de comida, um espaço
para sentar, algum tempo de descanso. Irmã Dolores dirige o lugar. Sua presença
é firme e cotidiana. Ela orienta: aponta o caminho do trem, explica quais rotas
são menos vigiadas, descreve os riscos do percurso. Não há discurso grandioso,
apenas uma pedagogia prática da sobrevivência. O gesto que sustenta a travessia
é o mesmo que, em outras décadas, sustentou as lutas populares.
Numa
das paredes dentro do abrigo, a câmera registra uma imagem pintada: o rosto de
Dom Óscar Romero, bispo assassinado em El Salvador, sobreposto à figura de um
trem em movimento. Alguns minutos antes o cineasta havia nos ensinado a
história do nosso mártir. O mártir e o vagão dividem o mesmo espaço visual, é
quase o Óscar Romero no trem, migrante. A freira, formada na tradição da
Teologia da Libertação, fala diante da câmera: “Nos migrantes, encontramos a
cruz e o sofrimento, mas também muita ressurreição. São pessoas de grande
esperança, e sempre têm um sonho, uma utopia.” Enquanto ela fala, o filme
acompanha os corpos em movimento: homens caminhando ao longo dos trilhos,
mochilas nas costas, passos lentos, silêncio concentrado.
Era
esse tipo de “grande ato” que os teólogos da libertação buscaram compreender: o
gesto concreto, vital, que organiza uma esperança coletiva. Que faziam daquela
teologia “palavras de ação”. Se um dia o ato sobre o qual a reflexão teológica
pensava era aquela revolução que os entrevistados recordam, agora é o seu
inverso; se a revolução é o compromisso mais radical com a transformação da
realidade possível, dar sua vida pela nova realidade que pode ser produzida
ali, a migração é seu reverso, o abandono radical daquela realidade. Nos
escritos clássicos de Hugo Assmann e Gustavo Gutiérrez, ainda nos anos 1970,
essa dimensão prática aparece na ideia de uma teologia enraizada na experiência
de fé de um povo em luta. Para quem nasceu décadas depois, como eu, as imagens
reunidas por Drouet reanimam essa ideia, tornando-a quase palpável, mas somente
como memória, já que o presente já não se sente tão denso, e o passo dado à
revolução já não tem pernas. Caminha-se contra a fronteira, fugindo dos antigos
inimigos de classe, para enfrentar outros, agora em uma condição ainda pior.
Mas quem sabe lá tenha mais vida. Deus nos ajude. Com quem mais contar?
Quando
voltamos para o Brasil no último capítulo do filme, a qualidade interpretativa
do filme cai. O filme já tinha acabado, mas o cineasta quer dar uma resposta.
Em poucos minutos temos uma resumida e completamente estereotipada visão dos
pentecostais. Máquinas de dinheiro para pastores e de ilusões para os
paupérrimos que já não teriam mais as comunidades de base para ir. Perdemos a
complexidade real que envolve qualquer dinâmica de fé e ficamos com um retrato
caricato que só ajuda a desentender o hoje.
Logo
somos apresentados ao heroico Padre Júlio Lancelotti e sua prática de fé em
defesa da vida do povo de rua. Terminamos o filme no desfile da Mangueira de
2020, que em reação ao bolsonarismo apresentou uma versão popular e periférica
de Jesus. O francês entende que se trata do lugar onde segue vivo o sopro
liberacionista. Precisa que seja assim, como afirma em voiceover: “Nem sempre
sabemos por que fazemos um filme. Não fiz este para reencontrar uma fé que se
perdeu há muito tempo. Quis conhecer esses crentes talvez para continuar
acreditando na justiça em tempos de escuridão.” É claro que isso seria justo se
o samba-enredo da escola fosse uma produção que expressasse a fé do povo na
libertação latino-americana, mas a própria letra sabe que não se trata disso,
por isso tem que dizer:
Favela,
pega a visão
Não tem
futuro sem partilha
Nem
messias de arma na mão
Favela,
pega a visão
Eu faço
fé na minha gente
Que é
semente do seu chão
Pega a
visão. É clara a referência aos discursos bolsonaristas, diante dos quais o
samba se coloca como reação. Por isso, o samba precisa chamar a atenção da
favela e afirmar que esse ponto de vista não é teológicamente correto; então,
defende sua teologia do “Jesus da Gente”, mas já sem nenhuma força, pois
funciona apenas como contraparte do “Jesus de arma na mão”, do outro lado
sombrio, sem o qual o próprio samba não teria sentido. Exatamente por ser essa
racionalidade reativa a característica do progressismo que o organiza, ele se
torna o exato oposto do movimento do cristianismo de libertação, que era, ele
mesmo, o agente capaz de gerar reações negadoras, como o filme demonstra todo o
tempo.
No
começo dos anos 2000, o australiano Goetz Ottmann faria algo similar. Apesar de
notar claramente as contradições que surgiam do próprio movimento
liberacionista que ia perdendo sua vigorosidade social com a reposição da
realidade social dos anos 1990, ele ainda precisa apostar no Hip Hop, mais
claramente no RAP, enquanto lugar de reposição do sopro liberacionista, agora
secularizado, mas ainda pujante. Bastaram mais alguns anos para vermos que essa
força inaugural, sobretudo com a geração dos Racionais MCs, se desfez em
mercado. Mas o filme não acaba onde deveria porque ainda mantemos esse afã de
dar uma resposta para algo que não temos nem capacidade de entender.
Talvez
um dos problemas da nossa época, não podermos ficar com o problema, sofrê-lo,
senti-lo. Ter que imediatamente dar uma resposta do alto dos nossos
escritórios. Talvez esteja nesse sofrimento o trabalho do negativo que nos
falta para o surgimento de algo novo, que tenha a forma do nosso tempo, e que
seja patrimônio irrevogável daqueles que o produzirem; produção essa que deve
ser deles mesmos e nós, podemos no máximo ajudar. Mesmo que O evangelho da
revolução não dê conta de nos ajudar a encontrar o nosso tempo brasileiro no
mundo com precisão, ao menos nos dá bom diagnóstico da América Latina e
apresenta a lembrança de como foi um dia viver sob a égide do futuro que
irrompia o agora; que serve ao menos para irrigar nossas mentes nesse tempo
inorgânico.
Fonte:
Por André Castro, no Blog da Boitempo

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