segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Jeffrey D. Sachs: A América Latina diante da ameaça Trump

A Estratégia de Segurança Nacional (ESN) de 2025, recentemente divulgada pelo presidente Donald Trump, apresenta-se como um projeto para o renovado fortalecimento da América. Ela é perigosamente equivocada de quatro maneiras.

Em primeiro lugar, a ESN está ancorada na grandiosidade: na crença de que os Estados Unidos desfrutam de uma supremacia inigualável em todas as dimensões-chave do poder.

Em segundo lugar, baseia-se numa visão francamente maquiavélica do mundo, tratando outras nações como instrumentos a serem manipulados em benefício dos Estados Unidos.

Em terceiro, assenta-se num nacionalismo ingênuo que desconsidera o direito e as instituições internacionais como entraves à soberania do país, em vez de quadros que fortalecem a segurança estadunidense e global em conjunto.

Em quarto lugar, sinaliza uma atitude de gangster no uso que Trump faz da CIA e das forças armadas. Poucos dias após a publicação da ESN, os EUA apreenderam descaradamente um petroleiro com óleo venezuelano em alto mar – com o frágil argumento de que a embarcação havia violado anteriormente sanções norte-americanas contra o Irã.

A apreensão não foi uma medida defensiva para evitar uma ameaça iminente. Tampouco é minimamente legal apreender embarcações em alto-mar com base em sanções unilaterais dos Estados Unidos. Apenas o Conselho de Segurança da ONU detém tal autoridade.

Pelo contrário, a apreensão é um ato ilegal concebido para forçar uma mudança de regime na Venezuela. Ela segue a declaração de Trump de que ordenou à CIA a realização de operações secretas dentro da Venezuela para desestabilizar o regime.

A segurança estadunidense não será fortalecida por alguém agindo como um valentão. Ela será enfraquecida – estrutural, moral e estrategicamente. Uma grande potência que assusta os seus aliados, coage os seus vizinhos e desrespeita as regras internacionais acaba por se isolar. A ESN, em outras palavras, não é apenas um exercício de arrogância no papel. Está sendo rapidamente traduzida numa prática descarada.

<><> Um lampejo de realismo, depois uma guinada para a arrogância

Para ser justo, a NSS contém momentos de um realismo há muito atrasado. Ela admite implicitamente que os Estados Unidos não podem — e não devem — tentar dominar o mundo inteiro, e reconhece corretamente que alguns aliados arrastaram Washington para guerras de escolha custosas, que não atendiam aos verdadeiros interesses estadunidenses. Também recua — ao menos no plano retórico — de uma cruzada exaustiva entre grandes potências.

A estratégia rejeita a fantasia de que os Estados Unidos podem ou devem impor uma ordem política universal.

Mas a modéstia é de curta duração. A ESN reafirma rapidamente que a América possui “a maior e mais inovadora economia do mundo”, “o principal sistema financeiro mundial” e “o setor tecnológico mais avançado e lucrativo do mundo”, tudo respaldado pelas “forças armadas mais poderosas e capazes do mundo”.

Essas afirmações não servem apenas como declarações patrióticas, mas como uma justificativa para usar a dominância estadunidense a fim de impor condições aos demais. Ao que parece, os países menores arcarão com o peso maior dessa soberba, já que os EUA não podem derrotar as outras grandes potências, sobretudo porque elas dispõem de armas nucleares.

<><> Maquiavelismo deslavado na Doutrina

A grandiosidade da NSS está soldada a um maquiavelismo explícito. A pergunta que ela coloca não é como os Estados Unidos e outros países podem cooperar para benefício mútuo, mas como a alavancagem estadunidense — sobre mercados, finanças, tecnologia e segurança — pode ser aplicada para extrair concessões máximas de outros países.

Isto é mais pronunciado na discussão da ESN sobre a seção do Hemisfério Ocidental, que declara um “Corolário Trump” para a Doutrina Monroe. Os Estados Unidos, declara a ESN, garantirão que a América Latina “permaneça livre de incursão estrangeira hostil ou propriedade de ativos-chave”, e alianças e auxílio serão condicionados a “reduzir a influência externa adversária”.

Essa “influência” refere-se claramente a investimento, infraestrutura e empréstimos chineses.

A ESN é explícita: “Acordos dos EUA com países ‘que mais dependem de nós e, portanto, sobre os quais temos mais alavancagem’ devem resultar em contratos de fonte única para empresas estadunidenses. A política dos EUA deve ‘fazer todos os esforços para expulsar empresas estrangeiras’ que constroem infraestrutura na região, e os EUA devem remodelar instituições de desenvolvimento multilaterais, como o Banco Mundial, para que ‘sirvam aos interesses americanos’.”

Governos latino-americanos, muitos dos quais mantêm intenso comércio tanto com os Estados Unidos quanto com a China, estão sendo efetivamente advertidos: vocês devem negociar conosco, não com a China — ou enfrentarão as consequências.

Tal estratégia é estrategicamente ingênua. A China é o principal parceiro comercial da maior parte do mundo, incluindo muitos países do hemisfério ocidental. Os EUA serão incapazes de compelir as nações latino-americanas a expulsar empresas chinesas, mas prejudicarão gravemente a sua própria diplomacia na tentativa.

<><> Aliados próximos alarmados

A NSS proclama uma doutrina de “soberania e respeito”, mas sua prática já reduziu esse princípio a soberania para os EUA e vulnerabilidade para o restante. O que torna essa doutrina emergente ainda mais extraordinária é que ela agora assusta não apenas pequenos Estados da América Latina, mas até mesmo os aliados mais próximos dos Estados Unidos na Europa.

Em um desdobramento notável, a Dinamarca — uma das parceiras mais leais dos Estados Unidos na OTAN — declarou abertamente que os EUA representam uma ameaça potencial à segurança nacional dinamarquesa. Planejadores de defesa da Dinamarca afirmaram publicamente que Washington, sob Trump, não pode ser presumido como respeitador da soberania do Reino da Dinamarca sobre a Groenlândia, e que uma tentativa coercitiva dos EUA de tomar a ilha é uma contingência para a qual o país agora precisa se preparar.

Isso é espantoso em vários níveis. A Groenlândia já abriga a Base Espacial de Pituffik e está firmemente integrada ao sistema de segurança ocidental. A Dinamarca não é antiamericana, nem busca provocar Washington. Ela está simplesmente reagindo de forma racional a um mundo em que os Estados Unidos passaram a se comportar de maneira imprevisível — inclusive em relação a seus supostos amigos.

O fato de Copenhague sentir-se compelida a considerar medidas defensivas contra Washington diz muito por si só. Isso sugere que a legitimidade da arquitetura de segurança liderada pelos Estados Unidos está se corroendo por dentro. Se até a Dinamarca acredita que precisa se precaver contra os EUA, o problema já não é mais o da vulnerabilidade da América Latina.

Trata-se de uma crise sistêmica de confiança entre nações que antes viam os Estados Unidos como o garantidor da estabilidade, mas que agora os encaram como um agressor possível — ou mesmo provável.

Em suma, a NSS parece canalizar a energia antes dedicada ao confronto entre grandes potências para a intimidação de Estados menores. Se os Estados Unidos aparentam estar um pouco menos inclinados a lançar guerras trilionárias no exterior, mostram-se mais propensos a instrumentalizar sanções, coerção financeira, apreensões de bens e o confisco — ou roubo — em alto-mar.

<><> O pilar ausente: Direito, Reciprocidade e Decência

Talvez a falha mais profunda da ESN seja o que ela omite: um compromisso com o direito internacional, a reciprocidade e a decência básica como fundamentos da segurança estadunidense.

A NSS encara as estruturas de governança global como obstáculos à ação dos Estados Unidos. Desqualifica a cooperação climática como “ideologia” — e, segundo um discurso recente de Trump na ONU, como uma verdadeira “farsa”. Minimiza a Carta das Nações Unidas e concebe as instituições internacionais principalmente como instrumentos a serem moldados de acordo com as preferências estadunidenses.

No entanto, são precisamente os quadros legais, os tratados e as regras previsíveis que historicamente protegeram os interesses estadunidenses.

Os fundadores dos Estados Unidos compreenderam isso com clareza. Após a Guerra de Independência Americana, treze Estados recém-soberanos logo adotaram uma Constituição para compartilhar poderes fundamentais — sobre tributação, defesa e diplomacia — não para enfraquecer a soberania dos Estados, mas para garanti-la por meio da criação do governo federal dos EUA. A política externa dos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial fez o mesmo por meio da ONU, das instituições de Bretton Woods, da Organização Mundial do Comércio e dos acordos de controle de armamentos.

A NSS de Trump agora inverte essa lógica. Ela passa a tratar a liberdade de coagir outros como a essência da soberania. Sob essa perspectiva, a apreensão do petroleiro venezuelano e as apreensões da Dinamarca são manifestações dessa nova política.

<><> Atenas, Melos e Washington

Tal arrogância voltará para assombrar os Estados Unidos.

O historiador grego da Antiguidade Tucídides registra que, quando a Atenas imperial confrontou a pequena ilha de Melos em 416 a.C., os atenienses declararam que “os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”. No entanto, a soberba de Atenas também foi a sua ruína. Doze anos depois, em 404 a.C., Atenas caiu diante de Esparta. A arrogância ateniense, seu excesso de ambição e o desprezo pelos Estados menores ajudaram a galvanizar a aliança que, em última instância, a derrotou.

A NSS de 2025 fala em um registro de arrogância semelhante. Trata-se de uma doutrina que privilegia o poder em detrimento do direito, a coerção em vez do consentimento e a dominação no lugar da diplomacia. A segurança dos Estados Unidos não será fortalecida ao agir como um valentão. Ao contrário, será enfraquecida — estrutural, moral e estrategicamente. Uma grande potência que assusta seus aliados, coage seus vizinhos e despreza as regras internacionais acaba, em última instância, isolando-se.

A estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos deveria se basear em premissas inteiramente diferentes: a aceitação de um mundo plural; o reconhecimento de que a soberania é fortalecida, e não enfraquecida, pelo direito internacional; o entendimento de que a cooperação global em áreas como clima, saúde e tecnologia é indispensável; e a compreensão de que a influência global estadunidense depende muito mais da persuasão do que da coerção.

¨      Acabou o "amor": agora é a lei da selva ou o fim do soft power dos Estados Unidos. Por João Ricardo Dornelles

Os Estados Unidos de Trump fazem exatamente o que Hitler tentou, a expansão do seu poder imperial considerando todo o território das Américas, a Groenlândia e a Europa Ocidental como o seu Lebensraum, o seu espaço vital. No caso da América Latina, o seu quintal.

Há um século atrás, o Lebensraum nazista era um conceito expansionista de conquista e dominação de nações e povos, suas riquezas e as fontes de energia necessárias para garantir o "Make Germany Great Again".

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Durante muito tempo, principalmente a partir do grande impulso de desenvolvimento dos Estados Unidos, desde o início do século XX, as práticas expansionistas combinavam de forma equilibrada o hard power do poderio militar e econômico com o soft power dos mecanismos da indústria cultural presentes na indústria cinematográfica hollywoodiana, na música, na literatura, na propaganda e nos meios de comunicação de massa. Combinava bem a ideologia da terra das oportunidades, terra prometida, terra da liberdade com a ideia religiosa do destino manifesto.

A ideologia do Destino Manifesto surgiu no século XIX entendendo que o povo estadunidense teria o direito divino e moral para expandir o seu território, levando a sua influência e poder por todo o continente, submetendo (exterminando, se necessário) os povos inferiores (leia-se, povos originários). Os chamados americanos (estadunidenses) seriam os portadores do progresso e da palavra de Deus para civilizar aquela "gente selvagem" que habitava há milênios o território. Os Estados Unidos seriam a nação escolhida por Deus para desempenhar um papel dominante em relação aos outros povos. Será coincidência a semelhança com a ideia sionista de "uma terra sem povo para um povo sem terra" e "povo escolhido por Deus"?

Ao falar em ser portador da civilização não é possível esquecer de Walter Benjamin e a sua contundente crítica marxista e revolucionária sobre a história invisibilizada dos oprimidos, dos vencidos, em contraposição à história dos vencedores, baseada na ideia liberal evolucionista e eurocêntrica do progresso que, em nome da civilização, deixa um enorme rastro de destruição e miséria. O próprio Benjamin afirma em uma das suas teses que "todo monumento de cultura é um monumento de barbárie" (Teses sobre o conceito de História).

Naquele momento histórico em que se desenvolvia a ideologia do destino manifesto, também nascia a Doutrina Monroe, anunciada pelo presidente James Monroe em sua mensagem ao Congresso em 2 de dezembro de 1823, consistindo na não intervenção europeia nos assuntos internos dos países americanos. O desenvolvimento do capitalismo norte-americano, em especial após a vitória da burguesia industrial do Norte sobre as oligarquias rurais do Sul na guerra civil (1861-1865), tornou o lema "América para os americanos" em "América para os Estados Unidos".

Os tempos distópicos atuais viram a renovação da Doutrina Monroe com o Corolário Trump ou o que muita gente tem chamado de Doutrina Donroe.

Com a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua companheira Cília Flores, o pedófilo ególatra Trump, ditador do país mais odiado do mundo (junto com Israel), mandou alguns recados para todos os países do planeta: "esse hemisfério é nosso". Um dos recados significa que todas as riquezas desse enorme território pertencem aos Estados Unidos, todos os povos que vivem nesses territórios não são livres, não são independentes, não são soberanos, não são iguais, são povos inferiores a serem submetidos por bem ou por mal e cujo destino, sua vida ou sua morte, dependem da boa ou má vontade do ditador estadunidense e seus comparsas. Comparsas norte-americanos e comparsas latino-americanos sabujos lambe-botas dos seus senhores.

Outros recados estão embutidos na agressão norte-americana, "não existe mais ordem internacional", "a ONU e outros organismos multilaterais acabaram". Trump age como os imperadores romanos em relação aos povos bárbaros. O sequestro do chefe de Estado de uma nação independente e soberana e a humilhação impingida a ele é a expressão do imperador que domina o mundo. As forças estadunidenses fizeram questão de divulgar na imprensa diversas imagens de Maduro mancando e algemado nos pés e nas mãos, como fizeram questão de transitar pelas ruas de Nova Iorque com as portas do furgão abertas para que as pessoas vissem a imagem do presidente venezuelano preso. São imagens que reproduzem sociedades antigas e a idade média.

Não existe dúvida sobre a decadência do imperialismo ocidental capitaneado pelos Estados Unidos. No entanto, os impérios não desaparecem da noite para o dia e a potência do Norte ainda detém um enorme poderio bélico, econômico e tecnológico. No entanto, podemos perceber que já não detém de forma absoluta e inconteste a sua hegemonia ideológica e cultural sobre todos os povos do mundo.

A história mostra que a completa derrocada de um império decadente pode demorar séculos. Foi assim com Roma, com os impérios Turco-Otomano, Britânico, Francês e agora com os norte-americanos.

Pode-se debater sobre quando começou a queda do império americano. Existem três filmes do diretor Denys Arcand, canadense de Quebec (dizer que é de Quebec significa alguma coisa, desvendem), que tratam com uma visão crítica, humor e sarcasmo a opressão capitalista e a decadência desse modelo de sociedade encarnado no estilo de vida norte-americano: "O Declínio do Império Americano" (1986), "As Invasões Bárbaras" (2003) e "A Queda do Império Americano" (2018). Todos os filmes da trilogia tratam do declínio moral, social e existencial da sociedade capitalista.

A Roma imperial foi derrotada e sucumbiu no decorrer de alguns séculos pela resistência dos chamados povos bárbaros e pela própria presença destes povos no interior do território romano. No caso de Roma, a decadência moral e dos seus valores levou à adesão ao cristianismo, como expressão ideológica surgida na Palestina, um dos territórios dominados pelo Império. Também levou à própria divisão do poder imperial em Império Romano do Ocidente, com sede em Roma, e Império Romano do Oriente, sediado na Nova Roma ou Cidade de Constantino, conhecida como Constantinopla (hoje Istambul).

Podemos dizer que os anos de 1960 podem ser o marco inicial da tal "queda do império americano", com os primeiros sinais de mal-estar da sociedade e a sensação de que alguma coisa não estava bem na "Wonderland". Os anos de 1960 marcaram uma grande efervescência social e cultural com grandes movimentos de massa nos Estados Unidos, a luta contra a segregação racial no Sul, as rebeliões carcerárias de Attica, o questionamento da vida burguesa, a luta pela paz e contra o perigo nuclear. Foram anos de enorme agitação política com a escalada imperialista no Vietnam, rechaçada por boa parte do mundo, e a derrota da maior força militar da história da humanidade para os vietnamitas, um povo de camponeses pobres que lutaram durante décadas contra as invasões japonesas, contra o colonialismo francês e contra o imperialismo estadunidense.

Outros podem indicar que a decadência do império começou com a crise do petróleo de 1973, ou em 2001 com o atentado às torres gêmeas em Nova Iorque, ou com a quebra do Lehman Brothers e a Grande Depressão de 2008. Todos esses momentos, e outros, são parte de um mesmo processo que mostrava as entranhas da sociedade capitalista norte-americana e a sua irracionalidade. São partes de um todo que tem como ponto alto, até o momento, a chegada ao poder de Donald Trump na maior potência da história.

Na indústria cultural os sinais da crise foram aparecendo passo a passo. Diferentes filmes que revelaram o que se escondia por trás do "American Way of Life". Ainda nos anos de 1950 com os filmes de James Dean, onde podemos destacar "East of Eden" (Vidas Amargas, 1955), "Rebel Without a Cause" (Juventude Transviada, 1955) e "Giant" (Assim Caminha a Humanidade, 1956). Nos anos de 1960 filmes como "Midnight Cowboy" (Perdidos na Noite, 1969) e "Easy Rider" (Sem Destino, 1969). Na música podemos destacar Pete Seeger, Joan Baez e mesmo o "zigzagueante" Bob Dylan, de certa forma seguindo os passos do espírito crítico de velhos poetas andarilhos irlandeses e de Woody Guthrie.

A decadência de qualquer império se dá também quando apenas sobra a força bruta como meio de manutenção do seu poder sobre outras nações e povos. Quando não sobram mais os meios simpáticos dos ideais, da cultura, do entretenimento, das artes e dos valores aceitos como válidos por todos. A decadência se dá pela sua degradação moral, ocorre por dentro com o apodrecimento do tecido social, o mal-estar generalizado do seu próprio povo, o medo como parte do cotidiano, a incerteza sobre o futuro, a vida na corda bamba e a ruptura de todos os laços de solidariedade e da sensação de proteção.

Os Estados Unidos são uma sociedade em crise, uma crise existencial, com aspectos sociais, econômicos, políticos e morais. A miséria atinge cerca de 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza. As políticas neoliberais pioraram em muito a situação de miséria da sociedade estadunidense, principalmente com o corte em gastos sociais. Segundo dados de 2025 (Departamento do Censo dos EUA, BBC), cerca de 47 milhões de cidadãos estadunidenses não têm certeza se terão comida necessária para a sua subsistência. A expectativa de vida do povo norte-americano tem caído ano a ano. Pela primeira vez desde o boom da economia dos Estados Unidos, os filhos não têm a perspectiva de viver melhor do que os pais.

O modelo capitalista desigual e injusto criou a decadência e a crise criou o monstro neofascista, encarnado na figura de Trump.

Acabou o soft power, as políticas de boa vizinhança, o Zé Carioca ou a Carmen Miranda americanizada, é o fim da terra dos sonhos, do american way of life, com milhões na miséria, com as cidades fantasmas, com milhares de zumbis nas ruas, com gente morando nos estacionamentos de supermercados e campings, em trailers e automóveis, com o fim da classe média, com a percepção de que os selvagens de fora também estão dentro, também já estão dentro do coração do império e que um longo processo se iniciou e estamos vivendo no momento do desespero de uma potência decadente que cada vez mais deixará de lado os meios do soft power, para usar apenas o que sobrou, a pura força bruta.

Vila Nova de Gaia, janeiro de 2026.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247

 

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