Jamil
Chade: Fim de sanções de Trump e OEA enterraram plano bolsonarista de
classificar Brasil como ‘ditadura’
O plano
era ambicioso: forçar a viagem de uma relator da Comissão Interamericana de
Direitos Humanos ao Brasil para comprovar que existia uma suposta ditadura no
país. Com esse informe, portanto, a ala mais radical do bolsonarismo
percorreria o mundo alertando sobre o fato de que estavam sendo perseguidos,
que o Brasil estava se transformando numa “nova Venezuela” e que sanções
deveriam ser adotadas.
Justificariam
que nunca existiu um golpe e que as prisões de seus líderes são arbitrárias.
Mas
nada disso funcionou. No último dia 26, sem alarde, a Comissão Interamericana
de Direitos Humanos publicou seu informe sobre a liberdade de expressão no
Brasil e concluiu – sem surpresas – que não há uma ditadura no país e nem a
censura generalizada contra movimentos políticos.
Semanas
antes, a tese promovida por Eduardo Bolsonaro pelo mundo sobre o suposto
“regime de exceção” no Brasil já havia sido duramente abalado com a decisão de
Donald Trump de retirar sanções contra Alexandre de Moraes.
Agora,
com exclusividade ao ICL Notícias, autoridades brasileiras e estrangeiras
contam como o sonho bolsonarista se transformou em um pesadelo para os
golpistas, com um informe que, ao ser publicado, constatou que a democracia
está vigente no Brasil.
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A origem
Tudo
começaria ainda em 2024, com articulações de grupos bolsonaristas e alianças
com entidades de extrema direita nos EUA, como a ADF – classificada nos EUA
como organização disseminadora de ódio. Aos poucos, foi construída a estratégia
de vender ao mundo a ideia de que o Brasil estaria vivendo um “regime
autoritário”, que a eleição de Lula teria sido duvidosa, que a censura estaria
em vigor e que haveria uma perseguição política.
Se
parte da ofensiva ocorria nos bastidores do poder em Washington, a estratégia
montada previa a criação e a manipulação de um informe internacional que, ao
criticar o Brasil, serviria de cartão de visita e chancela aos bolsonaristas
para percorrer as capitais do Ocidente em busca de simpatia, apoio, refúgio e
dinheiro.
O
caminho escolhido foi a Comissão Interamericana, entidade que depende
fortemente de recursos americanos.
E,
dentro do órgão regional, a opção foi a de focar as energias sobre o relator de
Liberdade de Expressão, Pedro Vaca.
Inicialmente,
ele havia causado espanto no governo brasileiro ao aceitar realizar uma
audiência em Washington onde reuniria tanto jornalistas profissionais alvo de
violência no Brasil como as demandas da extrema direita de que estaria sendo
alvo de censura.
O seu
projeto conseguiu ser evitado. Mas, em troca, foi costurada uma visita de Vaca
ao Brasil. O temor do governo era de que o relator assumisse uma tese
“absolutista” da liberdade de expressão, desconhecendo as manobras da extrema
direita nacional.
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Uma missão repleta de tensão
A
tensão marcaria a missão do relator desde seu desembarque no país, há quase um
ano.
Enquanto
ele se reunia com diversas autoridades, Eduardo Bolsonaro percorria gabinetes
de congressistas da base de Trump em Washington para pedir apoio. Na preparação
para a viagem, esses congressistas escreveram uma carta para a Comissão
Interamericana colocando pressão. Segundo eles, se a relatoria de Vaca não
lidasse com a censura contra os bolsonaristas, eles exigiriam que Trump
encerrasse os repasses para o órgão. Sem esse dinheiro, a OEA estaria
paralisada.
Fontes
da sociedade civil, governo e STF consultadas pelo ICL admitiram que a viagem
tinha o potencial de ser “um desastre” se fosse sequestrada pelo bolsonarismo.
Até
então, o governo brasileiro mantinha apenas uma relação protocolar com a
relatoria da Comissão Interamericana. Foi um trabalho nos bastidores por parte
da sociedade civil que permitiu a aproximação. A percepção de ativistas era de
que apenas um comportamento mais aberto por parte do governo Lula permitiria
que a relatoria se sentisse confortável para indagar e, eventual, avaliar de
forma equilibrada o país.
E o
trabalho surtiu efeito. Mauro Vieira, o chanceler, se reuniu com Vaca e
reafirmou o compromisso do Brasil com a liberdade de expressão e o combate à
desinformação.
No STF,
uma reunião com os ministros Luis Roberto Barroso e Alexandre de Moraes também
receberam o relator, algo raro em visitas de missões internacionais. A ideia
era de que Vaca se sentisse respeitado, diante da atitude do Supremo de prestar
contas.
Uma das
atividades das autoridades brasileiras foi a de desmascarar quem eram os
bolsonaristas. O relator recebeu, por intermédio do Ministério de Relações
Exteriores, um dossiê onde estavam recortes e prints de publicações de extrema
direita atacando Vaca.
O
recado a ele foi claro: o que está sendo feito contra você é o mesmo que o
bolsonarismo promove contra juízes e autoridades que se recusam a ceder.
A
viagem também foi marcada por tentativas de manipulação. Na reunião que manteve
com parlamentares bolsonaristas, a delegação da Comissão Interamericana foi
surpreendida com a acusação dos deputados de que o órgão estava atuando para
censurá-los. O incidente ocorreu quando as equipes de deputados e senadores
bolsonaristas pressionaram a OEA a suspender seu protocolo usado há anos em
toda a América Latina e permitir que a reunião fosse filmada.
Com as
imagens, esses deputados transformaram suas participações em verdadeiros shows
nas redes sociais. Para muitos, Vaca sentiu na pele a agressividade dos
bolsonaristas.
Outro
fato que marcou a visita foi a transformação de uma de suas declarações à
imprensa como instrumento para a extrema direita. Na saída de uma das reuniões,
Vaca declarou a um jornalista que estava “impressionado” com os informes. A
notícia replicada pela extrema direita era de que ele teria ficado
impressionado com os informes da suposta censura que eles tinham apresentado
para Vaca.
Horas
depois, Vaca desmentiu a versão bolsonarista e afirmou que uma ditadura não
recebe um relator. Ele sequer havia dado a declaração na saída de uma reunião
com a extrema direita. Assustada, a equipe do relator entendeu que havia
ocorrido uma tentativa deliberada de manipulação.
A
constatação é de que ele experimentou em primeira mão a confusão deliberada que
é promovida pela extrema direita entre informação e desinformação.
Outra
estratégia da sociedade civil foi a de garantir que a agenda de Vaca não se
limitasse ao debate promovido pelos bolsonaristas. Para isso, os encontros dele
com ativistas, organizações e especialistas apontaram como aqueles que se dizem
vítimas da censura são, de fato, agentes de censura.
A
Abraji, por exemplo, fez levantamento de ataques contra jornalista pela extrema
direita e entregou o documento para Vaca.
Um dos
encontros ainda considerados como fundamentais foi com os parlamentares que
fizeram parte da Comissão de Inquérito do 8 de Janeiro. Na reunião, Vaca
recebeu relatos de como existe uma indústria da desinformação que funciona não
apenas no caso da democracia, mas também relação às vacinas e tantos outros
temas.
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Pressão de Marco Rubio
A
pressão, porém, não terminou com o fim da viagem. O escritório de Vaca passou a
ser alvo de pressões, tanto por parte da extrema direita brasileira como
americana. Em meados de 2025, quando o governo de Donald Trump começava a
desenhar a aplicação de sanções contra o ministro Alexandre de Moraes – hoje
retiradas – a Comissão Interamericana foi consultada pela diplomacia americana
sobre os prazos para a publicação do informe sobre o Brasil.
Washington
queria saber, no fundo, se poderia usar uma eventual conclusão negativa do
informe como base para justificar a imposição da Lei Magnitsky contra
autoridades brasileiras.
O
governo brasileiro também mandou seus recados, alertando à Comissão que
sucumbir à pressão americana revelaria o fim da independência do órgão que já
teve um papel histórico na defesa dos direitos humanos no Hemisfério.
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Governo e sociedade civil comemoraram informe
Vaca
optou por esperar. A “química” entre os presidentes Lula e Trump também abriu
caminho para que seu informe não fosse alvo de uma disputa maior ou que se
mandato fosse atacado por Marco Rubio.
Ainda
que estivesse pronto há semanas, a escolha da publicação em meio às festas do
final de ano também serviu para tentar não causar ainda mais polêmica. Ainda
assim, Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo e aliados do bolsonarismos tentaram,
sem êxito, apresentar o informe como uma suposta vitória de seu campo. Mas não
conseguiram evitar que vozes dentro da própria extrema direita tenham admitido
a derrota.
Um ano
depois da visita, o sentimento entre membros da sociedade civil e governo
brasileiro é de alívio. Para diversas pessoas que participaram dos encontros
com Vaca e que acompanharam o processo, o resultado foi melhor do que se
esperava.
A
Comissão Interamericana confirmou que o Brasil é uma democracia plena, ainda
que com melhorias que podem ser implementadas. O documento, somado à retirada
da sanções previstas pela Lei Magnitsky contra Moraes ainda enterrou o projeto
da extrema direita de usar a falácia da suposta existência de uma ditadura como
arma para se defender pelo mundo.
Para o
acadêmico Fábio de Sá e Silva, professor da Universidade de Oklahoma, o
relatório tem a virtude de situar o debate sobre liberdade de expressão no
contexto histórico do Brasil, especialmente considerando as eleições de 2022.
“Fala explicitamente que houve uma tentativa de golpe, que se baseou em
desinformação sobre urnas. Argumenta, corretamente, que à luz da convenção
americana de direitos humanos não existe liberdade absoluta de expressão — há
discursos protegidos (políticos) e outros (ex., de ódio) não protegidos”, diz.
“Chama
o legislativo brasileiro a regular melhor plataformas e recomenda balizas à
atuação do judiciário, mas jamais sugere que as ações passadas foram
ilegítimas. Por fim, duas notas importantes: diz que é preciso julgar e
condenar quem orquestrou a tentativa de golpe, mostrando que anistia não se
coaduna com os estândares Interamericanos de direitos humanos; e ainda denuncia
o uso instrumental da liberdade de expressão por parte de quem reclama de
censura, mas apoiou ditaduras e violações de direitos humanos”, completou o
acadêmico.
O
projeto de Eduardo Bolsonaro, assim, estava enterrado. Pelo menos por enquanto.
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O que a fuga dos golpistas revela sobre o bolsonarismo
As
gargalhadas são legítimas diante de planos de fuga que mais se parecem às
piores comédias americanas. Mas me recuso a lidar com o fenômeno do êxodo de
bolsonaristas apenas como parte de uma história de um grupo de covardes e de
trapalhões – sem ofensa aos humoristas.
Quando
um ex-chefe da agência de inteligência debocha da Justiça, quando um
ex-deputado se humilha diante de um líder estrangeiro para pedir sanções contra
seu próprio país, quando uma ex-deputada condenada ofende um país europeu
dizendo que ali estará blindada ou quando um chefe de uma das forças policiais
foge com passaporte de outra pessoa, o que está evidenciado é o sentimento que
serve de base nesse movimento político: o da absoluta certeza da vitória da
impunidade.
Contam
com a falência do sistema, apostam na esperteza de verdadeiros calhordas,
buscam nos atalhos um novo destino para suas falsas narrativas.
No
governo, adotavam a mentira como parte de suas políticas públicas. Condenados,
tentam transformar essa mesma mentira em arma de defesa legítima. Em ambos os
casos, revelam um profundo desprezo pela democracia.
O golpe
não estava apenas na minuta que estabelece um estado de exceção. A tentativa de
golpe está em cada ato desses sequestradores que fizeram um país de refém.
A
anistia que defendem, portanto, não é o caminho da pacificação de uma
sociedade. E sim a legalização da impunidade.
Hoje,
eles começam a descobrir que não foram apenas seus planos de fuga que
fracassaram. Descobrem, em situações humilhantes, o que significa o estado de
direito.
E
descobrem, finalmente, o significado da frase atribuída a um ex-presidente do
país que lhes serve de destino: não se pode enganar a todos todo o tempo.
Fonte:
ICL Notícias

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