sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

José Luiz Fiori: No caminho do caos

Na última semana de 2025, o sistema mundial entrou em estado de hipertensão caótica. Em apenas sete dias, e quase simultaneamente, os Estados Unidos fecharam o cerco marítimo e proibiram a circulação aérea sobre a Venezuela, sem que os dois países estivessem em guerra. A China cercou a ilha de Taiwan e realizou um exercício de guerra com fogo real, incluindo a interdição de alguns segmentos de seu espaço aéreo, em resposta às ameaças militaristas do Japão.

A Ucrânia atacou a casa do presidente russo Vladimir Putin, na região de Novgorod, utilizando 91 drones e com apoio da inteligência inglesa e norte-americana. A Rússia anunciou que seu novo sistema de mísseis Oreshnik – indefensáveis e com capacidade nuclear – estava pronto para uso imediato, em resposta ao ataque da Ucrânia, a poucos minutos de distância de Berlim, Paris e Londres. Os Estados Unidos bombardearam o território da Nigéria e anunciaram novos ataques aéreos em caso de necessidade, segundo seu arbítrio.

A Arábia Saudita bombardeou o Iêmen, sem que houvesse declaração de guerra. Inglaterra e França bombardearam o território da Síria sem aviso prévio. E por fim, os Estados Unidos atacaram o território venezuelano e sequestraram seu presidente, Nicolás Maduro. O mais impactante foi sem dúvida o rapto do presidente venezuelano, seguido – como em outros ataques américas – de um tweet de Donald Trump, contendo ameaças e difundindo o medo que é uma peça essencial no exercício do poder. Assim mesmo, o ataque em si não representa uma novidade nas relações dos EUA com a América Latina, muito menos na história do “sistema interestatal” inventado pelos europeus.

Os defensores do Direito Internacional em geral falam muito pouco, ou omitem diretamente uma de suas cláusulas fundamentais, a “cláusula de exclusão de ilicitude”, que garantiu às Grandes Potências do sistema interestatal (nunca mais do que quatro ou cinco) o “direito” autoatribuído e a impunidade para de atacar e invadir o território de outros países, sem respeitar o “direito à soberania” considerado como a “pedra angular” do sistema de estados nacionais consagrada pelos europeus através da chamada Paz de Westfália, assinada em 1648.

A Inglaterra e a França usaram e abusaram deste “direito à invasão” nos últimos 200 anos, e acabaram de bombardear a o território da Síria, sem nenhum tipo de permissão internacional, por sua livre e exclusiva vontade. Os Estados Unidos ingressaram neste pequeno clube dos países “com direito à invasão de terceiros”, em meados do século XIX, quando se apropriaram dos territórios mexicanos da Califórnia e do Texas, e iniciaram sua escalada imperial, após a guerra contra a Espanha, em 1898, seguida pela conquista de Cuba, Filipinas, República Dominicana, Haiti, Nicarágua, Panamá e Porto Rico – este segue até hoje sob o domínio norte-americano.

Em 1942, o geopolítico norte-americano Nicholas Spykman publicou uma obra fundamental1 para entender a estratégia internacional dos EUA depois da Segunda Guerra Mundial. Nicholas Spykman sustenta teses e faz propostas geopolíticas que reaparecem a cada momento por trás do discurso aparentemente errático e confuso de Donald Trump e do seu Secretário de Estado, Marco Rubio.

Nicholas Spykman considerava que o Caribe e o Golfo do México faziam parte de um mesmo “mar interior” dos Estados Unidos, no qual Mexico, Colômbia e Venezuela deveriam estar sob dependência direta dos Estados Unidos, por razões de segurança nacional, sem necessitar de nenhum tipo de justificativa doutrinária ou ideológica. Quase a mesma ideia que reaparece textualmente na nova “Estratégia de Segurança Nacional” dos Estados Unidos, divulgada pelo governo de Donald Trump no início de dezembro de 2025.

O texto da “nova estratégia” contém inconsistências e carrega a marca da pressa e da colagem de várias posições que não são convergentes entre si. Mas não há dúvida de que a parte dedicada ao Hemisfério Ocidental foi escrita e incluída de forma apressada para justificar a ocupação militar americana do Caribe, e o seu ataque futuro à Groenlândia que também fica dentro do chamado Hemisfério Ocidental. E neste ponto não há que ter dúvidas: enquanto durar o governo de Donald Trump, depois do ataque à Venezuela, o que se deve prever é um assédio constante ao México, e um ataque com a proposta de submissão de Colômbia, Nicarágua e Cuba – neste caso, com o objetivo de destruir a própria memória da Revolução Cubana.

Mas não é provável que ocorra nenhuma intervenção militar no resto da América do Sul – nem seria necessário, porque a maioria dos governos sul-americanos já está de joelhos por vontade própria, aceitando a instalação de bases militares em seus territórios que assegurem, no longo prazo, o cerco militar da massa continental, e do Brasil em particular. Os demais países sul-americanos não têm maior importância geopolítica e não representam nenhuma ameaça de fato para os Estados Unidos, a despeito da presença econômica da China.

Apesar do alvoroço em torno da questão hemisférica, amplificado pelo ataque à Venezuela, o verdadeiro interesse e o objetivo central da Nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos não é a América Latina, mas a conquista da Groenlândia, a destruição da União Europeia, o esvaziamento da OTAN e a proposta de um novo modus vivendi com a Rússia e a China. É possível que Donald Trump jamais tenha lido Nicholas Spykman, nem conheça sua tese de que o domínio mundial dos EUA dependerá de sua capacidade de construir um cerco militar em torno da “massa continental” eurasiana.

Mas não há dúvida de que este é um objetivo central da proposta de Donald Trump, de incorporar a Groenlândia ao território norte-americano, completando o cerco atômico da Rússia e da China pelo lado do Ártico, onde estaria a nova grande fronteira geopolítica e geoeconômica do mundo. Com o avanço do degelo das regiões polares, o Ártico aparece como importante “ponto de fuga” do sistema, por onde se poderá escoar a energia criada pela intensificação da luta entre as grandes potências. E onde deverão se multiplicar os novos espaços de competição entre as grandes corporações do capitalismo global.

A proposta de deslocamento ao norte da “fronteira russa” da disputa do poder global explica em boa medida o ataque demolidor da “Nova Estratégia” de Donald Trump contra a União Europeia, contra o formato atual da OTAN e contra todos os valores cultivados pela “ética internacional” e pelo “universalismo” da cultura europeia. O novo documento fala explicitamente em devolver a Europa à sua velha condição de “mosaico” de pequenos Estados independentes e competitivos entre si, de forma a facilitar sua tutela bilateral pelos Estados Unidos.

Muitos analistas consideram que esse novo documento estratégico americano contém uma proposta implícita de construção de uma nova “ordem mundial” multipolar e multicivilizatória, sustentada por três grandes impérios ou “zonas de influência”, que seriam comandados por Estados Unidos, China e Rússia. Alguns fatos recentes, entretanto, e algumas outras realidades consolidadas parecem contradizer esta tese e reforçar uma hipótese diametralmente oposta.

Em primeiro lugar, há que ter presente que os Estados Unidos ainda são a única potência no mundo que possui e comanda uma infraestrutura militar global, com capacidade de intervenção imediata em quase todas as latitudes.

Em cima disso, o presidente Donald Trump acaba de anunciar para 2027 um aumento de 50% do orçamento militar norte-americano, no valor de 1,5 trilhão de dólares. Faz alguns meses Donald Trump já havia anunciado um programa de 830 bilhões de dólares para a criação um sistema de defesa aérea “impenetrável”, que ele chamou de Golden Dome, e um ambicioso projeto de modernização da Marinha dos Estados Unidos, o Golden Fleet, que se propõe a construir uma nova geração de navios de guerra integrando tecnologia de Inteligência artificial, lasers e armas hipersônicas, para garantir a supremacia marítima dos Estados Unidos. Além disso, no dia a dia da gestão de sua política externa, Donald Trump tem feito questão de demonstrar um poder universal de arbitragem e intervenção direta e instantânea em qualquer lugar do mundo, explicitando sua ingerência externa nos assuntos políticos nacionais de vários países.

Um conjunto de decisões que não apontam para um poder compartilhado; pelo contrário, explicitam uma decisão clara de centralização do poder, e de cerco e contenção da China e da Rússia. No máximo, um oligopólio tripolar com dominância em última instancia dos Estados Unidos. Ou seja, ao contrário do que muitos pensam, o projeto estratégico de Donald Trump que está em pleno curso, representa uma aposta ainda mais radical na conquista unipolar de um império militar global, capaz de impor pela força as regras do jogo e a arbitragem final dos Estados Unidos, regras e arbítrio que poderão variar a cada momento, segundo os interesses e a vontade circunstancial dos Estados Unidos.

Esse projeto, entretanto, deverá provocar uma forte reação contrária da China e da Rússia, e talvez da própria Europa, e deverá estimular a multiplicação das potências atômicas ao redor do mundo. Além disso, no médio prazo, deve incentivar o uso da força em todo e qualquer conflito ou disputa regional, uma vez que a nova regra imposta pela potência dominante, é a da imposição da vontade dos mais fortes, por cima de qualquer lei ou inibição ideológica. Um caminho seguro, quase direto, na direção do caos.

<><> Polarização? – sim, polarização. Por Emir Sader

Dizer que algo é polarizado, parece ser algo que desqualificado o que é dito. Polarização significa uma abordagem da nossa sociedade como uma sociedade de classes. É uma abordagem real ou uma ficção?

Há ou não há polos na nossa sociedade ou vivemos numa sociedade sem interesses contraditórios, em que todos são iguais na Constituição e na realidade concreta? Não somos uma sociedade profundamente marcada pelas desigualdades?

Desigualdades não significam simplesmente que alguns têm mais e outros têm menos. Existem ricos e pobres. E existem tantos pobres, com tão pouco, porque há’ alguns poucos que concentram tanta riqueza.

Não são polos que se diferenciam pela quantidade de recursos que cada polo tem. Mas pela qualidade, tal a distância entre eles. Assim como existem mecanismos de apropriação dos resultados do trabalho pelos que possuem os meios de produção. Esse é o mecanismo pelo qual se produz uma sociedade com desigualdades tão imensas, que só tendem a se reproduzir.

Não apenas econômica e socialmente, mas também politicamente. O poder costuma ser monopolizado por uma elite minoritária, assim como os meios de comunicação, o que lhes da enorme vantagem em relação à grande maioria da população, que não tem como fazer ouvir suas vozes e seus interesses.

É ou não é, esta sociedade capitalista, uma sociedade de classes? Isto é, uma sociedade marcada pela polarização social? Polarização significa isso. Um absurdo ou um reflexo da realidade realmente existente?

O pensamento conservador imagina uma sociedade ideal, em que a igualdade de expressão na Constituição tivesse uma correspondência direta na realidade cotidiana. Mas o que encontramos é uma contradição entre aquela igualdade legal e ideal e a vida concreta com que nos confrontamos, quando tropeçamos nas pessoas abandonadas nas ruas e praças, ao lado das lojas cheias de consumidores dos produtos mais sofisticados.

O que aconteceu naquela noite maravilhosa dos prêmios do Globo de Ouro para o cinema brasileiro foi expressão ou não da polarização? Isto é, foi expressão cultural da estrutura social e política da nossa sociedade?

A direita e a extrema direita ficaram completamente descolocadas com essas premiações. Gostariam que as produções culturais não refletissem, de forma alguma, o tipo de sociedade que temos.

Mas os discursos dos vencedores dos prêmios expressaram abertamente que as obras premiadas têm um caráter político claro. Que a melhor cultura que o Brasil possui tem um caráter político e não reflete as visões idealistas de uma sociedade juridicamente igual, que não se corresponde com a realidade concreta.

Um mundo polarizado e querem que se abandone qualquer visão baseada na polarização?

<><> Karl Marx entre o campo e a cidade

O texto é da grande pensadora argentina Beatriz Sarlo, que começa com a confissão da dificuldade de ler o primeiro capítulo do livro O capital de Karl Marx.

Ela se apoia no próprio Marx para compreender sua dificuldade: “Os começos são sempre difíceis e isto vale para todas as ciências. A compreensão do primeiro capítulo, e em especial a parte dedicada à análise da mercadoria, apresentará, portanto, a dificuldade maior”.

Ela menciona também o que considera metáforas extraordinárias, como, por exemplo, que o valor da mercadoria é mero coágulo de tempo de trabalho”. E em meio a todas as dificuldades, definições breves e claríssimas. “Nada pode ser valor se não é um objeto para o uso. Se é inútil, também será inútil o trabalho contido nela”.

A descrição da acumulação primitiva e a expropriação dos camponeses desalojados dos bosques têm, segundo ela, ares de novela realista. Karl Marx descreve uma nova formação social e oferece os instrumentos para observar também a nova cidade capitalista.

A acumulação primitiva está, para a economia política, como o pecado original está para a teologia. O que equivale a dizer que “o processo histórico de cisão entre os produtores e os meios de produção” resulta indispensável para fundar uma nova religião econômica sobre bases materiais sólidas.

Marx tem uma afirmação muito significativa: “O moinho movido a braço nos dá a sociedade do senhor feudal; o moinho a vapor, a sociedade capitalista industrial”. Friedrich Engels escreveu em A situação da classe operaria na Inglaterra: “Os primeiros proletários pertenceram à indústria e foram produto direto dela”.

Trata-se da Revolução Industrial, que é urbana, fabril, a vapor e algodoeira. A essa exploração econômica, é preciso agregar a dominação política.

Raymond Williams segue Marx ao tomar a Inglaterra como exemplo clássico. Suas hipóteses (que valem tanto para a literatura como para a pintura) indicam que o observador da paisagem está subtraído do mundo do trabalho. Os que vivem nas cidades e são os novos proletários perderam para sempre o mundo “natural” do idílio.

A experiência nas cidades estabelece um padrão novo para a narrativa. Raymond Williams mostra de que modo a fazenda aristocrática e a fazenda das middle classes endinheiradas criam uma paisagem em paralelo à paisagem psicológica e moral da novela.

Ele observa que a experiência urbana produz novos gêneros e, sobretudo, “um método de construção ficcional”. E, ao contrário, viver na cidade se apreende na novela. Rompeu-se um tipo de comunidade cognoscível. E, portanto, surgem todas as formas de nostalgia comunitarista.

E as cidades são o cenário em que se produz o que Max Weber descreve como “a transformação do oportunismo econômico em um sistema econômico e a transformação do romanticismo do aventureirismo econômico no nacionalismo econômico da prática metódica de vida”.

As reações literárias pastorais abundam. O atrativo do pastoral é a felicidade representada pelas imagens da paisagem natural, como se fosse possível conceber uma paisagem “natural”. Trata-se de fugir da complexidade e do poder da civilização da máquina. Se observe que as palavras “jardim” e “máquina” definem a oposição material e simbólica.

Daí que se chegue aos bairros fechados como utopia ruralista das camadas médias urbanas. Tudo começou com Marx e o fechamento do campo inglês.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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