segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

'EUA estão em crise e querem trazer guerra para América do Sul', diz Stedile

Os Estados Unidos estão em uma crise do capitalismo que se manifesta em vários aspectos e, como tática para sair da crise – tal como fizeram outras vezes –, promovem conflitos armados. A análise é de João Pedro Stédile, economista e ativista do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que acrescenta: “Após o genocídio contra o povo palestino e a guerra na Ucrânia, agora querem trazer conflitos para a América do Sul, invadindo a Venezuela”.

Em entrevista ao jornalista e fundador do Opera Mundi, Breno Altman, para o programa 20 Minutos o ativista contextualiza que essa crise levou à decadência tanto do império norte-americano quanto do projeto de poder europeu. Dessa forma, o novo cenário mostra que os europeus perderam a iniciativa política para a Rússia – que, além de vencer a guerra, mantém-se como potência econômica e militar – e também perderam a Ásia para a China.

“De maneira que, para os Estados Unidos, ‘sobra’ a América Latina. Por isso, eles recuperaram a Doutrina Monroe, segundo o lema: ‘América para os norte-americanos’. Uma visão que está explícita no último documento da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, que foca suas atividades imperialistas no hemisfério sul”, destaca.

Segundo a análise de Stédile, a batalha contra a Venezuela é “decisiva para frear os EUA”. A mesma lógica, segundo ele, se aplica às eleições na Colômbia em 2026 e à atual interferência eleitoral em Honduras. “Além de tentar derrubar o governo de Maduro, eles também atuaram nas eleições presidenciais no Chile, Argentina, Peru e Equador”, afirma.

“Há uma esperança de que o BRICS, com seus 21 países, incluindo grandes nações do Sul Global, possa superar essa redivisão do mapa. O bloco pode ser uma alternativa a esse processo, como uma articulação para enfrentar a ganância do imperialismo estadunidense”.

O especialista ainda observa uma divisão dentro dos EUA: por um lado o setor democrata e a juventude mobilizando contra a guerra no Caribe e por outro o secretário Marco Rubio que “tradicionalmente um articulador da direita mundial, sobretudo na América Latina, onde financia a extrema direita e está atrelado ideologicamente a derrubar governos.

“Eles acreditam nas mentiras de Corina, que se derrubar Maduro ela assumirá o poder ou que vão conseguir agir no país bolivariano igual foi na Síria e Ucrânia. No entanto, na Venezuela é diferente. Há um poder compartido entre as forças armadas, o PSUV e o povo, que está organizado. Essa aliança é uma fortaleza de força ao Maduro”, conclui.

¨      'América Latina deve ser uma zona de paz', afirma Moscou

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, denunciou nesta quinta-feira (25/12) que as ações promovidas pelos Estados Unidos no Caribe constituem um “caos jurídico” e contrariam o direito internacional, ao intensificar a presença militar norte-americana em torno da Venezuela e implementar um bloqueio naval de fato.

Reafirmamos nosso apoio aos esforços do Governo de Nicolás Maduro para proteger sua soberania e seus interesses nacionais e para manter o desenvolvimento estável e seguro do país”, declarou a diplomata, em nome da Federação Russa.

Zakharova destacou que a ação dos Estados Unidos viola os princípios da Carta da ONU e da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982, afetando a liberdade de navegação e a soberania do país sul-americano.

“Estamos testemunhando o ressurgimento da pirataria, dos ataques e da apropriação de bens estrangeiros em águas internacionais”, afirmou Zakharova, descrevendo a situação como uma ameaça direta à ordem jurídica global. Moscou, observou ela, mantém uma posição favorável à distensão, à diplomacia e à estabilidade regional; e alerta que uma escalada militar poderá afetar toda a América Latina.

A porta-voz afirmou que o governo russo espera que Donald Trump opte por uma solução legal antes de agravar o conflito. “É importante evitar um cenário destrutivo. Confiamos que o pragmatismo do presidente norte-americano permitirá que soluções sejam encontradas dentro da estrutura do direito internacional”, afirmou.

<><> Conselho de Segurança

As declarações de Moscou surgem após a sessão do Conselho de Segurança da ONU, realizada na última terça-feira (23/12), para discutir o aumento da presença militar dos Estados Unidos no Caribe.

Zakharova observou que “a esmagadora maioria dos países condenou a natureza unilateral das restrições, que violam gravemente o direito internacional, os princípios e as normas vigentes, nomeadamente a igualdade soberana dos Estados, a não interferência nos assuntos internos, a liberdade de navegação e os direitos econômicos”.

“A América Latina e o Caribe devem permanecer uma zona de paz, conforme proclamado em 2014. Um ataque à Venezuela seria um ataque à estabilidade regional”, reiterou ao alertar para os efeitos geopolíticos que tal intervenção teria em todo o continente.

Atualmente, Washington mantém um grupo de ataque naval destacado, liderado pelo porta-aviões USS Gerald R. Ford, acompanhado por um submarino nuclear e mais de 16.000 militares. Desde setembro, as forças americanas afundaram embarcações civis, causando dezenas de mortes, além de manter o fechamento do espaço aéreo venezuelano e o bloqueio de petroleiros venezuelanos.

Moscou advertiu que uma ofensiva direta sob o pretexto de “combater o narcotráfico” constituiria uma grave violação do direito internacional, com risco de desestabilização continental. A Rússia insiste que a única solução viável é o diálogo sob supervisão internacional, instando Washington a retirar suas forças do Caribe, cessar a intimidação militar e retornar ao quadro diplomático como ferramenta para a resolução de disputas.

Moscou enfatizou, ainda, que a região está em um momento crítico: “cruzar a linha vermelha teria um impacto imediato em toda a América Latina e no Caribe”.

¨      Venezuela pode viver guerra de resistência prolongada após sequestro de Maduro, afirma ativista

Direto de Caracas o dirigente do Movimento Continental Bolivariano (MCB), Marxiano Briceño, de 42 anos, descreveu à Opera Mundi que, neste momento, a Venezuela é um país “em consternação” após o sequestro do presidente Nicolás Maduro por parte das forças militares dos Estados Unidos.

Apesar do fechamento preventivo de comércios nos últimos dois dias, o militante político negou a ocorrência de distúrbios ou saques, garantindo que os serviços públicos e o abastecimento funcionam com normalidade.

Segundo Briceño, a resposta a uma possível administração da Venezuela pelo governo de Donald Trump seria uma “guerra de resistência prolongada”, que mobilizaria a Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) e as unidades cívico-militares.

Ele também descreve a liderança da presidente interina Delcy Rodríguez como geradora de “calma e confiança”, e alega que a oposição está dividida entre uma ala “fascista”, que apoia a ação de Donald Trump, e outra “democrática”, que rejeita o sequestro.

Marxiano conclui fazendo um apelo à solidariedade latino-americana, alertando que não se trata apenas de uma ofensiva contra o socialismo, e sim uma ação na qual Washington busca “liquidar os Estados Nacionais” de toda a região.

>>> Leia a íntegra da entrevista com Marxiano Briceño, líder do MCB:

·        Como está a situação neste momento na Venezuela?

Marxiano Briceño: É importante distinguir entre o dia anterior ao sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos e os dois dias que se seguiram. As semanas antes do ataque, foram marcadas pela normalidade e festividades, passeios à praia e caminhadas pelas ruas das principais cidades. Era o clima de fim de ano e início de ano novo, antes da retomada das rotinas formais de trabalho e da administração pública. Este dia 5 de janeiro, deveria marcar o início do calendário regular do país, segundo a tradição venezuelana. No entanto, após o sequestro do presidente, as ruas ficaram desertas, com lojas e supermercados fechados como precaução contra possíveis distúrbios, além do choque dessa grotesca ação perpetrada por Donald Trump. Ninguém imaginava tal ataque, nem que a capital seria bombardeada, nem que esse plano seria executado sem a defesa militar do nosso espaço aéreo, como havíamos planejado.

·        Mas há problemas com o abastecimento ou perturbações nas cidades?

As ruas estão tranquilas, com pouco tráfego de veículos, e isso se deve-se, como já disse, à prudência cívica, a uma consciência apurada por outras situações que vivenciamos. Não houve tumultos, saques ou ações capazes de desestabilizar a ordem pública. As pessoas mantiveram um ritmo prudente e permaneceram calmas diante do sequestro do presidente, aguardando orientações do governo nacional.

·        Donald Trump afirma que, a princípio, a Venezuela será governada pelos Estados Unidos. O povo venezuelano aceitará essa condição?

Historicamente, os Estados Unidos e o mundo inteiro deveriam saber que isso é absolutamente negado pelo povo da Venezuela, e que essa foi a razão da violência revolucionária e social no país durante um século inteiro, que levou à Revolução Bolivariana e à queda do chamado “Pacto de Punto Fijo (1960-1998)” – pelo qual os partidos políticos de direita do país se revezaram no poder entre 1960 e 1999, até a eleição de Hugo Chávez.

Os Estados Unidos são responsáveis pelo surgimento da pior crise da Venezuela até o final dos Anos 90. O que aquele país pode oferecer de diferente à Venezuela hoje? Todos os cinturões de miséria que cercam Caracas e o resto do país, e a vida rural, foram diretamente consequência das políticas de submissão da Venezuela à agenda de Washington. Essa agenda não mudou, nem a interpretação dos Estados Unidos sobre o hemisfério. Nesse sentido, a Venezuela não pode e não quer ser governada pelos Estados Unidos, nem por qualquer outra potência estrangeira ou por qualquer força imposta que não seja a livre escolha dos venezuelanos.

E observem bem que digo livre escolha, porque as eleições desta última década foram tentadas visando diretamente o povo venezuelano com os canhões militares dos Estados Unidos e da Europa, com sanções criminosas que causaram uma situação de dor e angústia, milhões em prejuízos para o Estado, mortes de venezuelanos, migrações em massa – tudo isso vocês já sabem – e um bloqueio sufocante que culminou nos últimos meses com um cerco militar dos Estados Unidos no Caribe e um bloqueio aéreo ao nosso país.

·        Como as forças militares estão se preparando para um possível segundo ataque?

Na Venezuela, contamos com a FANB e a unidade cívico-militar legitimamente, legalmente reconhecidas pela Constituição. Estamos plenamente preparados para defender a Carta Magna, nossa autodeterminação e exigir a libertação de nosso presidente, atualmente sequestrado pelos Estados Unidos. Nosso povo possui o treinamento, a orientação e os recursos político-militares necessários para defender os direitos que conquistamos e o plano delineado em nossa Constituição e leis, incluindo planos comunitários, produtivos e industriais. As ruas de todos os cantos do país estão atualmente sob a vigilância de nossas forças sociais. O povo armado está suficientemente preparado para a resistência e para garantir a paz, a estabilidade e a governabilidade, como demonstraram nos últimos dias. Estamos preparados para qualquer cenário.

·        Como as pessoas têm reagido aos últimos comunicados da presidente interina Delcy Rodríguez?

A reação do público às declarações de Delcy é de calma e confiança, visto que o gabinete executivo permanece intacto. O cargo legítimo do presidente Nicolás Maduro não foi usurpado de forma alguma, o que reforça a confiança de que não houve qualquer traição. Pelo contrário, ele é reconhecido como o único presidente, e uma comissão de alto nível foi nomeada para trabalhar pela libertação. Portanto, a maioria das forças sociais apoia a liderança interina de Delcy e presume que qualquer negociação e engajamento dentro da estrutura do direito internacional é correto e legítimo.

·        E a oposição? Se Maduro não for libertado, você acha possível que ocorra uma guerra civil?

A oposição fascista na Venezuela se manifesta a partir da Europa e por meio de porta-vozes nos Estados Unidos. Eles exigem que Donald Trump retire suas declarações depreciativas sobre María Corina Machado e considerem Edmundo González Urrutia como presidente interino. Esses opositores veem Delcy como uma continuação do governo de Nicolás Maduro. Outra parte da oposição, que é democrática, não apoia o sequestro do presidente e, apesar das divergências, já vinha mantendo um diálogo respeitoso com o governo, buscando pontos em comum em relação à paz e à recuperação econômica.

Uma guerra civil teria eclodido se a oposição tivesse força, tanto civil quanto militarmente. Esse plano foi frustrado pela inteligência e pela ação eficaz da unidade cívico-militar, das milícias bolivarianas e dos corpos de combatentes revolucionários. A oposição tentou repetidamente criar grupos mercenários, e alguns foram capturados ou neutralizados. Seu plano era uma guerra civil e, como se pode ver pelo que aconteceu em apenas dois dias, eles foram reduzidos a nada. As ruas pertencem à sociedade venezuelana e são a garantia da governabilidade.

Mais do que uma guerra civil, o que deve ser considerado aqui é uma guerra de resistência prolongada, em todas as suas formas. Quando ouvimos Trump dizer que vai administrar a Venezuela ou que pretende realizar uma segunda onda e exigir as condições e o modo de vida de um Estado-nação, essa forma de guerra é imposta pelos Estados Unidos; não cabe a nós decidir como ela se desenrola. Mas o princípio claro e justo é que a sociedade venezuelana resiste há anos; ela tem sido historicamente ousada e rebelde. Seu lema é paz e alegria, mas não é submissa nem covarde.

·        Qual a importância da solidariedade latino-americana neste momento?

É o cultivo constante que a Venezuela vem realizando, desde a épica do libertador (Simón Bolívar), dos nossos revolucionários do passado, até esta época de Chávez, Maduro e do nosso povo heroico. Isso é o que semeamos na América Latina e no mundo. Esperamos que esse nosso princípio tenha criado raízes em nossa América Latina.

Estamos sendo atacados e sitiados pelo imperialismo. Cuba também foi atacada antes e continua firme. A Colômbia está sendo ameaçada, assim como aconteceu com a Venezuela. Países como Argentina, Chile, Peru, El Salvador e outros que já enfrentaram governos subservientes aos Estados Unidos e estão em condições sociais piores até do que nós, que estamos sob bloqueio econômico. Portanto, esperamos que a América Latina entenda que não se trata apenas de defender o socialismo. Os Estados Unidos querem eliminar os Estados-nação. Trump falou abertamente sobre sua doutrina expansionista e irracional do “Destino Manifesto” (1818) e da “Doutrina Monroe” (1823), disse que este hemisfério lhes pertence e que não permitirão que lhes seja tomado.

·        Um ataque à Venezuela é um ataque contra toda a América Latina?

É bom que tenhamos lido sobre como eram os documentos de Santa Fé, nos Anos 80 e 90. A atual agenda do Make America Great Again (MAGA) de Trump nada mais é do que a continuação histórica de suas concepções, métodos e projetos expansionistas do passado. Portanto, quem acredita que algo mudou está enganado. Não será diferente, as consequências não serão diferentes. A crise é maior agora, e quem capitular ou resistir deve fazê-lo diante de uma potência desesperada por saquear e deixar um rastro de miséria.

Portanto, a América Latina deve, antes de tudo, demonstrar solidariedade, criar brigadas e forças internacionalistas para se defender, e derrubar governos que se rendem aos Estados Unidos, ou que tentam impor novas ditaduras por meio de fraude eleitoral, como em Honduras.

Este não é mais um problema de um único país. A contradição antagônica entre os Estados Unidos e a América Latina está se intensificando e isso só será resolvido violentamente, em qualquer terreno. Os Estados Unidos não estão dispostos a tratar ninguém com respeito, e já vimos isso acontecer antes.

 

Fonte: Opera Mundi/TeleSUR

 

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