'EUA
estão em crise e querem trazer guerra para América do Sul', diz Stedile
Os
Estados Unidos estão em uma crise do capitalismo que se manifesta em vários
aspectos e, como tática para sair da crise – tal como fizeram outras vezes –,
promovem conflitos armados. A análise é de João Pedro Stédile, economista e
ativista do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que acrescenta:
“Após o genocídio contra o povo palestino e a guerra na Ucrânia, agora querem
trazer conflitos para a
América do Sul, invadindo a Venezuela”.
Em
entrevista ao jornalista e fundador do Opera Mundi, Breno
Altman, para o programa 20 Minutos o ativista
contextualiza que essa crise levou à decadência tanto do império
norte-americano quanto do projeto de poder europeu. Dessa forma, o novo cenário
mostra que os europeus perderam a iniciativa política para a Rússia – que, além
de vencer a guerra, mantém-se como potência econômica e militar – e também
perderam a Ásia para a China.
“De
maneira que, para os Estados Unidos, ‘sobra’ a América Latina. Por isso, eles
recuperaram a Doutrina Monroe, segundo o lema: ‘América para os
norte-americanos’. Uma visão que está explícita no último documento da Estratégia de
Segurança Nacional dos EUA, que foca suas atividades imperialistas no hemisfério
sul”, destaca.
Segundo
a análise de Stédile, a batalha contra a Venezuela é “decisiva para frear os
EUA”. A mesma lógica, segundo ele, se aplica às eleições na Colômbia em 2026 e
à atual interferência
eleitoral em Honduras.
“Além de tentar derrubar o governo de Maduro, eles também atuaram nas eleições
presidenciais no Chile, Argentina, Peru e Equador”,
afirma.
“Há uma
esperança de que o BRICS, com seus 21 países, incluindo grandes nações do Sul
Global, possa superar essa redivisão do mapa. O bloco pode ser uma alternativa
a esse processo, como uma articulação para enfrentar a ganância do imperialismo
estadunidense”.
O
especialista ainda observa uma divisão dentro dos EUA: por um lado o setor
democrata e a juventude mobilizando contra a guerra no Caribe e por outro o secretário Marco
Rubio que
“tradicionalmente um articulador da direita mundial, sobretudo na América
Latina, onde financia a extrema direita e está atrelado ideologicamente a
derrubar governos.
“Eles acreditam nas
mentiras de Corina,
que se derrubar Maduro ela assumirá o poder ou que vão conseguir agir no país
bolivariano igual foi na Síria e Ucrânia. No entanto, na Venezuela é diferente.
Há um poder compartido entre as forças armadas, o
PSUV e o povo,
que está organizado. Essa aliança é uma fortaleza de força ao Maduro”, conclui.
¨
'América Latina deve ser uma zona de paz', afirma Moscou
A porta-voz do Ministério das
Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, denunciou nesta
quinta-feira (25/12) que as ações promovidas pelos Estados Unidos no Caribe
constituem um “caos jurídico” e contrariam o direito internacional, ao
intensificar a presença militar norte-americana em torno da Venezuela e
implementar um bloqueio naval de fato.
“Reafirmamos nosso apoio aos esforços do
Governo de Nicolás Maduro para proteger sua soberania e seus interesses
nacionais e para manter o desenvolvimento estável e seguro do país”, declarou a
diplomata, em nome da Federação Russa.
Zakharova
destacou que a ação dos Estados Unidos viola os princípios da Carta da ONU e da
Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982, afetando a
liberdade de navegação e a soberania do país sul-americano.
“Estamos
testemunhando o ressurgimento da pirataria, dos ataques e da apropriação de
bens estrangeiros em águas internacionais”, afirmou Zakharova, descrevendo a
situação como uma ameaça direta à ordem jurídica global. Moscou, observou ela,
mantém uma posição favorável à distensão, à diplomacia e à estabilidade
regional; e alerta que uma escalada militar poderá afetar toda a América
Latina.
A
porta-voz afirmou que o governo russo espera que Donald Trump opte por uma
solução legal antes de agravar o conflito. “É importante evitar um cenário
destrutivo. Confiamos que o pragmatismo do presidente norte-americano permitirá
que soluções sejam encontradas dentro da estrutura do direito internacional”,
afirmou.
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Conselho de Segurança
As
declarações de Moscou surgem após a sessão do Conselho de
Segurança da ONU,
realizada na última terça-feira (23/12), para discutir o aumento da presença
militar dos Estados Unidos no Caribe.
Zakharova
observou que “a esmagadora maioria dos países condenou a natureza unilateral
das restrições, que violam gravemente o direito internacional, os princípios e
as normas vigentes, nomeadamente a igualdade soberana dos Estados, a não
interferência nos assuntos internos, a liberdade de navegação e os direitos
econômicos”.
“A
América Latina e o Caribe devem permanecer uma zona de paz, conforme proclamado
em 2014. Um ataque à Venezuela seria um ataque à estabilidade regional”,
reiterou ao alertar para os efeitos geopolíticos que tal intervenção teria em
todo o continente.
Atualmente,
Washington mantém um grupo de ataque naval destacado, liderado pelo
porta-aviões USS Gerald R. Ford, acompanhado por um submarino nuclear e mais de
16.000 militares. Desde setembro, as forças americanas afundaram embarcações
civis, causando dezenas de mortes, além de manter o fechamento do espaço aéreo
venezuelano e o bloqueio de petroleiros venezuelanos.
Moscou
advertiu que uma ofensiva direta sob o pretexto de “combater o narcotráfico”
constituiria uma grave violação do direito internacional, com risco de
desestabilização continental. A Rússia insiste que a única solução viável é o
diálogo sob supervisão internacional, instando Washington a retirar suas forças
do Caribe, cessar a intimidação militar e retornar ao quadro diplomático como
ferramenta para a resolução de disputas.
Moscou
enfatizou, ainda, que a região está em um momento crítico: “cruzar a linha
vermelha teria um impacto imediato em toda a América Latina e no Caribe”.
¨
Venezuela pode viver guerra de resistência prolongada
após sequestro de Maduro, afirma ativista
Direto
de Caracas o dirigente do Movimento Continental Bolivariano (MCB), Marxiano
Briceño, de 42 anos, descreveu à Opera Mundi que, neste momento, a Venezuela é
um país “em consternação” após o sequestro do presidente Nicolás Maduro por
parte das forças militares dos Estados Unidos.
Apesar
do fechamento preventivo de comércios nos últimos dois dias, o militante
político negou a ocorrência de distúrbios ou saques, garantindo que os serviços
públicos e o abastecimento funcionam com normalidade.
Segundo
Briceño, a resposta a uma possível administração da Venezuela pelo governo de
Donald Trump seria uma “guerra de resistência prolongada”, que mobilizaria a
Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) e as unidades cívico-militares.
Ele
também descreve a liderança da presidente interina Delcy Rodríguez como
geradora de “calma e confiança”, e alega que a oposição está dividida entre uma
ala “fascista”, que apoia a ação de Donald Trump, e outra “democrática”, que
rejeita o sequestro.
Marxiano
conclui fazendo um apelo à solidariedade latino-americana, alertando que não se
trata apenas de uma ofensiva contra o socialismo, e sim uma ação na qual
Washington busca “liquidar os Estados Nacionais” de toda a região.
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Leia a íntegra da entrevista com Marxiano Briceño, líder do MCB:
·
Como
está a situação neste momento na Venezuela?
Marxiano
Briceño: É importante distinguir entre o dia anterior ao sequestro do
presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos e os dois dias que se seguiram.
As semanas antes do ataque, foram marcadas pela normalidade e festividades,
passeios à praia e caminhadas pelas ruas das principais cidades. Era o clima de
fim de ano e início de ano novo, antes da retomada das rotinas formais de
trabalho e da administração pública. Este dia 5 de janeiro, deveria marcar o
início do calendário regular do país, segundo a tradição venezuelana. No
entanto, após o sequestro do presidente, as ruas ficaram desertas, com lojas e
supermercados fechados como precaução contra possíveis distúrbios, além do
choque dessa grotesca ação perpetrada por Donald Trump. Ninguém imaginava tal
ataque, nem que a capital seria bombardeada, nem que esse plano seria executado
sem a defesa militar do nosso espaço aéreo, como havíamos planejado.
·
Mas
há problemas com o abastecimento ou perturbações nas cidades?
As ruas
estão tranquilas, com pouco tráfego de veículos, e isso se deve-se, como já
disse, à prudência cívica, a uma consciência apurada por outras situações que
vivenciamos. Não houve tumultos, saques ou ações capazes de desestabilizar a
ordem pública. As pessoas mantiveram um ritmo prudente e permaneceram calmas
diante do sequestro do presidente, aguardando orientações do governo nacional.
·
Donald
Trump afirma que, a princípio, a Venezuela será governada pelos Estados Unidos.
O povo venezuelano aceitará essa condição?
Historicamente,
os Estados Unidos e o mundo inteiro deveriam saber que isso é absolutamente
negado pelo povo da Venezuela, e que essa foi a razão da violência
revolucionária e social no país durante um século inteiro, que levou à
Revolução Bolivariana e à queda do chamado “Pacto de Punto Fijo (1960-1998)” –
pelo qual os partidos políticos de direita do país se revezaram no poder entre
1960 e 1999, até a eleição de Hugo Chávez.
Os
Estados Unidos são responsáveis pelo surgimento da pior crise da Venezuela até
o final dos Anos 90. O que aquele país pode oferecer de diferente à Venezuela
hoje? Todos os cinturões de miséria que cercam Caracas e o resto do país, e a
vida rural, foram diretamente consequência das políticas de submissão da
Venezuela à agenda de Washington. Essa agenda não mudou, nem a interpretação
dos Estados Unidos sobre o hemisfério. Nesse sentido, a Venezuela não pode e
não quer ser governada pelos Estados Unidos, nem por qualquer outra potência
estrangeira ou por qualquer força imposta que não seja a livre escolha dos
venezuelanos.
E
observem bem que digo livre escolha, porque as eleições desta última década
foram tentadas visando diretamente o povo venezuelano com os canhões militares
dos Estados Unidos e da Europa, com sanções criminosas que causaram uma
situação de dor e angústia, milhões em prejuízos para o Estado, mortes de
venezuelanos, migrações em massa – tudo isso vocês já sabem – e um bloqueio
sufocante que culminou nos últimos meses com um cerco militar dos Estados
Unidos no Caribe e um bloqueio aéreo ao nosso país.
·
Como
as forças militares estão se preparando para um possível segundo ataque?
Na
Venezuela, contamos com a FANB e a unidade cívico-militar legitimamente,
legalmente reconhecidas pela Constituição. Estamos plenamente preparados para
defender a Carta Magna, nossa autodeterminação e exigir a libertação de nosso
presidente, atualmente sequestrado pelos Estados Unidos. Nosso povo possui o
treinamento, a orientação e os recursos político-militares necessários para
defender os direitos que conquistamos e o plano delineado em nossa Constituição
e leis, incluindo planos comunitários, produtivos e industriais. As ruas de
todos os cantos do país estão atualmente sob a vigilância de nossas forças
sociais. O povo armado está suficientemente preparado para a resistência e para
garantir a paz, a estabilidade e a governabilidade, como demonstraram nos
últimos dias. Estamos preparados para qualquer cenário.
·
Como
as pessoas têm reagido aos últimos comunicados da presidente interina Delcy
Rodríguez?
A
reação do público às declarações de Delcy é de calma e confiança, visto que o
gabinete executivo permanece intacto. O cargo legítimo do presidente Nicolás
Maduro não foi usurpado de forma alguma, o que reforça a confiança de que não
houve qualquer traição. Pelo contrário, ele é reconhecido como o único
presidente, e uma comissão de alto nível foi nomeada para trabalhar pela
libertação. Portanto, a maioria das forças sociais apoia a liderança interina
de Delcy e presume que qualquer negociação e engajamento dentro da estrutura do
direito internacional é correto e legítimo.
·
E
a oposição? Se Maduro não for libertado, você acha possível que ocorra uma
guerra civil?
A
oposição fascista na Venezuela se manifesta a partir da Europa e por meio de
porta-vozes nos Estados Unidos. Eles exigem que Donald Trump retire suas
declarações depreciativas sobre María Corina Machado e considerem Edmundo
González Urrutia como presidente interino. Esses opositores veem Delcy como uma
continuação do governo de Nicolás Maduro. Outra parte da oposição, que é
democrática, não apoia o sequestro do presidente e, apesar das divergências, já
vinha mantendo um diálogo respeitoso com o governo, buscando pontos em comum em
relação à paz e à recuperação econômica.
Uma
guerra civil teria eclodido se a oposição tivesse força, tanto civil quanto
militarmente. Esse plano foi frustrado pela inteligência e pela ação eficaz da
unidade cívico-militar, das milícias bolivarianas e dos corpos de combatentes
revolucionários. A oposição tentou repetidamente criar grupos mercenários, e
alguns foram capturados ou neutralizados. Seu plano era uma guerra civil e,
como se pode ver pelo que aconteceu em apenas dois dias, eles foram reduzidos a
nada. As ruas pertencem à sociedade venezuelana e são a garantia da
governabilidade.
Mais do
que uma guerra civil, o que deve ser considerado aqui é uma guerra de
resistência prolongada, em todas as suas formas. Quando ouvimos Trump dizer que
vai administrar a Venezuela ou que pretende realizar uma segunda onda e exigir
as condições e o modo de vida de um Estado-nação, essa forma de guerra é
imposta pelos Estados Unidos; não cabe a nós decidir como ela se desenrola. Mas
o princípio claro e justo é que a sociedade venezuelana resiste há anos; ela
tem sido historicamente ousada e rebelde. Seu lema é paz e alegria, mas não é
submissa nem covarde.
·
Qual
a importância da solidariedade latino-americana neste momento?
É o
cultivo constante que a Venezuela vem realizando, desde a épica do libertador
(Simón Bolívar), dos nossos revolucionários do passado, até esta época de
Chávez, Maduro e do nosso povo heroico. Isso é o que semeamos na América Latina
e no mundo. Esperamos que esse nosso princípio tenha criado raízes em nossa
América Latina.
Estamos
sendo atacados e sitiados pelo imperialismo. Cuba também foi atacada antes e
continua firme. A Colômbia está sendo ameaçada, assim como aconteceu com a
Venezuela. Países como Argentina, Chile, Peru, El Salvador e outros que já
enfrentaram governos subservientes aos Estados Unidos e estão em condições
sociais piores até do que nós, que estamos sob bloqueio econômico. Portanto,
esperamos que a América Latina entenda que não se trata apenas de defender o
socialismo. Os Estados Unidos querem eliminar os Estados-nação. Trump falou
abertamente sobre sua doutrina expansionista e irracional do “Destino
Manifesto” (1818) e da “Doutrina Monroe” (1823), disse que este hemisfério lhes
pertence e que não permitirão que lhes seja tomado.
·
Um
ataque à Venezuela é um ataque contra toda a América Latina?
É bom
que tenhamos lido sobre como eram os documentos de Santa Fé, nos Anos 80 e 90.
A atual agenda do Make America Great Again (MAGA) de Trump nada mais é do que a
continuação histórica de suas concepções, métodos e projetos expansionistas do
passado. Portanto, quem acredita que algo mudou está enganado. Não será
diferente, as consequências não serão diferentes. A crise é maior agora, e quem
capitular ou resistir deve fazê-lo diante de uma potência desesperada por
saquear e deixar um rastro de miséria.
Portanto,
a América Latina deve, antes de tudo, demonstrar solidariedade, criar brigadas
e forças internacionalistas para se defender, e derrubar governos que se rendem
aos Estados Unidos, ou que tentam impor novas ditaduras por meio de fraude
eleitoral, como em Honduras.
Este
não é mais um problema de um único país. A contradição antagônica entre os
Estados Unidos e a América Latina está se intensificando e isso só será
resolvido violentamente, em qualquer terreno. Os Estados Unidos não estão
dispostos a tratar ninguém com respeito, e já vimos isso acontecer antes.
Fonte:
Opera Mundi/TeleSUR

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