Produtores
rurais vivem ilhados e sem alimentos na capital brasileira do etanol de milho
Nilfo e
Hilária Wandscheer são pequenos produtores rurais catarinenses radicados em
Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso. Em uma chácara do tamanho de dois campos de
futebol, produzem alimentos como mandioca, batata doce, banana, mamão e alface.
Também criam galinha caipira para consumo da carne e dos ovos.
Mas,
apesar de terem tudo isso em casa, precisam ir ao supermercado comprar frutas,
legumes e verduras. A chácara do casal é uma das poucas ilhas de agricultura
familiar em meio ao monocultivo de grãos em Lucas, berço da produção de etanol
de milho no país e uma das 20 cidades mais ricas do agronegócio nacional.
Uma das
principais propagandas do agro brasileiro é sua capacidade de colocar comida na
mesa. É assim que ele se vende e é como tem disputado a narrativa sobre a
transição energética, se colocando como solução. Na COP30, foi esse o argumento
usado para brigar por fatias do financiamento climático.
Mas
basta pisar nas terras dominadas pelo agro — como fez o Intercept Brasil em
Lucas do Rio Verde — para ver que a realidade é outra. Lucas é vendida como
progresso e um hub do agro sustentável. No entanto, mesmo com tanta produção,
não consegue sequer alimentar seus moradores. Lá, o alho vem da China, a maçã,
da Argentina, e a alface, de São Paulo.
Lucas é
um exemplo de como o agro, usando a sustentabilidade como pauta, pode estar
abocanhando bilhões da busca por soluções reais contra o colapso do planeta e,
ainda assim, seguir sem alimentar o país.
A
cidade é vendida como uma terra de oportunidades pela gestão local. “Aqui, a
geração de empregos e a qualidade de vida se encontram”, anuncia um vídeo
institucional de 2025 da prefeitura, com imagens de araras-canindé, florestas
na luz do pôr do sol, crianças sorridentes e grandes lavouras de algodão, soja
e milho.
A
propaganda oficial, porém, ignora o que dizem os pequenos agricultores rurais.
Segundo eles, é justamente essa opulência dos grãos que tem causado a escassez
de alimentos.
No caso
de Nilfo e Hilária, tem faltado água no poço comunitário que abastece as
chácaras deles e as vizinhas, em uma área de 150 hectares. Para irrigar os
plantios, o casal recorre a um poço para uso próprio que construiu. Numa ida ao
mercado em agosto deste ano, eles compraram até limão, porque o pé de onde
colhiam o fruto morreu. “O abacate está florescendo agora, mas [o abacateiro]
não está segurando as frutas”, disse Hilária.
A
experiência da queda e da perda de produção do casal é compartilhada por outros
agricultores familiares da região, que responsabilizam o avanço dos
monocultivos e da urbanização sobre suas propriedades e plantios.
“Mais
de 80% do hortifruti vêm de fora. A soja entrou e avançou dentro dos
assentamentos. A agricultura familiar está diminuindo e envelhecendo”, lamenta
Nilfo.
Ao lado
da chácara de Nilfo e Hilária foi instalada no início deste ano uma unidade da
Cantu Alimentos, um centro de distribuição de hortifruti do Paraná. Com uma
unidade em Lucas do Rio Verde e outra na capital Cuiabá, a empresa identificou
a necessidade de suprir a demanda interna por alimentos que não são produzidos
– ou pelo menos não em quantidade suficiente – nas cidades dominadas pelas
commodities do agro.
Só em
Lucas do Rio Verde, 60 toneladas de hortifruti vindos de outros estados e mesmo
de outros países são vendidas todo mês a supermercados e outros
estabelecimentos pela Cantu, informou um funcionário da unidade de distribuição
no município. Laranja, batata, alface, tomate, maracujá e outras variedades
estão entre os itens comercializados.
Um dos
desafios da empresa são as altas temperaturas da cidade, que comprometem a
durabilidade de alimentos mais sensíveis ao calor. “O repolho, por exemplo, se
você não trouxer meio vendido, vai ter que baixar o preço, queimar para tentar
desaguar”, explica o funcionário da Cantu, que preferiu não se identificar.
<><>
Feita para o agro
Em
Lucas do Rio Verde, as imensas lavouras de grãos estão quase ao lado das casas
das pessoas, de escritórios e estabelecimentos comerciais. As avenidas largas,
por onde transitam com espaço caminhões com mais de 20 metros carregados de
soja ou milho, comportam silos, lojas de maquinários agrícolas, insumos, bancos
de crédito e imobiliárias. As ciclovias levam de casa direto para o trabalho
nas agroindústrias.
A
cidade é casa de empresas transnacionais de alimentos como a MBRF, Amaggi e
Bunge, e também da FS Bioenergia, pioneira em produzir etanol 100% de milho no
Brasil. Com capital norte-americano e brasileiro, a empresa iniciou suas
atividades em Lucas em 2017, com sua primeira usina. Depois vieram as de
Sorriso e Primavera do Leste. A FS planeja outras duas plantas, também no Mato
Grosso – uma em Campo Novo do Parecis e outra em Querência.
Segundo
dados da prefeitura, a cidade produz mais de 600 milhões de litros de etanol de
milho por ano, o que representa cerca de 8% dos 7,55 bilhões de litros
produzidos no país em 2024. Lucas responde por 1% de toda a produção nacional
de grãos. É o quinto maior produtor de soja do estado e um dos grandes
produtores de milho de segunda safra do país – aquele plantado no mesmo lugar
em que a soja foi colhida.
Tanto
espaço para os grãos deixa os pequenos produtores de alimentos ilhados em meio
aos monocultivos. E basta uma olhada no mapa da cidade para ver que as áreas
verdes que restam ali também foram, em sua maioria, cercadas pelas mega
lavouras. O Rio Verde, que corta e dá nome à cidade, é protegido por estreitas
faixas de vegetação que ainda resistem. Em alguns trechos, a lavoura de grãos
está a menos de 50 metros do curso d’água.
Nada
disso é por acaso. Lucas do Rio Verde foi projetada para servir ao agro e seus
donos. Tudo começou em 1938, quando o ditador Getúlio Vargas implementou no
país o projeto Marcha para o Oeste, um plano para ocupar as terras do
Centro-Oeste e Norte.
“Conquistar
a terra, dominar a água, sujeitar a floresta foram nossas tarefas. E, nessa
luta, que já se estende por séculos, vamos obtendo vitória sobre vitória”,
disse Vargas, em discurso, em 10 de outubro de 1940, durante uma visita a
Manaus, capital do Amazonas.
Sua
estratégia foi construir estradas e implantar colônias agrícolas nesses lugares
para aumentar o controle do estado na região. A Amazônia e o Cerrado do Mato
Grosso começaram a ser mais devastados, e os povos indígenas que viviam na
região foram mortos ou expulsos. Essa foi a abertura do caminho para o
agronegócio no Mato Grosso e o contexto em que nasceu Lucas do Rio Verde.
Nos
anos 1970, essa abertura se intensificou durante o governo civil-militar do
ditador Emílio Garrastazu Médici, com o começo da construção da rodovia BR-163.
Ela fazia parte do Programa de Integração Nacional, o PIN, que reproduzia a
mesma ideia de Vargas. Com mais de 3.200 km ligando Tenente Portela, no Rio
Grande do Sul, a Santarém, no Pará, a rodovia organiza o agro em torno do seu
eixo.
Com a
abertura da BR-163, os primeiros posseiros chegaram à região, embora a criação
formal de Lucas do Rio Verde tenha acontecido somente em 1981, pelas mãos do
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Incra.
Lucas
foi criada como assentamento em uma porção de terra de 270 mil hectares. Nele
foram instaladas entre 180 a 200 famílias de agricultores sem-terra que viviam
às margens de um entroncamento de estradas em Ronda Alta, no Rio Grande do Sul.
Conhecido como Encruzilhada Natalino, o acampamento de barracos de lona e
madeira reuniu mais de três mil pessoas em luta por terra para morar e
produzir.
A
estratégia dos militares foi tentar acabar com o acampamento e evitar que a
luta aumentasse. “Foi oferecida para esses abrigados a opção de ganhar terra em
outro lugar do país. A condição era sair do acampamento”, explica Sandro Lima
dos Santos, professor do Instituto Federal do Mato Grosso, IFMT.
Após
esse primeiro assentamento, em um segundo momento da ocupação de Lucas do Rio
Verde, os militares passaram a usar discursos nacionalistas de integração do
país para estimular a migração de pequenos e médios agricultores do sul,
principalmente do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com apoio de empresas
privadas de colonização ou cooperativas colonizadoras.
Elas
supriam as necessidades de infraestrutura para moradia e produção, e
organizavam documentação e venda das terras para os colonizadores. Foram pelo
menos quatro levas de pessoas do Sul e Sudeste que chegaram para colonizar o
Mato Grosso ao longo das décadas, com diferentes perfis econômicos. Muitas
dessas pessoas ficaram e construíram os impérios do agro que reinam por lá.
Hoje,
Lucas do Rio Verde tem uma população estimada em 95 mil pessoas, segundo o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. Seu Índice de
Desenvolvimento Humano, IDH, que vai de 0,000 a 1,000, está entre os mais altos
do país – 0,768. Para comparação, o IDH mais alto é 0,862, de São Caetano do
Sul, em São Paulo. Segundo dados do IBGE e da prefeitura da cidade, Lucas é a
segunda cidade com o maior percentual de crescimento populacional do
Centro-Oeste e o segundo maior do Brasil entre as cidades com mais de 50 mil
habitantes.
O
efeito desse crescimento já é sentido pelo casal Nilfo e Hilária Wandscheer. A
cidade e os monocultivos avançaram tanto sobre sua chácara desde que se
instalaram ali, em 2007, que hoje a malha urbana está a menos de 300 metros de
sua propriedade, e os monocultivos, vários deles, estão do outro lado da rua, a
30 metros de distância.
Na
parte de trás da chácara, Nilfo aponta a construção de um conjunto habitacional
com duas mil casas, um projeto que está sendo feito com recursos dos governos
federal, estadual e municipal. Com um mapa do assentamento em mãos, ele mostra
a nova via que será construída no contexto do conjunto habitacional. A
estrutura passa pelo meio de sua chácara, por cima do seu plantio.
<><>
A vida no deserto
As
consequências do avanço do agro são sentidas no dia a dia de Lucas do Rio
Verde. Andar a pé na cidade é um desafio por causa das distâncias das longas
avenidas, do calor e da falta de árvores que façam sombra. Como não há
vegetação que equilibre as temperaturas, no fim do dia o tempo pode virar, e
Lucas fica gelada de uma hora para outra. Tempestades de areia e vento têm se
tornado comuns na cidade, segundo os moradores.
“As
ventanias aumentaram muito nos últimos anos, porque não tem mais árvores, é uma
área de corredor de vento. Isso também faz com que o empobrecimento do solo vá
se acelerando. Há sempre a promessa de que a tecnologia vai resolver tudo, mas
a gente está falando de recursos naturais que têm um limite”, alerta a
pesquisadora Márcia Montanari, do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do
Trabalhador, Neast, da Universidade Federal do Mato Grosso, UFMT.
Em 28
de maio deste ano, a cidade foi atravessada por uma tempestade de areia e vento
que fechou o tempo, derrubou poste, galhos de árvores, rasgou toldos plásticos
e fez a temperatura cair de 34 a 15 graus em menos de 12 horas.
“Esses
eventos são resultado da combinação de solo exposto, períodos de seca
prolongados e a chegada de frentes frias mais intensas. Quando uma frente fria
avança, ela desloca o ar quente e seco que está sobre a região, gerando também
rajadas de vento muito fortes. Com a grande área de solo seco e desagregado, se
levanta a poeira e cria as tempestades de areia”, explica a meteorologista e
consultora em análise climática Ana Paula Paes. Ela acrescenta que Lucas do Rio
Verde tem passado por essas tempestades com mais frequência por estar em uma
área de expansão agrícola, com grandes extensões do solo descobertos durante a
estiagem.
A
página “Lucas do Rio Verde Agora”, no Instagram, publicou um vídeo da
tempestade do dia 28 de maio. Nos comentários, moradores atribuíram o evento
climático ao desmatamento, que deixa a “terra nua” e a cidade sem proteção no
seu entorno.
“Estou
há sete anos em Lucas, e sempre tem o período de seca, que é agora, e o período
de chuva. Na seca o tempo esfria, mas a cada ano esfria mais, e a poeira entra
nas casas, cobre as casas. Aqui a gente ainda consegue se proteger com esses
terrenos do lado, mas tem casa que tá perto dos plantios, e fica coberta de
areia”, relatou a dona de um hotel na cidade.
As
notícias sobre Lucas do Rio Verde mostram a repetição de eventos climáticos
extremos. Em outubro de 2008, um vendaval arrancou postes e derrubou árvores na
cidade. A notícia aponta que houve até granizo.
Em
setembro de 2019, uma chuva forte destruiu parte do teto da transnacional de
alimentos BRF – hoje MBRF, após fusão com a Marfrig –, atingindo máquinas e
alagando setores da fábrica. Em outubro de 2023, mais chuva e vendaval
arrancaram seis postes em Lucas, deixando os munícipes sem energia por horas.
Em outubro de 2024, uma mulher foi arrastada numa enxurrada. Ela foi salva por
um grupo de cinco homens que se juntaram em um cordão humano para segurá-la.
“Está
muito mais quente, seco e abafado. [A chuva] não está mais tão regulada. Acho
que é porque a cidade está avançando muito, muito asfalto, a água não escoa e
não refresca o chão. E não temos mais o mato grande, fechado, que é o que
refresca e traz a chuva e umidade. Hoje só vai abrindo e plantando, abrindo e
plantando, acontece isso. E cada vez vai estar pior”, relatou Damasília Santos,
agricultora de uma horta comunitária que há 22 anos vive em Sorriso, vizinha a
Lucas.
A
meteorologista Ana Paula Paes confirma a percepção de Damasília, que se estende
para todo o estado. “No Mato Grosso, nós observamos algumas tendências claras
nas últimas décadas. As chuvas estão mais irregulares, com o início da estação
chuvosa cada vez mais tardio, e veranicos mais frequentes, que são os períodos
curtos de tempo quente e seco durante a estação chuvosa”, afirma Paes.
Segundo
ela, as temperaturas mínimas e máximas também têm aumentado, especialmente
durante a primavera e o começo do verão. “Os ventos e tempestades estão ficando
cada vez mais intensos, reflexos de sistemas atmosféricos mais energéticos.
Essas mudanças estão ligadas ao aquecimento global e ao desmatamento regional,
que altera o ciclo de umidade da Amazônia e do Cerrado. Áreas mais desmatadas
tendem a sentir mais rapidamente esses efeitos”.
Paes
faz um alerta: se até 2050 não houver redução consistente de emissões de gases
de efeito estufa e recuperação de vegetação, o número de dias extremamente
quentes pode aumentar bastante, gerando problemas em diferentes âmbitos.
“Para
uma cidade como Lucas do Rio Verde, o aumento da temperatura pesa diretamente
na saúde. Mais casos de desidratação, exaustão térmica e problemas
respiratórios. Também afeta a produtividade agrícola, já que plantas e animais
sofrem estresse térmico. A cidade sente ainda o impacto no consumo de energia,
no risco de queimadas e no desconforto térmico urbano, especialmente em áreas
muito pavimentadas e com pouca arborização”.
<><>
Mais etanol de milho, mais doenças
E não é
só a mudança do clima que ameaça a vida em Lucas. As notícias recentes sobre o
aumento da produção de etanol de milho, especialmente com a instalação de novas
usinas, têm gerado preocupação ao pesquisador Wanderlei Pignati, do Neast, da
UFMT. Isso porque o aumento da oferta do biocombustível significa também o
aumento da produção do grão e, consequentemente, o incremento do uso de
agrotóxicos.
Médico
e doutor em Saúde Pública, Pignati estudou o avanço da prevalência de
malformações congênitas – que ocorrem durante o desenvolvimento do feto –,
câncer infantojuvenil, aborto e nascimento de crianças com baixo peso em
regiões de alta produtividade de grãos no Mato Grosso, como os municípios de
Sorriso, Lucas do Rio Verde, Campo Novo do Parecis, entre outros.
“No
Brasil, a cada mil crianças que nascem vivas, quatro têm malformação. No Mato
Grosso, são 10 [a cada mil], e nas quatro regiões [mais produtivas do estado],
varia de 20 a 37 crianças. A causa disso é a grande utilização de agrotóxicos”,
relata o médico e pesquisador.
Uma
análise recente feita pelo InfoAmazonia e pela pesquisadora do Observatório
Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz Tatiane Moraes mostra que uma criança
nascida em Lucas do Rio Verde tem risco 20% maior de nascer com anomalias
congênitas do que uma criança nascida em Juruena, a 670 quilômetros de
distância, porém no mesmo estado. Ainda comparando as mesmas cidades, o risco
de óbitos fetais é 30% maior em Lucas.
A
explicação para isso é a presença massiva das lavouras em Lucas do Rio Verde –
mais de 50% da cobertura do município – e o uso de agrotóxicos, contra menos de
5% de lavouras sobre Juruena.
Em
dissertação de mestrado orientada por Pignatti em 2011 na UFMT, foi constatada
a presença de agrotóxicos no leite de mães residentes em Lucas do Rio Verde. Na
época, a prefeitura do município reagiu mal à repercussão nacional dos
resultados e questionou a metodologia utilizada na investigação.
Em
2017, Pignati, em outro estudo, também já apontava o uso de agrotóxicos nas
lavouras como a provável causa de adoecimento entre pessoas expostas a eles. Na
época, com dados de 2015, o estudo mostrava o predomínio de área plantada dos
cultivos de soja, milho e cana-de-açúcar no país, sendo essas culturas
responsáveis por cerca de 70% do uso de agrotóxicos em todo o território
nacional. O Mato Grosso já despontava como o maior consumidor de veneno.
Este
elevado consumo de agrotóxicos tem se mostrado como fator de risco para o
desenvolvimento de câncer no estado, segundo pesquisadoras do Instituto
Nacional do Câncer, o Inca.
Um
estudo realizado por pesquisadores de Mato Grosso analisou as mortes por câncer
na região entre 2000 e 2015, para entender se os números estavam subindo ou
estáveis. Foram registrados 28.525 óbitos por câncer, sendo os tipos mais
frequentes pulmão, próstata, estômago, mama e fígado, enquanto as maiores taxas
de mortalidade ocorreram nas regiões Médio Norte – Lucas do Rio Verde, Nova
Mutum e Sorriso, Baixada Cuiabana e Sul Matogrossense.
De
acordo com as biomédicas Katia Soares da Poça e Marcia Sarpa de Campos Mello,
do Inca, a taxa padronizada de mortalidade por câncer no estado também aumentou
de 74,3 para 82,0 por 100 mil habitantes no período entre 2000 e 2015, com
tendência crescente geral.
Para
além dos prejuízos à saúde, há também o prejuízo aos cofres públicos. Pignati
adiantou que um estudo em curso no Mato Grosso aponta que, para as intoxicações
crônicas por agrotóxicos, o valor gasto com tratamentos pode ser de 20 a 30
vezes maior que o apontado numa pesquisa da Fiocruz de 2012, relativo às
intoxicações agudas. O tratamento do câncer infantojuvenil seria um desses
casos crônicos.
No Mato
Grosso, foram registradas 242 notificações de intoxicações por agrotóxicos
entre 2015 a 2017, o que resultou em um custo médio de R$ 718,15 por indivíduo
atendido no SUS.
“Ao
considerar o valor total para o período, considerando também os casos de
subnotificação, os gastos públicos para o atendimento no estado representaram
aproximadamente R$ 8,6 milhões nestes três anos, ou seja, aproximadamente R$
2,8 milhões por ano no Mato Grosso”, calculam Poça e Mello.
A
maioria das intoxicações ocorreu na região Norte (44,62%) e nos municípios de
Nova Mutum, Sinop e Sorriso (23,13%), com 66,53% da exposição ocorrendo em
ambiente de trabalho, 44,21% foram intoxicações acidentais e 76,86% destas
intoxicações foram por exposição aguda única, ou seja, que acontece uma vez em
um período de 24 horas.
O uso
de grãos transgênicos, especialmente o milho, utilizado na produção de ração
animal e do etanol batizado de sustentável por empresários do agro – mesmo sem
ser –, também pode influenciar o aumento de consumo de agrotóxicos, como o
herbicida glifosato, usado na soja. “A consequência disto é o surgimento de
resistência de pragas também, aumentando o consumo de outros tipos de
agrotóxicos”, diz o estudo de 2017 de Pignati.
Em
2025, deputados do Mato Grosso aprovaram por 21 votos a 3 um projeto de lei
reduzindo as distâncias limite para aplicação de agrotóxicos em relação a
povoações, cidades, vilas, bairros e mananciais de captação de água, moradias
isoladas, agrupamento de animais e nascentes. Antes definida em 300 metros, a
distância foi para 25 metros e, em alguns casos, totalmente suprimida.
“Quando
a gente questionou, em audiência pública, quais os critérios científicos que
eles usaram para reduzir para zero [a distância mínima], eles disseram que não
tem critério científico, disseram ‘é a nossa vontade’”, relembra Márcia
Montanari.
Para as
especialistas do Inca, os impactos dessa nova medida do legislativo
mato-grossense serão graves. No curto prazo, o aumento de intoxicações agudas
em diferentes faixas etárias, com o aparecimento de náusea, dor de cabeça,
fadiga e outros sintomas.
“Em
médio e longo prazo estão a contribuição para o aumento no número de casos de
diferentes agravos como abortos, infertilidade, malformações, depressão,
Alzheimer, Parkinson, alterações hormonais, doenças respiratórias graves e
muitas outras. Outra possibilidade é o aumento nos casos de câncer”, dizem Poça
e Mello.
Procuramos
a assessoria do prefeito de Lucas para uma entrevista, mas não tivemos retorno.
Para o casal Nilfo e Hilária, o futuro amedronta. “Não tem como a gente
produzir alimento saudável se em volta tem agrotóxico”, afirma.
Fonte:
Por Felipe Sabrina, em The Intercept

Nenhum comentário:
Postar um comentário