A
Soberania Digital no balcão das big techs?
A
soberania digital tornou-se um dos conceitos mais disputados nos debates sobre
políticas da internet e governança tecnológica (Herlo et al., 2021). Antes
associado principalmente ao controle estatal sobre infraestruturas
territoriais, o termo agora circula em white papers corporativos,
institutos transnacionais, think tanks, arcabouços regulatórios e
apelos de movimentos de base por soberania. Nessa proliferação discursiva, os
significados de soberania tornaram-se profundamente instáveis, e surgiram lutas
em torno de seus sentidos (Hall, 1980).
Nos
últimos anos, as grandes empresas de tecnologia, particularmente Microsoft,
Amazon e Alphabet/Google, tentaram reposicionar-se como guardiãs da soberania
digital. Em resposta às crescentes pressões regulatórias, especialmente na
Europa, essas empresas lançaram programas que prometem a governos e
organizações maior “controle” sobre seus dados, infraestruturas e operações na
nuvem. Essas iniciativas, que chamamos de “soberania-como-serviço”, representam
uma mudança estratégica: a soberania deixa de ser uma questão de
autodeterminação coletiva para se tornar um produto modular entregue por meio
de conformidade na nuvem, gerenciamento de infraestrutura e arcabouços de
governança liderados pelas corporações. Em outras palavras, a soberania
torna-se um significante vazio, que as Big Techs preenchem com serviços de
infraestrutura, servindo como uma forma de greenwashing de
responsabilidade social.
Este
ensaio argumenta que o discurso da “soberania das Big Techs”, ou seja, a
cooptação e o controle ativo dos significados de soberania por essas empresas,
constitui uma operação ideológica que reconfigura a soberania política em uma
lógica comercial e mercantilizada. Apoiando-se na análise crítica do discurso
dos programas de soberania digital lançados pela Microsoft, Amazon e Google
entre 2022 e 2023, examinamos como essas empresas enquadram a soberania como
uma questão técnica e de infraestrutura (Lehdonvirta, 2022; Plantin et al.,
2018; Poell et al., 2021), reformulando e deslegitimando suas dimensões
políticas, epistêmicas e anticoloniais. Longe de meramente se adaptarem aos
arcabouços regulatórios, essas empresas estão remodelando ativamente o significado
de soberania para atender aos seus interesses infraestruturais e geopolíticos.
Essa reconfiguração não é neutra.
Como
estudiosos da soberania digital demonstraram (Couture e Toupin, 2019; Pohle e
Thiel, 2020; Rikap et al., 2024), o termo carrega significados conflitantes
para diferentes atores: Estados, indivíduos, movimentos sociais e corporações.
Quando a Microsoft oferece uma nuvem projetada para a “soberania
governamental”, ou quando o Google apresenta a soberania digital como “uma
jornada” que leva aos seus próprios serviços, essas não são apenas respostas
corporativas a demandas externas, são apropriações estratégicas de um conceito
que historicamente pertenceu às comunidades políticas, não a empresas privadas.
Além
disso, o enquadramento da soberania-como-serviço é parte de uma tendência mais
ampla que identificamos como anti-soberania epistêmica, uma tentativa
sustentada de manter baseado nos EUA o controle sobre o conhecimento e a
infraestrutura tecnológica globais, enquanto se aparenta localização e
descentralização. Esse conceito, fundamentado nas premissas da soberania
epistêmica (Oliveira e Pinto, 2024), pode ser entendido como uma manifestação
do imperialismo tecnológico e midiático (Albuquerque, 2024; Mirrlees, 2024),
por meio da construção de monopólios intelectuais (Rikap, 2024) e da cooptação
epistêmica da forma como a soberania digital deve circular por diferentes
espaços. Ao fazer isso, as Big Techs reciclam a linhagem ideológica da
“Ideologia Californiana” (Barbrook e Cameron, 1995; Marwick, 2017), na qual
promessas libertárias de empoderamento obscurecem a consolidação do poder das
plataformas, renovando os discursos tecnológicos no contexto do “distopianismo
do Vale do Silício” (Karppi e Nieborg, 2021). A soberania digital, portanto,
está no centro das lutas discursivas em curso pelo poder tecnológico.
Esse
poder discursivo das empresas de tecnologia constitui uma faceta importante do
poder das plataformas em si em relação ao Estado (Lehdonvirta, 2022; van Dijck
et al., 2019), dado que os governos são os clientes potenciais desses serviços.
Ao venderem “nuvens soberanas”, os Estados podem manter um discurso de
“soberania digital” enquanto, na prática, fracassam em alcançá-la. À medida que
as corporações capturam a agenda, enfraquece-se a pressão por arcabouços
regulatórios e políticas que genuinamente abordem a soberania digital, tanto
das perspectivas estatal quanto comunitária, reforçando assim a dependência das
plataformas (Grohmann, 2025), particularmente em relação às infraestruturas. Ao
criticar essa cooptação discursiva, este artigo convoca acadêmicos,
formuladores de políticas e comunidades a se engajarem em um diálogo sobre como
confrontar essa situação.
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As muitas faces da soberania digital
A
soberania digital não é um conceito fixo ou universalmente aceito. Funciona, ao
invés disso, como um campo de significados disputado, um espaço onde múltiplos
atores com agendas conflitantes buscam definir os termos da governança
tecnológica, seja de dados, plataformas, inteligência artificial ou outras
tecnologias.
Em
2019, Couture e Toupin publicaram um dos artigos fundacionais sobre o tema: “O
que a noção de ‘soberania’ significa quando se refere ao digital?” (Couture e
Toupin, 2019). Nele, eles revelam a multiplicidade e a complexidade do termo,
mostrando que a soberania no âmbito digital não pode ser reduzida a uma única
dimensão ou ator, podendo inclusive ser reivindicada por movimentos sociais,
comunidades e trabalhadores (Couture et al., 2024).
No
entanto, as abordagens dominantes sobre soberania digital geralmente se
enquadram em três categorias principais (Pohle e Thiel, 2020). A primeira diz
respeito ao controle estatal sobre infraestruturas digitais e à capacidade de
formular e implementar políticas digitais, frequentemente com ênfase na
cibersegurança. A segunda refere-se à economia digital em sentido amplo,
abrangendo o papel das empresas nacionais de tecnologia e o do Estado no
desenvolvimento de políticas industriais e de inovação eficazes. A terceira
foca na dimensão individual ou pessoal da soberania digital, particularmente no
direito à autodeterminação digital, na agência do usuário e na capacidade de
tomar decisões informadas sobre dados pessoais e ambientes algorítmicos.
Desde a
publicação desses arcabouços, o conceito de soberania digital ganhou relevância
crescente nos debates sobre políticas da internet e tem sido mobilizado de
formas diversas e frequentemente conflitantes por Estados, corporações,
movimentos sociais, think tanks, acadêmicos, comunidades e
formuladores de políticas em todo o mundo.
Uma
perspectiva alternativa aborda a soberania digital pela lente dos movimentos
sociais. Como observam Couture e Toupin (2019, p. 2315), essa compreensão “é
usada para afirmar a autonomia dos movimentos sociais por meio do controle
coletivo (e às vezes individual) das tecnologias e infraestruturas digitais, e
particularmente do poder de desenvolver e usar ferramentas”, frequentemente
fundamentada nos princípios das tecnologias livres e de código aberto.
Essa
perspectiva traz à tona questões críticas sobre como os movimentos sociais
reivindicam infraestruturas digitais a partir de baixo e interagem com
instituições como o Estado na busca pela soberania digital.
Em
conjunto, esses enquadramentos ilustram que a soberania digital funciona como
um significante flutuante, mobilizado em múltiplas escalas e a serviço de
agendas políticas e econômicas divergentes. Ela pode evocar autossuficiência
nacional, individualismo liberal, autonomia infraestrutural ou resistência
coletiva.
Esses
significados também mudam conforme os contextos geográficos: o que a soberania
digital significa em um arcabouço político europeu pode diferir
substancialmente de como é invocada na América Latina, África ou Ásia.
Em vez
de buscar estabelecer uma essência conceitual fixa, nossa abordagem entende a
soberania digital como um campo discursivo marcado pela contestação entre
diversos atores e instituições.
Essa
plasticidade discursiva é precisamente o que a torna tão vulnerável à captura
corporativa. Uma breve análise do Google Trends reflete esse cenário em
mudança. O interesse global pelo termo “soberania digital” se fortaleceu entre
julho e dezembro de 2022, o mesmo período em que Amazon, Microsoft e
Alphabet/Google lançaram grandes iniciativas focadas em soberania digital no
contexto europeu.
Para
além da Europa, o termo também ganhou tração em países do BRICS, como Brasil e
Índia, sugerindo que ele não está mais confinado aos debates políticos do Norte
Global. A soberania digital tornou-se um objeto discursivo global, cada vez
mais enredado nas lutas geopolíticas sobre os debates tecnológicos.
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Métodos
Por
meio da análise crítica do discurso (ACD; Fairclough, 1992, 2003), este artigo
examina os programas de soberania digital lançados por Google, Microsoft e
Amazon entre 2022 e 2023. Essas empresas foram selecionadas devido ao seu
controle combinado de mais de dois terços do mercado global de computação em nuvem.
A ACD
nos permite compreender como características textuais específicas se relacionam
com formações discursivas mais amplas e contextos político-econômicos – neste
caso, como o termo “soberania” é mobilizado discursivamente e como essa
mobilização se alinha com os interesses estratégicos das grandes empresas de
tecnologia.
A
coleta de dados concentrou-se em materiais oficiais publicados no site de cada
empresa, incluindo anúncios de programas, posts de blog e descrições de
produtos. Nosso objetivo aqui não era analisar os diversos gêneros e formatos
discursivos empregados pelas empresas, mas sim focar em suas dimensões
textuais.
Não
obstante, observamos que a maioria dos materiais exibia características
semelhantes, geralmente assumindo a forma de sites visualmente atraentes
criados para apresentar o que são chamados de programas de soberania digital.
Realizou-se
um processo de codificação temática e, seguindo Fairclough (1992, 2003),
aplicamos os conceitos de enunciado e discurso para identificar as formações
discursivas mais amplas, entendidas como ideologias e sistemas de valores, ou
formações ideológico-discursivas, às quais cada enunciado estava relacionado.
Nossa
análise considerou três dimensões centrais: (1) como a soberania é definida ou
implícita em cada programa; (2) o contexto político e regulatório em que o
programa foi lançado; e (3) as estratégias implantadas por cada empresa — como,
por exemplo, os produtos ou serviços específicos oferecidos — sob a bandeira da
soberania digital.
Esses
materiais foram então interpretados à luz de discursos mais amplos e
reivindicações contestadas que cercam a soberania digital nos debates
contemporâneos sobre governança da internet.
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O que a soberania significa para as Big Techs
Todas
as três empresas — Google/Alphabet, Amazon e Microsoft — lançaram seus
programas de soberania digital entre 2022 e 2023, com um claro foco no contexto
europeu. Essas iniciativas surgiram em resposta a desenvolvimentos regulatórios
recentes e a discursos crescentes sobre governança de dados e soberania na
região.
No
final de 2022, a Amazon, por meio de sua divisão de infraestrutura em nuvem,
Amazon Web Services, introduziu o “Digital Sovereignty Pledge1” (Compromisso de
Soberania Digital). O programa foi disponibilizado em vários idiomas e
promovido por meio de veículos de mídia locais em diferentes regiões. Por
exemplo, no Brasil, um portal de notícias online anunciou o “compromisso da
Amazon com a soberania digital2“.
De
acordo com a empresa, a soberania digital é definida como “ter controle sobre
ativos digitais”, e a Amazon se posiciona como aquela que capacita os clientes
a atenderem aos requisitos relacionados à soberania. Nesse enquadramento, a
soberania é efetivamente reduzida a uma questão de gestão de ativos e acesso do
consumidor à infraestrutura da Amazon.
A
Amazon invoca o conceito de ser “soberana por projeto” [sovereign-by-design]
— um termo que permanece indefinido nos materiais oficiais. Essa noção engloba
quatro elementos principais: (1) controle sobre a localização dos dados; (2)
controle verificável sobre o acesso aos dados; (3) capacidades de criptografia
de ponta a ponta descritas em termos universais (“tudo” e “em todos os
lugares”); e (4) resiliência da nuvem, vinculada principalmente à segurança em
nível de hardware.
Esses
recursos são comercializados como se proporcionassem aos clientes um controle
ampliado sobre a infraestrutura em conformidade com os quadros legais
existentes e são apresentados discursivamente como inovadores e disruptivos.
A
Microsoft foi a primeira entre as três empresas a lançar um programa de
soberania digital, introduzindo o Microsoft Cloud for Sovereignty em julho de
2022.3 A iniciativa tem como alvo principal governos e clientes do setor
público que buscam investir em soberania digital.
Aqui, a
soberania está, de novo, intimamente ligada à infraestrutura em nuvem e à
governança de dados, particularmente através do conceito de “soberania de
dados”. De acordo com a Microsoft, “soberania de dados é o conceito de que os
dados estão sob o controle do cliente e regidos pela lei local”3.
Essa
definição alinha a oferta da empresa com arcabouços regulatórios nacionais,
como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR), posicionando-a como
uma parceira em conformidade com o Estado.
O
produto central associado ao programa da Microsoft é o serviço de nuvem pública
Microsoft Azure. A empresa enfatiza que “cada governo tem uma visão e
requisitos únicos ao abordar suas necessidades soberanas”, e propõe atender a
essas necessidades por meio de uma “camada adicional de possibilidades de
política e auditoria” incorporada em seus serviços de nuvem.
O
enquadramento da Microsoft sugere que, em vez de desenvolver estratégias
autônomas de soberania digital, os Estados podem confiar na Microsoft para
torná-los “mais soberanos”, reforçando assim o poder infraestrutural e
discursivo da empresa em relação aos atores estatais (Lehdonvirta, 2022).
A
Alphabet/Google foi a última das três empresas a lançar uma iniciativa focada
em soberania. Em março de 2023, ela introduziu o Digital Sovereignty Explorer
(Explorador de Soberania Digital), também projetado com o contexto europeu em
mente4.
Ao
contrário da Amazon e da Microsoft, o Google não lançou novos produtos, mas
desenvolveu uma ferramenta para ajudar os clientes a identificar “soluções de
soberania” relacionadas à governança de dados, operações e arquitetura de
software, afirmando explicitamente que a soberania vai além da residência de
dados.
Após
avaliar as necessidades do cliente, a ferramenta gera um relatório recomendando
os serviços apropriados do Google Cloud.
O
Google enquadra a soberania como um serviço a ser alcançado por meio de seu
ecossistema de ferramentas, particularmente o Google Cloud e o Google
Workspace. A empresa descreve a soberania digital como “organizações mantendo
controle e autonomia enquanto desenvolvem suas estratégias de transformação
digital e de nuvem”, enfatizando recursos como controle, visibilidade e
transparência.
Além
disso, o programa introduz uma noção de soberania de software vinculada à
resiliência “contra eventos geopolíticos disruptivos”. Nesse enquadramento, o
Google se posiciona como um protetor dos interesses dos clientes, oferecendo
não apenas soluções técnicas, mas uma forma de blindagem geopolítica que
garante sua soberania digital.
Apesar
de suas estratégias e enquadramentos distintos, os programas de soberania
digital lançados pela Amazon, Microsoft e Google entre 2022 e 2023 convergem ao
apresentar a soberania como um serviço oferecido por infraestruturas privadas,
em vez de uma capacidade política desenvolvida por instituições públicas.
Cada
empresa alinha seu programa com as pressões regulatórias emergentes do contexto
em que atua, particularmente em resposta a debates sobre proteção de dados,
regulação de IA e autonomia infraestrutural.
A
Amazon enfatiza o controle centrado no cliente sobre ativos digitais, a
Microsoft se posiciona como uma parceira de conformidade para os Estados, e o
Google oferece soberania como uma configuração otimizada de seus próprios
serviços de nuvem.
Em
todos os casos, a soberania é desenraizada de suas origens históricas e
políticas e redefinida como uma solução configurável entregue por meio de
plataformas privadas.
Enquanto
o discurso da Amazon enfatiza o controle de ativos e a criptografia, a
Microsoft enquadra a soberania em termos de conformidade legal e flexibilidade
política para governos. O Google, por outro lado, centraliza sua narrativa na
transformação digital e na resiliência infraestrutural, particularmente em
resposta a rupturas geopolíticas.
Em
todos esses casos, a lógica é invertida: em vez de Estados ou comunidades
exercerem soberania sobre as tecnologias, são as plataformas que agora concedem
as ferramentas para que outros sejam “soberanos”, em seus próprios termos.
Essa
soberania é ostensivamente “localizada”, mas permanece profundamente dependente
das infraestruturas e dos negócios dessas corporações globais. A Tabela 1
resume as principais abordagens das iniciativas de soberania digital
implementadas pelas Big Techs entre 2022 e 2023.
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Conclusão
Os
programas de soberania digital da Amazon, Microsoft e Google revelam uma
mudança ideológica mais ampla na forma como as empresas de plataforma se
engajam com conceitos políticos e acadêmicos, tentando cooptá-los de acordo com
seus interesses, como resposta aos atuais arcabouços regulatórios.
Ao
reclassificarem a soberania como um serviço, essas empresas desenraízam o
conceito de suas associações históricas com a autodeterminação coletiva, o
papel do Estado e os desenvolvimentos locais. Em seu lugar, elas oferecem
arcabouços de marca como “controle”, “conformidade” e “resiliência”,
distribuídos por meio de infraestruturas proprietárias.
Este
artigo argumentou que isso não é meramente uma resposta a pressões regulatórias
— particularmente dentro da União Europeia, mas uma síntese social mais ampla
de como as Big Techs buscam atualizar a ideologia do Vale do Silício ou
californiana, ao se apropriar e esvaziar os significados de conceitos-chave
emergentes da sociedade civil. Isso é o que chamamos de soberania-como-serviço.
Esta é
uma forma de captura discursiva na qual as empresas de plataforma definem as
condições sob as quais outros, sejam indivíduos, corporações ou mesmo governos,
podem ser considerados “soberanos”, dependendo de seus recursos e capacidades
infraestruturais.
Fonte: Por Rafael
Grohmann e Alexandre Costa Barbosa | Tradução: Antonio
Martins, em Outras Palavras

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