José
Luiz Fiori: No caminho do caos
Na
última semana de 2025, o sistema mundial entrou em estado de hipertensão
caótica. Em apenas sete dias, e quase simultaneamente, os Estados Unidos
fecharam o cerco marítimo e proibiram a circulação aérea sobre a Venezuela, sem
que os dois países estivessem em guerra. A China cercou a ilha de Taiwan e
realizou um exercício de guerra com fogo real, incluindo a interdição de alguns
segmentos de seu espaço aéreo, em resposta às ameaças militaristas do Japão.
A
Ucrânia atacou a casa do presidente russo Vladimir Putin, na região de
Novgorod, utilizando 91 drones e com apoio da inteligência inglesa e
norte-americana. A Rússia anunciou que seu novo sistema de mísseis Oreshnik –
indefensáveis e com capacidade nuclear – estava pronto para uso imediato, em
resposta ao ataque da Ucrânia, a poucos minutos de distância de Berlim, Paris e
Londres. Os Estados Unidos bombardearam o território da Nigéria e anunciaram
novos ataques aéreos em caso de necessidade, segundo seu arbítrio.
A
Arábia Saudita bombardeou o Iêmen, sem que houvesse declaração de guerra.
Inglaterra e França bombardearam o território da Síria sem aviso prévio. E por
fim, os Estados Unidos atacaram o território venezuelano e sequestraram seu
presidente, Nicolás Maduro. O mais impactante foi sem dúvida o rapto do
presidente venezuelano, seguido – como em outros ataques américas – de um tweet
de Donald Trump, contendo ameaças e difundindo o medo que é uma peça essencial
no exercício do poder. Assim mesmo, o ataque em si não representa uma novidade
nas relações dos EUA com a América Latina, muito menos na história do “sistema
interestatal” inventado pelos europeus.
Os
defensores do Direito Internacional em geral falam muito pouco, ou omitem
diretamente uma de suas cláusulas fundamentais, a “cláusula de exclusão de
ilicitude”, que garantiu às Grandes Potências do sistema interestatal (nunca
mais do que quatro ou cinco) o “direito” autoatribuído e a impunidade para de
atacar e invadir o território de outros países, sem respeitar o “direito à
soberania” considerado como a “pedra angular” do sistema de estados nacionais
consagrada pelos europeus através da chamada Paz de Westfália, assinada em
1648.
A
Inglaterra e a França usaram e abusaram deste “direito à invasão” nos últimos
200 anos, e acabaram de bombardear a o território da Síria, sem nenhum tipo de
permissão internacional, por sua livre e exclusiva vontade. Os Estados Unidos
ingressaram neste pequeno clube dos países “com direito à invasão de
terceiros”, em meados do século XIX, quando se apropriaram dos territórios
mexicanos da Califórnia e do Texas, e iniciaram sua escalada imperial, após a
guerra contra a Espanha, em 1898, seguida pela conquista de Cuba, Filipinas,
República Dominicana, Haiti, Nicarágua, Panamá e Porto Rico – este segue até
hoje sob o domínio norte-americano.
Em
1942, o geopolítico norte-americano Nicholas Spykman publicou uma obra
fundamental1 para entender a estratégia internacional dos EUA depois da Segunda
Guerra Mundial. Nicholas Spykman sustenta teses e faz propostas geopolíticas
que reaparecem a cada momento por trás do discurso aparentemente errático e
confuso de Donald Trump e do seu Secretário de Estado, Marco Rubio.
Nicholas
Spykman considerava que o Caribe e o Golfo do México faziam parte de um mesmo
“mar interior” dos Estados Unidos, no qual Mexico, Colômbia e Venezuela
deveriam estar sob dependência direta dos Estados Unidos, por razões de
segurança nacional, sem necessitar de nenhum tipo de justificativa doutrinária
ou ideológica. Quase a mesma ideia que reaparece textualmente na nova
“Estratégia de Segurança Nacional” dos Estados Unidos, divulgada pelo governo
de Donald Trump no início de dezembro de 2025.
O texto
da “nova estratégia” contém inconsistências e carrega a marca da pressa e da
colagem de várias posições que não são convergentes entre si. Mas não há dúvida
de que a parte dedicada ao Hemisfério Ocidental foi escrita e incluída de forma
apressada para justificar a ocupação militar americana do Caribe, e o seu
ataque futuro à Groenlândia que também fica dentro do chamado Hemisfério
Ocidental. E neste ponto não há que ter dúvidas: enquanto durar o governo de
Donald Trump, depois do ataque à Venezuela, o que se deve prever é um assédio
constante ao México, e um ataque com a proposta de submissão de Colômbia,
Nicarágua e Cuba – neste caso, com o objetivo de destruir a própria memória da
Revolução Cubana.
Mas não
é provável que ocorra nenhuma intervenção militar no resto da América do Sul –
nem seria necessário, porque a maioria dos governos sul-americanos já está de
joelhos por vontade própria, aceitando a instalação de bases militares em seus
territórios que assegurem, no longo prazo, o cerco militar da massa
continental, e do Brasil em particular. Os demais países sul-americanos não têm
maior importância geopolítica e não representam nenhuma ameaça de fato para os
Estados Unidos, a despeito da presença econômica da China.
Apesar
do alvoroço em torno da questão hemisférica, amplificado pelo ataque à
Venezuela, o verdadeiro interesse e o objetivo central da Nova Estratégia de
Segurança dos Estados Unidos não é a América Latina, mas a conquista da
Groenlândia, a destruição da União Europeia, o esvaziamento da OTAN e a
proposta de um novo modus vivendi com a Rússia e a China. É possível que Donald
Trump jamais tenha lido Nicholas Spykman, nem conheça sua tese de que o domínio
mundial dos EUA dependerá de sua capacidade de construir um cerco militar em
torno da “massa continental” eurasiana.
Mas não
há dúvida de que este é um objetivo central da proposta de Donald Trump, de
incorporar a Groenlândia ao território norte-americano, completando o cerco
atômico da Rússia e da China pelo lado do Ártico, onde estaria a nova grande
fronteira geopolítica e geoeconômica do mundo. Com o avanço do degelo das
regiões polares, o Ártico aparece como importante “ponto de fuga” do sistema,
por onde se poderá escoar a energia criada pela intensificação da luta entre as
grandes potências. E onde deverão se multiplicar os novos espaços de competição
entre as grandes corporações do capitalismo global.
A
proposta de deslocamento ao norte da “fronteira russa” da disputa do poder
global explica em boa medida o ataque demolidor da “Nova Estratégia” de Donald
Trump contra a União Europeia, contra o formato atual da OTAN e contra todos os
valores cultivados pela “ética internacional” e pelo “universalismo” da cultura
europeia. O novo documento fala explicitamente em devolver a Europa à sua velha
condição de “mosaico” de pequenos Estados independentes e competitivos entre
si, de forma a facilitar sua tutela bilateral pelos Estados Unidos.
Muitos
analistas consideram que esse novo documento estratégico americano contém uma
proposta implícita de construção de uma nova “ordem mundial” multipolar e
multicivilizatória, sustentada por três grandes impérios ou “zonas de
influência”, que seriam comandados por Estados Unidos, China e Rússia. Alguns
fatos recentes, entretanto, e algumas outras realidades consolidadas parecem
contradizer esta tese e reforçar uma hipótese diametralmente oposta.
Em
primeiro lugar, há que ter presente que os Estados Unidos ainda são a única
potência no mundo que possui e comanda uma infraestrutura militar global, com
capacidade de intervenção imediata em quase todas as latitudes.
Em cima
disso, o presidente Donald Trump acaba de anunciar para 2027 um aumento de 50%
do orçamento militar norte-americano, no valor de 1,5 trilhão de dólares. Faz
alguns meses Donald Trump já havia anunciado um programa de 830 bilhões de
dólares para a criação um sistema de defesa aérea “impenetrável”, que ele
chamou de Golden Dome, e um ambicioso projeto de modernização da Marinha dos
Estados Unidos, o Golden Fleet, que se propõe a construir uma nova geração de
navios de guerra integrando tecnologia de Inteligência artificial, lasers e
armas hipersônicas, para garantir a supremacia marítima dos Estados Unidos.
Além disso, no dia a dia da gestão de sua política externa, Donald Trump tem
feito questão de demonstrar um poder universal de arbitragem e intervenção
direta e instantânea em qualquer lugar do mundo, explicitando sua ingerência
externa nos assuntos políticos nacionais de vários países.
Um
conjunto de decisões que não apontam para um poder compartilhado; pelo
contrário, explicitam uma decisão clara de centralização do poder, e de cerco e
contenção da China e da Rússia. No máximo, um oligopólio tripolar com
dominância em última instancia dos Estados Unidos. Ou seja, ao contrário do que
muitos pensam, o projeto estratégico de Donald Trump que está em pleno curso,
representa uma aposta ainda mais radical na conquista unipolar de um império
militar global, capaz de impor pela força as regras do jogo e a arbitragem
final dos Estados Unidos, regras e arbítrio que poderão variar a cada momento,
segundo os interesses e a vontade circunstancial dos Estados Unidos.
Esse
projeto, entretanto, deverá provocar uma forte reação contrária da China e da
Rússia, e talvez da própria Europa, e deverá estimular a multiplicação das
potências atômicas ao redor do mundo. Além disso, no médio prazo, deve
incentivar o uso da força em todo e qualquer conflito ou disputa regional, uma
vez que a nova regra imposta pela potência dominante, é a da imposição da
vontade dos mais fortes, por cima de qualquer lei ou inibição ideológica. Um
caminho seguro, quase direto, na direção do caos.
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Polarização? – sim, polarização. Por Emir Sader
Dizer
que algo é polarizado, parece ser algo que desqualificado o que é dito.
Polarização significa uma abordagem da nossa sociedade como uma sociedade de
classes. É uma abordagem real ou uma ficção?
Há ou
não há polos na nossa sociedade ou vivemos numa sociedade sem interesses
contraditórios, em que todos são iguais na Constituição e na realidade
concreta? Não somos uma sociedade profundamente marcada pelas desigualdades?
Desigualdades
não significam simplesmente que alguns têm mais e outros têm menos. Existem
ricos e pobres. E existem tantos pobres, com tão pouco, porque há’ alguns
poucos que concentram tanta riqueza.
Não são
polos que se diferenciam pela quantidade de recursos que cada polo tem. Mas
pela qualidade, tal a distância entre eles. Assim como existem mecanismos de
apropriação dos resultados do trabalho pelos que possuem os meios de produção.
Esse é o mecanismo pelo qual se produz uma sociedade com desigualdades tão
imensas, que só tendem a se reproduzir.
Não
apenas econômica e socialmente, mas também politicamente. O poder costuma ser
monopolizado por uma elite minoritária, assim como os meios de comunicação, o
que lhes da enorme vantagem em relação à grande maioria da população, que não
tem como fazer ouvir suas vozes e seus interesses.
É ou
não é, esta sociedade capitalista, uma sociedade de classes? Isto é, uma
sociedade marcada pela polarização social? Polarização significa isso. Um
absurdo ou um reflexo da realidade realmente existente?
O
pensamento conservador imagina uma sociedade ideal, em que a igualdade de
expressão na Constituição tivesse uma correspondência direta na realidade
cotidiana. Mas o que encontramos é uma contradição entre aquela igualdade legal
e ideal e a vida concreta com que nos confrontamos, quando tropeçamos nas
pessoas abandonadas nas ruas e praças, ao lado das lojas cheias de consumidores
dos produtos mais sofisticados.
O que
aconteceu naquela noite maravilhosa dos prêmios do Globo de Ouro para o cinema
brasileiro foi expressão ou não da polarização? Isto é, foi expressão cultural
da estrutura social e política da nossa sociedade?
A
direita e a extrema direita ficaram completamente descolocadas com essas
premiações. Gostariam que as produções culturais não refletissem, de forma
alguma, o tipo de sociedade que temos.
Mas os
discursos dos vencedores dos prêmios expressaram abertamente que as obras
premiadas têm um caráter político claro. Que a melhor cultura que o Brasil
possui tem um caráter político e não reflete as visões idealistas de uma
sociedade juridicamente igual, que não se corresponde com a realidade concreta.
Um
mundo polarizado e querem que se abandone qualquer visão baseada na
polarização?
<><>
Karl Marx entre o campo e a cidade
O texto
é da grande pensadora argentina Beatriz Sarlo, que começa com a confissão da
dificuldade de ler o primeiro capítulo do livro O capital de Karl Marx.
Ela se
apoia no próprio Marx para compreender sua dificuldade: “Os começos são sempre
difíceis e isto vale para todas as ciências. A compreensão do primeiro
capítulo, e em especial a parte dedicada à análise da mercadoria, apresentará,
portanto, a dificuldade maior”.
Ela
menciona também o que considera metáforas extraordinárias, como, por exemplo,
que o valor da mercadoria é mero coágulo de tempo de trabalho”. E em meio a
todas as dificuldades, definições breves e claríssimas. “Nada pode ser valor se
não é um objeto para o uso. Se é inútil, também será inútil o trabalho contido
nela”.
A
descrição da acumulação primitiva e a expropriação dos camponeses desalojados
dos bosques têm, segundo ela, ares de novela realista. Karl Marx descreve uma
nova formação social e oferece os instrumentos para observar também a nova
cidade capitalista.
A
acumulação primitiva está, para a economia política, como o pecado original
está para a teologia. O que equivale a dizer que “o processo histórico de cisão
entre os produtores e os meios de produção” resulta indispensável para fundar
uma nova religião econômica sobre bases materiais sólidas.
Marx
tem uma afirmação muito significativa: “O moinho movido a braço nos dá a
sociedade do senhor feudal; o moinho a vapor, a sociedade capitalista
industrial”. Friedrich Engels escreveu em A situação da classe operaria na
Inglaterra: “Os primeiros proletários pertenceram à indústria e foram produto
direto dela”.
Trata-se
da Revolução Industrial, que é urbana, fabril, a vapor e algodoeira. A essa
exploração econômica, é preciso agregar a dominação política.
Raymond
Williams segue Marx ao tomar a Inglaterra como exemplo clássico. Suas hipóteses
(que valem tanto para a literatura como para a pintura) indicam que o
observador da paisagem está subtraído do mundo do trabalho. Os que vivem nas
cidades e são os novos proletários perderam para sempre o mundo “natural” do
idílio.
A
experiência nas cidades estabelece um padrão novo para a narrativa. Raymond
Williams mostra de que modo a fazenda aristocrática e a fazenda das middle
classes endinheiradas criam uma paisagem em paralelo à paisagem psicológica e
moral da novela.
Ele
observa que a experiência urbana produz novos gêneros e, sobretudo, “um método
de construção ficcional”. E, ao contrário, viver na cidade se apreende na
novela. Rompeu-se um tipo de comunidade cognoscível. E, portanto, surgem todas
as formas de nostalgia comunitarista.
E as
cidades são o cenário em que se produz o que Max Weber descreve como “a
transformação do oportunismo econômico em um sistema econômico e a
transformação do romanticismo do aventureirismo econômico no nacionalismo
econômico da prática metódica de vida”.
As
reações literárias pastorais abundam. O atrativo do pastoral é a felicidade
representada pelas imagens da paisagem natural, como se fosse possível conceber
uma paisagem “natural”. Trata-se de fugir da complexidade e do poder da
civilização da máquina. Se observe que as palavras “jardim” e “máquina” definem
a oposição material e simbólica.
Daí que
se chegue aos bairros fechados como utopia ruralista das camadas médias
urbanas. Tudo começou com Marx e o fechamento do campo inglês.
Fonte:
A Terra é Redonda

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