Irã
sob cerco: crise interna, guerra híbrida e o retorno do imperialismo
Os
protestos no Irã não podem ser compreendidos fora do cerco imperial que há
décadas tenta sufocar sua soberania. Entre inflação, sanções, guerra
informacional e ameaças externas, o que está em jogo não é apenas um governo,
mas o direito de um povo decidir seu próprio destino.
Uma
crise fabricada: quando a economia é transformada em arma
A crise
econômica que hoje explode nas ruas do Irã não é um acidente histórico nem
resultado de um desajuste interno isolado. Ela é o produto previsível de
décadas de guerra econômica conduzida deliberadamente pelos Estados Unidos, por
meio de sanções, bloqueios financeiros, perseguição diplomática e
estrangulamento sistemático da capacidade do país de organizar sua própria vida
econômica. Quando a moeda desaba e os preços disparam, não se trata de uma
falha técnica do mercado, mas do efeito concreto de uma política internacional
desenhada para produzir instabilidade social.
Sanções
não são instrumentos neutros de “pressão política”. São armas que atuam
diretamente sobre a reprodução da vida. Ao bloquear receitas, expulsar o país
de circuitos financeiros globais e elevar artificialmente o custo de
importações essenciais, o cerco econômico desloca o conflito do plano
diplomático para o cotidiano das famílias, dos trabalhadores e dos pequenos
comerciantes. A inflação, nesse contexto, não é um número: é uma forma
silenciosa de violência.
O
colapso econômico iraniano precisa ser lido, portanto, como crise induzida. Uma
crise fabricada de fora para dentro, cujo objetivo histórico nunca foi corrigir
políticas internas, mas submeter uma nação soberana à asfixia prolongada. O
protesto não surge apesar desse cerco. Ele surge por causa dele.
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Quando a moeda cai, o contrato social se rompe
A moeda
não é um indicador técnico distante da realidade. No Irã, a desvalorização
prolongada do rial significou algo muito mais profundo do que a perda de valor
nominal: significou o colapso da previsibilidade, elemento central de qualquer
contrato social minimamente funcional. Quando o salário deixa de projetar o
amanhã, a poupança perde sentido e o crédito se torna inacessível, a política
deixa de ser escolha e passa a ser necessidade.
Esse é
o ponto em que a economia se politiza de forma irreversível. A inflação
contínua corrói não apenas o consumo, mas a própria ideia de futuro. O
trabalhador já não calcula apenas quanto pode comprar hoje, mas se conseguirá
sustentar sua família no mês seguinte. O pequeno comerciante deixa de planejar
reposição de estoque. O estudante percebe que a formação não garante horizonte.
Nesse cenário, a estabilidade social não se dissolve por ideologia, mas por
exaustão material.
É
exatamente por isso que protestos desse tipo não podem ser compreendidos como
explosões espontâneas ou mobilizações abstratas por “valores”. Eles emergem
quando a economia deixa de cumprir sua função básica de mediação entre o
presente e o futuro. O conflito, então, desloca-se do campo técnico para o
campo político, não por radicalização discursiva, mas porque a sobrevivência
cotidiana passa a ser vivida como crise permanente.
Quando
a moeda cai, o Estado perde sua capacidade de organizar expectativas. E quando
as expectativas colapsam, a rua deixa de ser espaço simbólico e passa a ser
espaço histórico. O protesto, nesse sentido, não inaugura a crise. Ele apenas a
torna visível.
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O bazar e a universidade: sinais clássicos de ruptura estrutural
Há um
motivo pelo qual o fechamento do bazar e a mobilização universitária aparecem,
no Irã, como sinais particularmente graves. Não é folclore. É uma estrutura
social. O bazar não é apenas comércio: é circulação, abastecimento, crédito
informal, emprego, sociabilidade urbana. Quando lojas fecham e a engrenagem
cotidiana desacelera, a crise deixa de ser sensação difusa e se converte em
fato coletivo, visível e contagioso. É a materialidade do colapso ganhando
forma pública.
Por
isso, a adesão do comércio importa politicamente de um jeito que posts e
slogans não conseguem reproduzir. Ela organiza o tempo da cidade, interrompe
rotinas, amplia a percepção de que “algo quebrou” e reduz o custo de
coordenação social. Se o dinheiro perde valor, o bazar sente primeiro; se o
abastecimento falha, ele sente por inteiro; se o crédito trava, ele acusa na
carne. É o termômetro social mais direto de uma economia sob cerco.
A
universidade entra como outro tipo de nervo. Ela não paralisa a circulação, mas
amplifica o sentido nacional do acontecimento. Onde o bazar mostra a crise no
nível do pão, do aluguel e do estoque, a universidade traduz a crise em
linguagem de futuro, dignidade e horizonte coletivo. Quando esses dois polos se
movem ao mesmo tempo, não estamos diante de um episódio passageiro, mas de uma
ruptura estrutural.
E aqui
cabe o alerta soberanista: esse tipo de ruptura, por ser real, é exatamente o
que o imperialismo tenta capturar. Não para aliviar o sofrimento popular, mas
para convertê-lo em pretexto de tutela. É por isso que entender o bazar e a
universidade é entender também o risco de sequestro externo do processo
histórico.
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A economia de cerco: viver sob sanções como condição permanente
Para
compreender a crise iraniana sem ilusões, é preciso abandonar a ideia de
exceção. O Irã não atravessa um momento pontual de dificuldade: ele vive, há
décadas, sob uma economia de cerco imposta pelos Estados Unidos e seus aliados.
Sanções não são episódios; são regime estrutural. Elas reorganizam preços,
cadeias de suprimento, acesso a crédito e expectativas sociais de forma
contínua e cumulativa.
Esse
cerco opera como guerra não declarada. Ao restringir transações financeiras,
bloquear receitas estratégicas e elevar artificialmente o custo de importações
essenciais, a coerção externa desloca o conflito para o cotidiano. O resultado
não é apenas escassez, mas instabilidade crônica: planejamento impossível,
investimento travado, consumo defensivo. O Estado, por sua vez, passa a
governar em modo de contenção permanente, priorizando sobrevivência sistêmica
em detrimento de reformas de longo prazo.
O ponto
decisivo é político: quem paga essa conta não são os arquitetos das sanções,
mas o povo trabalhador. A economia de cerco produz sofrimento social por
design, para depois explorar esse sofrimento como prova de “falência interna”.
É uma engenharia de desgaste. Entender isso é condição para não confundir causa
e efeito — nem legitimar, por ingenuidade, a violência que produz a própria
crise que finge denunciar.
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A hipocrisia imperial: destruir primeiro, moralizar depois
Há um
padrão recorrente na atuação do imperialismo contemporâneo: produzir a crise e,
em seguida, apresentar-se como árbitro moral de seus efeitos. No caso do Irã,
décadas de sanções e perseguições lideradas pelos Estados Unidos comprimiram a
economia até o limite; quando a vida cotidiana se torna insustentável, o mesmo
ator que apertou o cerco passa a falar em “preocupação humanitária”. Essa
inversão causal é o coração da hipocrisia.
Direitos
humanos, aqui, não aparecem como compromisso universal, mas como linguagem
instrumental. A narrativa moral apaga o mecanismo material que produziu a
inflação, a escassez e a instabilidade, deslocando o foco da coerção econômica
para a conduta do Estado sitiado. O sofrimento social, deliberadamente
fabricado, é então mobilizado como pretexto de tutela — a violência estrutural
some do quadro, e a intervenção reaparece como “responsabilidade”.
Esse
expediente não busca aliviar a dor popular; busca capturar o sentido da crise.
Ao transformar a economia em espetáculo moral, o imperialismo tenta impor uma
falsa escolha entre submissão externa e colapso interno. A defesa soberanista
rejeita essa armadilha: solidariedade aos povos não se faz apagando a causa do
sofrimento, mas cessando a guerra econômica que o produz.
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Quando Washington fala, a crise muda de natureza
Há um
ponto preciso em que uma crise interna deixa de ser apenas interna. Ele ocorre
quando uma potência imperial decide intervir simbolicamente, transformando
palavras em instrumentos de coerção. As declarações recentes de Donald Trump
sobre o Irã não foram comentários laterais nem gestos retóricos: foram atos
geopolíticos. Ao ameaçar “intervenção” diante da resposta do Estado iraniano,
Washington buscou internacionalizar deliberadamente um conflito produzido por
seu próprio cerco econômico.
Esse
movimento altera a natureza da crise por três vias simultâneas. Primeiro, eleva
o custo de decisão do Estado sitiado: qualquer ação de contenção interna passa
a ser enquadrada como “massacre” em tribunais midiáticos globais. Segundo,
estimula a captura externa do processo, oferecendo ao imperialismo a
prerrogativa de definir quem “representa o povo”. Terceiro, aumenta o risco de
escalada, ao inserir uma lógica de ultimato em um cenário já tensionado por
décadas de sanções.
Não é a
primeira vez que Washington age assim. A internacionalização calculada de
crises domésticas é parte do manual imperial: cria-se o estrangulamento
econômico, espera-se a fratura social e, no momento crítico, fala-se alto para
reposicionar o tabuleiro. Nesse instante, o conflito deixa de ser apenas sobre
inflação, moeda ou protestos. Passa a ser sobre soberania — e sobre quem tem o
direito de falar em nome do futuro de uma nação.
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Israel e a lógica do enfraquecimento permanente
Nenhuma
análise séria do tabuleiro regional pode ignorar o interesse estratégico de
Israel em um Irã enfraquecido. Não se trata de retórica ideológica, mas de
cálculo de poder. Um adversário pressionado economicamente, fragmentado
socialmente e ocupado com crises internas perde capacidade de projeção
regional, reduz margens de dissuasão e vê suas alianças tensionadas. Para quem
disputa hegemonia no Oriente Médio, isso é vantagem objetiva.
O ciclo
recente de confrontos, especialmente após 2025, elevou o patamar de hostilidade
e consolidou uma lógica de desgaste contínuo. Não é necessário um confronto
direto permanente quando a guerra econômica e informacional já produz
resultados. Sanções, isolamento financeiro e pressão diplomática funcionam como
multiplicadores estratégicos: fragilizam o Estado por dentro e ampliam o campo
de manobra do adversário por fora. A crise interna, nesse contexto, deixa de
ser um risco e passa a ser ativo geopolítico.
Essa
racionalidade explica por que a instabilidade iraniana interessa a certos
atores, ainda que publicamente se fale em “segurança” ou “valores”. Um Irã
soberano, com capacidade econômica e coesão social, limita projetos hegemônicos
na região. Um Irã sitiado, ao contrário, desloca energia para a sobrevivência e
abre espaço para a imposição de fatos consumados. Entender essa lógica é
essencial para não confundir preocupação com oportunismo estratégico.
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A disputa pelo sentido histórico da crise
Toda
crise profunda abre duas frentes de batalha. A primeira é material: preços,
moeda, trabalho, sobrevivência. A segunda é simbólica: quem define o
significado do que está acontecendo. No caso do Irã, essa segunda frente
tornou-se decisiva. O imperialismo busca capturar o levante como narrativa
moral simplificada, enquanto o Estado sitiado reage enquadrando-o como
ingerência externa total. Entre essas duas capturas, corre o risco de
desaparecer o sujeito central: o povo iraniano enquanto agente soberano de sua
própria história.
A
captura liberal-atlântica opera por apagamento seletivo. Elimina-se da
narrativa o cerco econômico, as sanções e a guerra financeira que moldam o
cotidiano; preserva-se apenas a imagem abstrata de “povo versus tirania”. O
sofrimento social, real, é deslocado de sua causa histórica e reempacotado como
prova de legitimidade para tutela. Já a securitização estatal, ao reagir a essa
captura, tende a reduzir toda contestação a complô externo, comprimindo a
complexidade social do conflito. Ambas as leituras empobrecem o processo
histórico.
O ponto
soberanista é outro. Reconhecer contradições internas não autoriza a
expropriação externa do sentido do levante. Defender a autodeterminação implica
afirmar que somente o povo iraniano pode decidir como interpretar, conduzir e
resolver suas crises. A disputa pelo significado não é acessória: quem vence
essa disputa condiciona as saídas possíveis. É por isso que a guerra
informacional é parte constitutiva do conflito — e por isso que resistir a ela
é condição para preservar a soberania.
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Três futuros possíveis: quem decide o destino do Irã
Crises
não evoluem por inércia; elas se resolvem — ou se agravam — conforme a
correlação de forças. No Irã, o horizonte imediato pode ser organizado em três
trajetórias possíveis, todas condicionadas por decisões políticas concretas e
por pressões externas já em curso.
O
primeiro caminho é o da descompressão soberana. Ele exige alívio real do
estrangulamento econômico, estabilização cambial, recomposição da
previsibilidade cotidiana e canais internos de mediação social. Não se trata de
concessão ao imperialismo, mas de reordenar prioridades para proteger a
reprodução da vida sob cerco. Esse cenário reduz a temperatura social e
preserva a capacidade do Estado de conduzir mudanças a partir de dentro.
O
segundo é o da securitização prolongada. Aqui, a crise material persiste
enquanto a resposta política se concentra no controle. O custo é alto: desgaste
social contínuo, radicalização de repertórios e menor margem para reformas.
Esse caminho não nasce do voluntarismo, mas da pressão externa que empurra o
Estado a operar permanentemente em modo defensivo.
O
terceiro — o mais perigoso — é o da internacionalização forçada. Ele se ativa
quando potências externas intensificam sanções, ameaças e narrativas de tutela,
tentando converter a crise em pretexto para intervenção. Esse cenário desloca o
conflito do plano social para o geopolítico, elevando riscos regionais e
reduzindo drasticamente as saídas soberanas.
Esses
futuros não estão dados. Eles são disputados. E a variável decisiva permanece a
mesma: a capacidade do povo iraniano de decidir sem coerção externa.
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Defender o Irã é defender um princípio universal
No
centro desta crise não está apenas o destino de um país, mas um princípio
histórico inegociável: nenhum povo pode ser estrangulado por décadas e, quando
reage ao colapso induzido, ser acusado por sangrar. Defender o Irã hoje é
afirmar que a autodeterminação não é concessão graciosa das potências, mas
direito soberano dos povos — sobretudo no Sul Global, onde a coerção econômica
substituiu a ocupação militar direta.
A
história recente demonstra que sanções, bloqueios e perseguições não “corrigem”
sociedades; desorganizam vidas. Quando a economia é transformada em arma, a
política se torna refém da sobrevivência. Usar esse sofrimento para legitimar
tutela externa é dupla violência: primeiro, produz-se a crise; depois,
reivindica-se autoridade moral sobre seus efeitos. A defesa soberanista rejeita
essa lógica. Críticas internas só são legítimas quando não servem ao projeto
imperial que fabricou o colapso.
O
episódio iraniano revela, assim, uma disputa maior: a de um mundo em transição,
no qual a multipolaridade emerge enquanto o imperialismo reage com cerco,
sanções e guerra informacional. Sustentar a soberania do Irã é sustentar um
critério universal para o século XXI. Sem ele, toda crise social no Sul seguirá
sendo convertida em oportunidade de intervenção. Com ele, abre-se a
possibilidade de que os povos decidam — finalmente — sem coerção, sem tutela,
sem império.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

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