Nos
bastidores da PF e da PGR Tofolli sofre críticas à atuação no caso Master
A
atuação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli na
investigação do Banco Master — liquidado pelo Banco Central devido a fraudes
bilionárias — é alvo de crescentes questionamentos nos bastidores dos órgãos de
investigação.
No mais
recente capítulo dessa história, o ministro entrou em embate direto com a
Polícia Federal (PF), após a realização de nova operação policial contra o dono
do Banco Master, Daniel Vorcaro, e outros empresários, na quarta-feira (14/1).
Na
ocasião, ele determinou que todo o material apreendido ficasse retido e lacrado
no STF, ao invés de ser enviado diretamente para análise dos investigadores da
Polícia Federal, como é o comum nessas operações, segundo fontes ouvidas na PF
e na Procuradoria-Geral da República (PGR).
Após
recuar e atender ao pedido da PGR para que o material ficasse com o Ministério
Público Federal, o ministro surpreendeu novamente ao escolher quais serão os
quatro peritos da PF com acesso para analisar o conteúdo apreendido.
"Nunca
tinha visto isso antes", disse à reportagem um delegado da cúpula da
Polícia Federal.
Segundo
outro delegado experiente ouvido pela reportagem, há boas referências sobre o
trabalho dos profissionais selecionados, mas a forma como foram escolhidos
causa estranhamento.
Ele
lembra que o ministro relator, sendo um dos membros do STF que posteriormente
vai julgar os investigados, deveria manter um distanciamento da condução
prática do inquérito.
"Não
deveria ser ele a escolher quem pericia vestígios numa investigação",
avalia.
"Para
você ter uma ideia, nem os delegados escolhem quem vai fazer a perícia na PF
nos casos normais. Os delegados encaminham as requisições para a chefia dos
setores de perícia em cada unidade e o chefe distribui [os casos para os
peritos]", reforçou.
Um
integrante da PGR ouvido pela BBC News Brasil manifestou o mesmo estranhamento.
Segundo
esse subprocurador-Geral da República, a escolha de peritos por juízes ocorre
em ações civis. Já em investigações criminais, como o caso do Master, atuam
peritos oficiais da PF, designados pela instituição.
"Normalmente,
não há indicação de peritos. As perícias em IPLs [inquéritos policias] da PF
são feitas pelo Instituto de Criminalística, com a distribuição entre os
peritos de cada especialidade", explicou.
Segundo
essa fonte, também foi incomum a decisão inicial do ministro de mandar lacrar
no STF o material apreendido na operação. O material, ressalta, precisa ser
analisado pela PF e pelo Ministério Público Federal para o andamento da
investigação, preparação de laudos e, eventualmente, o oferecimento de uma
denúncia criminal.
"Em
busca e apreensões, o material é arrecadado, apreendido pela PF, que lavra os
autos de apreensão, descrevendo o que foi apreendido. Depois, o material é
enviado para perícias, quando necessário, para laudos sobre conteúdos de
celulares , computadores", explicou.
"Hoje,
esses [celulares e computadores] têm conteúdos espelhos e os objetos são
devolvidos. Outros bens apreendidos podem ter destinos diversos: dinheiro é
depositado, criptoativos liquidados, documentos são digitalizados, então
depende", acrescentou.
Procurado
por meio da assessoria do STF, Toffoli não quis se manifestar sobre as críticas
à sua atuação. Na sexta-feira (16/01), ele determinou a prorrogação da
investigação por mais 60 dias, atendendo ao pedido da Polícia Federal.
Dois
dias antes, o ministro fez reclamações diretas à PF na decisão que autorizou a
nova operação relacionada ao Master. Embora a investigação esteja em sigilo,
Toffoli liberou parte dos despachos dessa operação a partir de quarta-feira
(14/1).
A
decisão que autorizou a ação da PF dizia que o ministro havia determinado
diligências no dia 7 de janeiro, um dia após pedido da PGR, mas que a polícia
demorou a realizar a operação.
Toffoli,
então, deu nova decisão no dia 12 de janeiro, estabelecendo 24 horas para
cumprimento das medidas, o que não ocorreu.
Segundo
o ministro, apenas no dia seguinte, 13 de janeiro, a PF protocolou novos
pedidos urgentes, diante do risco de fuga de alvos da investigação, o que levou
Toffoli a autorizar novas ações, levando à operação realizada dia 14.
Toffoli
deu, então, 24 horas para o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei
Rodrigues, explicar o atraso no cumprimento das medidas.
A BBC
News Brasil não teve acesso ao documento encaminhado pela PF com a explicação,
pois o inquérito está em sigilo. Segundo o jornal O Globo, Rodrigues argumentou
que o descumprimento de prazo ocorreu por circunstâncias operacionais.
O
motivo seria a necessidade de atualizar os endereços de alguns dos alvos da
operação, o que exigiu diligências prévias. Ainda segundo o jornal, o
diretor-geral da PF também argumentou que o alto poder aquisitivo dos
investigados facilita o deslocamento deles no Brasil e no exterior.
Nessa
segunda operação, Toffoli autorizou a quebra de sigilo bancário e fiscal de 101
pessoas e entidades investigadas e determinou o bloqueio e sequestro de bens no
valor total de R$ 5,7 bilhões, pertencentes a 38 investigados.
A
decisão diz que a Polícia Federal apontou indícios consistentes da atuação de
uma organização criminosa voltada à prática de gestão fraudulenta de
instituição financeira, induzimento ou manutenção em erro de investidor, uso de
informação privilegiada, manipulação de mercado e lavagem de capitais.
"Há
elementos suficientes que apontam, como indicado pela autoridade policial, para
o 'aproveitamento sistemático de vulnerabilidades do mercado de capitais e do
sistema de regulação e fiscalização', notadamente mediante o uso de fundos de
investimento e intrincada rede de entidades conectadas entre si por vínculos
societários, familiares ou funcionais", escreveu Toffoli na decisão.
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Polêmicas de Toffoli começaram com carona em jatinho
As
polêmicas envolvendo Toffoli começaram assim que assumiu o caso no STF, que
inicialmente tramitava na primeira instância da Justiça Federal do Distrito
Federal.
O caso
foi parar no seu gabinete após ter sido sorteado para relatar um recurso
apresentado pela defesa de Daniel Vorcaro, fundador e CEO do Master, na Corte.
No dia
seguinte ao sorteio, o ministro embarcou em um jatinho particular em que estava
o advogado Augusto Arruda Botelho, defensor de um dos diretores do Master.
Ambos
pegaram carona com um empresário para assistir à final da Copa Libertadores
entre Flamengo e Palmeiras, em Lima, no Peru.
O
ministro confirmou que viajou no avião e afirmou a interlocutores, segundo o
jornal O Globo, que não discutiu o processo durante o trajeto.
Pouco
depois, em 3 de dezembro, Toffoli colocou o caso sob sigilo e decidiu
transferir o inquérito para o STF, sob sua própria relatoria, atendendo ao
pedido de um diretor do Master — o mesmo pleito feito anteriormente pelos
advogados de Vorcaro.
Ele
acolheu a solicitação com base na citação de um deputado federal nas
investigações, autoridade com prerrogativa de foro privilegiado.
O
ministro justificou o sigilo afirmando que o inquérito envolve informações
econômicas sensíveis, com potencial impacto no mercado financeiro. Na prática,
todas as decisões sobre a investigação passaram a ser tomadas por ele, e não
mais pela Justiça Federal em Brasília.
Depois,
causou estranhamento entre investigadores e juristas a decisão de Toffoli de
marcar, no final de dezembro, uma acareação entre dois investigados no
inquérito — Daniel Vorcaro e o ex-presidente do banco BRB Paulo Henrique Costa
— e um dos diretores do Banco Central envolvido na operação de liquidação,
Ailton de Aquino.
A
decisão causou polêmica porque acareações servem para esclarecer controvérsias
em versões dadas em uma investigação ou processo, mas ainda não haviam ocorrido
depoimentos dos envolvidos. Além disso, acareações costumam ocorrer entre
testemunhas e/ou investigados, o que não era o caso do diretor do BC.
Após
críticas, Toffoli recuou e o diretor prestou um depoimento, mas foi liberado da
acareação.
Em
seguida, outro integrante da Corte virou alvo de questionamentos, ao vir à tona
a informação de que o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes,
Viviane Barci de Moraes, tinha um contrato milionário com o Master.
Um
pedido de investigação contra o ministro foi arquivado pelo procurador-geral da
República, que avaliou não haver indícios de crime na contratação da esposa de
Moraes.
Para o
economista Cleveland Prates, professor de regulação da Fipe-USP e da FGV-Law,
tanto Toffoli quanto Moraes deveriam se declarar suspeitos em ações envolvendo
o banco.
Ao
declarar suspeição, um juiz ou autoridade encarregada de determinado processo
se afasta do caso por considerar que suas relações pessoais ou outras questões
possam afetar sua imparcialidade.
"Eu
já fui membro de um tribunal administrativo, como conselheiro do Cade. Por
muito menos, por eu frequentar a casa do presidente de uma empresa que tinha um
caso lá no Cade e nunca ter conversado com ele sobre o assunto, eu me declarei
suspeito", afirma ele, que, além de membro do Conselho Administrativo de
Defesa Econômica, também foi secretário adjunto de acompanhamento econômico no
Ministério da Fazenda no governo Fernando Henrique Cardoso.
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Entenda a liquidação do Master
A
liquidação do banco Master ocorreu no dia 18 de novembro, mesmo dia em que
operação Compliance Zero levou à prisão de Vorcaro e de outros executivos do
banco.
Em 28
de novembro, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região concedeu habeas
corpus e mandou soltar Vorcaro, os ex-diretores Luiz Antonio Bull, Alberto
Feliz de Oliveira e Angelo Antonio Ribeiro da Silva, além de Augusto Ferreira
Lima, ex-sócio do banco.
Eles
são monitorados por tornozeleira eletrônica e estão proibidos de exercer
atividades no setor financeiro, de ter contato com outros investigados e de
deixar o país.
A
quebra do Master é a maior da história do país em impacto para o Fundo
Garantidor de Créditos (FGC) — associação privada que funciona como uma espécie
de sistema de garantia de depósitos, cobrindo investimentos de até R$ 250 mil
por CPF ou CNPJ (por instituição financeira) em caso de quebra de alguma
instituição associada.
Segundo
o FGC, 1,6 milhão de investidores do banco, que detinha R$ 41 bilhões em CDBs,
poderão ser ressarcidos.
A PF
investiga suspeitas de fraudes na concessão de créditos, emissão de títulos
irregulares e criação de carteiras falsas — operações que, segundo os
investigadores, movimentaram valores bilionários e alimentaram uma tentativa de
venda da instituição ao BRB.
A
segunda fase da Compliance Zero ocorreu na quarta-feira (14/1) e atingiu outros
empresários suspeitos de ligação com operações fraudulentas do Master, como
Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro e maior doador das campanhas do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas (Republicanos), em 2022.
Fonte:
BBC News Brasil

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