“A
crise climática também é uma crise de saúde pública”, afirma a docente Karina
Pavão
Dentre
as iniciativas lançadas por ocasião da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre
as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), que ocorreu entre 10 e 21 de novembro
na capital paraense, destaca-se o Plano de Ação em Saúde de Belém. A iniciativa
do Governo Federal, por meio do Ministério da Saúde, apresentou o primeiro
documento internacional de adaptação climática dedicado à saúde. O texto propõe
ações para lidar com os efeitos das mudanças climáticas que já se fazem sentir.
Está aberto à adesão voluntária de países e organizações internacionais e
recebeu apoio de organizações da sociedade civil e de outros segmentos. Em
sintonia com o lançamento do plano, também durante a COP30, a Coalizão de
Financiadores de Clima e Saúde, grupo que reúne mais de 35 organizações
filantrópicas internacionais, anunciou o aporte de US$ 300 milhões para
promover ações e pesquisas que reflitam em políticas públicas relacionadas ao
calor extremo, poluição do ar e doenças infecciosas.
Dentre
os pesquisadores que já estão atentos às conexões entre clima e saúde e seus
impactos sobre a vida da população, está a médica Karina Pavão. Entre outras
iniciativas, a docente do Departamento de Saúde Pública da Faculdade de
Medicina da Unesp em Botucatu (FMB) vem se dedicando ao estudo da saúde
ambiental, coordena o núcleo de hospitais sustentáveis do Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB) e ministra uma disciplina que
aborda diretamente os impactos das mudanças climáticas na saúde humana.
Em
entrevista ao Jornal da Unesp, Karina Pavão fala sobre as ações que vem
desenvolvendo na FMB, no HC-FMB e em estudos conduzidos com parceiros nacionais
e internacionais. Ela comenta o legado deixado pela cúpula em Belém. “Essa COP
amazônica foi histórica para a área da saúde. Pela primeira vez, em 30 anos de
Conferência das Partes, o tema deixou de ocupar as margens e passou a integrar
o centro do debate. Mas o verdadeiro desafio começa agora. O risco é que os
compromissos fiquem restritos aos documentos e às declarações”, avalia. Ela
explica, em detalhes, a conexão entre a saúde e o meio ambiente. “A crise
climática é, na verdade, uma crise de saúde pública. Quando protegemos o
planeta, estamos protegendo vidas.”
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LEIA A ENTREVISTA:
• Qual o legado da COP30 para a área da
saúde?
Karina
Pavão: Essa COP amazônica foi histórica para a área da saúde. Pela primeira
vez, em 30 anos de Conferência das Partes, o tema deixou de ocupar as margens e
passou a integrar o centro do debate: a saúde esteve no plenário principal e
contou com dois dias inteiros de discussões em diferentes fóruns. Isso sinaliza
uma mudança de paradigma importante. Após décadas de evidências científicas e
alertas reiterados, houve um reconhecimento explícito de que a crise climática
é, antes de tudo, uma crise de saúde pública.
Esse
reconhecimento não surgiu por convicção espontânea, mas porque os impactos já
são inegáveis. Ondas de calor, enchentes, secas, queimadas e epidemias como a
dengue estão pressionando sistemas de saúde no mundo inteiro. A ciência mostrou
isso com clareza, e os governos passaram a sentir esses efeitos na prática.
Participei dessas discussões por meio do movimento “Clima é Saúde, Saúde é
Clima”, que entregou um manifesto às autoridades presentes na COP, reforçando
que não há mais espaço para discursos dissociados da realidade vivida pelas
populações.
A
Conferência deixou legados importantes, como o Plano de Ação em Saúde de Belém,
que orienta a preparação dos sistemas de saúde diante dos impactos climáticos,
especialmente para proteger as populações mais vulneráveis. O impacto potencial
sobre as políticas públicas é enorme: o clima passa a integrar de forma
definitiva a agenda da saúde, influenciando a vigilância epidemiológica, o
planejamento hospitalar, a prevenção de epidemias, o financiamento e a
organização das cidades e dos serviços de cuidado.
Ao
mesmo tempo, é preciso fazer uma leitura crítica. A COP30 foi simbólica,
necessária e, em muitos aspectos, extraordinária. Mas o verdadeiro desafio
começa agora. O risco é que os compromissos fiquem restritos aos documentos e
declarações, sem se traduzirem em ações concretas nos territórios, nos sistemas
de saúde e na vida das pessoas.
Existem
exemplos de que a implementação é possível. O Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB), referência nacional em
sustentabilidade, vem atuando de forma consistente desde 2015 na mitigação das
mudanças climáticas, tendo reduzido em mais de 50% suas emissões de gases de
efeito estufa em apenas 10 anos. Isso demonstra que, quando há compromisso
institucional, planejamento e integração entre saúde e sustentabilidade, os
resultados acontecem.
Portanto,
o legado mais importante da COP30 será medido não pelo que foi dito, mas pelo
que será feito. É fundamental que esse discurso se transforme em ação efetiva,
com políticas públicas, financiamento e práticas concretas capazes de proteger
o planeta, e, sobretudo, a saúde das pessoas.
As
mudanças climáticas já estão afetando a saúde no dia a dia. Ondas de calor
aumentam as mortes por doenças cardiovasculares e respiratórias. Eventos
extremos, como enchentes e secas, ampliam os riscos de dengue, leptospirose e
da escassez de água; e a poluição do ar agrava crises de asma, afetando
principalmente crianças e idosos. A crise climática é, na verdade, uma crise de
saúde pública. Quando protegemos o planeta, estamos protegendo vidas. Ao
fortalecermos políticas públicas de saúde, justiça social e sustentabilidade,
estamos enfrentando as causas dessa crise, pois as soluções para o clima também
são soluções para a saúde.
• Durante a COP30, a senhora conduziu uma
atividade seguindo a metodologia Banho de Floresta na Casa da Floresta, espaço
conjunto gerido pela Unesp e o Instituto Peabiru. Como foi essa experiência?
Karina
Pavão: Sou formada como guia de Banho de Floresta pelo Forest Therapy Hub, um
instituto europeu de referência internacional nessa metodologia. A prática, que
surgiu no Japão na década de 1980, é hoje reconhecida como estratégia de
promoção da saúde e vem sendo incorporada às políticas públicas e a pesquisas
científicas em diferentes países. Diferentemente de uma caminhada ou atividade
física com metas, o Banho de Floresta é uma vivência de bem-estar baseada na
imersão sensorial na floresta, em ritmo lento, despertando os sentidos e
favorecendo a autorregulação fisiológica e emocional. A experiência teve um
significado especial por acontecer em um território de alta biodiversidade, no
contexto de uma conferência que discutiu os limites do planeta, as mudanças
climáticas e seus impactos diretos sobre a saúde.
A
literatura científica evidencia de forma consistente os benefícios da conexão
com a natureza para a saúde física, mental e social. Estudos demonstram redução
do estresse, da ansiedade e da depressão, diminuição dos níveis de cortisol e
da pressão arterial, melhora da atenção, do humor e da qualidade do sono, além
do fortalecimento do sistema imunológico e de benefícios cardiovasculares. Há
também evidências de que compostos voláteis das plantas, micro-organismos do
solo, íons negativos e estímulos sonoros naturais contribuem para a regulação
imunológica e para processos restauradores do organismo.
No
campo da pesquisa, venho desenvolvendo e articulando parcerias no Brasil e no
exterior para investigar os efeitos da conexão com a natureza na promoção da
saúde. No Brasil, participo do grupo de pesquisa do Hospital Israelita Albert
Einstein por meio do projeto “Um tempo com E-Natureza”. No âmbito
internacional, estou desenvolvendo parcerias com a Universidade de Cornell e
com o Laboratório de Ornitologia, nos Estados Unidos, referências mundiais.
Esses projetos terão como foco a promoção dos benefícios da conexão com a
natureza para pacientes oncológicos e pessoas em tratamento de hemodiálise,
dentro do HCFMB.
Levar
essa vivência para a COP30 reforçou, na prática, uma mensagem central das
discussões do evento: a saúde humana depende diretamente da integridade dos
ecossistemas. O Banho de Floresta mostrou-se não apenas como uma prática de
bem-estar, mas como uma estratégia concreta de promoção da saúde,
sensibilização ambiental e reflexão sobre o papel da natureza diante das
mudanças climáticas e dos desafios contemporâneos da saúde pública.
• Qual o diferencial da disciplina
“Mudanças climáticas e saúde planetária” oferecida aos estudantes de graduação
em Medicina do câmpus em Botucatu?
Karina
Pavão: Essa disciplina no curso médico é pioneira no Brasil, sendo inserida de
forma curricular, obrigatória para todos os alunos do terceiro ano de Medicina
da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB). Ela é liderada pelo Departamento de
Saúde Pública, inserida em um módulo obrigatório de Vigilância em Saúde, o que
amplia seu alcance e garante que todos os estudantes tenham contato com o tema,
não apenas aqueles que já se interessam pelo assunto.
Trabalhamos
com metodologias pedagógicas ativas, em pequenos grupos, utilizando casos
clínicos sindêmicos baseados em situações reais, como enchentes no Rio Grande
do Sul, ondas de calor e queimadas no Pantanal, seca e insegurança alimentar na
Amazônia. Esses casos sempre trazem populações vulnerabilizadas, como crianças,
idosos, gestantes, povos indígenas e comunidades tradicionais, e incorporam
conceitos como antropoceno, racismo ambiental, justiça climática e saúde
planetária.
Outro
diferencial é a interdisciplinaridade real. A disciplina envolve professores da
Faculdade de Medicina de Botucatu, embaixadores da Rede Saúde Planetária
Brasil, especialistas nacionais e internacionais, além de lideranças e saberes
tradicionais, como médicos indígenas e representantes de comunidades. Isso
amplia a formação técnica e ética dos estudantes, mostrando que não existe
prática clínica neutra diante da crise climática.
Além da
discussão teórica e clínica, a disciplina valoriza vivências concretas. Um
exemplo é a atividade de Banho de Floresta, realizada no Jardim Botânico do
Instituto de Biociências, baseada no método do Forest Therapy Hub. Essa
experiência permite que os estudantes vivenciem, na prática, os benefícios da
conexão com a natureza para a saúde, ampliando empatia, atenção plena e
consciência ambiental, aspectos frequentemente ausentes na formação tradicional
em saúde.
Outro
ponto central é mostrar caminhos de ação. A disciplina apresenta experiências
exitosas de mitigação e adaptação, como as metas da Rede Global de Hospitais
Verdes e Saudáveis e as ações do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
de Botucatu, referência nacional em sustentabilidade. Isso ajuda os estudantes
a perceberem que é possível transformar conhecimento em prática concreta, indo
além do debate acadêmico.
O
retorno dos estudantes tem sido muito positivo. Eles relatam maior capacidade
de conectar teoria e prática clínica, ampliação do pensamento crítico, maior
sensibilidade às desigualdades sociais e ambientais, e compreensão de que
cuidar da saúde humana implica, necessariamente, cuidar dos ecossistemas.
Em
síntese, o diferencial da disciplina está em integrar ciência, prática clínica,
justiça social e vivência, formando profissionais da saúde mais preparados,
críticos e comprometidos com os desafios da crise climática e da saúde
planetária.
• Há outras iniciativas nesse sentido
voltadas à formação dos estudantes de graduação?
Karina
Pavão: Venho liderando na FMB essa trajetória pioneira na integração entre
saúde e meio ambiente na formação em saúde. Já em 2004, a FMB implantou, no
currículo do curso de Enfermagem, uma disciplina obrigatória de Meio Ambiente e
Saúde oferecida a todos os estudantes do primeiro ano. Em 2008, essa abordagem
foi ampliada para o curso de Nutrição, com uma disciplina obrigatória para os
alunos do terceiro ano, discutindo não apenas alimentação saudável, mas também
a sustentabilidade dos sistemas alimentares, desde o modo de produção até o
preparo e a apresentação dos alimentos. Além disso, em cursos de
especialização, residências médicas, multiprofissionais e eventos diversos,
venho sempre incorporando essas temáticas para formar profissionais mais preparados
para o enfrentamento dos desafios das mudanças climáticas.
Ao
longo do tempo, essa perspectiva foi ampliada para além da sala de aula. No
HCFMB, desde 2013, têm sido intensificadas ações de capacitação, sensibilização
e educação, buscando inserir a temática ambiental de forma transversal e
transdisciplinar nos diferentes espaços de formação e gestão.
Esse
movimento ganhou ainda mais força com a criação do Comitê de Sustentabilidade e
da Comissão A3P (Agenda Ambiental na Administração Pública), vinculada ao
Ministério do Meio Ambiente e das Mudanças Climáticas, implantada em 2024.
Esses espaços têm sido fundamentais para articular ensino, pesquisa, extensão e
gestão, promovendo uma cultura institucional voltada à sustentabilidade, à
mitigação das mudanças climáticas e à responsabilidade socioambiental no setor
saúde. A importância dessas ações está em formar profissionais capazes de
compreender a complexidade dos desafios contemporâneos, integrar saúde, meio
ambiente e justiça social, e atuar de forma crítica e responsável. Mais do que
conteúdos isolados, trata-se de construir uma formação contínua, coerente e
comprometida com a saúde planetária e com a transformação dos sistemas de
cuidado.
Fonte:
Jornal da Unesp

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