quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Autoridade pastoral e enfraquecimento da profecia

"A tradição bíblica e profética, contudo, nunca confundiu unidade com silêncio cúmplice, nem prudência com acomodação. Os profetas de Israel, assim como Jesus de Nazaré, não foram perseguidos por falta de educação ou por ausência de diálogo, mas porque ousaram desestabilizar consensos injustos e denunciar alianças entre religião e poder. Quando a profecia é sistematicamente adiada 'para depois' ou 'para outros' ela deixa de ser uma dimensão constitutiva do ministério episcopal e transforma-se em um ideal abstrato, desconectado da realidade histórica", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos), Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

<><> Eis o artigo.

Desde sempre, o poder constituiu um dos mais exigentes testes espirituais para a Igreja. A tensão entre autoridade e serviço atravessa o Evangelho e a história institucional do cristianismo. No entanto, em determinados contextos eclesiais atuais, como se observa em setores do episcopado (da Patagônia), com exceções dignas de reconhecimento, essa tensão parece ter sido resolvida de modo preocupante: não pela conversão do poder em serviço, mas pela sacralização discreta do poder como se fosse uma vocação em si mesma. Tal deslocamento não ocorre de forma abrupta ou explícita; ao contrário, manifesta-se de modo sutil, revestido de linguagem pastoral, prudência institucional e discursos reiterados sobre serviço que raramente se traduzem em práticas concretas.

Não são raras as declarações episcopais que afirmam, com convicção retórica, que a Igreja existe para servir. Isso é verdade do ponto de vista do Evangelho. Contudo, observa-se uma dissonância persistente entre discurso e prática. Servir, quando implica perda de privilégios, enfrentamento de estruturas injustas ou conflito com instâncias de poder político e econômico, passa a ser considerado excessivamente difícil demais. O poder, por sua vez, oferece recompensas imediatas: conforto, visibilidade, reconhecimento social e a sensação de relevância pública. Diferentemente do serviço evangélico, ele não exige conversão interior, mas habilidades diplomáticas, silêncio oportuno e gestos de afabilidade estrategicamente calculados. Nesse sentido, a proximidade com o poder torna-se não apenas fácil, mas funcional à manutenção de uma certa estabilidade institucional.

O contraste com o Evangelho é evidente. A cena joanina do lava-pés (cf. Jo 13,1-15) não é apenas um gesto simbólico, mas um critério hermenêutico da autoridade cristã. Jesus não redefine o poder; ele o subverte. A autoridade, no horizonte evangélico, manifesta-se na disposição de ajoelhar-se diante do outro, especialmente do mais frágil. No entanto, na rotina episcopal, a imagem que prevalece é outra: mãos bem apertadas, sobretudo aquelas que concentram influência política ou econômica. A bacia e a toalha permanecem no âmbito do símbolo litúrgico, cuidadosamente preservadas no ritual, enquanto seu conteúdo ético e pastoral é neutralizado no cotidiano das decisões e alianças.

Essa dissociação entre símbolo e prática permite que o discurso sobre humildade permaneça intacto, desde que não exija encarnação histórica. Falar de serviço não compromete; praticá-lo, sim. A retórica da humildade torna-se, assim, uma linguagem segura, porque não ameaça estruturas nem desestabiliza relações consolidadas. Nesse cenário, o poder deixa de ser questionado e passa a ser tratado como aliado necessário, quase como fonte de salvação institucional. A lógica que se impõe é clara: não se enfrenta o poder, não se o interpela, não se o incomoda. Pelo contrário, cultiva-se com ele uma relação cuidadosa, frequentemente justificada em nome da prudência, do diálogo e da unidade, conceitos teologicamente relevantes, mas que se tornam perigosamente elásticos quando utilizados para legitimar a ausência de profecia.

A tradição bíblica e profética, contudo, nunca confundiu unidade com silêncio cúmplice, nem prudência com acomodação. Os profetas de Israel, assim como Jesus de Nazaré, não foram perseguidos por falta de educação ou por ausência de diálogo, mas porque ousaram desestabilizar consensos injustos e denunciar alianças entre religião e poder. Quando a profecia é sistematicamente adiada “para depois” ou “para outros” ela deixa de ser uma dimensão constitutiva do ministério episcopal e transforma-se em um ideal abstrato, desconectado da realidade histórica.

A relação com o poder revela-se também na forma como os pobres são integrados, ou marginalizados, nos processos decisórios da Igreja. Eles continuam presentes nas homilias, nos documentos pastorais e nos discursos oficiais, mas raramente ocupam o lugar de critério efetivo. Tornam-se tema, não sujeito; objeto de reflexão, não referência concreta para a tomada de decisões. O poder, ao contrário, permanece sempre próximo, orientando prioridades, definindo agendas e organizando silêncios. Essa dinâmica produz uma Igreja que não enfrenta perseguição nem conflito, mas que, justamente por isso, corre o risco de se acomodar não ao Reino de Deus, mas às conveniências do momento histórico.

A ironia final dessa configuração é profundamente evangélica em seu paradoxo: fala-se abundantemente da cruz, mas prefere-se a segurança do palanque; prega-se o serviço, mas pratica-se a proximidade estratégica; invoca-se Jesus, mas com o cuidado permanente de que Ele não incomode demais. A cruz, reduzida a símbolo devocional, perde sua força crítica; o serviço, esvaziado de consequências, torna-se discurso inofensivo. Ajoelhar-se para servir exige conversão, desinstalação e risco. Curvar-se diante do poder, ao contrário, é muitas vezes apenas questão de hábito, protocolo e conveniência.

Diante disso, a questão que se impõe não é meramente pastoral, mas profundamente teológica e espiritual: que imagem de Igreja está sendo construída quando o poder é tratado como parceiro privilegiado e o serviço como ideal retórico? Recuperar a dimensão profética do ministério episcopal não significa negar a complexidade do diálogo institucional, mas reencontrar a coragem evangélica de colocar o Reino, e não a estabilidade, no centro. Sem essa conversão, o discurso sobre serviço continuará elegante, coerente e amplamente aceito; exatamente por isso, “perigosamente inofensivo”.

        "Teologia de ganso": a arte de formar presbíteros impermeáveis à realidade

No âmbito da formação presbiteral, tem emergido, ora perceptível de modo sutil, ora claramente, um fenômeno que pode ser pedagogicamente e simbolicamente denominado “teologia de ganso”. A metáfora se refere a candidatos que, à semelhança da ave que se desloca nadando sobre águas profundas sem jamais permitir que suas penas se molhem, desenvolvem uma postura existencial e teológica marcada pela impermeabilidade afetiva, espiritual intelectual e pastoral. Trata-se de sujeitos vocacionados que atravessam o processo formativo mantendo-se impermeáveis, insensíveis e resistentes à interpelação da realidade, da Palavra e da vida pastoral/comunitária.

Do ponto de vista acadêmico, essa postura representa uma forma de teologia não performativa, no sentido empregado por pedagogos e teólogos: conteúdos são assimilados, mas não se tornam critérios de discernimento; doutrinas são repetidas, mas não se convertem em lentes para interpretar o mundo; textos sagrados são estudados, mas não produzem verdadeira conversão pastoral. A reflexão teológica, que deveria ser um lugar de encontro entre fé e vida, acaba sendo reduzida a um repertório de ideias de uso funcional, desconectado da experiência. Tudo escorre, tudo desliza. A água nunca penetra. É uma teologia que “paira”, mas “não encarna”.

Os documentos eclesiais referentes a formação sacerdotal, sobretudo após o Concílio Vaticano II (1962-1965) e à luz da Exortação Apostólica Pastores Dabo Vobis (1992), insistem na necessidade de integrar as cinco dimensões formativas: humana-afetiva, comunitária, espiritual, intelectual e pastoral-missionária. A “teologia de ganso” revela precisamente o enfraquecimento dessa integração. O candidato pode apresentar desempenho acadêmico eficiente, mas sem deixar que o estudo o transforme interiormente; pode cumprir práticas espirituais, mas sem permitir que a oração abra ou cure feridas; pode participar de estágios pastorais, mas mantendo-se protegido da vulnerabilidade e do encontro real com as dores humanas.

Essa impermeabilidade não é apenas um estilo pessoal; é um mecanismo de defesa. A antropologia vocacional e a psicologia da religião mostram que, muitas vezes, candidatos buscam proteção na instituição ou no papel clerical para evitar o enfrentamento de suas próprias fragilidades. Assim, a teologia se torna uma armadura e não um caminho de sabedoria. A espiritualidade se converte em rito de autoafirmação e não em espaço de esvaziamento para o encontro com Deus. A pastoral se reduz a observação distante e não à participação compassiva.

Pastoralmente, as consequências são significativas. A “teologia de ganso” tende a gerar futuros presbíteros incapazes de lidar com a ambiguidade humana: têm dificuldade de ouvir relatos de pessoas quebradas e machucadas, de aproximar-se de famílias em conflito, de sustentar a fé de pessoas fragilizadas. São ministros cujo repertório doutrinal é amplo, mas cuja capacidade de presença é limitada. Na prática pastoral, esse tipo de formação produz ministros que fogem da complexidade do real. São bons em repetir fórmulas, mas fracos em discernir situações pastorais; sabem sentar-se aos pés de São Tomás de Aquino, mas não sabem sentar-se ao lado de uma família destruída; dominam rubricas, mas não compreendem os dramas humanos que se escondem atrás de cada sacramento pedido. São presbíteros que conhecem as águas de longe, mas recusam-se a entrar nelas. A comunidade reconhece neles não pastores, mas administradores de ritos; não homens de Deus, mas gestores de agenda; não servidores da comunhão, mas representantes de uma função. As águas da vida passam, mas não deixam rastro.

Sob o ponto de vista eclesial, trata-se de um fenômeno preocupante, pois contradiz o paradigma de formação de discípulos missionários, tão enfatizado pelo magistério recente. A Igreja necessita de ministros que entrem na água, que conheçam a realidade por dentro, que se deixem tocar, converter e transformar. O modelo de Cristo Pastor, que mergulha na história humana e que carrega sobre si as fragilidades daqueles que acompanha, sugere precisamente o contrário da teologia impermeável. Jesus não ensinava a partir da distância, mas da convivência; não atuava a partir da pureza exterior, mas da compaixão interior.

Por isso, superar a “teologia de ganso” exige processos formativos mais robustos, capazes de integrar maturidade afetiva, elaboração de fragilidades, acompanhamento espiritual consistente e práticas pastorais que não sejam meros exercícios protocolares. É necessário cultivar um ethos formativo em que o seminário não seja um ambiente de blindagem, mas de exposição à verdade, a verdade de Deus, a verdade da Igreja e a verdade sobre si mesmo.

A formação presbiteral precisa suscitar não apenas bons estudantes, mas homens permeáveis ao Espírito, sensíveis à voz dos pobres, atentos às dores da comunidade e dispostos a deixar-se transformar pela realidade que servem. A vocação amadurece quando as “penas” deixam de ser escudos e se tornam canais por onde Deus pode agir. Só assim a teologia se converte em sabedoria pastoral, e o ministério em sinal de esperança para o mundo.

A formação presbiteral exige precisamente isso: permitir que a água do mundo, a água da Palavra e a água das lágrimas humanas nos transformem. Em última instância, a crítica dirigida à chamada “teologia de ganso” aponta para um imperativo essencial: a necessidade de formar presbíteros cuja fé seja encarnada, cuja teologia seja vivida e cuja pastoral seja expressão concreta da misericórdia divina. Molhar-se é condição para servir. E na tradição cristã, a água que transforma, seja a do Batismo, seja a das lágrimas humanas, nunca age sobre aquilo que insiste em permanecer impermeável. Quem deseja ser presbítero sem se molhar talvez ainda não entenda que, no cristianismo, a graça nunca cai sobre penas blindadas/impermeáveis. Ela só fecunda aquilo que se deixa atingir.

 

Fonte: Por Eliseu Wisniewski, em IHU

 

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