80%
dos países já dessalinizam água do mar para uso — inclusive o Brasil
Há
alguns anos, Muhammad Yaqoob Baloch e sua família quase abandonaram a casa onde
viviam em Keti Bandar, no sul do Paquistão, depois que rios e poços secaram.
Ficou
difícil encontrar água para beber, e as colheitas passaram a fracassar
repetidamente.
"Pessoas
de Nova Deli, de Mumbai e da China costumavam vir comprar nosso arroz, trigo e
legumes", diz Baloch, que também é agricultor. "Mas mais de 50 mil
hectares de nossas terras se tornaram improdutivas."
Muitos
moradores abandonaram as terras herdadas de suas famílias, e Baloch esteve
prestes a fazer o mesmo até que o governo inaugurou uma usina de dessalinização
e passou a produzir água potável a partir do mar da Arábia.
Hoje,
muitos dos que ainda vivem na região conseguem se sustentar com a criação de
caranguejos em canais de irrigação, agora tomados por água salgada, enquanto
continuam a cultivar o que é possível.
O
Paquistão é um dos vários países do mundo que ampliaram a dessalinização da
água do mar, à medida que o aquecimento global torna a água doce cada vez mais
escassa.
Até
pouco tempo atrás, a prática se restringia, em grande parte, a países ricos e
áridos do Oriente Médio, mas o aquecimento global mudou esse cenário.
Segundo
a Global Water Intelligence (GWI), empresa que fornece análises de mercado para
o setor de água, cerca de quatro em cada cinco países (80%) hoje produzem água
do mar dessalinizada para consumo humano e outros fins, e o número só aumenta.
Segundo
o levantamento, o Brasil registrou um aumento de 189% na quantidade de água do
mar dessalinizada entre 2010 e 2025, chegando a 1,4 bilhão de litros por dia.
Entre
as iniciativas em operação no país está uma planta no Espírito Santo, erguida
por uma siderúrgica que usa a água dessalinizada em seu processo industrial.
Há
projetos em andamento para construção de usinas de dessalinização no litoral de
São Paulo, em Ilhabela, e na capital do Ceará, Fortaleza, ambas para consumo
humano da água dessalinizada.
Nesse
último caso, ideia que causou polêmica em 2023 por causa do local então
escolhido para a obra, muito próximo dos cabos submarinos que conectam o Brasil
com o resto do mundo e compõem a rede de internet do país.
Diante
da repercussão negativa entre especialistas e empresas de telecomunicações, o
governo cearense mudou o local do empreendimento.
Em
países como Kuwait, Omã e Arábia Saudita, mais de 80% do abastecimento de água
agora vêm da dessalinização, seja da água do mar, seja de fontes subterrâneas
de água salobra — aquela que tem mais sais dissolvidos do que a água doce, mas
menos do que a água do mar.
Durante
o recente ataque de Israel e dos Estados Unidos às instalações nucleares do
Irã, autoridades do Catar expressaram preocupação com a possibilidade de
contaminação do Golfo, que hoje é a principal fonte de água do Catar, dos
Emirados Árabes Unidos e do Kuwait.
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Por que não há água doce suficiente?
Aqui
está o problema. Quase dois terços (67%) da superfície do planeta são cobertos
por água. No entanto, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), apenas
0,5% desse total é água doce utilizável, e mesmo essa parcela vem diminuindo
rapidamente por causa do aumento das temperaturas e das secas.
Em
relatório divulgado em 2023, a Comissão Global sobre a Economia da Água alertou
que pode haver um déficit de 40% na oferta até 2030, enquanto a população
mundial deve chegar a 9,7 bilhões em 2050.
Corrupção
e má gestão dos recursos hídricos também contribuíram para a escassez aguda de
água em muitos países.
Como os
oceanos concentram mais de 95% da água do mundo, muitos defendem que a água do
mar seja uma possível resposta, embora sua participação no uso global total de
água ainda seja bastante limitada.
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Expansão global
Usinas
de dessalinização surgiram em mais de 20 mil locais ao redor do mundo, quase o
dobro do registrado há dez anos, segundo estudos.
"O
mercado de dessalinização deve acelerar o crescimento nos próximos cinco anos,
impulsionado principalmente pelo Oriente Médio e Norte da África, pela
Ásia-Pacífico e por alguns países da Europa", afirma Estelle Brachlianoff,
CEO da Veolia, uma das principais empresas internacionais de água com atuação
na área de dessalinização.
Dados
reunidos pela GWI mostram que cerca de 160 países já têm usinas de
dessalinização que tratam água do mar.
Em
média, 60% da água produzida é destinada ao abastecimento público de água
potável, segundo a entidade.
"A
dessalinização já está ajudando muitos países a lidar com o estresse hídrico
crônico", diz Rachael McDonnell, diretora-geral adjunta do Instituto
Internacional de Gerenciamento de Água (IWMI, na sigla em inglês), organização
de pesquisa dedicada à segurança hídrica.
"Embora
a dessalinização não seja uma solução milagrosa para todas as regiões propensas
à seca, ela já desempenha um papel fundamental ao ajudar muitos países a
reforçar sua segurança hídrica diante da estiagem e do aumento da
demanda."
A GWI
estima que o setor cresce a uma taxa superior a 10% ao ano.
Segundo
a organização, nos últimos 15 anos a produção de água potável dessalinizada
aumentou de forma significativa em mais de 60 países, em todas as regiões do
mundo.
O
levantamento mostra que, enquanto muitos deles registraram aumentos de duas,
três ou até quatro vezes — Singapura, por exemplo, teve crescimento de 467% —,
outros tiveram uma expansão ainda mais expressiva, de 10 a 50 vezes.
A
Arábia Saudita é o país que mais produz água do mar dessalinizada: 13 bilhões
de litros por dia — volume suficiente para encher 5.200 piscinas olímpicas,
segundo a GWI.
Bangladesh,
Índia e Paquistão usam a tecnologia de dessalinização não apenas para a água do
mar, mas também para tratar água salobra em áreas onde o avanço do mar
contaminou a água subterrânea.
Já o
Afeganistão emprega a técnica para dessalinizar águas subterrâneas que são
salobras por outras razões.
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Como funciona a dessalinização?
A
dessalinização é feita principalmente de duas maneiras.
A
primeira, mais comum e energeticamente mais eficiente, é a osmose reversa, que
consiste em aplicar pressão para forçar a passagem da água por uma membrana
semipermeável, que retém o sal e outras substâncias químicas.
O
segundo método é a dessalinização térmica. Nesse processo, a água do mar ou a
água salobra é aquecida; em seguida, ela evapora, e o vapor condensado é
recolhido como água doce.
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Custo
Tradicionalmente,
a dessalinização é uma tecnologia cara, mas o uso de fontes renováveis de
energia mais baratas e o aumento da eficiência reduziram os custos nos últimos
anos.
Segundo
especialistas, o custo de produção da água dessalinizada caiu até 90% desde
1970.
Pesquisa
do IWMI aponta que a combinação da dessalinização com energia solar pode
torná-la ainda mais viável economicamente até 2040 em muitas áreas costeiras.
Ainda
assim, uma grande usina de dessalinização com capacidade para produzir 500
milhões de litros de água por dia exige um investimento de cerca de US$ 500
milhões (aproximadamente R$ 2,7 bilhões), de acordo com a Veolia.
Outro
custo relevante é o transporte da água do mar dessalinizada para regiões secas
no interior.
"Nos
países em desenvolvimento, os custos continuam sendo um obstáculo", afirma
Shakeel Hayat, especialista em mudanças climáticas, água, saneamento e higiene
da WaterAid, organização internacional que ajudou a instalar cerca de 100
pequenas usinas de dessalinização no Sul da Ásia.
"Para
muitos [desses] países, usinas de pequeno porte e movidas a energia solar,
voltadas à transformação de água salobra em água potável, são mais viáveis do
que grandes projetos de dessalinização da água do mar."
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O problema da salmoura
Um dos
maiores desafios do processo de dessalinização é o descarte da salmoura — a
água altamente concentrada em sal que sobra após a retirada da água potável.
O
despejo dessa salmoura de volta ao mar aumenta a salinidade e a temperatura da
água e pode afetar gravemente os ecossistemas marinhos, chegando a criar zonas
mortas ao redor dos pontos de liberação.
"Na
maioria dos processos de dessalinização, para cada 1 litro de água potável
produzido, são gerados cerca de 1,5 litro de líquido poluído com cloro e
cobre", afirmou o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
"Se
não for devidamente diluída e dispersa, essa descarga pode formar uma pluma
densa de salmoura tóxica, capaz de degradar ecossistemas costeiros e
marinhos."
Cientistas
já mediram efeitos negativos significativos sobre corais e algas no Golfo de
Aqaba, que separa o Egito da Arábia Saudita.
Apesar
desse custo ambiental, a expansão da dessalinização não parece perder força em
quase todas as regiões de um mundo que aquece rapidamente e enfrenta escassez
crescente de água.
Fonte:
BBC Word Service

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