O
trabalho artístico hoje
Hoje
para viver, sobreviver e criar como artista é preciso se inscrever em editais.
Disso ninguém tem dúvidas. O edital é forma majoritária, se não exclusiva, pela
qual a política pública de cultura é organizada. Diante dessa realidade,
proliferam-se por todos os lados cursos e serviços especializados em escrita de
projetos e gestão cultural, como se fosse a bala de prata para solução de
problemas.
Mas o
que esse fenômeno dos editais pode revelar do trabalho artístico? Ainda, como
ele se conecta com as condições mais amplas do mundo do trabalho atual,
plataformizado, uberizado e da gig economy?
É
sabido que o trabalho no capitalismo neoliberal é caracterizado pela
precariedade, informalidade, intermitência e flexibilidade, muitos
pensadores/as como Ricardo Antunes, Virginia Fontes e Alfredo Saad-Filho
apontam isso.
Além
dessa dimensão fundamental, há uma outra em que neoliberalismo também advoga um
discurso de maior espaço de “participação” dos trabalhadores, pedindo seu
envolvimento com a produção, buscando se apresentar como menos hierárquico,
mais colaborativo, com um trabalho com maior “autonomia”, “flexibilidade” e
“liberdade”, expressas em ideias de que o próprio trabalhador faz seus
horários, de que escolhe quando trabalhar e que pode ganhar mais se trabalhar
mais.
Nesse
processo, muito presente no trabalho plataformizado, o patrão se torna
impessoal, despersonalizado e o trabalhador se autodisciplina, exerce um poder
de controle sobre si mesmo e seu autoresponsabiliza cada vez mais.
O
trabalho artístico via editais não foge a essa regra, pois é profundamente
precário, flexível e intermitente. Os artistas precisam apostar em um jogo
concorrencial para ser contemplado, já que é comum um projeto artístico se
encerrar por falta de meios para manutenção e execução. Nessa lógica, a
incerteza, insegurança e intensificação do trabalho estão presentes.
A
gestão por metas é uma das características comuns que se assenta tanto do
trabalho artístico quanto do plataformizado, funcionando no estabelecimento de
metas pelo próprio trabalhador. Seja em cima de uma moto, num call center ou na
elaboração de um projeto cultural, o profissional é convidado a participar
ativamente da definição de suas próprias metas, dentro de algumas já
determinadas pela relação de trabalho.
Ao
estabelecer essa dinâmica o trabalhador não o faz por vontade própria, mas por
um cálculo de sua remuneração e do trabalho que precisa ser entregue. Isso
confere aparência de “liberdade” e “autonomia”, embora o que se veja é
intensificação do trabalho, extensão da jornada, competição, forte
disciplinamento para aumento de produtividade, imposição de metas
inalcançáveis, polivalência, fim do tempo de descanso, entre outras.
E tudo
isso ocorre sem qualquer contrapartida ou compromisso por parte dos
contratantes ou corporações para melhorar as condições de trabalho, como a
limitação da jornada ou o controle do ritmo de produção.
Cria-se
um mecanismo de sujeição nos quais os trabalhadores se tornam autocontroladores
de sua produção, gestores de si mesmos, mensuradas por instrumentos
sofisticados, de técnicas de avaliação objetivas e subjetivas, em uma espécie
de governo a distância. Além disso os artistas se tornam responsáveis por todos
problemas encontrados no cotidiano do trabalho: prazos, dificuldade na criação,
dialogo com público, custos materiais adicionais, entre outros.
Dessa
forma, a autodisciplina torna-se um pilar fundamental para o capital, seja na
produção de valor econômico ou simbólico. Na transição do modelo fordista, com
sua vigilância hierárquica direta, para a lógica de autonomia controlada,
vigia-se pelos resultados, por meio do controle rígido de metas. Esse poder
gerencial mobiliza a subjetividade do trabalhador, canalizando-a exclusivamente
para objetivos, resultados e critérios que privilegiam o calculável e o
rentável.
Neste
contexto, o próprio indivíduo é levado a gerir a si mesmo como se fosse uma
empresa, internalizando a lógica do mercado como princípio de sua própria
existência.
A
consequência mais perversa desse modelo é a erosão sistemática dos laços de
solidariedade, a desagregação da ação coletiva e o profundo adoecimento. A
lógica da competição individualizada se infiltra em todas as esferas possíveis,
jogando o trabalhador a navegar sozinho em um mar de incertezas.
Fonte:
Por João Rodrigo V. Martins, em A Terra é Redonda

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