O
ditador (preferido) da rede Globo
Em
tempos obscuros como os atuais, precisamos redobrar a atenção sobre o que
vemos, ouvimos e lemos; e que pretensamente nos dizem ser a verdade dos fatos.
A
hegemonia política das classes dominantes, conforme formulação de Gramsci, não
se sustenta apenas pelo uso da força, mas pelo convencimento ao disseminar
valores, ideias e narrativas. Este último aparato encontra forte sustentação no
poderio comunicacional monopolizado por grandes grupos econômicos. Nada é por
acaso, nenhuma palavra é usada num discurso jornalístico sem medidas e
desmedidas ideológicas. É o que se percebe, cotidianamente, na circulação
massiva, por exemplo, no “jornalismo profissional” do Grupo Globo, mais
especificamente da TV Globo (e adjacências, como a GloboNews).
Como
aparato ideológico privado, a mídia corporativa se constitui num centro de
difusão e repetição de narrativas e discursos com o intuito de construir ou
produzir consensos e sentidos. “Arsenal” (des)informativo que reúne “a
naturalização, inversão, justificativa e ocultamento integrantes da ideologia,
a que se referiam Marx e Engels […]onde a realidade é apreendida tal como se
apresenta fenomenologicamente, com amplo apoio e respaldo dos intelectuais
dominantes, que dia após dia trabalham na construção da opinião pública que
lhes convém” (Andrade; Motta, 2022, p. 52).
O dia 3
de janeiro de 2026 foi pródigo nessa construção (ou consolidação) hegemônica:
pela força e pelo discurso cultural. Além da força militar dos Estados Unidos
tomando de assalto a soberania da Venezuela e sequestrando seu presidente
Nicolás Maduro, e sua esposa, a advogada Cilia Flores, a parte do convencimento
ideológico ficou explícita na cobertura “jornalística” do Jornal Nacional. Em
pelo menos seis vezes, o JN referiu-se a Nicolás Maduro como ditador ou
ex-ditador.
Já o
ataque ilegal de Donald Trump foi adjetivado como “ofensiva militar inédita”.
Reproduziu-se o discurso, provavelmente norte-americano, de que a Delta Force
sequestradora e violadora de soberanias e de presidentes, é a tropa de elite
das Armadas estadunidenses no combate ao tráfico de drogas. Também sem meias
palavras, usou e abusou da definição trumpista sobre a Venezuela e Nicolás
Maduro, “narcoterrorismo” e “narcoterrorista”.
A
história da República Bolivariana da Venezuela, desde Hugo Chávez até Nicolás
Maduro, foi descrita pelo apresentador César Tralli, pontuando suas palavras
com leves “soquinhos” na bancada, como “de autoritarismo, corrupção, crise na
economia e violação dos direitos humanos”. Na mesma toada, ao reescrever a
trajetória política de Nicolás Maduro, conforme seus interesses ideológicos, o
Jornal Nacional fez questão de ressaltar que o presidente sequetrado pelos EUA
começou como “líder sindical”.
Ao
longo da edição, as palavras foram favoráveis ao ataque de Donald Trump e
negativas ao presidente sequestrado: “Os EUA derrubam Nicolás Maduro”; “…a
madrugada de ataques avança no esconderijo do ditador”; “soldados de elite
capturam”; “levado para Nova Yorque onde será julgado”; “a história da América
Latina registrou hoje um capítulo inédito: os EUA depuseram Nicolás Maduro do
poder”; “Trump acompanhou ao vivo a operação militar na Venezuela”; “empresas
americanas vão financiar a reconstrução do país”; “agora [Nicolás Maduro] está
sob custódia da justiça americana”.
A
partir de 20 minutos da matéria, o telejornal apresentará especialistas em
relações internacionais para comentar o ataque ao país da América do Sul, entre
esses, Regiane Bressan (USP), Carolina Pavese (sem ligação com instituições),
Leonardo Trevisan (ESPM) – o único a falar em “sequestro” –, Demétrio Magnoli
(comentarista da GloboNews) – que usará a expressão “extração de Nicolás
Maduro” – e Vinícius Rodrigues Vieira e Oliver Stuenkel (ambos da FGV-SP). Na
edição, a voz dessas autoridades aparece fragmentada (ou editada), curta e sem
a profundidade que a situação merecia.
O
noticiário do JN cumpre, naquela momento, a missão de normatizar o que está
fora de ordem, o caos e a violência. O telejornal da TV Globo mornaliza Donald
Trump e suas ações tiranas contra o mundo – seja impondo sanções comerciais ou
jogando bomba ou ameaçando países que não lhe entregarem o que ele quer –
riquezas naturais, entre essas petróleo e terras raras. E tudo o que significar
dinheiro e lucro para ele e seus aliados do mundo empresarial e financista.
Se o
telejornal – assim como outros telejornais, como os da Record e do SBT no dia 3
de janeiro de 2026 – insiste em chamar Nicolás Maduro de ditador; por outro
lado, sem qualquer ponta de constrangimento, seus repórteres e apresentadores
enchem a boca para soletrar pre-si-den-te Donald Trump.
Durante
os primeiros momentos do governo Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025, nos
Estados Unidos, observou-se uma série de ações direcionadas contra instituições
de direito, ciência, imigrantes e universidades, geralmente voltadas a grupos
que se opõem ao seu posicionamento político. Entre essas medidas, destacam-se
tentativas de enfraquecimento da credibilidade de órgãos judiciais e de
investigação, cortes de financiamento e restrições à pesquisa científica,
especialmente em áreas como meio ambiente e mudança climática.
Além
disso, Donald Trump implementou políticas rigorosas contra imigrantes, como
restrições à entrada de estrangeiros provenientes de determinados países e
endurecimento dos processos de deportação.
Universidades
também foram alvo de críticas e de mudanças regulatórias, principalmente no que
diz respeito à autonomia acadêmica e ao financiamento para pesquisas que não
estivessem alinhadas com as prioridades de Donald Trump. Essas ações refletem
uma postura de confronto com instituições que tradicionalmente desempenham
papel de contraponto ao poder executivo nos Estados Unidos.
Em 18
de novembro de 2025, Donald Trump recebeu o príncipe herdeiro da Arábia
Saudita, Mohammed bin Salman, na Casa Branca. Durante o encontro, Donald Trump
destacou positivamente o histórico do líder saudita em direitos humanos, mesmo
sob acusações de que ele teria ordenado o assassinato do jornalista Jamal
Khashoggi, em 2018.
E, no
primeiro governo (2017-2021), Donald Trump foi acusado de diversos atos
considerados antidemocráticos por especialistas e observadores internacionais.
Entre eles, destaca-se a tentativa de contestar o resultado das eleições
presidenciais de 2020, promovendo alegações infundadas de fraude eleitoral e
pressionando autoridades para reverter a vitória de seu adversário.
Além
disso, seu discurso frequentemente atacava a imprensa e instituições
democráticas, minando a confiança pública nesses órgãos. O episódio do ataque
ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, também é citado como resultado de sua
retórica e ações, sendo visto como uma ameaça direta ao processo democrático
dos Estados Unidos.
Donald
Trump foi processado em Nova York por falsificar registros comerciais para
ocultar qualquer um de três outros crimes: a contribuição ilegal de campanha de
Cohen, violações de leis tributárias e/ou o suposto envolvimento de Donald
Trump em uma conspiração para influenciar ilegalmente a eleição presidencial de
2016. E tem, ainda, o escândalo sexual envolvendo o empresário Jeffrey Epstein,
criminoso sexual condenado, cuja morte por suicídio gerou grande investigação
sobre as pessoas influentes com quem ele mantinha relações, como Donald Trump.
Com tal
ficha corrida, o Jornal Nacional já não pode chamar Donald Trump de ditador?
Nem de tirano, Globo?
Falam
muito na necessidade do letramento digital, melhor seria falar em letramento
cultural para compreender a circulação das informações da
tele-visão-capitalista. O jornalismo cantado em verso e prosa como o mais
profissional, o mais correto, o que faz a ponte entre o fato e as pessoas, não
é nada disso. Ele não é o mais profissional, nem o mais correto e destrói
pontes entre fatos e pessoas.
A
informação midiatizada reconstrói a realidade com fins evidentes de formar a
percepção da sociedade sobre determinado fato, política ou ação: “O universo da
informação midiática é efetivamente um universo construído. Não é, como se diz
às vezes, o reflexo do que acontece no espaço público, mas sim o resultado de
uma construção. O acontecimento jamais é transmitido no seu estado bruto, pois,
antes de ser transmitido, ele se torna objeto de racionalizações: pelos
critérios de seleção dos fatos e dos atores, pela maneira de encerrá-los em
categorias de entendimento, pelos modos de visibilidade escolhidos. Assim, a
instância midiática impõe ao cidadão uma visão de mundo previamente articulada,
sendo que tal visão é apresentada como se fosse a visão natural do mundo”
(Charaudeau, 2019, p. 151).
O
Jornal Nacional está na vida de milhões de pessoas, de segunda-feira a sábado,
no chamado horário nobre, por volta das 20h30, há quase sessenta anos –
“Gerações de brasileiras e brasileiros conviveram com, praticamente, os mesmos
veículos de comunicação ao longo da vida” (Martins, 2020, p. 61). Período em
que o Brasil e o mundo atravessaram diversas crises políticas, econômicas e
sociais e o Jornal Nacional apresentou a versão dos fatos ocorridos. A criação
da figura de isenção no imaginário público está presente há 56 anos e ainda é o
maior instrumento de informação da sociedade brasileira.
“A
televisão é um meio de comunicação, informação e propaganda presente e ativo no
cotidiano de uns e outros, indivíduos e coletividades, em todo o mundo.
Registra e interpreta, seleciona e enfatiza, esquece e sataniza o que poderia
ser a realidade e o imaginário” (IANNI, 2000, p.149).
O
discurso da imparcialidade, isenção e pluralidade entra todos os dias nas
residências de milhões de pessoas e é reforçado e renovado também em discursos
autorreferenciais, como, por exemplo, em programa de auditório dominical,
também de grande audiência, na mesma emissora de televisão, com a presença de
jornalistas da emissora para destacar o profissionalismo, a ética e o caráter
deles – a voz escolhida, além de colegas de trabalho, é a de amigos, mas
principalmente a de familiares.
A
hegemonia da informação constituída ideologicamente se torna mais efetiva
quanto menos visíveis são suas estruturas e mecanismos de produção. É como se a
notícia que vai ao ar dependesse apenas do caráter das pessoas, e não dos
interesses de classe dos donos das empresas de comunicação.
O
acesso à informação plural e de qualidade é condição necessária para o
exercício da cidadania nos termos de compreensão dos assuntos afetos à vida
social e à vitalidade democrática. Quando a população está exposta
majoritariamente a conteúdos provenientes de poucos grupos, corre-se o risco de
formação de opinião pública enviesada, com menor capacidade de crítica e
discernimento. O cenário é propício à produção ou fabricação de consensos
orientada pelos interesses das classes dominantes.
No meio
do caminho não tinha uma pedra, mas notícias que definem uns de ditadores e
outros de presidente. A notícia veiculada ontem compromete (ou mata) a verdade
hoje (“A pedra jogada ontem matou o passarinho hoje”).
A
imprensa encarcerada nas mãos dos conglomerados midiáticos está sempre à
espreita e preparada para dar o bote quando o tema significar contrariedade aos
seus interesses econômicos e de classe. Os conglomerados midiáticos, como o
Grupo Globo, nunca estarão ao nosso lado em defesa de “um outro mundo é
possível”.
Fonte:
Por Rosângela Ribeiro Gil, em A Terra é Redonda

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