“O
Ocidente trama a morte do futuro”, afirma o filósofo Franco Berardi
Após
última grande reunião do Sul Global, o encontro da Organização de Cooperação de
Xangai em Tianjin (China), o cerco ao Ocidente pelas potências emergentes está
completo. A arrogância euro-atlântica está produzindo uma catástrofe
estratégica. Ao empurrar a Ucrânia para a guerra, o governo Biden provocou a
reaproximação estratégica da China com a Rússia e afundou a União Europeia, que
agora balança à beira de um abismo de guerra.
O
governo Trump, com sua política tarifária insana, empurrou a Índia para uma
aliança impensável com a China. Apenas uma arrogância suicida e o declínio
mental dos colonialistas senis podem explicar erros estratégicos tão colossais.
A
seguir, leia a entrevista:
·
Em The Second Coming [A Segunda Vinda],
você inicia sua análise com o ano de 1968. Muitos de nossos leitores chineses
podem não estar familiarizados com o contexto do movimento. Poderia gentilmente
explicar por que esse ano é significativo para sua investigação do mundo
contemporâneo? Por que você acredita que revisitar os eventos de 1968 pode nos
ajudar a descobrir possibilidades para o futuro do nosso mundo?
Berkeley
é um lugar importante para a história dos movimentos [no Ocidente}, e também é
um lugar importante do ponto de vista da pesquisa científica e tecnológica. No
dia 2 de dezembro de 1964, quando o imperialismo americano estava iniciando a
guerra no Vietnã, uma multidão de 5 mil estudantes marchou ao longo da
Telegraph Avenue até a praça principal do campus da Universidade de Berkeley e,
neste lugar, Mario Savio pegou o microfone e pronunciou algumas palavras que,
na minha opinião, são excepcionalmente interessantes e resumem o significado da
revolta mundial que, nos anos seguintes, abalou universidades, escolas e
fábricas.
Estas
são as palavras de Mario Savio: “Há um momento em que o funcionamento da
máquina se torna tão odioso, fere tanto o coração, que você não pode mais
participar dele, nem mesmo passivamente. E você deve colocar seu corpo nas
engrenagens e nas rodas, em todos os mecanismos, e deve detê-los. E deve fazer
com que aqueles que os gerenciam, aqueles que os possuem, entendam que, se você
não é livre, a máquina será impedida de funcionar.”
Mario
Savio se expressa contra a guerra, obviamente, e concentra-se particularmente
na relação entre a guerra e a Universidade. Afirma que a Universidade é uma
autocracia. Afirma que os estudantes e os jovens se recusam a ser usados pela
máquina de guerra.
Mario
Savio está falando de algo que marcará a história subsequente do capitalismo
global. A capacidade do sistema de pôr a alma para trabalhar, de pôr para
trabalhar a capacidade social de conhecer, de investigar, de criar e a
atividade semiológica em geral, que se revela crucial na nova era do
capitalismo.
·
Em seu livro, você fala do complexo tecno-midiático que
controla mentes hiperconectadas, da disseminação de guerras civis alimentadas
pela sede de vingança e da divergência de interesses entre trabalhadores
brancos e migrantes, refugiados e desempregados do Sul Global. Você acredita
que o estouro de uma terceira guerra mundial é inevitável? Como os movimentos
de esquerda contemporâneos podem preveni-la e restaurar o senso de
internacionalismo que você enfatiza em seus escritos?
Escrevi
“A Segunda Vinda” em 2017. De lá para cá, passou-se quase uma década. E esta
última década revelou a verdade: o gênero humano corre o risco de não
sobreviver ao espasmo final do colonialismo. Em 2017, eu alertava sobre o
perigo de uma guerra civil global. Agora, a guerra civil global está em curso.
Após o colapso global da pandemia, o supremacismo branco assumiu o controle no
Ocidente e desdobrará todo o seu poder destrutivo, o que significa que poderá
destruir a civilização humana.
Esta
guerra está se desenrolando em duas frentes principais que se entrelaçam e se
alimentam mutuamente. De um lado, uma agressão do imperialismo ocidental ao Sul
Global, uma guerra de extermínio dos migrantes, uma guerra genocida que
encontra seu ápice no massacre de Gaza. De outro, trata-se de uma guerra
intra-branca, que tem seu centro na Ucrânia, mas está se desenvolvendo em toda
parte como uma guerra entre as forças agonizantes da falsa democracia liberal e
as forças emergentes do nazismo trumpista.
Em
1965, o líder do Exército de Libertação Chinês, Lin Piao, escreveu as seguintes
palavras: “No futuro, o campo estrangulará as metrópoles do mundo.” Mas, ao
mesmo tempo, o Presidente Mao afirmou que “a classe operária deve dirigir
tudo.”
No
momento, eu diria que a previsão de Lin Piao está se concretizando: o Sul
Global está prestes a estrangular o Norte. Nestes dias, China e Índia, Brasil e
África do Sul e muitos outros países que sofreram o colonialismo estão unindo
forças contra o Norte senescente. A arrogância trumpista é um sinal de demência
e uma causa de isolamento.
Mas a
classe operária não está guiando este processo. O resultado pode não ser o
comunismo. Há o risco de o resultado ser um genocídio mundial.
Não
esqueço que “os reacionários são estúpidos que levantam uma pedra para deixá-la
cair sobre os próprios pés”, como diz o Presidente Mao. Mas esses idiotas
possuem armas que podem destruir totalmente o planeta, e acredito que o
desespero senil os levará a usar toda a sua força destrutiva.
·
A intensificação da hiperconectividade entre mentes
humanas e máquinas, juntamente com a automação cognitiva que dela resulta, tem
sido particularmente evidente nos últimos anos, especialmente com os rápidos
avanços da inteligência artificial (IA). Como podem as pessoas na era da IA
resistir à simulação automatizada das relações sociais e da cognição em escala
mais ampla?
Gostaria
de inverter esta pergunta e ouso avançar a hipótese de que a mente humana não
resistirá à captura. Isto já está acontecendo.
Paul
Graham escreveu as seguintes palavras sobre a relação
entre pensamento e inteligência automatizada:
“Dentro
algumas décadas, não haverá muitas pessoas capazes de escrever. A IA escancarou
este mundo. Não estamos mais motivados a escrever. A IA pode fazer isso por
você, tanto na escola quanto no trabalho. O resultado será um mundo dividido
entre quem escreve e quem não escreve. Ainda haverá pessoas que sabem escrever.
Mas a maioria não escreverá mais.
Isso é
tão ruim? Não é comum que habilidades desapareçam quando a tecnologia as torna
obsoletas? Não restaram muitos ferreiros, e isso não parece ser um problema.
Mas sim, a perda da escrita é muito ruim. A razão é que escrever é pensar. Na
verdade, existe um tipo de pensamento que só pode existir se escrevermos.
Portanto, um mundo dividido entre quem escreve e quem não escreve é mais
perigoso do que parece. Será um mundo de pessoas que pensam e pessoas que não
pensam.”
O
autômato inteligente escreve por nós. Mas a escrita é a atividade que permite a
organização lógica do pensamento. Isso significa que a automação da
inteligência desativa a faculdade de pensar nos seres humanos. Não se trata de
uma distopia inverossímil, é o que já está acontecendo.
A
geração que aprendeu mais palavras a partir de uma máquina do que da voz da
mãe, catapultada para uma infosfera hiperacelerada, já está manifestando uma
mutação cognitiva que se reflete em suas escolhas políticas.
·
Você mencionou a criação de “memes de desvinculamento
(disentanglement)”. Poderia explicar se isso se refere ao desenvolvimento de
uma nova ética do trabalho que transcenda a fixação tradicional no trabalho
assalariado? É possível hoje que as pessoas se libertem da necessidade de
trocar seu tempo por dinheiro?
Desvinculamento
(“disentanglement”) significa o processo de libertação das obrigações da
história. A história revelou-se como violência, guerra, exploração. Uma parte
da humanidade está desertando e abandonando esta dimensão.
Nos
anos 60 e 70, quando a classe operária era organizada e forte, foi possível
lutar pela redução do tempo de trabalho. De fato, nos países europeus, o tempo
de trabalho foi reduzido graças aos sindicatos e às lutas autônomas dos
operários. Depois as coisas pioraram e agora na Europa muitos são forçados a
trabalhar muito mais de 40 horas por semana. O escravismo é difundido em muitos
países no Ocidente assim como na Ásia. Após algumas décadas de libertação do
trabalho assalariado, o capitalismo reafirmou seu domínio em toda parte.Os
memes são uma forma hiper-sintética de circulação da mensagem. No momento
atual, os memes são o instrumento de comunicação que alimentou o movimento
reacionário em todo o mundo.
Artistas,
ativistas, pessoas que desertam da guerra e se opõem ao capitalismo devem
inventar formas hiper-sintéticas e contagiosas de comunicação para a deserção,
a frugalidade, a autonomia do consumismo e da competição, a autonomia do
trabalho.
·
Para muitos de nossos leitores, a ideia de “memes de
desvinculamento” pode parecer abstrata ou inimaginável. Você poderia fornecer
alguns exemplos para ilustrar como esses memes poderiam aparecer e como
poderiam funcionar na prática?
Minha
vida é um meme de desvinculamento; sua vida, a vida de qualquer pessoa pode ser
transformada em um meme de desvinculamento. Rádio Alice, a rádio pirata que
desencadeou a insurreição autônoma de Bolonha em 1977, é um meme de
desvinculamento. A Freedom Flotilla (Frota da Liberdade) que nestes dias tenta
ultrapassar o muro marítimo sionista para levar comida aos palestinos famintos
é um meme de desvinculamento.
Quem se
rebela, mesmo sem nenhuma esperança de futuro, quem abandona o trabalho, quem
abandona a procriação, quem não espera nada do futuro: estes são os memes de
desvinculamento. Greta Thunberg dizendo: “Como vocês ousam?” é um meme de
desvinculamento.
Estamos
no início de um período de devastação global. A Ku Klux Klan de Donald Trump
está executando um programa de Terror Branco, deportações e torturas. Vejam o
que acontece nas cidades norte-americanas: o retorno do pior tipo de racismo.
Precisamos inventar novas vias de fuga.
É muito
provável que a humanidade não sobreviva ao século XXI. Guerra, colapso
ambiental, pânico põem em risco o tecido da vida social. A questão é: como
sobreviveremos a este vórtice? Como podemos criar espaços para uma vida digna
durante o processo de autodestruição da civilização humana?
·
Perto do final do livro, você enfatiza que, mesmo diante
do desespero, devemos continuar a praticar a arte do pensamento e a imaginação
filosófica. Dada a natureza intensa e onipresente da automação cognitiva, como
podemos treinar para preservar e cultivar a capacidade de imaginação
filosófica?
Não
esqueçamos que este livro (A Segunda Vinda) foi publicado pela primeira
vez em 2017. Era uma reflexão sobre o comunismo cem anos após a revolução
russa. Era uma reflexão sobre a possibilidade de uma segunda vinda do projeto
comunista.
Na
última década, atravessamos uma pandemia, uma aceleração do colapso ambiental,
uma explosão de racismo agressivo e o retorno da guerra no contexto do declínio
do domínio branco sobre o planeta.
Não
vejo nenhuma força subjetiva, nenhuma frente social, nenhuma ideologia política
capaz de repelir a agressão dos criminosos suicidas que governam o Ocidente.
Nos
restou apenas uma coisa: a capacidade de pensar e de imaginar. Mas devemos
pensar fora dos dogmas, fora dos esquemas explicativos preconcebidos. Os
conceitos modernos (política, democracia, direitos humanos, Razão Universal)
foram destruídos pelo Ocidente senescente. Eles não voltarão. Política,
democracia, direitos humanos são palavras vazias depois de Gaza.
Devemos
criar novos conceitos e imaginar um horizonte que não foi previsto pela ciência
política: a autodestruição do gênero humano ainda neste século. Neste horizonte
é possível …..
·
Alguns de nossos leitores conhecem seu trabalho através
de seu livro mais recente, Quit Everything (Abandonar Tudo).
Em The Second Coming (A Segunda Vinda), você descreve a
humanidade como tendo entrado em uma era de demência, enquanto em Quit
Everything o foco está no tema da depressão. Como você vê esses dois
estados da humanidade interconectados? Em um mundo tão deprimente e devastador,
como podemos redescobrir a possibilidade da alegria?
Esta é
a pergunta mais difícil. O centro da minha reflexão é o colapso da mente
ocidental. Mas a decadência do ambiente mental, embora esteja em um estágio
particularmente avançado no Ocidente, é um processo que se desdobra em todo o
planeta como efeito da submissão à automação da atividade cognitiva.
O
colapso da mente é o resultado de dois processos convergentes: a competição
(guerra de todos contra todos) imposta pela ideologia neoliberal e o isolamento
provocado pela tecnologia digital.
Ao
mesmo tempo, devemos levar em conta um processo de enorme importância: a
senescência do gênero humano (não apenas no Ocidente, mas em toda parte, África
incluída). Essa tendência é subestimada pelo pensamento político progressista,
mas se tornará o fator mais importante no colapso final.
Nas
primeiras décadas do século, uma onda de depressão espalhou-se pela geração
digital. Nas próximas décadas, seremos forçados a confrontar um fenômeno sem
precedentes: a senilidade crescente da população planetária.
Isso
obviamente provocará um problema econômico e financeiro, mas sobretudo
influenciará as expectativas psicológicas de futuro. Devido à queda das taxas
de natalidade (um processo que não pode ser combatido pela vontade política), a
população total está destinada a reduzir-se e envelhecer cada vez mais.
Tentem
imaginar um planeta em que um terço da população tem mais de 60 anos e a
maioria dos jovens está isolada e deprimida. Este é o cenário provável da
segunda metade deste século, assumindo que a guerra nuclear e a mudança
climática não destruam a civilização humana antes da metade do século XXI.
Sabem,
nos tempos do genocídio sionista, somos forçados a pensar que algo
profundamente errado aconteceu na mente humana, algo que poderia ser evitado
apenas por uma revolução igualitária e humanista: o comunismo.
O
comunismo era a última possibilidade para escapar do apocalipse. Mas o
comunismo falhou. Nós falhamos. Uma segunda chance parecia possível dez anos
atrás, quando escrevi este livro.
Mas
minha opinião mudou após a pandemia, após o retorno da guerra na Europa, após o
retorno do genocídio naquele lugar amaldiçoado chamado Terra Santa. Não haverá
uma segunda chance porque no Terceiro Década do Século estamos testemunhando o
Colapso da Razão humana e a espiral do Caos e do Autômato.
O
autômato prevalecerá. O Caos humano está condenado e será aniquilado pela
decisão feminina (consciente e inconsciente) de não gerar vítimas do horror
iminente.
Minha sugestão é: deserção. Uma vida bela só será possível criando ilhas de
autonomia da História. Seremos capazes de inventar algo completamente
desvinculado das amarras da vingança histórica?
Fonte: entrevista
a revista chinesa Typesetter, de Hong Kong | Tradução: Antonio Martins, em
Outras Palavras

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