Autoridade
pastoral e enfraquecimento da profecia
"A
tradição bíblica e profética, contudo, nunca confundiu unidade com silêncio
cúmplice, nem prudência com acomodação. Os profetas de Israel, assim como Jesus
de Nazaré, não foram perseguidos por falta de educação ou por ausência de
diálogo, mas porque ousaram desestabilizar consensos injustos e denunciar
alianças entre religião e poder. Quando a profecia é sistematicamente adiada
'para depois' ou 'para outros' ela deixa de ser uma dimensão constitutiva do
ministério episcopal e transforma-se em um ideal abstrato, desconectado da
realidade histórica", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação
da Missão (padres vicentinos), Província do Sul, mestre em Teologia pela
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
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Eis o artigo.
Desde
sempre, o poder constituiu um dos mais exigentes testes espirituais para a
Igreja. A tensão entre autoridade e serviço atravessa o Evangelho e a história
institucional do cristianismo. No entanto, em determinados contextos eclesiais
atuais, como se observa em setores do episcopado (da Patagônia), com exceções
dignas de reconhecimento, essa tensão parece ter sido resolvida de modo
preocupante: não pela conversão do poder em serviço, mas pela sacralização
discreta do poder como se fosse uma vocação em si mesma. Tal deslocamento não
ocorre de forma abrupta ou explícita; ao contrário, manifesta-se de modo sutil,
revestido de linguagem pastoral, prudência institucional e discursos reiterados
sobre serviço que raramente se traduzem em práticas concretas.
Não são
raras as declarações episcopais que afirmam, com convicção retórica, que a
Igreja existe para servir. Isso é verdade do ponto de vista do Evangelho.
Contudo, observa-se uma dissonância persistente entre discurso e prática.
Servir, quando implica perda de privilégios, enfrentamento de estruturas
injustas ou conflito com instâncias de poder político e econômico, passa a ser
considerado excessivamente difícil demais. O poder, por sua vez, oferece
recompensas imediatas: conforto, visibilidade, reconhecimento social e a
sensação de relevância pública. Diferentemente do serviço evangélico, ele não
exige conversão interior, mas habilidades diplomáticas, silêncio oportuno e
gestos de afabilidade estrategicamente calculados. Nesse sentido, a proximidade
com o poder torna-se não apenas fácil, mas funcional à manutenção de uma certa
estabilidade institucional.
O
contraste com o Evangelho é evidente. A cena joanina do lava-pés (cf. Jo
13,1-15) não é apenas um gesto simbólico, mas um critério hermenêutico da
autoridade cristã. Jesus não redefine o poder; ele o subverte. A autoridade, no
horizonte evangélico, manifesta-se na disposição de ajoelhar-se diante do
outro, especialmente do mais frágil. No entanto, na rotina episcopal, a imagem
que prevalece é outra: mãos bem apertadas, sobretudo aquelas que concentram
influência política ou econômica. A bacia e a toalha permanecem no âmbito do
símbolo litúrgico, cuidadosamente preservadas no ritual, enquanto seu conteúdo
ético e pastoral é neutralizado no cotidiano das decisões e alianças.
Essa
dissociação entre símbolo e prática permite que o discurso sobre humildade
permaneça intacto, desde que não exija encarnação histórica. Falar de serviço
não compromete; praticá-lo, sim. A retórica da humildade torna-se, assim, uma
linguagem segura, porque não ameaça estruturas nem desestabiliza relações
consolidadas. Nesse cenário, o poder deixa de ser questionado e passa a ser
tratado como aliado necessário, quase como fonte de salvação institucional. A
lógica que se impõe é clara: não se enfrenta o poder, não se o interpela, não
se o incomoda. Pelo contrário, cultiva-se com ele uma relação cuidadosa,
frequentemente justificada em nome da prudência, do diálogo e da unidade,
conceitos teologicamente relevantes, mas que se tornam perigosamente elásticos
quando utilizados para legitimar a ausência de profecia.
A
tradição bíblica e profética, contudo, nunca confundiu unidade com silêncio
cúmplice, nem prudência com acomodação. Os profetas de Israel, assim como Jesus
de Nazaré, não foram perseguidos por falta de educação ou por ausência de
diálogo, mas porque ousaram desestabilizar consensos injustos e denunciar
alianças entre religião e poder. Quando a profecia é sistematicamente adiada
“para depois” ou “para outros” ela deixa de ser uma dimensão constitutiva do
ministério episcopal e transforma-se em um ideal abstrato, desconectado da
realidade histórica.
A
relação com o poder revela-se também na forma como os pobres são integrados, ou
marginalizados, nos processos decisórios da Igreja. Eles continuam presentes
nas homilias, nos documentos pastorais e nos discursos oficiais, mas raramente
ocupam o lugar de critério efetivo. Tornam-se tema, não sujeito; objeto de
reflexão, não referência concreta para a tomada de decisões. O poder, ao
contrário, permanece sempre próximo, orientando prioridades, definindo agendas
e organizando silêncios. Essa dinâmica produz uma Igreja que não enfrenta
perseguição nem conflito, mas que, justamente por isso, corre o risco de se
acomodar não ao Reino de Deus, mas às conveniências do momento histórico.
A
ironia final dessa configuração é profundamente evangélica em seu paradoxo:
fala-se abundantemente da cruz, mas prefere-se a segurança do palanque;
prega-se o serviço, mas pratica-se a proximidade estratégica; invoca-se Jesus,
mas com o cuidado permanente de que Ele não incomode demais. A cruz, reduzida a
símbolo devocional, perde sua força crítica; o serviço, esvaziado de
consequências, torna-se discurso inofensivo. Ajoelhar-se para servir exige
conversão, desinstalação e risco. Curvar-se diante do poder, ao contrário, é
muitas vezes apenas questão de hábito, protocolo e conveniência.
Diante
disso, a questão que se impõe não é meramente pastoral, mas profundamente
teológica e espiritual: que imagem de Igreja está sendo construída quando o
poder é tratado como parceiro privilegiado e o serviço como ideal retórico?
Recuperar a dimensão profética do ministério episcopal não significa negar a
complexidade do diálogo institucional, mas reencontrar a coragem evangélica de
colocar o Reino, e não a estabilidade, no centro. Sem essa conversão, o
discurso sobre serviço continuará elegante, coerente e amplamente aceito;
exatamente por isso, “perigosamente inofensivo”.
• "Teologia
de ganso": a arte de formar presbíteros impermeáveis à realidade
No
âmbito da formação presbiteral, tem emergido, ora perceptível de modo sutil,
ora claramente, um fenômeno que pode ser pedagogicamente e simbolicamente
denominado “teologia de ganso”. A metáfora se refere a candidatos que, à
semelhança da ave que se desloca nadando sobre águas profundas sem jamais
permitir que suas penas se molhem, desenvolvem uma postura existencial e
teológica marcada pela impermeabilidade afetiva, espiritual intelectual e
pastoral. Trata-se de sujeitos vocacionados que atravessam o processo formativo
mantendo-se impermeáveis, insensíveis e resistentes à interpelação da
realidade, da Palavra e da vida pastoral/comunitária.
Do
ponto de vista acadêmico, essa postura representa uma forma de teologia não
performativa, no sentido empregado por pedagogos e teólogos: conteúdos são
assimilados, mas não se tornam critérios de discernimento; doutrinas são
repetidas, mas não se convertem em lentes para interpretar o mundo; textos
sagrados são estudados, mas não produzem verdadeira conversão pastoral. A
reflexão teológica, que deveria ser um lugar de encontro entre fé e vida, acaba
sendo reduzida a um repertório de ideias de uso funcional, desconectado da
experiência. Tudo escorre, tudo desliza. A água nunca penetra. É uma teologia
que “paira”, mas “não encarna”.
Os
documentos eclesiais referentes a formação sacerdotal, sobretudo após o
Concílio Vaticano II (1962-1965) e à luz da Exortação Apostólica Pastores Dabo
Vobis (1992), insistem na necessidade de integrar as cinco dimensões
formativas: humana-afetiva, comunitária, espiritual, intelectual e
pastoral-missionária. A “teologia de ganso” revela precisamente o
enfraquecimento dessa integração. O candidato pode apresentar desempenho
acadêmico eficiente, mas sem deixar que o estudo o transforme interiormente; pode
cumprir práticas espirituais, mas sem permitir que a oração abra ou cure
feridas; pode participar de estágios pastorais, mas mantendo-se protegido da
vulnerabilidade e do encontro real com as dores humanas.
Essa
impermeabilidade não é apenas um estilo pessoal; é um mecanismo de defesa. A
antropologia vocacional e a psicologia da religião mostram que, muitas vezes,
candidatos buscam proteção na instituição ou no papel clerical para evitar o
enfrentamento de suas próprias fragilidades. Assim, a teologia se torna uma
armadura e não um caminho de sabedoria. A espiritualidade se converte em rito
de autoafirmação e não em espaço de esvaziamento para o encontro com Deus. A
pastoral se reduz a observação distante e não à participação compassiva.
Pastoralmente,
as consequências são significativas. A “teologia de ganso” tende a gerar
futuros presbíteros incapazes de lidar com a ambiguidade humana: têm
dificuldade de ouvir relatos de pessoas quebradas e machucadas, de aproximar-se
de famílias em conflito, de sustentar a fé de pessoas fragilizadas. São
ministros cujo repertório doutrinal é amplo, mas cuja capacidade de presença é
limitada. Na prática pastoral, esse tipo de formação produz ministros que fogem
da complexidade do real. São bons em repetir fórmulas, mas fracos em discernir
situações pastorais; sabem sentar-se aos pés de São Tomás de Aquino, mas não
sabem sentar-se ao lado de uma família destruída; dominam rubricas, mas não
compreendem os dramas humanos que se escondem atrás de cada sacramento pedido.
São presbíteros que conhecem as águas de longe, mas recusam-se a entrar nelas.
A comunidade reconhece neles não pastores, mas administradores de ritos; não
homens de Deus, mas gestores de agenda; não servidores da comunhão, mas
representantes de uma função. As águas da vida passam, mas não deixam rastro.
Sob o
ponto de vista eclesial, trata-se de um fenômeno preocupante, pois contradiz o
paradigma de formação de discípulos missionários, tão enfatizado pelo
magistério recente. A Igreja necessita de ministros que entrem na água, que
conheçam a realidade por dentro, que se deixem tocar, converter e transformar.
O modelo de Cristo Pastor, que mergulha na história humana e que carrega sobre
si as fragilidades daqueles que acompanha, sugere precisamente o contrário da
teologia impermeável. Jesus não ensinava a partir da distância, mas da
convivência; não atuava a partir da pureza exterior, mas da compaixão interior.
Por
isso, superar a “teologia de ganso” exige processos formativos mais robustos,
capazes de integrar maturidade afetiva, elaboração de fragilidades,
acompanhamento espiritual consistente e práticas pastorais que não sejam meros
exercícios protocolares. É necessário cultivar um ethos formativo em que o
seminário não seja um ambiente de blindagem, mas de exposição à verdade, a
verdade de Deus, a verdade da Igreja e a verdade sobre si mesmo.
A
formação presbiteral precisa suscitar não apenas bons estudantes, mas homens
permeáveis ao Espírito, sensíveis à voz dos pobres, atentos às dores da
comunidade e dispostos a deixar-se transformar pela realidade que servem. A
vocação amadurece quando as “penas” deixam de ser escudos e se tornam canais
por onde Deus pode agir. Só assim a teologia se converte em sabedoria pastoral,
e o ministério em sinal de esperança para o mundo.
A
formação presbiteral exige precisamente isso: permitir que a água do mundo, a
água da Palavra e a água das lágrimas humanas nos transformem. Em última
instância, a crítica dirigida à chamada “teologia de ganso” aponta para um
imperativo essencial: a necessidade de formar presbíteros cuja fé seja
encarnada, cuja teologia seja vivida e cuja pastoral seja expressão concreta da
misericórdia divina. Molhar-se é condição para servir. E na tradição cristã, a
água que transforma, seja a do Batismo, seja a das lágrimas humanas, nunca age
sobre aquilo que insiste em permanecer impermeável. Quem deseja ser presbítero
sem se molhar talvez ainda não entenda que, no cristianismo, a graça nunca cai
sobre penas blindadas/impermeáveis. Ela só fecunda aquilo que se deixa atingir.
Fonte:
Por Eliseu Wisniewski, em IHU

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