Canavieiras:
Por uma educação para os povos tradicionais
Quase
todos os dias, as crianças da comunidade pesqueira e marisqueira de Campinhos,
na Reserva Extrativista de Canavieiras, passam horas brincando nas praias e nas
águas dos canais que cortam a região. Seus olhos curiosos observam diariamente
os mais velhos retornando da pesca em seus barcos, em um cenário que reflete um
modo de vida que há gerações se mantém em profunda conexão com a natureza.
Tradicionalmente, ao lado dos mais velhos, as crianças da comunidade não só
aprendem sobre a sua história, sobre a pesca e a proteger o território, mas
também a lutar por uma vida digna na sua comunidade.
Hoje,
contudo, para defender seu modo de vida tradicional, as crianças sabem que,
além de aprender o modo de vida dos mais velhos, precisam também estudar na
escola. O direito de todos à escola é assegurado pela Constituição de 1988.
Apesar disso, tal realidade ainda não alcança plenamente crianças de
comunidades pesqueiras como Campinhos. “Eu não tive a chance de estudar, mas
quero que os jovens da nossa comunidade possam ir para a universidade”, diz
João Santana, líder comunitário de Campinhos, conhecido como João Barba. Seu
rosto, marcado pela luta incessante ao longo dos anos, carrega a sensibilidade
de quem vivenciou o peso das inúmeras ameaças enfrentadas, além de revelar uma
memória coletiva imersa em desafios. Para João Barba, a preservação ambiental
da região passa pela luta pela educação.
O
pescador conta que o avô dele foi um dos primeiros a estabelecer raízes naquele
território que, hoje, é Campinhos: “Aqui é uma área remanescente de escravos”.
Segundo ele, a comunidade busca atualmente o reconhecimento de seu território
como quilombo.
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“A terra e o território são parte da gente, e por isso a gente tem que se
orgulhar”
Segundo
relatos das lideranças, as especificidades culturais e tradicionais das
populações que habitam a Resex Canavieiras têm sido ignoradas no ambiente
escolar, contribuindo para um processo de marginalização e desvalorização de
suas identidades. “A gente tem um processo educacional nas comunidades que ele
é excludente, ele não fala da história do território”, critica Lilian Santana,
líder da Rede Mulheres da Comunidade de Campinhos.
“[Nas
escolas] não falam por que a gente tem uma unidade de conservação, que a gente
chama de Resex, não falam da importância da pesca artesanal, não falam da
importância do pescador e da pescadora na cadeia produtiva, na renda e na
proteção do território”, continua ela. “Não fala sobre educação ambiental. Nem
se faz o histórico da comunidade, por que você vive aqui, por que você está
nessa comunidade? Por que nós somos pescadores? Por que nós trabalhamos com a
agricultura familiar? Porque a terra e o território são parte da gente e por
isso a gente tem que se orgulhar.”
Em
busca de melhorar a qualidade do ensino na escola municipal existente no
Campinho, Lilian conta que as lideranças já buscam há anos o diálogo com a
prefeitura, em vão:
“Aqui
não tem diálogo com o município, e todo diálogo que a gente busca com o
município, nós somos sempre taxados como encrenqueiros. Nós chamamos eles,
fazemos reuniões, colocamos em ata, levamos as ideias, as sugestões e as
soluções. E eles falam, ‘nós vamos dar retorno’, e isso tem um ano, dois anos,
três anos e ninguém dá retorno, só dizem que seguem uma regra que é aplicada
pelo MEC [Ministério da Educação] e não podem mudar”.
Uma das
saídas alternativas que se vem buscando, segundo ela, é buscar o apoio
estadual: “Eu tenho esperança de que a gente tenha uma extensão de um colégio
estadual aqui na comunidade. As comunidades contribuem com a cultura, com a
história e com a tradição do município. [É preciso] que a educação daqui seja
uma educação adequada à nossa realidade, essa é minha esperança”, afirma.
Antônio
Bispo dos Santos Junior, Agente Pastoral do Conselho Pastoral dos Pescadores
(CPP) na região do Baixo Sul da Bahia, aponta que essa realidade é geral no
país entre as comunidades de pescadores:“Infelizmente, no Brasil todo, temos
uma educação voltada principalmente para que os jovens sejam empregados de
alguém a vida toda. É preciso uma educação que consiga emancipar, consiga
ampliar, uma educação que faça pensar”.
“O
poder público considera que essas comunidades são as responsáveis por fornecer
mão de obra barata”, continua ele.
“Grande
parte dessas comunidades pesqueiras estão localizadas em locais turísticos, e a
escola vai formando esses jovens para um emprego mal remunerado e, para isso,
não precisa de muita qualificação. A escola, na verdade, acaba reforçando a
desesperança.”
A
pedagoga Eliana Póvoas destaca que há uma luta histórica das comunidades
quilombolas e indígenas para que suas culturas sejam incluídas nos currículos
escolares. Ela explica que, de modo geral, as escolas que não estão no meio
urbana são precarizadas:
“No
país há uma divisão que acaba por desqualificar o campo, entre urbano e rural.
Que acaba sempre achando que a educação do campo, que a educação camponesa como
aquela que não requer as mesmas qualificações do que a urbana”.
“Como
exemplo, salas multisseriadas, professores em disfunção das suas formações.
Acontece nas escolas urbanas também, de um professor de geografia trabalhar com
biologia, mas, nas escolas camponesas, nas escolas do campo, isso é regra”, diz
Póvoas, que é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ensino e
Relações-Étnico-Raciais (PPGER) na Universidade Federal do Sul da Bahia.
Atualmente,
cerca de 52 crianças da RESEX de Canavieiras enfrentam o desafio diário de
atravessar o rio de catamarã para chegar à escola do município. O barco
disponibilizado pela Prefeitura Municipal de Canavieiras para o transporte das
crianças é um catamarã, uma embarcação para o turismo e inapropriada para o
transporte escolar.
O
professor da UFSB, Paulo Dimas, coordenador do grupo de pesquisa Comunidades
e(m) Autonomia no Sul da Bahia, diz que fazem falta políticas nacionais para
educação em comunidades tradicionais como as de pescadores e marisqueiras.
“Além da comunidade indígena, que conquistou a possibilidade de uma educação
diferenciada, nenhuma outra comunidade tradicional conseguiu também um plano
nacional”, comenta ele.“Quase toda a educação nacional, à exceção de algumas
comunidades indígenas, ela é dada apenas do ponto de vista do Estado Nacional,
da Nação única Brasil, o que é para mim um erro gravíssimo. As estruturas do
Estado, do MEC, das Secretarias de Educação estaduais e municipais são todas
baseadas na estrutura de colonização, na estrutura de dominação, de transformação
e na apropriação da cultura desses povos”.
Kátia
Bacelar, moradora de Campinhos, é mãe de dois estudantes e sonha com um futuro
melhor para os filhos. Com uma expressão de angústia, ela conta das
dificuldades que as crianças enfrentam diariamente para ir à escola: atrasos
frequentes do barco que leva à escola na cidade, além de obstáculos adicionais
para crianças com necessidades especiais: “Minha filha é especial.
Principalmente para ela é pior ainda porque tem as limitações dela também, né?
Aí os outros têm que tá pegando no colo para colocar no barco que é muito alto
para subir. Eu só tenho paz mesmo quando vejo que a barca chega. Se tivesse o
colégio aqui como eles prometem, mas não fazem, seria mais fácil, né?”
“O
pensamento da minha filha é terminar o estudo e cursar uma faculdade. O sonho
dela é esse e o meu também. Ela gosta muito de estudar, ela não gosta de perder
a aula nem no tempo de chuva. Quantas vezes ela chegou aqui com o material
molhado, roupa molhada, é sofrimento”, completa Kátia.
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Dificuldades com o município
As
Reservas Extrativistas (Lei 9.985/2000) visam proteger a cultura e os modos de
vida das comunidades tradicionais, promovendo a conservação dos recursos
naturais e o desenvolvimento sustentável.
No sul do estado da Bahia, destacam-se três Reservas Extrativistas do
bioma marinho costeiro: a Reserva Extrativista Corumbau, a Reserva Extrativista
de Cassurubá e a Reserva Extrativista de Canavieiras, criada em 2006.
Segundo
o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo IBGE, a Resex de Canavieiras conta
com 232 crianças e jovens em idade escolar (entre 5 e 19 anos). O levantamento
também revela que há 12 moradores (entre 15 e 29 anos), 108 (entre 30 e 59
anos) e 65 (com 60 anos ou mais) que não sabem ler nem escrever.
“Seria
ideal que essas crianças e jovens tivessem uma educação diferenciada, seria
interessante que inserisse na educação a questão ecológica, questão da
preservação dos animais marinhos, né?”, questiona Antônio Bispo dos Santos
Junior, agente Pastoral do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) na região do
Baixo Sul.
“As
comunidades têm que ser protagonistas. Ter um jovem da comunidade, formado em
engenheira de alimentos, engenharia de pesca, por exemplo. Tendo uma estrutura
fortalecida de turismo de base comunitária, o jovem não ia querer sair para
trabalhar em outro lugar. São os jovens que vão contar a história da
comunidade, vão fortalecer a cultura deles. Tem muito preconceito, racismo, as
pessoas acham que pesca é um trabalho menor”, completa ele.
Katilane
Santana Bezerra, 19 anos, filha de Kátia Bacelar, é uma das jovens que estuda
na escola do município. Ela sonha com uma realidade diferente para os jovens da
Resex: “Seria muito bom se a gente estudasse aqui na nossa comunidade. Íamos
prestar mais atenção nas aulas e não ia e não íamos sentir tanto cansaço como
sentimos”.
“O que
eu sonho muito para minha comunidade é uma escola que fosse até o terceiro ano
do ensino médio com todos os professores, um posto de saúde, um local de cursos
para jovens e adultos, uma escola para pessoas adultas que não tiveram
oportunidade de estudar e não tiveram alfabetização. Ajudaria muito os adultos
da comunidade que não aprenderam a ler e escrever e também aqueles que não
conseguiram terminar os estudos. Sou uma menina muito sonhadora, e um dos meus
sonhos é terminar os meus estudos e fazer uma faculdade”, completa Katilane.
Buscamos
contato com a Secretaria de Educação de Canavieiras para discutir a
possibilidade de uma embarcação adequada e segura que permita o acesso das
crianças das comunidades da Resex à escola do município, bem como para
perguntar sobre o planejamento de construção de escolas nas próprias
comunidades. Até o fechamento desta reportagem, não obtivemos retorno.
Fonte:
Por Aline Valente e Rafael Silva, em Outras Palavras

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