Jean
Marc Von Der Weid: A pizza era maior
No
artigo “O axioma de Jucá… outra vez!”, postado no
site A Terra é Redonda, abordando as negociações do PL da dosimetria
calculei que o que Jucá chamava de “tudo” (“com o supremo, com tudo”) se
resumia, neste caso, à ampla maioria de direita e extrema direita do Congresso
e o STF. Não me passou pela cabeça que o executivo e os partidos da base fossem
chafurdar neste lodaçal antidemocrático.
Mas a
pizza, ao que tudo indica, era maior do que eu pensava, tinha mais ingredientes
para torná-la mais completa. Nas discussões na CCJ do Senado ficou claro que o
governo era parte do acordão. Os senadores críticos à redução das penas de Jair
Bolsonaro e da generalada ficaram sem suporte do PT e dos líderes da base
governamental.
A sala
de reuniões estava repleta de bolsonaristas e outros direitistas e os senadores
do PT primaram pela ausência. Renan Calheiros e Otto Alencar se esgoelaram,
denunciando o acordo que abria o caminho para Jair Bolsonaro deixar a sua cela
da PF com pompas e glórias pela porta da frente, senão para este Natal,
certamente para o de 2026.
O que
aconteceu? É claro que o PT, o único dos partidos ditos de esquerda com votos
no Senado não tinha nem tem interesse em reduzir as penas dos golpistas, seus
nove votos foram contra a dosimetria casuística. O mesmo não se pode dizer do
PSB, dito de centro esquerda, e que votou em bloco (4 votos) com o golpismo. O
outro partido dito de centro esquerda nesta casa (PDT) deu um voto contra a
dosimetria e uma ausência. Os outros 14 votos contra a dosimetria vieram de
partidos do Centrão com um pé no governo e outro na oposição: PSD (5 não e 6
sim), MDB (7 não e 3 sim), PP (1 não e 5 sim) e Podemos (1 não e 2 sim).E houve
um voto de um senador independente, Randolphe Rodrigues, contra a dosimetria.
O que
gerou o cheiro de queimado não foi a votação em plenário que teve um resultado
mais ou menos dentro do esperado, salvo o voto do PSB. O estranho foi o
comportamento dos líderes do governo e do PT na CCJ, abandonando o
enfrentamento com os bolsonaristas e fazendo um acordo para votar a dosimetria
rapidamente.
O
senador Otto Alencar tinha anunciado que iria cumprir as regras do Senado e
colocar a proposta em debate por cinco dias. Não apenas isto daria margem a uma
polêmica demarcando os campos golpistas e antigolpistas como levaria o voto em
plenária para o próximo ano, com mais tempo para a mobilização da sociedade
contra a anistia disfarçada.
Desarmar
o confronto pela aceitação sem debate do voto de urgência foi uma manobra de
esperteza ou de pragmatismo do PT e do governo. O que ganharam em troca?
Primeiro, que o voto da LDO fosse realizado em seguida, evitando levá-lo para o
próximo ano legislativo como aconteceu em 2024/2025. Ocorre que isto era mais
ou menos como arrombar porta aberta porque o Centrão e o bolsonarismo estavam
já decididos a votar a LDO com urgência pois tem como prioridade a
liberação das emendas tão cedo quanto possível em 2026 para influenciar os
votos para o Congresso.
Mais
ainda, a direita queria incluir mais gastos nas emendas parlamentares na LDO,
como aliás o fêz. O acordo pela urgência na dosimetria era desnecessário. Em
segundo lugar, o governo (via PT) negociou o apoio do Centrão ao PL que reduzia
as isenções fiscais em 10% e taxava as Bets e Fintecs, liberando 20 bilhões
para serem incluidos na LDO.
Quem
foi que bolou este acordo absurdo que desarmou a pressão contra a dosimetria?
Qual a lógica que o justificou? Ao que ficou claro depois do barulho e
protestos contra o acordo foi a decisão (não assumida pelo governo) de aceitar
a derrota inevitável sem combate em troca da urgência na LDO, ignorando as
manifestações massivas do domingo anterior. Para não ficarem mal na fita
decidiram transferir a batalha para um veto do Lula e para uma eventual decisão
contrária do STF.
Ocorre
que este último já vinha dando mostras de que não ia interferir na decisão do
Congresso, mesmo se declarando contrário ao conteúdo. Sobra o veto do Lula que
seria ou será derrubado pelo plenário do Senado.
O
senador Jacques Wagner cumpriu um triste papel de boi de piranha, justificando
o acordão como restrito ao procedimento de urgência e não sobre o conteúdo. O
argumento foi apoiado e o acordão justificado nas redes sociais pelos petistas
mais ardorosos como um ato de “realismo político” e de “pragmatismo”.
A mídia
convencional está afirmando que o pragmatismo tem objetivo estratégico para as
eleições do ano que vem. Trata-se de ter mais caixa para gastar em projetos
sociais (vale transporte e outros) e arrancar mais uns votos de setores de
baixa renda. Pode ser que esta esperteza tenha orientado o governo e o PT, mas
acho que a avaliação foi inteiramente errada.
Como
dizia o saudoso líder conservador, mas democrático, Tancredo Neves, “quando a
esperteza é demasiada ela vira um bicho que devora o esperto”.
O
governo ganha os 20 bilhões e acha que pode usar para distribuir benesses no
ano que vem e que estas benesses se traduzirão em votos para Lula. Pode até
acontecer se Lula não se desgastar neste joguinho oportunista ou “pragmático”.
Mas Lula está careca de saber, ou deveria estar, que a eleição para o Congresso
é hoje tão ou mais importante do que para a presidência da República. Com os
poderes cada vez mais ampliados da Câmara e do Senado os partidos da direita e
até o da extrema direita (PL) estão mirando mais em ampliar bancadas do que em
eleger um presidente.
Um
exemplo claro desta estratégia é a política de Valdemar Costa Neto do PL. Ele
parece preferir uma candidatura à presidência de Flávio Bolsonaro, mesmo
sabendo que as chances de derrota são maiores do que com um direitista
levemente enrustido como Tarcísio de Freitas. O mesmo cálculo é adotado pela
esfinge paulista do PSD, Gilberto Kassab.
Todos
estes oportunistas têm um fino faro para os melhores investimentos políticos.
Eles seguem pressionando o executivo para liberar emendas e mais emendas, até
as atrasadas de 2024 (3 bi) e até anteriores (1,9 bi), para lubrificar as
máquinas municipais onde a derrama sob controle dos deputados e senadores
muitas vezes representa mais dinheiro do que o orçamento dos prefeitos. Em
acordo anterior o governo se comprometeu a liberar 26 bilhões de reais em
emendas até o mês de junho de 2026.
Desde
que tenham acesso à enxurrada de recursos de suas emendas deputados e senadores
não veem problemas em negociar a liberação de recursos para o governo federal
porque acreditam que a capitalização em votos fica em grande parte restrita aos
votos do próprio Lula. Ou seja, o governo quer dinheiro (na LDO) para irrigar a
horta do Lula e o Centrão quer dinheiro (emendas) para irrigar as hortas de
cada um dos parlamentares hoje eleitos.
Esta
troca de favores entre governo e Congresso não tem tido bons resultados para
Lula, apesar dos agradecimentos feitos pelo presidente a Hugo Motta e Davi
Alcolumbre em discurso recente. A lista de derrotas do governo é longa e
chocante, mas o pior é que, salvo algumas (poucas) reações mais pesadas, os
deputados da base frequentemente engolem sapos cururus tamanhudos e votam junto
com a oposição em acordos “para evitar o pior”, tornando difícil para os
eleitores distinguirem entre direita e esquerda, entre governo e oposição. Este
esse estado de coisas não deixará de se refletir nas eleições parlamentares do
ano que vem.
Lula
tem dito repetidas vezes aos seus pares do PT que vai ser fundamental ampliar
as bancadas governistas para melhorar a correlação de forças no Congresso em
seu eventual próximo mandato como presidente. Entretanto, todo o esforço neste
sentido é perturbado pelo próprio comportamento de Lula e dos partidos da sua
coligação eleitoral. Nos últimos dias assistimos a uma manobra que bem
exemplifica a dificuldade de se apresentar uma cara distinta da direita para o
eleitorado ter o que escolher.
Lula
fez um acordo com Hugo Motta e nomeou um indicado do presidente da Câmara para
um ministério e comemorou o feito apontando para a possibilidade de rachar o
direitoso União Brasil com um terço da atual bancada apoiando a sua (do Lula)
reeleição. Pode até ser que isto aconteça, mas o preço será diluir a identidade
política do candidato e facilitar a reeleição dos trânsfugas do União Brasil.
Como melhorar a bancada progressista desta forma?
Outro
exemplo é a própria votação da dosimetria. É claro que a direita tinha votos
para derrotar a posição contrária ao favorecimento aos golpistas, mas este é um
caso claríssimo em que a opinião pública se colocou com ampla maioria (63,3%,
na pesquisa Alas/Intel) contra o refresco ao golpismo.
O
governo e os partidos de esquerda tinham tudo a ganhar junto ao eleitorado com
uma postura veemente denunciando a manobra da anistia disfarçada. Ao invés
disso, o governo e seus partidos fazem um acordão oportunista e saem lambuzados
do episódio, como já tinha acontecido na votação do PL da Blindagem.
O
acordão oportunista visava ganhar vantagens orçamentárias para o ano eleitoral.
Na justificativa do senador Jacques Wagner o governo teria 20 e tantos bilhões
a mais disponíveis, mas para que mesmo? Terá o governo alguma política social
nova para lançar em 2026? A única de que ouvi falar foi a gratuidade do
transporte urbano, mas a formulação ainda está nos primeiros passos. Benefício
para quem? Os mais pobres? Como vai ser acessado? Quanto vai custar?
Não foi
essa política ainda em gestação que o senador do PT citou, mas sim a
importância de se trazer o déficit público para um patamar “mais sustentável”.
E quem o Lula quer atrair eleitoralmente com esta mensagem? Quem bate
loucamente nesta tecla é a Faria Lima e a mídia convencional, mas a meu ver o
Lula pode zerar o déficit público e não vai ganhar nem a sombra de um apoio
para a sua reeleição.
O
empresariado brasileiro é antipetista e antilulista de carteirinha e por isso
mesmo apoiou o “mito” sem piscar e vai repetir a dose na próxima eleição, seja
quem for o candidato contra o Lula.
A
tentativa de provar para o empresariado que os governos petistas foram muito
mais benéficos para o nosso capitalismo tupiniquim do que qualquer outro chega
a ser patético. Não deixa de ser verdade o muito de benesses que foram
concedidas aos mais variados setores, em particular o agronegócio, mas os
malvados ruralistas continuam odiando o seu benfeitor e dando corda (e
dinheiro) para o golpismo.
É esta
conciliação permanente que torna difícil diferenciar este governo e os partidos
que o apoiam da direitalha de oposição (mas também dentro do governo!) que
busca derrotá-lo no ano que vem. A política de Lula sempre foi a de tentar
agradar todo mundo, distribuindo benesses para os pobres, mas gastando muito
mais com os ricos. E o complicado é que os pobres nem sempre percebem o quanto
foram apoiados e, mais ainda, nem sempre são agradecidos. As pesquisas mostram
o quanto o Lula perdeu de seguidores entre os mais pobres e talvez isto se
explique pelo fato de que outras fontes de benesses estão cada vez mais
presentes para concorrer com o governo federal.
As
eleições de 2024 foram muito claras ao mostrar a correlação entre a derrama de
emendas e o voto, com clara manifestação favorável à direita e aos prefeitos e
vereadores incumbentes. É verdade que uma eleição municipal se presta mais do
que uma nacional para o exercício deste tipo de influência, mas o importante é
notar o quanto as máquinas eleitorais estão sendo azeitadas nos municípios
pelos fundos amealhados pelo Congresso.
A
tendência é a renovação dos mandatos da maioria direitosa atual. Sem uma forte
denúncia do comportamento oportunista, corrupto e antipovo desta maioria o
eleitor vai olhar para o conjunto dos candidatos ao Congresso e ter
dificuldades de ver diferenças notáveis e acabar votando em quem lhe aportou
algo lá onde ele mora.
Enquanto
escrevia este texto o Congresso votou a Lei de Diretrizes Orçamentárias e se
deu um presente de Natal de 11 bilhões que vem se somar aos 50 bi já previstos
e orçados desde 2025 e aos 5 bi do fundo eleitoral. Este fundo eleitoral
recebeu um aumento de 400% ou 4 bi a mais. O total das benesses auto
presenteadas pelo Congresso chegam a 65 bilhões de reais, sendo que 15 bi foram
incluidos na proposta do relator nas negociações do Congresso.
Estes
15 bilhões a mais foram tirados dos recursos previstos para os seguintes
programas: Auxílio gás – 300 milhões; Pé de meia (educação) – 436; Seguro
desemprego – 391; Abono salarial – 207; Farmácia popular – 500; Bolsas da CAPES
– 300; Universidades – 500; Benefícios previdenciários – 6,2 bilhões.
Estes
cortes pesados em programas de interesse social chegaram a 8,834 bilhões e não
consegui saber de onde foram tirados os outros quase 7 bilhões que completaram
a farra dos 15 bilhões a mais dirigidos para a reeleição dos deputados e
senadores, alcançando a espantosa soma total de 66 bilhões. Aparentemente, os
20 bi ganhos no PL das isenções e Bets/Fintecs foram em boa parte comidos no
aumento dos recursos para as emendas e fundo eleitoral.
A
votação foi simbólica, o que indica um acordo de lideranças para aprovar a LDO.
Em outras palavras, todos os partidos, da extrema direita até a esquerda se
lambuzaram nesta votação escandalosa.
Para
que se tenha uma ideia do peso dos gastos com emendas e fundo eleitoral basta
comparar com o orçamento total dos 19 ministérios menos aquinhoados na LDO, que
chegou a 65 bilhões, um bilhão a menos do que os recursos dirigidos para
deputados e senadores.
Entre
estes ministérios menos aquinhoados (com orçamentos entre 12 bilhões e 203
milhões) encontramos, em ordem decrescente de valores, o da Agricultura e
Pecuária, Minas e Energia, Desenvolvimento Agrário, Cultura, Meio Ambiente,
Turismo, Esporte, Microempresas, Portos e Aeroportos, Pesca, Desenvolvimento,
Indústria e Comércio e outros sete de menor peso.
Apenas
os ministérios da Previdência, Desenvolvimento, Assistência Social e combate à
Fome, Saúde, Educação, Defesa, Integração e Desenvolvimento Regional e Trabalho
tiveram orçamentos maiores do que os recursos dirigidos para emendas e fundo
eleitoral somados. Ministérios como Justiça (26 bi), Fazenda (23), Transportes
(19), Cidades (17), Ciencia e tecnologia (15) todos com importância estratégica
para o país ficaram longe dos 65 bilhões que os congressistas doaram para si
mesmos.
E para
completar o nosso descalabro orçamentário, o mais alto valor incluído na LDO
foi para o pagamento do refinanciamento da dívida pública, 1,83 trilhão que vai
para o bolso dos rentistas.
Não sei
se o presidente Lula vai vetar este escárnio com o dinheiro público ou se vai
fazer mais um agrado para seus “amigos”, Motta e Alcolumbre. É improvável que
exerça o poder de veto (que ele sabe que será derrotado), já que houve um
acordo entre todos os partidos para votar esta LDO, os da oposição e os da base
governista.
Mas
mesmo que Lula marque uma posição contrária aos cortes em programas sociais de
alta sensibilidade para poder culpar o Congresso quando ele derrubar o seu
veto, a capitalização política ficará com ele. Os partidos governistas, mais
uma vez, estarão malvistos junto com a oposição aos olhos do eleitorado. Como
pedir votos para ganhar força no Congresso depois deste papelão?
Com
rios de dinheiro disponíveis para irrigar as bases eleitorais da maioria
direitista (e da minoria de esquerda) o jogo eleitoral, no que concerne a
Câmara e o Senado, vai se dissociar do voto para a presidência da República e
caminharemos para mais 4 anos com Lula prisioneiro da mediocridade, da
fisiologia e do direitismo do Congresso.
Lula
segue confiando em fazer gastos de impacto positivo na economia, no emprego, na
renda e nos programas sociais neste seu último ano de governo. Ele parece
confiar na sua capacidade de puxar os votos para deputados e senadores para
eleger os seus fiéis, mas esta estratégia está condenada pela incapacidade
demonstrada pela base parlamentar governista de se demarcar do pântano da
maioria fisiológica e direitista, amarrada nos acordos de “governabilidade”
promovidos pelo próprio governo.
Com
esta mediocridade política dominante teremos, na melhor das hipóteses, a
eleição de Lula e de um Congresso tão ruim ou pior do que o atual. Haddad
pretende se afastar do ministério da Fazenda para coordenar a elaboração de um
plano de governo ambicioso para o próximo quatriênio, voltado para as
necessidades de um desenvolvimento sustentável e inclusivo.
Pode
até gerar um bom projeto de país, mas como convencer o eleitor que os partidos
da base governista poderão executá-lo depois de anos se lambuzando em acordos
confusos com a direita majoritária? Pobre país!
Fonte: A
Terra é Redonda

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