A
nova guerra tecnológica e o papel dos Brics
Este
não é um drama de ficção científica, mas a realidade incômoda que define a
transição da ordem internacional. O poder dessas corporações é de tal magnitude
que elas não apenas influenciam as regras do xadrez institucional; elas definem
o tabuleiro, as peças e até mesmo as leis da física digital. E fazem isso em
alinhamento com os governos de seus países de origem, ameaçando a autonomia dos
demais.
Neste
cenário de soberania tensionada, o BRICS emerge não apenas como um grupo de
cooperação econômica, mas como o principal polo de resistência a este novo tipo
de poder. A busca pela Soberania Digital, para esses países, não é uma pauta
técnica restrira à tecnologia da informação. Como afirmam os estudos críticos
de segurança, trata-se de um ato de emancipação contra o colonialismo digital,
onde a agenda digital é, fundamentalmente, a política externa do futuro.
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A arquitetura do poder estrutural
Para
entender como o Vale do Silício ganhou o status de diplomacia corporativa
digital, precisamos sair da superficialidade do “lobby” e mergulhar na essência
do poder. A teórica Susan Strange nos deu a chave: o Poder Estrutural. Não se
trata de convencer um governo a assinar um contrato ou aprovar uma lei, mas de
moldar a própria estrutura sobre a qual todos os governos devem operar.
Para a
autora, as Big Techs detêm este poder em quatro esferas vitais da vida moderna,
atuando como verdadeiros arquitetos da realidade global. Primeiramente, na
Segurança, controlam a infraestrutura crítica — dos cabos submarinos aos
serviços de nuvem — decidindo quem pode ser monitorado e como a informação é
protegida (ou, inversamente, interceptada por terceiros). Em segundo lugar, na
Produção, definem as cadeias de suprimentos globais e, mais do que isso,
regulamentam o trabalho na Gig Economy, transformando trabalhadores
em notas de rodapé de seus termos de serviço. Nas Finanças, através das
plataformas de pagamento e da ameaça latente de moedas digitais corporativas,
elas flertam perigosamente com a desintermediação dos bancos centrais. Por fim,
no Conhecimento e Dados, o controle sobre os algoritmos não é apenas comercial;
é epistemológico, pois determina o que vemos, o que sabemos e, crucialmente, o
que o Estado sabe sobre nós.
Essa
capacidade estrutural transforma CEOs em agentes diplomáticos, capazes de
negociar diretamente com chefes de Estado e definir padrões normativos muito
antes que qualquer parlamento consiga redigir uma lei. Esta é a prova cabal de
que as corporações tecnológicas operando em escala global têm meios e fins que
extrapolam a função de utilidade da maximização do lucro e do valor de mercado.
E novos objetivos, exigem novos recursos. Esta necessidade que o capital do
Vale do Silício tem de controlar ou se apropriar dos meios de coerção, que até
hoje eram o principal diferencial entre os subsistemas de poder e dinheiro nas
sociedades capitalistas e os estados nacionais, nos leva a uma escalada de
busca por um poder geopolítico.
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O Estado aprofunda o jogo
Por
muito tempo, a narrativa ocidental nos vendeu a ilusão de um “mercado livre”
digital nos EUA em contraste com o “controle estatal” na China. Esta dicotomia
simplista caiu por terra nos últimos anos. Estudos recentes apontam para a
ascensão do Capitalismo de
Plataforma Estatal (SPC),
um regime onde a separação entre Estado e Corporação digital é quase
inexistente, movido pela rivalidade geopolítica EUA-China.
As
plataformas não operam mais no vácuo; elas são instrumentalizadas. Nos Estados
Unidos, esta natureza é implícita e profunda: contratos maciços de defesa (o
Complexo Digital-Militar), isenções e subsídios atuam como um cordão umbilical
que liga o Tesouro, por exemplo, às contas da Amazon e da Microsoft. Na semana
passada, o governo Trump lançou sua Estratégia Nacional
de Segurança,
um documento curto que deixa claro os caminhos que os EUA seguirão em suas
políticas externa e interna, incluindo parte da agenda digital.
Antes
de se debruçar no que nos interessa neste texto vale descrever as
linhas-mestras do documento. A Casa Branca está articulando uma doutrina de
“Realismo Flexível” e soberania nacional absoluta, rejeitando o globalismo e
instituições transnacionais que limitem a autonomia dos EUA. A política interna
é projetada como política externa: o controle rigoroso das fronteiras (“O Fim
da Era da Migração em Massa”) e a deportação são tratados como a prioridade
número um de segurança nacional. Economicamente, o texto defende o
protecionismo através de elevadas tarifas comerciais, a reindustrialização
forçada e a independência energética total, rejeitando acordos climáticos
globais e focando na exploração máxima de combustíveis fósseis e energia
nuclear para garantir prosperidade interna.
A
agenda digital da Estratégia estadunidense estabelece sua supremacia
tecnológica como o alicerce da segurança nacional e prosperidade econômica. O
plano foca agressivamente na proteção da propriedade intelectual e na liderança
incontestável em setores emergentes como inteligência artificial, computação
quântica e biotecnologia. Para isso, propõe uma fusão entre a base industrial
de defesa e o setor tecnológico privado como já vinha se desenhando,
incentivando a desregulamentação para acelerar a inovação e o uso de operações
cibernéticas ofensivas para neutralizar ameaças à infraestrutura e à economia
dos EUA.
Simultaneamente,
a estratégia utiliza a tecnologia como a principal ferramenta diplomática de
persuasão. Os EUA planejam oferecer acesso privilegiado aos seus mercados de
capitais, tecnologias de IA e sistemas de defesa avançados a parceiros que se
alinhem aos seus interesses e controles de exportação, isolando competidores
como a China. A infraestrutura digital global é vista como um terreno onde os
padrões americanos devem prevalecer, garantindo que o futuro da economia
digital opere sob regras favoráveis a Washington e livres de influência
adversária em cadeias de suprimentos críticos.
Uma
breve análise sobre a doutrina de segurança vem de Kevin Xu, que tem explorado o
conceito de “Guerra da Nuvem” (Cloud War). Ele fornece um ângulo crucial
que transforma a competição tecnológica em uma tática explícita de política
externa. Ao analisar a Estratégia de Washington, Xu argumenta que com a
Inteligência Artificial sendo amplamente oferecida a partir de um serviço de
nuvem, a disputa pelo controle da infraestrutura de data centers fora dos
mercados domésticos tornou-se o novo vetor da confrontação tecnológica global,
sucedendo à guerra do 5G, ganha pela China.
Neste
cenário, diplomatas e oficiais de serviços estrangeiros dos EUA são cada vez
mais encarregados de promover ativamente a adoção de plataformas americanas (hyperscalers),
transformando as agências governamentais em promotoras da pilha tecnológica do
país. Essa estratégia deliberada de “empurrar” a tecnologia americana para o
exterior força regiões até então neutras, como o Oriente Médio e a América
Latina, a se tornarem campos de batalha digital, minando a autonomia
estratégica dos países do BRICS e a sua busca por autonomia tecnológica
soberana.
O
documento também concentra seu foco como aliados e rivais no digital em Golfo
Pérsico e China. O governo Trump deverá se vincular com os países do Golfo pelo
fortalecimento de parcerias através da diplomacia comercial e tecnológica, onde
a região é vista como um destino crucial para investimentos em energia nuclear,
IA e tecnologias de defesa. A estratégia destaca o sucesso em garantir o apoio
das nações árabes à tecnologia de alto desempenho de IA americana em detrimento
de alternativas concorrentes, o que serve para aprofundar as parcerias de
segurança e alinhar a região aos interesses dos EUA. Além disso, manter o fluxo
de energia do Golfo longe do controle de inimigos permanece um interesse
central, mas agora complementado por uma colaboração onde os EUA exportam
tecnologias energéticas e atraem capital da região para seus próprios mercados.
Em
relação à China, a Estratégia estadunidense adota uma postura de competição
tecnológica e econômica agressiva, identificando a inteligência artificial (IA)
e a computação quântica como domínios vitais onde devem manter e avançar sua
vantagem militar e de uso duplo. A Estratégia enfatiza que a “dominância
energética” americana — através de energia barata e abundante — é essencial
para alimentar o crescimento dessas tecnologias de ponta, como IA, e sustentar
a reindustrialização necessária para reduzir a dependência de cadeias de
suprimentos controladas pela China. O objetivo explícito é impedir que
tecnologias e padrões dos EUA sejam suplantados e garantir que adversários não
tenham acesso a inovações críticas, protegendo a propriedade intelectual contra
roubo e espionagem industrial.
Ao
mesmo tempo, Trump tem feito movimentos dúbios na relação com o concorrente de
corrida. Em um texto recente, Gary Marcus questiona a
coerência da política de IA da Casa Branca, mencionando a complexa relação
pendular com a China enquanto impede assembleias legislativas estaduais de
regularem a tecnologia localmente. Entre mudanças radicais e imprevisíveis, o
presidente dos EUA, especialmente no domínio tecnológico e de IA, fez uma série
de ações e retornos abruptos, desde medidas duras como tarifas e restrições à
Huawei até períodos de aparente trégua, refletindo uma abordagem inconstante e
por vezes contraditória, que oscilava entre o isolamento agressivo e a
colaboração seletiva.
Mas
se estamos a competir com a China, por que estamos de repente a permitir que a
Nvidia lhes venda H200s, um dos chips mais potentes (embora não o mais potente)
da sua linha? Não consigo entender. Um cínico poderia dizer que a verdadeira
ideia da desregulamentação talvez seja ajudar as empresas de IA do Vale do
Silício a ganhar mais dinheiro com a IA (sem levar em conta o impacto sobre os
cidadãos do país). Mas, ao vender os chips para a China, Trump não está a armar
os seus concorrentes?
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Dominância instrumental
Na
China, como nos mostra o White Paper de Segurança Nacional 2025, lançado em maio, a
instrumentalização da tecnologia como política interna e externa também é
explícita. O Estado chinês disciplinou suas Big Techs não para destruí-las, mas
para garantir que sirvam ao projeto nacional, que configurou um sistema tecnológico
totalmente integrado e soberano. O governo de Pequim está vinculando ativamente
suas tecnologias avançadas, como IA, 5G (em paralelo ao 6G) e computação de
alto desempenho, em sua política externa para remodelar a ordem global e
expandir sua influência geopolítica, superando a mera exportação de produtos.
A
estratégia, que se alinha com o plano Made in China 2025, foca em
estabelecer a China como líder global em setores críticos de alta tecnologia,
reduzindo a dependência de fornecedores ocidentais e, ao mesmo tempo, criando
dependência tecnológica em países parceiros. Isso se manifesta na exportação de
infraestrutura digital completa, como redes 5G da Huawei, sistemas de
vigilância baseados em IA e plataformas de fintechs para nações em
desenvolvimento, especialmente aquelas que fazem parte da Iniciativa Cinturão e
Rota (Belt and Road Initiative). Ao oferecer alternativas tecnológicas
muitas vezes mais baratas e sem as exigências de privacidade ou governança do
Ocidente, a China consegue estabelecer seus próprios padrões tecnológicos e
normas regulatórias no exterior, cimentando sua posição como um poder
tecnológico rival aos EUA.
Esta
integração tecnológica permite ao Partido Comunista projetar seu modelo de
intervenção externa e ampliar suas capacidades de coleta de dados e vigilância
em escala global. O uso da IA não se restringe apenas à competição econômica,
mas também à capacidade militar (fusão civil-militar) e ao monitoramento do
ambiente informacional. Plataformas avançadas de IA estão sendo aplicados em
sistemas de defesa cibernética, antecipação de conflitos e, potencialmente, na
exportação de tecnologia militar autônoma. Além disso, no domínio diplomático e
de soft power, a IA pode ser usada para criar modelos de linguagem
e ferramentas de mídia que melhoram a capacidade da China de moldar narrativas
globais, complementando seus esforços de segurança nacional.
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Hegemonia bipolar
Essa
abordagem de política externa impulsionada pela tecnologia força os demais
países a reconsiderarem a soberania de sua infraestrutura digital,
frequentemente apresentando uma escolha binária entre o ecossistema tecnológico
chinês ou o americano. Em um caso ou no outro, as Big Techs são, portanto, os
instrumentos de projeção do poder das duas potências. Ao mesmo tempo, os demais
países são pressionados em sua soberania de exercer políticas digitais
(regulação e política industrial), principalmente, por esta aliança entre
governo e conglomerados dos EUA. Realidade que ficou mais escancarada com o
retorno de Donald Trump à Casa Branca.
Tanto a
Estratégia Nacional de Segurança 2025 dos Estados Unidos quanto o White Paper
de Segurança Nacional da China 2025 revelam uma convergência fundamental: ambas
as nações reconhecem que as grandes empresas de tecnologia são atores centrais
na competição geopolítica contemporânea, integrando explicitamente a diplomacia
corporativa digital em suas políticas de segurança nacional. Nos EUA, a
estratégia estabelece uma “colaboração mais próxima entre o Governo dos EUA e o
setor privado americano”, designando embaixadores como “campeões de negócios
americanos”, caso de Sam Altman (OpenAI) e Jensen Huang (NVidia), posicionando
empresas como Microsoft, Google e Apple como instrumentos de soft power baseados
em valores globais, ética em inteligência artificial e soberania digital. A
diplomacia corporativa americana, exemplificada pela liderança de Brad Smith na
Microsoft, transcende o lobby tradicional para engajar governos, organizações
internacionais e sociedade civil, buscando estabelecer normas internacionais de
cibersegurança e governança de dados.
Por sua
vez, a China estrutura sua estratégia em torno do conceito de “segurança
holística” que integra diretamente suas Big Techs — Huawei, Alibaba, Bytedance
e Tencent, entre outras — como extensões do aparato estatal, focando em
soberania digital e autossuficiência tecnológica como fundações para a
modernização econômica e a resistência à contenção americana.
Enquanto
o modelo americano mantém uma aparente independência corporativa
operacionalizada através de responsabilidade social corporativa e
transparência, o modelo chinês subordina explicitamente a diplomacia
corporativa aos objetivos de segurança nacional, utilizando as gigantes
digitais como instrumentos diretos de política externa e expansão de
infraestrutura crítica global. Ambas as estratégias convergem na
instrumentalização da diplomacia corporativa digital para competir por
predomínio em inteligência artificial, semicondutores e infraestrutura 5G/6G.
Porém, divergem fundamentalmente em seus pressupostos: os EUA buscam
legitimidade através de normas e valores compartilhados, mesmo que impostos de
forma unilateral, enquanto a China persegue autossuficiência e soberania
tecnológica como defesa contra interferência externa.
Esta
dicotomia contrapõe não apenas modelos de capitalismo de estado e economia de
mercado, mas também visões contrastantes sobre o papel das corporações na
diplomacia internacional — para os EUA, as big techs são parceiras na projeção
de poder para o domínio via valores compartilhados; para a China, são
instrumentos de poder estatal. A intensificação dessa diplomacia corporativa
digital entre os dois sistemas sugere que a próxima década de competição
geopolítica será mediada não apenas por negociadores diplomáticos tradicionais,
mas por executivos e proprietários de empresas de tecnologia operando nas
intersecções entre mercado, segurança nacional e governança global.
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A chancelaria privada em ação no BRICS
O
resultado é um dilema insustentável para o BRICS: alinhar-se a um conglomerado
estadunidense é aceitar a jurisdição extraterritorial de Washington; alinhar-se
a uma plataforma chinesa é aceitar o projeto de integração colaborativa de
Pequim. A Soberania Digital para o Sul Global se torna, portanto, a busca pelo
que se poderia chamar de des-siliconização, a autonomia para construir um
futuro que não seja ditado por nenhum dos dois hegemons tecnológicos.
A
atuação das Big Techs sobre um BRICS fragilizado por desacordos recentes
precisa ser objeto de um estudo de caso mais aprofundando em Diplomacia
Corporativa. De forma empírica, podemos dizer que ela se desdobra em três
frentes de projeção de poder. A primeira é a Diplomacia de
Padrões (normative
power) por meio da qual as empresas não esperam por leis; elas criam
padrões técnicos (como o 5G ou as especificações de IA) em fóruns privados onde
capturam os técnicos, garantindo que seus protocolos se tornem a norma global.
Ao definir o padrão, definem os limites do que é regulável,
tolhendo o espaço de manobra de países médios. Ao mesmo tempo, exercem a Diplomacia da
Infraestrutura (material
power) direcionando o investimento em centros de dados e cabos submarinos
para além de uma benesse comercial para o país onde operam; trata-se de uma
negociação por território. Ao fincar hardware em solo nacional, a empresa exige
concessões fiscais e, o mais importante, negocia os termos de acesso e
jurisdição em caso de requisição de dados pelo Estado de origem. O chão da
nuvem é o novo território de segurança. A terceira é a da Diplomacia da Legitimidade onde programas
de “filantropia digital” ou de “inclusão” visam construir uma base social e
política inatacável. Ao preencherem lacunas estatais, elas geram lock-in e
tornam-se indispensáveis, construindo um escudo de utilidade social que
dificulta qualquer iniciativa de regulação mais rígida.
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Um mosaico de soberania
Os
membros do BRICS, cientes da securitização da tecnologia, têm respondido com
estratégias distintas. Cada um a seu modo, tentam criar maior ingerência na
diplomacia das Big Techs. Estas, por sua vez, apoiam-se em seus governos para
assegurar liberdade de ação transnacional.
Como já
mostramos anteriormente, a China se encontra descolada do restante do grupo.
Por isso, é a única que pode adotar a Soberania Cibernética, buscando o
controle através da política tecnológica utilizando suas campeãs nacionais como
extensões de seu poder no Sul Global (a diplomacia do 5G da Huawei e de rede
social da Bytedance). O foco é na estabilidade política e busca de
independência relativa das tecnologias ocidentais.
Por sua
vez, a Rússia prioriza uma Soberania Defensiva, construindo resiliência contra
sanções e ataques externos, com projetos como o RuNet (a internet
“desconectável”) e a substituição compulsória de softwares ocidentais, um claro
reflexo de sua postura de guerra híbrida.
No caso
da Índia, o foco é o Nacionalismo de Dados, onde eles não são vistos como
risco, mas como ativo de desenvolvimento. O India Stack — uma
infraestrutura pública digital de identidade e pagamento — visa desintermediar
as plataformas privadas, enquanto o governo indiano adota o bloqueio seletivo
de aplicativos estrangeiros para proteger sua indústria e seus dados.
Já o
Brasil opera no campo do Multilateralismo e da Regulação. Com quadros legais
abrangentes como o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados
Pessoais, o país tem tentado moldar o ambiente regulatório global de dentro,
influenciando o G-20 e o próprio BRICS. A força reside não em construir uma
alternativa tecnológica puramente nacional, mas em forçar as Big Techs a
cumprirem normas democráticas e transparentes no seu território. Caminho
seguido pela União Europeia sem se preocupar com a industrialização e que está
sendo repensado por Bruxelas.
Por
fim, a África do Sul adota uma postura singular. Seu principal desafio não é
apenas a dependência de Big Techs, mas a urgência em utilizar a tecnologia para
superar desigualdades estruturais. A estratégia sul-africana está profundamente
ligada à Quarta Revolução Industrial (4IR). Isso a torna um hub estratégico,
paradoxalmente, mais vulnerável. É uma porta de entrada para a tecnologia
chinesa no continente, muitas vezes abraçando essa parceria para obter a
infraestrutura a preços acessíveis, em detrimento do alinhamento ocidental.
Com a
entrada de novos países médios, o grande desafio do BRICS é tentar aproximar
estas estratégias no pouco que elas possuem em comum. Harmonizar esses modelos,
pois uma coordenação regulatória e de política industrial eficaz — na qual os
padrões da LGPD brasileira se encontram com a resiliência russa e o
nacionalismo indiano — criaria um mercado digital de escala capaz de ditar, e
não apenas aceitar, as regras do jogo de soft power imposto
pelos EUA.
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Emancipação pelo alinhamento
A
autonomia estratégica do BRICS será decidida pela capacidade de seus países
membros de internalizar a tecnologia como questão de Estado e de capitalizar
seus momentos de fragilidade corporativa como uma conjugação de esforços. Algo
bastante difícil de ser alcançado dada a atual fragilizada na coesão do bloco.
O
primeiro passo é desmistificar a neutralidade tecnológica. Reconhecer que um
chip, um algoritmo ou um cabo submarino carregam consigo as intenções e as
jurisdições de seu país de origem. A soberania digital requer, portanto, uma
política industrial que invista em alternativas locais e promova o código
aberto.
O
caminho para o BRICS não é o isolacionismo, como quer a Casa Branca, mas a
coordenação. Criar um mercado digital de 3 bilhões de pessoas com regras
similares de proteção de dados, resiliência da rede, padrões de IA e cláusulas
de soberania em contratos de compras públicas é a única forma de forçar as Big
Techs a se adaptarem ao Sul Global, e não o contrário.
Como se
sabe, o futuro da ordem mundial não será decidido apenas por quem tem mais
armamento, mas por quem controla o fluxo de dados, quem define o código e quem
é capaz de governar a geopolítica do algoritmo. O BRICS tem a massa crítica,
mas precisa de coerência estratégica. É urgente que seus líderes entendam: a
Diplomacia Corporativa Digital é a nova face da disputa por poder no século
XXI. É hora de os Estados nacionais, finalmente, assumirem o controle de suas
agendas neste campo por meio da política externa multipolar.
Fonte: Por
James Görgen, em Outras Palavras

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