sexta-feira, 9 de janeiro de 2026


 

O tenente, o capitão e o fascismo: Diários de Celso Furtado sobre fascismo italiano explicam ódio bolsonarista

2025 terminou. Mas, para mim, o mês de março segue em curso. É um mês que não se encerrou no meu calendário porque deixou marcas que atravessaram o ano inteiro. Foi em março que uma reportagem que publiquei a partir da Argentina desencadeou uma campanha de ameaças de morte que transformou radicalmente minha vida.

Fui obrigado a mudar de casa, de estado e de rotina. Minha família e pessoas próximas passaram a viver sob medo permanente.

Até consegui me levantar depois disso. Publiquei dezenas de reportagens, análises e investigações aqui na newsletter Cartas Marcadas.  É uma tentativa de entender o que vi e vivi à luz de uma leitura que fiz agora em dezembro e que deu sentido, de forma dolorosa, a minha memória daquele mês de março. Vamos aos fatos.

<><> Uma onda de ódio

Depois da reportagem em que revelei que o bolsonarista Josiel Gomes de Macedo, condenado a 16 anos de prisão por participação na tentativa de golpe de 8 de Janeiro, vivia tranquilamente na Argentina apesar de ter mandado de prisão aberto no Brasil, a reação foi imediata.

A investigação tratava da rede de proteção aos golpistas, da leniência das autoridades argentinas e do envolvimento direto de Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro na fuga dos condenados por ataques à democracia. Isso bastou para que o ódio se organizasse.

Um retuíte de Eduardo Bolsonaro funcionou como gatilho. Emissoras de rádio, influenciadores, figuras públicas e políticos passaram a incitar ataques. O próprio Josiel, em uma live, fez ameaças explícitas.

Nas redes sociais, começaram a circular mensagens que iam muito além de xingamentos: promessas de assassinato, divulgação de endereços, informações pessoais minhas e da minha família, desejos de perseguição e violência física.

Investiguei cada uma daquelas ameaças. Foi aí que algo se tornou ainda mais perturbador. Por trás das mensagens mais brutais, não estavam apenas perfis anônimos ou militantes profissionais, mas gente comum.

Uma senhora do interior do Tocantins escreveu que eu merecia “um banho de água sanitária”. Um pai de três filhas, morador de Salvador, implorava para que alguém me matasse. Trabalhadores, aposentados, pessoas com vida ordinária, rotina banal, capazes de escrever atrocidades com uma naturalidade assustadora.

Precisei sair de casa às pressas, reorganizar tudo, tentar seguir trabalhando enquanto lidava com o medo permanente e com a angústia de ver minha família exposta.

E foi só agora, lendo um livro recém-lançado pela Companhia das Letras, chamado “O Tenente”, de Celso Furtado, que algo daquele período começou a fazer um sentido mais profundo.

Alerta aos acadêmicos e intelectuais: não farei aqui uma análise científica ou acadêmica. Não faltam autores, conceitos, escolas e bibliografias para analisar a violência política e o fascismo.

<><> O fascismo por dentro

O que me fascinou na leitura de Furtado foi outra coisa: o testemunho cru de alguém que viu o fim do fascismo italiano por dentro, como soldado da Força Expedicionária Brasileira nos finalmentes da Segunda Guerra Mundial, circulando por cidades devastadas e convivendo com um povo moldado por décadas de arbítrio.

Ao chegar a Nápoles, Furtado descreve um dos impactos imediatos da guerra e dos fascismo sobre a população civil: “Quando o caminhão saiu da zona portuária, começou para mim o terrível espetáculo. Eu queria ver a cidade: sua fisionomia, o grau de prosperidade; queria ver o povo; queria ver a guerra: os seus efeitos na cidade e no povo”, diz.

“Entretanto, a única coisa que pude ver foi a tragédia horrível das crianças famintas que assaltaram o caminhão. (…) Os seus agasalhos em farrapos e os pés embrulhados em trapos. Tinham as mãozinhas para cima e gritavam, gritavam pedindo comida e cigarros. Atiravam-se no chão em busca do que deixávamos cair do caminhão”, descreve Furtado.

Mas o que mais impressiona em “O Tenente” não é apenas a fome ou a destruição material. É a descrição do que o fascismo fez com as pessoas comuns. “Nos era dado conversar e conviver com indivíduos que há um quarto de século não sabiam o que é a liberdade, mesmo nas suas formas mais elementares”, escreve Furtado.

“Nos foi dado ver como um sistema de arbítrio e a irresponsabilidade de governo costuma corromper um povo”, continua. “Acostumados a esperar de parte dos poderes constituídos o que fosse de mais atrabiliário [violento] e imoral, os indivíduos iam formando o seu comportamento de modo a compensar essa ordem de coisas com atos e atitudes também imorais”, resume.

A leitura dessas passagens em 2025 foi, para mim, desconcertante.

<><> A normalização da violência

Percebi que o bolsonarismo, assim como o fascismo histórico, não se limita a um projeto de poder ou a uma ideologia organizada. Ele cumpre um papel corrosivo mais profundo: o de normalizar a violência, o cinismo, o ódio como forma de pertencimento político.

Furtado descreve como, sob o fascismo, instintos como o egoísmo, a falsidade e o medo se espalham pela sociedade, enquanto o senso de responsabilidade coletiva é anulado. “O estado fascista anulou-lhe o senso de responsabilidade no que diz respeito à coisa pública”, escreve.

Essa ausência de responsabilidade é o que fez, segundo a minha interpretação, pessoas comuns desejarem a morte de um jornalista, divulgarem endereços, celebrarem a violência como espetáculo. Não há culpa, não há constrangimento. Apenas a convicção de estar do lado certo de uma guerra imaginária.

Furtado observa ainda como o fascismo vicia o povo na violência. “Viciado pelo fascismo no delírio, o povo continuava delirando de amor à passagem daqueles que eram seus inimigos. Viciado na violência, aplicava a violência contra seus antigos ídolos.” O denominador comum, escreve ele, era apenas o ódio: “A força primitiva que o fascismo desencadeia nas suas almas”.

É nesse ponto que a minha experiência pessoal e a leitura histórica se encontraram. Entendi que o bolsonarismo construiu uma psicologia de massas baseada na insegurança permanente, na sensação de cerco, na promessa de pertencimento.

“É nessa necessidade de segurança que o fascismo funda sua psicologia de massas”, escreve Furtado, sobre a experiência italiana. O indivíduo que se integra ao estado fascista sente-se parte de algo maior, heroico, histórico. Mesmo no nível mais ínfimo, acredita estar trabalhando para o mesmo objetivo de seu chefe supremo. No caso brasileiro, Jair Messias Bolsonaro.

A senhora do Tocantins, o pai de Salvador, o trabalhador que divulgou meu endereço não se viam como agressores isolados. Eles se percebiam como soldados. Como peças legítimas de uma engrenagem autorizada a destruir inimigos. É assim que o fascismo corrompe um povo: não apenas mandando, mas oferecendo sentido à violência.

Não sei como a história vai nomear este período que vivemos. Mas sei que 2025 terminou para mim como um ano de ruptura. Um ano em que a violência política deixou de ser um conceito e passou a ser uma experiência vivida. Um ano em que ficou ainda mais claro que o bolsonarismo não é apenas um movimento eleitoral, mas uma força corrosiva que segue operando no tecido social brasileiro.

        O senso de decência. Por Otávio Almeida Filho

Dias atrás, em artigo exemplar intitulado From Russia, with love, publicado no site A Terra é Redonda, o economista Paulo Nogueira Batista Jr. sintetizou com clareza, em um parágrafo curto e certeiro, estes tempos de perplexidade que o mundo vive.

“O mundo atravessa uma quadra de extraordinária complexidade e elevados riscos. Estamos ameaçados por perigos de guerra nuclear, por problemas sociais e demográficos, pela destruição ambiental e pelos impactos incalculáveis do progresso tecnológico acelerado, em especial da inteligência artificial. Faz-se necessária, mais do que nunca, uma discussão verdadeiramente global, não excludente, da qual possam participar todas as nações.”

Muitos de nós sabemos que o mundo atravessa – e não de agora – ameaças tão obscenas, dramáticas, cruéis. Guerras, extermínios em massa, declínio moral, ético e a destruição metódica de tudo aquilo que, penosamente, a humanidade alcançou com supremo esforço. Os esforços para superação da barbárie continuam sendo realizados com empenho e esperanças. Diagnósticos diversos foram feitos com o propósito de identificar os males e também os prognósticos proliferam em exercícios de estranha futurologia.

No entanto, para nosso espanto e desesperação o trem desgovernado descendo rumo ao precipício – do qual nos falava Norbert Elias ao tratar do Processo Civilizatório –,  continua mergulhando no abismo com velocidade cada vez mais vertiginosa.

“Faz-se necessária, mais do que nunca, uma discussão verdadeiramente global…” – mas, apesar das esperanças propostas por Batista Jr., e com todo respeito que tenho pelas ideias e contribuições do ilustre economista – suas palavras carregadas de exemplares boas intenções, parece-me até mesmo ingênuas diante do aterrorizante grau de decadência em que o mundo se encontra.

Em muito poucos de nós ainda resta aquilo que o senador Joseph McCarthy havia há tempos perdido: o senso de decência. E junto com a decência também foi-se deteriorando a capacidade de indignar-se. A sociedade humana encontra-se, como se pode deduzir dos diagnósticos, totalmente anestesiada e em estado de paralisia crônica.

O grau de desesperança transformado em cinismo vem corroendo todas nossas ilusões de que o processo civilizatório ainda tenha possibilidade de vigorar. A expressão de Hannah Arendt a banalidade do mal tornou-se quase um clichê de assustadora vulgaridade. Tanto faz, tanto fez, pouco importa que crianças explodam entre os escombros de Gaza, que guerras surjam em todas a partes, que os gastos e investimentos na indústria da guerra cresçam exponencialmente, que a Europa (este continente cada vez mais vergonhoso) dobre-se diante das exigências dos EUA exigindo 5% do PIB para comprar armas e preparar um arsenal bélico para mais uma destruição em massa.

O bandido Donald Trump, o arrogante criminoso de guerra que deseja um Prêmio Nobel da Paz, exemplifica com a maior crueldade e canalhice esta absoluta falta de senso de decência. E, no rastro do seu exemplo sinistro, milhões de loucos desvairados mundo afora aplaudem seus ímpetos destruidores. Como ainda, diante disto,  podemos falar em decência e indignação?

A mim me parece que estas noções se aproximam, cada vez mais, de piadas do mais obscuro humor doentio. O descaso com a morte, a dor, o abandono e destino trágico de milhões de seres humanos é tão só mais um roteiro escrito por alguma inteligência artificial cínica e canhestra.

E tudo está definitivamente contaminado por este cinismo de cruel vulgaridade. A linguagem, isto que define o humano, evidencia os sintomas da nossa triste decadência ética. Basta ver a expressão criada pelo ex-presidente norte-americano Barack Obama ao se referir a “bombardeios humanitários”. O cinismo despudorado, a indigência intelectual, a ausência absoluta de decência estão servidas nos restaurantes da carnificina fétida onde a humanidade alimenta seu trágico desejo de alcançar o fundo do poço da sua aventura destruidora.

No diagnóstico do economista Paulo Nogueira Batista Jr. encontramos alguns dos signos aos quais devemos ficar atentos. Dois deles há muito ocupam minha atenção. São eles: problemas demográficos e progresso tecnológico acelerado. Os problemas demográficos, decorrentes das explosões demográficas na grande maioria dos países, começaram no início do século XX, sobretudo com a revolução da química produzindo os fertilizantes que permitiram alimentar o crescimento desenfreado da humanidade e também por altas taxas de natalidade impulsionadas pelas melhorias da medicina.

Os problemas ambientais decorrem destas anomalias. Transformamos rios, lagos, e montanhas em pessoas. Cidades que são verdadeiros tumores na crosta do planeta. Não encontro outra imagem para definir cidades como São Paulo, Tóquio, Nova York, Lagos, Pequim ou Paris senão com esse grau de dramaticidade. Basta observar que a população de países como a China, Índia e do continente europeu era, no início do séc. XX, respectivamente, 400 milhões, 260 milhões e 400 milhões. Hoje a Europa tem 700 milhões, a China 1 bilhão e 400 milhões e a Índia 1 bilhão e 460 milhões.

Água, energia, recursos minerais se esgotam e alguns estudos indicam que dentro de muito tempo o colapso será irreversível. Ao lado desses números escandalosos outras anomalias tão ou mais espantosas podem ser observadas. O negacionismo das evidências, a recusa em ouvir os alertas da ciência, o furor consumista vão se juntando à fratura da morte da decência e da indignação.

Quanto ao progresso tecnológico acelerado, em especial da inteligência artificial, de que nos fala Paulo Nogueira Batista Jr. tenho, há algum tempo, desde quando abandonei os pincéis renascentista e aderi aos pixels da computação da gráfica, procurado compreender as implicações desenfreadas do casamento entre a ciência e o capitalismo.

Aqui me refiro aos primórdios da ciência contemporânea quando os filósofos eram matemáticos. Penso em René Descartes, Blaise Pascal, G. W. Leibniz e nos que seguiram atentos aos destinos da humanidade. Lembro bem quando o filósofo Martin Heidegger, num ensaio seminal intitulado A questão da técnica, disse que nosso tempo havia transformado o rio num acessório da hidroelétrica.

Foi nisto que a humanidade, para nosso desalento, foi fazendo com nossa casa – planeta Terra –, transformando a essência do homem em acessório. Que nem mais conhecemos como homens mas como simples recursos humanos. Fardos de carne úteis ao desvario daqueles que há muito perderam o senso da decência.

 

Fonte: Por Paulo Motoryn, em The intercept/A Terra é Redonda


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