Como
descobri que meu intestino parecia 5 anos mais velho do que eu
O
intestino virou um objeto de enorme fascínio. Influenciadores nas redes sociais
promovem suplementos sem comprovação científica que prometem melhorar a saúde
intestinal, enquanto marcas de leite e da bebida fermentada kombucha dizem
nutri-lo com "bactérias boas".
Alguns
descartam essa obsessão como uma moda passageira. Muitos médicos, porém,
avaliam que o microbioma intestinal pode influenciar uma ampla gama de fatores,
da saúde mental à probabilidade de desenvolver certos tipos de câncer.
Há
ainda outra possibilidade médica que me interessa em particular, que é como o
intestino afeta a forma como envelhecemos: bem ou mal.
Foi por
isso que, alguns meses atrás, estive no St Mary's Hospital, em Londres (Reino
Unido), conhecido pela descoberta da penicilina, me preparando para receber uma
visão nada confortável sobre a minha própria saúde intestinal.
Eu
estava lá para me encontrar com o médico James Kinross. Ele é professor de
cirurgia no Imperial College London e cirurgião colorretal, mas talvez a parte
mais inusitada de seu trabalho seja analisar fezes humanas.
Semanas
antes, eu havia enviado minha própria amostra de fezes a um laboratório.
Testes
desse tipo podem oferecer pistas sobre o nosso microbioma intestinal, os
trilhões de microrganismos que vivem no nosso sistema digestivo (em sua maioria
bactérias, mas também vírus e fungos).
"Sou
um evangelista do microbioma", afirmou ele. "Isso está profundamente
enraizado em todos os aspectos da nossa saúde."
Kinross
acredita que o intestino pode ter um papel crucial no processo de
envelhecimento, com consequências tanto para a longevidade quanto para o nível
de força física na velhice.
Alguns
especialistas avaliam que a importância do microbioma intestinal no
envelhecimento tem sido exagerada, e todos com quem conversei concordam que são
necessárias mais pesquisas.
Agora
que estou na casa dos 60 anos e recém-avô, me parece um bom momento para
descobrir o que o meu próprio intestino pode dizer sobre como enfrentarei as
próximas décadas.
E
também para tentar responder à grande questão: se a saúde intestinal de fato
influencia o envelhecimento, o que podemos fazer para melhorá-la, se é que algo
pode?
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A mulher de 117 anos e seu iogurte diário
Maria
Branyas Morera foi a pessoa mais velha do mundo. Após sua morte, em 2024, no
norte da Espanha, aos 117 anos, cientistas coletaram amostras de suas fezes,
sangue, saliva e urina e as compararam com as de 75 outras mulheres da
Península Ibérica (sudoeste da Europa).
Segundo
os pesquisadores, ela levava um estilo de vida amplamente saudável: morava no
campo, caminhava uma hora por dia e seguia uma dieta mediterrânea rica em
azeite.
Mas o
que realmente a distinguia era o fato de que ela consumia três porções de
iogurte por dia.
Manel
Esteller, geneticista da Universidade de Barcelona (Espanha) e coautor do
estudo, acredita que o hábito de comer iogurte pode ter proporcionado a Morera
um nível elevado de bactérias benéficas capazes de reduzir inflamações.
"Ela
tinha células que pareciam mais jovens do que sua idade", diz Esteller.
Já
foram realizados outros estudos com centenários, os super-heróis do mundo da
longevidade.
Repetidamente,
cientistas analisaram o intestino dessa população abençoada de pessoas com mais
de 100 anos e encontraram uma impressionante variedade de bactérias.
Em
outro estudo, publicado em 2022 na revista Nature, pesquisadores do condado de
Jiaoling, no sudeste da China, coletaram amostras de fezes de 18 centenários e
encontraram alta diversidade de bactérias em comparação com adultos mais
jovens.
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O intestino deve ser 'diverso como um jardim'
Isso
faz sentido para Mary Ni Lochlainn, professora clínica de medicina geriátrica
do King's College London (Reino Unido). Ela afirma que é útil pensar no
microbioma intestinal como um jardim: queremos que ele seja o mais diverso
possível.
"Se
você entra em um jardim onde não há plantas e tudo parece árido, esse é um
jardim de baixa diversidade", explica. "O que você quer é muitas
flores, cores, sementes."
O
problema é que, à medida que envelhecemos, a diversidade do microbioma cai
significativamente. Algumas das bactérias benéficas desaparecem do intestino.
Mas
pessoas idosas que fogem dessa tendência e que mantêm suas boas bactérias até
os 80 e 90 anos, demonstraram viver vidas mais longas e saudáveis.
Para Ni
Lochlainn, esses estudos comprovam a relação entre intestino e envelhecimento.
"Sabemos que centenários… têm microbioma mais diverso."
"Há
algo nessas pessoas que parecem seres superiores, de certa forma. Elas
conseguiram manter sua diversidade."
E não
se trata apenas de quanto tempo alguém vive, mas também de como vive nos anos
mais avançados. Kinross afirma que existe uma relação entre as bactérias
intestinais e a fragilidade, ou a capacidade de um idoso de se recuperar de uma
doença ou lesão.
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Minha idade versus a idade do meu intestino
De
volta ao laboratório do St Mary's Hospital, Kinross anuncia seu veredito: tenho
boa "diversidade intestinal no microbioma". Ele é "geralmente
saudável", o que é uma boa notícia. Mas pelo tom dele percebo algumas
ressalvas.
Elas
vêm a seguir. Primeiro, ele explica que há alguns "agentes no
intestino" que podem aumentar o risco de doenças cardiovasculares.
De
forma um tanto alarmante, alguns microrganismos prejudiciais também foram
encontrados. Escherichia coli e Clostridioides difficile estão presentes, o que
não é incomum. (O uso de antibióticos ou um episódio anterior de gastroenterite
pode ter causado isso.)
Mas
então chegamos à questão da idade.
Kinross
me diz que meu microbioma intestinal é aproximadamente equivalente ao de um
homem italiano cinco anos mais velho que eu. Ele chegou a essa conclusão
comparando meus resultados a um estudo com 62 pessoas no norte da Itália.
Nesse
estudo, o único desse tipo, os pesquisadores analisaram amostras de fezes de
pessoas de diferentes idades, de 22 a 109 anos, permitindo traçar um perfil de
como é o intestino em diferentes fases da vida.
O
veredito me faz refletir, com uma ponta de culpa, sobre aqueles anos de
refeições prontas e lanches rápidos.
Horários
de trabalho intensos, durante a crise financeira de 2008 e a pandemia de
Covid-19, resultaram em muitas sobremesas e guloseimas consumidas às pressas.
Viver
em Londres intermitentemente desde os meus 20 e poucos anos significou conviver
com a poluição do tráfego, em vez do ar mais puro do norte da Itália.
Não é
de surpreender que meu intestino seja considerado cinco anos mais velho do que
eu.
Kinross
deve ter percebido a cor esvaindo do meu rosto em pânico, porque imediatamente
me tranquiliza: os homens italianos podem ter seguido dietas mediterrâneas ou
vivido em áreas rurais não atingidas pela poluição urbana.
Além
disso, era uma amostra pequena.
Ele me
tranquiliza ainda mais ao dizer que "toda a maquinaria para o
envelhecimento saudável" está lá e só precisa ser otimizada. Em outras
palavras, se eu cuidar da minha alimentação, ainda há tempo para melhorias.
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É possível 'hackear' a saúde do intestino?
Quanto
à possibilidade de realmente melhorar o processo de envelhecimento por meio da
alimentação, Esteller, da Universidade de Barcelona, se mostra otimista.
Ele
ressalta que ainda há alguma "incerteza" sobre a relação entre saúde
intestinal e envelhecimento, mas afirma que as evidências já indicam de forma
relativamente clara que o que colocamos no prato pode afetar tanto a
"morbidade quanto a mortalidade".
Ou
seja, quanto tempo vivemos e a probabilidade de permanecer com boa saúde na
terceira idade. "Mesmo na mesma cidade, entre pessoas com alta renda, quem
se alimenta melhor vive mais tempo", afirma.
Esteller
recomenda o consumo de azeite, que contém polifenóis que favorecem as bactérias
intestinais, e de carne de anchova (Pomatomus saltatrix ou bluefish, em
inglês), um peixe marinho de dentes afiados que contém ácidos graxos e é
popular no Japão, país que registra uma das maiores expectativas de vida do
mundo (84,5 anos), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
No
Reino Unido, a anchova é difícil de encontrar na maior parte dos supermercados,
disponível principalmente em peixarias especializadas ou restaurantes. No
Brasil, é vendida em supermercados, mas não deve ser confundida com o aliche
(Engraulis encrasicolus), outro peixe que pode ser conhecido como anchova no
país.
Esteller
também recomenda evitar açúcares brancos refinados e alimentos ultraprocessados
sempre que possível, que podem prejudicar a diversidade de bactérias no
intestino.
Mas
Esteller ressalta que algumas pessoas terão mais sorte do que outras ao tentar
"hackear" o intestino, e os genes exercem influência.
Kinross
alerta que a pesquisa sobre o funcionamento do microbioma em diferentes grupos
populacionais ainda está no início. Por enquanto, afirma, cada paciente deve
ser avaliado individualmente.
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O 'ponto de virada' para os mais velhos
Munido
do relatório, marco uma consulta com Raquel Britzke, nutricionista, que analisa
os resultados e elabora um plano alimentar voltado para aumentar a diversidade
das bactérias intestinais, na esperança de ajudar meu envelhecimento.
O plano
é personalizado de acordo com meus resultados. Nos primeiros dias da semana,
ela sugere que eu faça uma tigela de café da manhã com sementes de linhaça,
sementes de chia, kefir, mirtilos, kiwi ou romã. (Não difere muito da minha
tigela habitual de granola com baixo teor de açúcar e iogurte.)
No
almoço, recomenda salada verde, feijão ou lentilha, brócolis, aspargos ou
beterraba, e frango grelhado sem pele. Isso parece um pouco mais complicado, os
ingredientes nem sempre são fáceis de encontrar quando se pega uma refeição
rápida entre pautas jornalísticas.
Para o
jantar, a sugestão é salmão, aspargos e arroz integral.
Com a
sobrancelha arqueada, minha esposa demonstra ceticismo sobre minha capacidade
de seguir o plano todas as noites.
Quanto
às bebidas, são recomendados sucos. No primeiro dia, preparo com dedicação um
suco verde, batendo hortelã, maçã, kiwi, couve, suco de limão, sementes de
girassol e água. Mas o sabor da hortelã acaba sobrepondo os outros
ingredientes.
Kefir e
kombucha (bebidas fermentadas ricas em bactérias) também são recomendados e são
mais fáceis de consumir. Ambas agora ocupam espaço no meu refrigerador.
Britzke
também sugere o uso de probióticos, ômega-3 e vitamina D3. Os suplementos não
são baratos.
Kinross
me diz que a mudança nutricional precisa ser "significativa" para
fazer diferença no envelhecimento.
Se eu
seguir rigorosamente meu novo plano alimentar, afirma, poderia perceber
alterações no meu microbioma intestinal "em algumas semanas",
explica.
Mas
alerta que mudanças mais "modestas" na dieta, por exemplo, se feitas
um dia sim e outro não, trazem poucos benefícios para o microbioma. E, por
consequência, qualquer melhora nas perspectivas de envelhecimento também é
menos provável.
"Ainda
há tempo", diz ele. Mas existe um "ponto de virada" para pessoas
mais velhas, quando o microbioma intestinal começa a se deteriorar.
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O dilema do ovo e da galinha da saúde intestinal
Há
outro enigma que Ni Lochlainn, do King's College London, chama de problema do
"ovo ou da galinha". Ou seja: um intestino mais diverso nos torna
mais fortes na velhice, ou o fato de sermos mais fortes na velhice significa
que temos um intestino mais diverso?
Historicamente,
tem sido difícil saber qual é a causa e qual é o efeito.
Mas até
essa questão pode ter sido respondida, em parte graças a pesquisas com
transplante fecal, procedimento em que fezes de um humano ou animal são
transferidas para outro animal (geralmente um camundongo) por cápsula ou tubo
no estômago.
Em um
desses estudos, publicado em 2020, cientistas dos Estados Unidos analisaram
dois grupos de 11 camundongos saudáveis. O primeiro grupo recebeu fezes de
camundongos idosos; o segundo, de camundongos jovens.
Em três
meses, os camundongos que receberam fezes de idosos passaram a apresentar
comportamento semelhante à depressão. A memória de curto prazo deteriorou-se,
assim como a percepção espacial.
Na
prática, seus corpos envelheceram.
Ni
Lochlainn, do King's College London, admite que, para muitas pessoas, isso soa
desagradável, mas esses estudos são importantes porque sugerem uma linha direta
de causalidade: do microbioma intestinal para a idade do corpo.
Nem
todos compartilham do entusiasmo com o poder do intestino sobre o
envelhecimento.
A
professora Kamila Hawthorne, presidente do Royal College of GPs (Reino Unido),
diz que a pesquisa sobre o microbioma intestinal é "empolgante" e
"certamente despertou o interesse do público", mas acrescenta:
"É importante lembrar, especialmente porque a pesquisa na área ainda está
se desenvolvendo, que a 'saúde intestinal' provavelmente é apenas uma parte de
um quadro muito maior."
"A
boa saúde não é determinada por um único fator."
No fim
das contas, os cientistas dizem que é possível melhorar o processo de
envelhecimento por meio da alimentação, embora alertem que a dieta não é tudo.
Esteller,
da Universidade de Barcelona, estima que a alimentação provavelmente determina
cerca de um terço do resultado do envelhecimento. O restante é uma combinação
de genética e outros fatores de estilo de vida, como exercício físico e evitar
fumar cigarros.
Quanto
à minha própria saúde intestinal, ainda estou nos primeiros dias da nova dieta.
Meu
apetite está satisfeito e não sinto desejo por lanches, exceto pelas frutas e
oleaginosas recomendadas: maçãs, uvas e castanhas. Mas, com um estilo de vida
corrido e horários imprevisíveis, seguir um plano tão meticuloso será
desafiador e tenho dúvidas sobre minha capacidade de cumpri-lo.
Ainda
assim, os exames e essa experiência serviram como um alerta sobre meu intestino
e minha saúde futura.
Fonte:
Por Hugh Pym, editor de saúde da BBC

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