Quando
o “jornalismo” se baseia em fontes anônimas e documentos falsos
O espantoso
nas acusações de O Globo, Estadão e Folha ao ministro Alexandre de Moraes não é
apenas que elas são TODAS, sem exceção, baseadas em fontes anônimas e
suposições. Caçando cliques ou tentando demonstrar “independência editorial”,
sites que se apresentam como progressistas reproduzem as ilações de Malu
Gaspar, Mônica Bérgamo e outros.
Num
caso tão grave como este, em que um ministro do STF é acusado de fazer lobby
por um banco que tinha um contrato de serviços com o escritório de sua esposa
advogada — algo potencialmente escandaloso — a ausência de provas factuais e a
negativa dos dois lados sob acusação — Gabriel Galípolo e Alexandre de Moraes —
levaram a mídia corporativa a requentar velhos métodos. “Moraes precisa provar
que acusações não são verdade”, escreveu há dois dias O Globo, reproduzindo um
conhecido método da Lava Jato. Espalhar uma ilação e em seguida cobrar do
acusado que ele “prove” que as noticias são falsas.
Não há,
ainda, nenhuma prova factual de ligação telefônica entre Alexandre de Moraes e
Gabriel Galípolo para tratar do caso do Master, mas o Estadão publicou:
Moraes
chegou a ligar seis vezes para Galípolo num dia para tratar da venda do Banco
Master ao BRB. O texto, assinado por Eliane Cantanhêde e David Friedlander, é
baseado em relatos de terceiras pessoas, um verdadeiro disse-me-disse.
Pessoas
do meio jurídico e do mercado financeiro que ouviram relatos, inclusive, de um
dos envolvidos. Mônica Bérgamo reproduziu a fofoca na Band. O interesse do
Moraes pelo Banco Master já circulava em Brasília havia alguns meses. Muitas
fontes dizem que Galípolo chegou a informar Lula e que a informação se espalhou
até para banqueiros de SP. O problema disso tudo começa com o contrato de R$129
milhões de Viviane com o Master. Nenhuma fonte identificada e o que começou
como algo que “circulava” em Brasília tornou-se, na fala de Bérgamo,
“informação”.
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Banqueiro é uma das fontes?
Uma das
fontes de Malu Gaspar, pelo que ela própria disse ao explicar a denúncia, teria
sido o próprio dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que se dizia perseguido
por outros banqueiros. Essa era uma análise em Brasília nessa época. Eu cheguei
a ouvir do próprio Vorcaro isso, que os banqueiros não queriam um novo entrante
no mercado, um concorrente e por isso, então, ele era muito combatido. Como se
sabe, a jornalista baseou sua denúncia em “seis fontes” anônimas.
Somando
Monica Bérgamo, Eliane Cantanhêde, David Friedlander e Malu Gaspar, não há uma
única pessoa falando em on, ou seja, revelando sua identidade. É um caso
gravíssimo de jornalismo declaratório em off. Curiosamente, nenhum deles
enfatizou que o banco Master foi liquidado em 18 de novembro, ou seja, se houve
lobby nem o Banco Central, muito menos o governo Lula, participaram de alguma
patranha.
“Poderosos
se protegem, e corrupção se alastra”, escreveu a Folha de S. Paulo em editorial
de capa, sem mencionar que recentes ações da Polícia Federal acertaram em cheio
o nexo entre a Faria Lima e o crime organizado, enquanto o ministro Flávio Dino
mandou investigar a corrupção envolvida com as emendas no Congresso. A Folha
concentrou fogo nominalmente no ocupante do Planalto, ao dizer que “quadrilhas
se aboletaram no INSS para saquear aposentados sob as barbas do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva”, enterrando a origem do escândalo. “Que não haja
complacência com petistas e cupinchas de Lula pelo fato de amigos do presidente
comandarem a Polícia Federal e vestirem togas no Supremo”, escreveu o jornal.
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A importância da memória
É
preciso relembrar aqui a manchete da Folha de S. Paulo de 6 de junho de 2005,
ano pré-eleitoral: PT dava mesada de R$ 30 mil a parlamentares, diz Jefferson.
Estava
criada a ideia do mensalão, que caiu na boca do povo mas nunca se provou: as
investigações jamais determinaram que o PT comprou votos no Congresso por 30
mil mensais, até porque as matérias votadas pelo governo Lula eram do gosto de
parlamentares conservadores. Tudo baseado numa entrevista de uma parte
interessada em “se vingar do PT”.
Houve,
sim, dinheiro de caixa dois para apoiar a campanha eleitoral de aliados,
prática amplamente utilizada à época, como se viu na lista (verdadeira) de
Furnas, operada pelo PDSB. Mas, não foi só: em 5 de abril de 2009, de novo
ano-pré-eleitoral, a Folha publicou na capa uma ficha falsa da candidata Dilma
Rousseff.
Vinte
dias depois, escondeu o resultado de sua própria investigação, admitindo o erro
de ter publicado na: Primeira Página que a origem da ficha era o “arquivo [do]
Dops”. Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi
tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje
disponíveis, não pode ser assegurada — bem como não pode ser descartada.
Ora, se
a autenticidade da ficha não poderia ser assegurada, por que publicá-la?
À
época, a presidenta Dilma Rousseff escreveu uma carta desmoralizando a Folha.
Trechos:
Apesar
da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30/03 sobre minha
participação ou meu conhecimento do suposto seqüestro de Delfim Neto, a matéria
publicada tinha como título de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro do
Delfim”.
O
título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem
características de “factóide”, uma vez que o fato, que teria se dado há 40
anos, simplesmente não ocorreu.
O mais
grave é que o jornal Folha de São Paulo estampou na página A10, acompanhando o
texto da reportagem, uma ficha policial falsa sobre mim. Essa falsificação
circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na internet, postada no
site www.ternuma.com.br (“terrorismo nunca mais”), atribuindo-me diversas ações
que não cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes
interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui
presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada
pelos atos mencionados na ficha falsa.
Após a
publicação, questionei por inúmeras vezes a Folha de São Paulo sobre a origem
de tal ficha, especificamente o Sr. Melchiades Filho, diretor da sucursal de
Brasília. Ele me informou que a jornalista Fernanda Odilla havia obtido a cópia
da ficha em processo arquivado no DEOPS – Arquivo Público de São Paulo. Ficou
de enviar-me a prova. Como isso não aconteceu, solicitei formalmente os
documentos sob a guarda do Arquivo Público de São Paulo que dizem respeito a
minha pessoa e, em especial, cópia da referida ficha. Na pesquisa, não foi
encontrada qualquer ficha com o rol de ações como a publicada na edição de
05/04/2009.
Cabe
destacar que os assaltos e ações armadas que constam da ficha veiculada pela
Folha de São Paulo foram de responsabilidade de organizações revolucionárias
nas quais não militei. Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que
eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Ressalte-se que todas essas
ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e,
portanto, não sofri qualquer condenação. Repito, sequer fui interrogada, sob
tortura ou não, sobre aqueles fatos. Mais estranho ainda é que a legenda da
ficha publicada pela Folha dizia: “Ficha de Dilma após ser presa com crimes
atribuídos a ela, mas que ela não cometeu”. Ora, se a Folha sabia que os
chamados crimes atribuídos a mim não foram por mim cometidos, por que publicar
a ficha?
Nem é
preciso dizer que a Folha não publicou a carta de Dilma.
Estamos,
de novo, em ano pré-eleitoral.
• Alexandre de Moraes nega ter discutido
caso do Banco Master com BC: as conexões de Vorcaro com o STF
O
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria
procurado o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, pelo menos
quatro vezes para fazer pressão a favor do Banco Master. A informação é da
colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo. Segundo a colunista, ao menos três
contatos foram por telefone e um foi presencial para tratar de problemas sobre
o banco de Daniel Vorcaro.
Em nota
divulgada, a assessoria do STF afirmou que Moraes teve duas reuniões com o
presidente do BC para tratar dos efeitos da Lei Magnitsky — '"a primeira
no dia 14/08, após a primeira aplicação da lei, em 30/07; e a segunda no dia
30/09, após a referida lei ter sido aplicada em sua esposa, no dia 22/09. Em
nenhuma das reuniões foi tratado qualquer assunto ou realizada qualquer pressão
referente a aquisição do Master pelo BRB". A Magnitsky é uma lei americana
que pune estrangeiros que considera autores de graves violações de direitos
humanos e práticas de corrupção. Moraes foi sancionado pela lei no fim de
julho, e sua esposa, em setembro — em meio a críticas do governo de Donald
Trump a ações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro na Justiça brasileira, muitas
delas relatadas por Moraes.
Mas, no
início de dezembro, o governo Trump retirou Moraes e a esposa da lista dos
sancionados pela Magnitsky.
De
acordo com a nota, Moraes não esteve no Banco Central e não ligou para Galípolo
para tratar do assunto. "Esclarece, ainda, que jamais esteve no Banco
Central e que inexistiu qualquer ligação telefônica entre ambos, para esse ou
qualquer outro assunto. Por fim, esclarece que o escritório de advocacia de sua
esposa jamais atuou na operação de aquisição Master-BRB perante o Banco
Central", diz nota do STF.
Na
manhã de terça-feira, a assessoria de imprensa do STF já havia emitido uma nota
afirmando que Moraes, "em virtude da aplicação da Lei Magnitsky, recebeu
para reuniões o presidente do Banco Central, a presidente do Banco do Brasil, o
Presidente e o vice-presidente Jurídico do Banco Itaú".
Moraes
participou também de reunião conjunta com os presidentes da Confederação
Nacional das Instituições Financeiras, da Federação Brasileira de Bancos
(Febraban), do BTG e os vice-presidentes do Santander e Itaú, acrescentou a
assessoria de manhã. Ainda segundo o texto divulgado pelo STF mais cedo, em
todas as reuniões, foram tratados "exclusivamente" assuntos ligados
às "graves consequências da aplicação da referida lei, em especial a
possibilidade de manutenção de movimentação bancária, contas correntes, cartões
de crédito e débito". Após o comunicado do STF, o Banco Central também
emitiu uma nota para confirmar que reuniões com Moraes foram feitas para tratar
dos efeitos da sanção aplicada pelos Estados Unidos.
No
último dia 12, a Polícia Federal (PF) encontrou no celular de Vorcaro um
contrato de R$ 129 milhões firmado com o escritório de advocacia de Viviane
Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. O valor também foi revelado
pelo jornal O Globo. O documento, localizado na Operação Compliance Zero em 18
de novembro, previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões ao escritório por três
anos a partir de 2024.
O
contrato, ainda segundo o jornal, não especificava processos ou causas
determinadas. Estabelecia uma atuação ampla, determinando que o escritório
representaria o banco "onde fosse necessário".
Embora
o Master tenha sido liquidado e o acordo não tenha sido executado até o fim,
mensagens trocadas entre executivos indicavam que o pagamento ao escritório era
tratado internamente como prioridade, afirma a reportagem. Além de Viviane, os
filhos do casal, também integrantes da banca, aparecem em ao menos um processo
ligado a Vorcaro. A divulgação do contrato ocorre semanas depois da operação
que levou à prisão de Vorcaro e de outros executivos do Master. O controlador
do banco foi preso preventivamente em novembro, sob acusação de fraudar R$ 12,2
bilhões do sistema bancário.
Em 28
de novembro, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região concedeu habeas
corpus e mandou soltar Vorcaro, os ex-diretores Luiz Antonio Bull, Alberto
Feliz de Oliveira e Angelo Antonio Ribeiro da Silva, além de Augusto Ferreira
Lima, ex-sócio do banco. Eles são monitorados por tornozeleira eletrônica e
estão proibidos de exercer atividades no setor financeiro, de ter contato com
outros investigados e de deixar o país.
A
quebra do Master é a maior da história do país em impacto para o Fundo
Garantidor de Créditos (FGC) — associação privada que funciona como uma espécie
de sistema de garantia de depósitos, cobrindo investimentos de até R$ 250 mil
por CPF ou CNPJ (por instituição financeira) em caso de quebra de alguma
instituição associada. Segundo o FGC, 1,6 milhão de investidores do banco, que
detinha R$ 41 bilhões em CDBs, poderão ser ressarcidos. A PF investiga
suspeitas de fraudes na concessão de créditos, emissão de títulos irregulares e
criação de carteiras falsas — operações que, segundo os investigadores,
movimentaram valores bilionários e alimentaram uma tentativa de venda da
instituição ao Banco Regional de Brasília (BRB). A liquidação extrajudicial do
Master foi decretada pelo Banco Central no mesmo dia em que a PF realizou
prisões e buscas em cinco Estados e no Distrito Federal, no âmbito da Operação
Compliance Zero. Na nota do STF divulgada na noite de terça, o STF afirmou que
o escritório de advocacia de Viviane Barci "jamais atuou na operação de
aquisição BRB-Master perante o Banco Central".
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Viagem para Libertadores
O
contrato envolvendo familiares de Moraes não foi o único episódio envolvendo
membros da Suprema Corte e o Banco Master que ganhou destaque na imprensa. Em
29 de novembro, Dias Toffoli, relator do caso no Supremo, viajou para assistir
à final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras, em Lima, no Peru, no mesmo
voo particular que um advogado de um dos diretores do banco. A coincidência
chamou atenção porque, na véspera, Toffoli havia sido sorteado para relatar o
recurso apresentado pela defesa de Daniel Vorcaro. No dia seguinte ao sorteio,
o ministro embarcou no jatinho em que estavam o advogado Augusto Arruda
Botelho, defensor de um dos diretores do Master e ex-secretário Nacional de
Justiça; o empresário Luiz Oswaldo Pastore, dono da aeronave; e o ex-deputado
Aldo Rebello.
O
ministro confirmou que viajou no avião e afirmou a interlocutores, segundo o
jornal O Globo, que não discutiu o processo durante o trajeto. Em 3 de
dezembro, Toffoli colocou o caso sob sigilo e decidiu transferir o inquérito
para o STF, sob sua própria relatoria, atendendo ao pedido de um diretor do
Master — o mesmo pleito feito anteriormente pelos advogados de Vorcaro. Ele
acolheu a solicitação com base na citação de um deputado federal, autoridade
com prerrogativa de foro privilegiado. O ministro justificou o sigilo afirmando
que o inquérito envolve informações econômicas sensíveis, com potencial impacto
no mercado financeiro. Na prática, todas as decisões futuras sobre a
investigação passam a ser tomadas por ele, e não mais pela Justiça Federal em
Brasília.
Além
dos vínculos com ministros do STF, as doações eleitorais também revelam
possíveis conexões políticas envolvendo o Banco Master.
O
empresário Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, foi o maior doador
pessoa física das campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Jair
Bolsonaro (PL) em 2022. Casado com Natália Vorcaro Zettel, irmã do banqueiro,
ele transferiu R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Bolsonaro e R$ 2
milhões para a do governador de São Paulo.
Zettel
é fundador e CEO da Moriah Asset, um fundo de private equity — modalidade de
investimento que compra participações em empresas que não estão na bolsa. Por
meio da Moriah, ele é sócio de marcas como Oakberry, Les Cinq, Frutaria São
Paulo e Empório Frutaria. Em 2022, ele foi o sexto maior doador pessoa física
do país. Pela legislação eleitoral, indivíduos podem doar até 10% da renda
bruta do ano anterior à eleição. A assessoria de imprensa de Tarcísio afirmou
que sua campanha contou com mais de 600 doadores e que o governador não possui
qualquer vínculo ou relação com Zettel. "Vale destacar que a prestação de
contas de Tarcísio foi devidamente aprovada pela justiça eleitoral", diz a
nota enviada à BBC News Brasil. Já Bolsonaro não respondeu aos questionamentos
da reportagem.
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'Falha séria de accountability'
Para a
professora Ligia Maura Costa, coordenadora do Centro de Estudos em Ética,
Transparência, Integridade e Compliance da Fundação Getúlio Vargas (FGV), os
episódios envolvendo ministros do Supremo expõem "falhas sérias de
accountability" (termo em inglês usado para descrever práticas
relacionadas a transparência e prestação de contas). Ela afirma que conflitos
de interesse no STF têm se tornado mais frequentes e visíveis. "Conflito
de interesses é quando há confusão entre o interesse público e o privado. No
caso de um ministro do Supremo, que em princípio precisa ser totalmente
imparcial, qualquer ligação pessoal capaz de influenciar uma decisão já deveria
acender o alerta", diz. "O fato de ser amigo pessoal de alguém não
significa necessariamente que vai decidir a favor dessa pessoa, mas significa
que pode vir a ter um conflito de interesses", continua. "Não estou
dizendo que um ministro do Supremo não possa ser amigo de um advogado. Mas,
sendo amigo, tem que ter alguns cuidados." Para ela, Toffoli deveria ter
se declarado impedido para relatar o caso do Banco Master. "A conduta dele
foi o oposto do que se espera de um ministro do STF. Ele deveria, no mínimo,
ter se julgado suspeito", afirma. "Mas não só não fez isso como,
muito pelo contrário, trouxe todo o processo para si e impôs um sigilo absoluto
— algo totalmente fora do padrão em casos de corrupção. Neste tipo de caso, não
posso ter sigilo absoluto porque a vítima é a sociedade."
A
professora afirma que a Lei Orgânica da Magistratura e o Código de Ética da
Magistratura Nacional não são suficientes para regular ministros do STF.
"Essas normas foram feitas para juízes de primeira instância. Não foram
pensadas para ministros do Supremo, que têm funções, poderes e impactos
completamente distintos." Ela defende a criação de um código de conduta
específico para os ministros e uma instância externa de controle. "O
Supremo está totalmente 'desgovernado'. Precisamos ter um controle sobre o Supremo,
que seja o CNJ [Conselho Nacional de Justiça], o Senado ou até mesmo uma
comissão independente." Costa cita modelos internacionais que poderiam
inspirar o Brasil. Em 2023, a Suprema Corte americana editou seu primeiro
código de conduta — que esbarra, contudo, em uma realidade parecida com a do
Brasil: não há um órgão capaz de fiscalizar as regras, o que gera um vácuo na
aplicação de possíveis punições.
O
debate sobre a transparência no Judiciário americano surgiu após uma série de
reportagens publicadas pelo site ProPublica com denúncias de que magistrados da
corte americana haviam sido presenteados por empresários ricos em reiteradas
ocasiões sem fazerem a devida divulgação dos benefícios. Chamada Friends of the
Court ("amigos da Corte", em tradução literal), a cobertura revelou
pagamentos de viagens, imóveis e até mensalidades escolares, chamando atenção
para os possíveis conflitos de interesse que essas relações poderiam significar
para alguns membros da corte. O presidente do STF, Edson Fachin, anunciou que
pretende instituir um código de conduta para orientar o comportamento dos
ministros da Corte. A proposta, em discussão interna no Supremo e em diálogo
com outras instituições, toma como referência o modelo adotado pelo Tribunal
Constitucional Federal da Alemanha, criado para preservar a independência, a
neutralidade e a integridade da mais alta instância do Judiciário naquele país.
Mas, para a professora da FGV, não basta ter normas escritas: "Além das
regras sobre o que pode e o que não pode, é preciso controle, monitoramento e
transparência."
No
último dia 9, a organização Transparência Internacional Brasil criticou o
contrato do escritório de Viviane com o Banco Master, dizendo que "o
sistema de Justiça brasileiro está virando um grande Gilmarpalooza". O
comentário faz referência ao Fórum de Lisboa, evento anual que reúne a cúpula
do Judiciário, da política e do empresariado brasileiro, que tem como
realizador o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP),
de propriedade do ministro Gilmar Mendes. A falta de transparência em relação
aos custos, aliada ao fato de o evento abarcar empresários ou representantes de
empresas que, em alguns casos, estão com processos tramitando no STF, também
suscitaram um debate sobre a criação de um código de conduta para a Corte.
Conrado
Hübner, professor de Direito Constitucional da Universidade de São Paulo (USP),
afirma que não existe um instrumento capaz de controlar o STF hoje, apenas o
impeachment dos ministros — algo que, para ele, só seria provocado por
manifestações sociais. Para o professor, um código de conduta ética serviria
justamente para proteger os ministros e a própria corte. "Se eles são
honestos e querem proteger a instituição, o código de ética ajuda", disse
à BBC News Brasil, no contexto do evento promovido por Gilmar Mendes. Ele
afirma que existem diversos conflitos de interesses, em diferentes esferas.
"Mas quando tem juiz no meio a coisa fica muito mais óbvia", afirma
ele, que classifica o evento como "um grande encontro de lobby. De um
lado, a dimensão, duas mil pessoas por três dias. Do outro, o fato de ser em
Portugal, o que só aprofunda o distanciamento da esfera pública e da
transparência", diz.
• Moraes: reuniões com Galípolo trataram
“exclusivamente” sobre “aplicação da Lei Magnitsky”
O
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), rebateu as
acusações divulgadas pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, de que ele
teria se reunido com o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo,
“para fazer pressão em favor do Banco Master”. Em nota divulgada, Moraes afirma
que as reuniões com Galípolo e outras autoridades financeiras se deram para
tratar “exclusivamente” das sanções pela Lei Magnitsky contra ele, e a esposa,
Viviane Barci, cujo escritório de advocacia teria sido contratada por Daniel
Vorcaro, dono do Master. “Em todas as reuniões, foram tratados exclusivamente
assuntos específicos sobre as graves consequências da aplicação da referida
lei, em especial a possibilidade de manutenção de movimentação bancária, contas
correntes, cartões de crédito e débito”, diz o texto.
Moraes
diz que, além de Galípolo, se encontrou presidentes e executivos de bancos
públicos, como o Banco do Brasil, e privados, como o Itaú, e associações de
financistas para tratar sobre o tema. “O Ministro Alexandre de Moraes esclarece
que, em virtude da aplicação da Lei Magnitsky, recebeu para reuniões o
presidente do Banco Central, a presidente do Banco do Brasil, o Presidente e o
vice-presidente Jurídico do Banco Itaú. Além disso, participou de reunião
conjunta com os Presidentes da Confederação Nacional das Instituições
Financeira, da Febraban, do BTG e os vice-presidentes do Santander e Itaú”,
inicia a nota.
<><>
Narrativas na mídia liberal
Apuração
da jornalista Daniela Lima, divulgada pelo portal Uol nesta terça-feira (23),
minimiza o alarde criado pela colega Malu Gaspar, do jornal O Globo, que no dia
anterior afirmou que o ministro Alexandre de Moraes teria conversado por
telefone e se encontrado ao menos uma vez com o presidente do Banco Central,
Gabriel Galípolo, “para fazer pressão em favor do Banco Master”. Segundo fontes
ouvidas pela jornalista do Uol, as conversas entre Moraes e Galípolo “tinham
como tema central a aplicação da lei Magnitsky sobre o magistrado, sua esposa e
os negócios da família, além do impacto da sanção sobre os bancos que prestavam
algum tipo de serviço a eles”.
De
acordo com esses interlocutores “seria leviano” dizer que houve pressão de
Moraes sobre Galípolo em favor de Daniel Vorcaro, do Banco Master, enquanto “o
ministro e sua família viviam um cerco financeiro protagonizado pelos Estados
Unidos”. Na mesma linha, o jurista Pedro Serrano, professor de Direito
Constitucional da Puc São Paulo, afirma na rede X que “o caso do Ministro
Alexandre tem de ser visto com calma”.
“Galipolo
negou que tenha tratado de algo relativo ao Banco Master com o Ministro. Vamos
com calma, somos do direito, o Ministro é muito alvo. Se for verdade, o que
imputam a ele é grave. Se não for também, imensa falta de ética e ofensa à
honra e à democracia. Sugiro que devemos manter atenção ao que é apurado de
fato. È um ministro do Supremo que enfrentou muito por conta da defesa da
democracia. Moderação é o que temos de seguir por hora”, afirma Serrano. O
jurista ainda alerta para a guerra de narrativas criada pelos dois veículos da
mídia liberal em torno do caso, baseadas em informações ditas em off – off
records, jargão jornalístico para dar sigilo à fonte. “Sem condenações a
priori. Esse lance de fontes sigilosas que causam notícias que destróem e vendem
muito já vivi. Em geral há imensa fraude do real”, diz Serrano.
Segundo
a própria Malu Gaspar, a apuração se baseia em fontes do Banco Central, que
ainda tem diretores remanescentes da gestão Jair Bolsonaro (PL), inimigo
declarado de Alexandre de Moraes. Indicados pelo ex-presidente, os diretores de
Organização do Sistema Financeiro, Renato Gomes, e de Política Econômica, Diogo
Guillen, avisaram Galípolo que deixarão seus cargos no final deste ano, quando
terminam seus mandatos.
Fonte:
Fórum/BBC News Brasil

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